Lógica e Paradoxo

Um dia hei-de fechar os olhos, morrer e nunca mais ver o rosto da minha filha. Este pensamento ocorreu-me agora e fez-me estremecer por dentro. Estarmos unidos neste espaço e tempo é a consequência de uma co-ocorrência infinita de factores. Poderia eu ter nascido noutro ponto da galáxia ou do universo. Poderia ela ter surgido noutro ponto do tempo – passado ou futuro. Mas não, aqui estamos, no mesmo cruzamento do espaço e tempo.
Somos viajantes do cosmos, almas entrelaçadas com o contínuo infinito e eterno do universo. Somos tapeçarias intrincadas e complexas, em que cada fio é filho de uma interminável teia de inter-relações.
Os constituintes do meu corpo estiveram outrora espalhados pelo universo. Mesmo neste momento, partículas abandonam o organismo, e novos constituintes se agregam. O corpo não é, em dois momentos consecutivos, o mesmo. O corpo actual é apenas uma fotografia localizada de uma viagem vertiginosa de elementos através do espaço e tempo infinitos. É uma convenção estática escondendo uma realidade efervescente.
O mesmo se passa com o corpo da minha filha. Somos a cada momento, a actualização mais recente desta fracção do cosmos. Somos a última versão deste pequeno recanto da existência. É uma dança profunda, inconcebível, constante, estonteante. Porém, aqui estamos os dois, olhos nos olhos, a partilhar este pedaço de algo que imaginamos ser.
As nossas mentes são também elas viajantes no tempo e no espaço. As ideias que tenho são resultado da educação que recebi dos meus pais, que fora produto da educação dos seus pais, e dos pais desses, até aos primórdios da civilização. A língua que falo descende de milénios de transformação cultural e humana, até aos primeiros sons articulados proferidos por um ser pré-humano. O meu nome, e todas as facetas da minha identidade mais íntima, são fabricações ancestrais de seres que nunca conheci.
A minha mente é resultado também dos livros, filmes, música, arte e toda a espécie de comunicação humana e não-humana que consumi. Essas expressões eram elas também resultado de outras expressões, e de outras e outras, até aos primórdios da criação. Todo eu sou pintura levada a cabo pelas mãos de outrem.
O mesmo se passa com a mente da minha filha, que nada mais é do que a flor de um fenómeno cosmológico que, como infestação, se propaga entre os inúmeros elementos do universo, numa profunda e inconcebível teia de relações, causas, condições e efeitos. Ainda assim, no meio de tão extraordinária viagem, aqui estamos os dois, olhos nos olhos, a trocar ideias, a comunicar através de sons aos quais foram atribuídos sentidos, a criar mundos abstractos a partir de símbolos e convenções despidas de qualquer significado último.
O curioso no meio de tão assombrosa viagem é não existirem viajantes no tempo e espaço. Este corpo e mente não viajam, porque constantemente mudam e transformam-se, nunca chegando a ser nada fixo que possa ser um viajante, uma entidade que percorra um caminho.
Este corpo e esta mente são, porém, a própria viagem no tempo e espaço. A mudança constante dos constituintes, – tanto do corpo como da mente, – nada mais é do que uma paisagem que desliza numa jornada de elementos no universo. Dos confins do tempo, surgem pensamentos que nos definem e direccionam num determinado sentido. Dos confins do espaço, surgem partículas que entram no nosso organismo e nele se transformam.
Do mesmo modo, o que criamos através da nossa mente, sai de nós nas nossas acções e afecta o mundo à nossa volta, criando reverberações que se estendem infinitamente no espaço e no tempo. Uma acção hoje pode mudar uma galáxia distante mil anos mais tarde. Também do nosso corpo saem elementos que continuam a viagem galáctica e, estando hoje a abandonar o nosso organismo, poderão no futuro ter percorrido uma distância maior do que poderemos alguma vez imaginar.
Somos como que portais, onde o passado, presente e futuro se misturam e transformam. Somos cruzamentos onde todas as direcções se fundem, onde os veículos fundamentais da existência circulam, parando momentaneamente, continuando depois o seu caminho sem fim.
Somos o centro do remoinho, a confluência de toda a existência. Somos frames momentâneos na manifestação espontânea do cosmos. Somos realidades intermitentes, piscando velozes, sempre transformados, sempre num ponto diferente da viagem, sempre o resultado directo da configuração específica do universo naquele segundo imediato.
Somos a grande perfeição, sempre a versão mais recente do infinito contínuo espacio-temporal. Somos a última peça do dominó que cai, filha do percurso efectuado por todas as anteriores. Somos os filhos das galáxias distantes; os descendentes dos milénios percorridos. Somos sempre a intenção pura da existência, o propósito inerente ao existir. Mas neste “somos” não existe ninguém, não existe uma qualquer entidade com vontade ou identidade própria, um ser que viaje; não há uma alma que percorra um caminho, um eu que de todo exista. Existe apenas a viagem, o caminho, a existência.
Um dia hei-de fechar os olhos, morrer e nunca mais ver o rosto da minha filha. Somos cruzamentos onde o universo se encontra e despede. Onde nada acontece duas vezes – por mais eras que passem. Estas duas configurações específicas (eu e ela) jamais nos reencontraremos no cosmos inteiro. Continuaremos os nossos movimentos, as nossas jornadas; as nossas anteriores configurações, os seus constituintes, continuaram a interagir, podendo até formar um novo organismo unificado – transformarem-se num só. Porém, nós, as fotografias temporais que agora somos, jamais nos cruzaremos de novo. Cada experiência é única e irrepetível. Isto é extraordinário, maravilhoso e aterrador…
Somos uma dança totalmente indiferente ao específico do movimento presente – o que importa é a dança global, não o gesto momentâneo. Milhões de inocentes morrem, mas na dança de partículas nem uma lágrima se vê, nem um gemido, nem uma hesitação.
Somos abismos onde o universo mergulha e renasce; buracos profundos onde o passado, presente e futuro se extinguem; somos fotografias transientes, esvaziadas de propósito, identidade ou direcção. Somos explosões fugazes, planeadas, durante séculos, pela inter-originação de todos os elementos de todas as direcções de tudo o que é real.
Somos infinito e particular simultaneamente; somos vazio e pleno simultaneamente; somos nada e tudo simultaneamente; somos viagem e paragem simultaneamente; somos passado e futuro simultaneamente; somos o imediato e o longínquo simultaneamente.
Somos loucura individual e sabedoria holística. Somos lógica e paradoxo.
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Published in: on 26/04/2017 at 23:59  Deixe um Comentário  

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