Perspectivas libertadoras da subjectividade

Neste momento existe experiência. Existe percepção de cores, sons, sensações, pensamentos, etc. Normalmente criamos uma identidade a partir de algumas dessas percepções e sensações, formando a ideia de um corpo e de uma mente e posteriormente de uma entidade que reside dentro desse corpo-mente. Basicamente, do campo unificado de percepção/experiência, criamos uma divisão – conceptual – entre “eu” e “outro”, ou entre “eu” e “mundo”.

Esse “eu” é supostamente “fixo”, independente e estável no tempo, mas nada na experiência corrobora essa ideia. Esse corpo fixo e constante na verdade é construído tendo por base sensações temporárias e intermitentes. A ideia de uma mente fixa e constante é igualmente baseada em pensamentos transitórios e impermanentes, em constante fluxo. A experiência directa é mais semelhante a um processo do que propriamente a uma entidade. Há sempre coisas a acontecer, em constante transformação, mas dessa dança fluída tentamos encontrar um padrão estável ao qual chamamos “eu”. É como água a ferver num tacho: entre as mil e uma bolhinhas que surgem e imediatamente desaparecem, qual delas é “eu”?

Mas independentemente das estruturas conceptuais impostas à experiência, esta permanece sempre fiel à sua natureza. A experiência, independentemente do conteúdo que possa apresentar, consiste, na sua inevitável totalidade, de consciência. Experiência e consciência são, na verdade, sinónimos. Não há experiência sem consciência – embora algumas tradições afirmem poder haver consciência sem experiência.

A cada momento o que existe é um campo aberto de percepção, de experiência, onde objectos vários – imagens, sons, sensações, pensamentos, etc. – vão surgindo e desaparecendo. Esta dança acontece sempre num palco, numa realidade que permite que ela aconteça e seja registada. Ou seja, há uma consciência que observa toda a experiência. Contudo, esse “observador” não é estático ou independente. A luminosidade natural da nossa percepção dança com e em todas as coisas, transformando-se em tudo o que se manifesta. Não há uma consciência e os respectivos objectos percepcionados. A consciência *é* os objectos percepcionados – como água que, independentemente das muitas formas ou estados (gasoso, líquido ou sólido) que possa assumir, é sempre água.

Por vezes, quando encontramos estes ensinamentos baseados na consciência, podemos ter a sensação que estamos escondidos atrás dos olhos, como um observador distante ou transcendente. Na verdade, nada existe atrás dos olhos. Todo o Real se estende em frente. A tua verdadeira natureza, a tua essência, é a claridade fundamental da experiência imediata. A questão “quem sou eu?” é relevante na prática espiritual até um determinado ponto. Mais tarde, podemos começar a perceber que a existência de um “eu” sempre foi apenas um filtro sobreposto à experiência imediata, uma crença que se desenvolveu progressivamente até se tornar um complexo processo físico, psicológico e emocional – uma teia de sensações, conceitos e emoções que giram consistentemente em torno da crença na existência individual.

Porém, uma investigação profunda da experiência directa revela que os maiores abismos criados pela mente humana são totalmente iusórios. Conceitos como individualidade, separação, interior/exterior, sujeito/objecto, materialidade e objectividade são todos baseados em modelos ideológicos não-experienciados, pouco mais do que especulações teóricas. Neste preciso momento, toda a experiência é feita de consciência. A própria ciência diz-nos isso – nós não acedemos ao mundo exterior, apenas à representação mental que o nosso cérebro cria. A questão é que nunca ninguém alguma vez experienciou um mundo exterior à sua consciência, mas ainda assim raras vezes questionamos esse conceito de mundo objectivo, independente da nossa experiência subjectiva.

Não entrando em questões ontológicas delicadas, a nossa experiência subjectiva é efectivamente tudo o que temos para trabalhar, e tanto a sabedoria como a ignorância têm a sua origem nela. Por isso é ela que devemos investigar profundamente e esclarecer qual a sua verdadeira natureza. Como referi antes, tudo é consciência. Neste momento, o chão que pisamos é consciência. As paredes, as mesas, os computadores, os carros ao longe, os prédios, tudo é simplesmente consciência – na nossa experiência directa. Qualquer experiência de solidez, de dor, de materialidade existe apenas de forma subjectiva e é, consequentemente, de natureza estritamente mental. Em termos de natureza fundamental, a nossa experiência do mundo real em nada é diferente da nossa experiência do mundo onírico – a “realidade” que experienciamos quando sonhamos, ou seja, a consciência a assumir inúmeras formas numa espécie de projecção holográfica mental.

Cientificamente sabe-se que o mundo exterior não tem cor, nem som, nem cheiro, nem qualquer atributo subjectivo. Nenhuma das características dos 5 sentidos existe num mundo exterior, pois essas características são *criações* do cérebro, e não propriedades físicas dos objectos “reais”. Cientificamente, a existência de um universo físico é cada vez mais questionada. Não temos de utilizar estes avanços científicos para promolgar todo o tipo de teoria espiritual, mas deixa em aberto a possibilidade de questionarmos e investigarmos o tecido do real com mais segurança e confiança, sem pensarmos que somos loucos por desafiar as teorias irrefutáveis da ciência. De facto, não existem ainda muitas teorias irrefutáveis no que concerne à natureza última do universo e da nossa experiência subjectiva. Desse modo, é importante mergulhar a fundo na nossa experiência directa e investigar se as grandes dualidades e divisões são efectivamente reais, pois é nelas que se alicerçam o nosso sofrimento e confusão.

Por exemplo, logo no início deste texto escrevi, “Existe percepção de cores, sons, sensações, pensamentos, etc.” Na verdade, não existe percepção *de* cores, mas apenas percepção pura, não-dividida, sem separação ou objectivação, apenas a realidade não-dual da experiência imediata. A percepção não está a observar as cores. As cores são simplesmente a manifestação da percepção – como que o corpo, a forma aparente que a percepção assume. Para vermos isto, basta procurar pela distinção entre o objecto (percepcionado), o sujeito (que percepciona) e o acto de percepção.

Se olharmos para um objecto, a que distância é que está da nossa percepção dele? Onde é que o objecto termina e a nossa percepção começa? Onde está a linha que separa o observador do observado? Sujeito e objecto são inferidos e fabricados conceptualmente. Isto aplica-se a todos os sentidos, bem como ao pensamento, às emoções, etc. Toda e qualquer experiência é pura, no sentido de ser livre de divisões conceptuais. Subitamente, as margens do rio dissolvem-se e fica apenas o seu “conteúdo”, a água que flui livremente. Observador e observado desaparecem, e fica apenas a experiência contínua de percepção, sem separação ou dualidade.

Depois de libertarmos a percepção da crença num sujeito vs. objecto, é fácil vermos como toda a experiência é igualmente vazia de conceitos de interior ou exterior. A ideia de que há coisas que são interiores (pensamentos, emoções) e outras que são exteriores (a lua, as montanhas, os iPhones) também não passa nesta nossa investigação. Onde está a linha que separa interior e exterior? Onde começa o exterior? Cinco milímetros depois da pele? Depois do pelo mais alto? Se colocarmos um braço em cima de uma secretária, veremos uma cor clara, representando o nosso braço, e uma cor escura, representando a mesa, por exemplo. Temos duas cores a existir exactamente ao mesmo nível, ambas envolvidas pelo mesmo processo de percepção. Como é que uma cor é “eu” e outra “não-eu”? Porque é que uma cor representa algo interior e outra algo exterior?

Se nos lembrarmos que não existe nem observador nem objecto observado, apenas a experiência de percepção, perceberemos que a experiência de “braço-na-secretária” é totalmente não-dual, não-dividida, imaterial e subjectiva. É apenas experiência directa, pura; existência impessoal, livre de alguém que a possua ou experiencie. Quem é o dono da cor clara (braço)? Virá essa cor com o rótulo que diz que pertence a alguém? Virá com a informação que é uma cor pertencente a um corpo? Tudo isso são conjecturas mentais. A experiência directa e imediata é vazia de quaisquer dessas tendências reificadoras (tendência para imaginar pessoas e objectos como sendo permanentes e independentes).

Como já tínhamos visto também, toda a experiência acontece dentro da consciência, feita de consciência. Quando sonhamos à noite, as árvores que vemos são feitas de consciência e não de madeira. A torre Eiffel dos nossos sonhos é feita de consciência, não de aço. Como dizia Shakespeare, “somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos”. Quando estamos acordados, a experiência não é diferente – a consciência é a substância de todas as coisas. Mesmo que haja/houvesse um mundo exterior, a nossa experiência é apenas a representação mental desse mundo, pelo que é sempre feita de consciência. A experiência de um mundo material, físico e objectivo, independente ou existente fora da nossa consciência, nunca acontece. Nada pode ser experiênciado que não a consciência que experiencia – essa é a natureza de toda a experiência. A única substância presenta na experiência é consciência. Dessa forma, sujeito e objecto são eternamente unificados e dissolvidos em cada acto perceptivo.

Se tudo é feito da nossa consciência, então a nossa identidade não reside em nenhum objecto específico da nossa experiência – como o corpo ou os pensamentos -, mas sim na *totalidade* da experiência. A ideia de individualidade, na nossa experiência subjectiva, é uma ilusão. Não há separação entre a nossa consciência e os objectos observados – há apenas um campo unificado de percepção. Esse campo, esse vácuo luminoso, essa claridade fundamental que tudo observa e simultaneamente tudo é, é a nossa verdadeira natureza. É a resposta a “quem sou eu?”. “Eu” é um dos nomes que este campo aberto de percepção pode ter.

Não é, contudo, apenas a resposta a “quem sou eu?”. É também a resposta relativamente à identidade de todas as coisas. Tudo é apenas uma manifestação temporária da luminosidade fundamental que engloba toda e qualquer experiência. Objectos “físicos”, experiências “mentais”, o próprio espaço e tempo, são tudo manifestações da nossa presença – não “nós” enquanto entidades individuais, mais sim “eu” enquanto espaço fundamental de percepção onde tudo se manifesta – o espelho onde aquilo a que chamamos vida, ou existência, surge reflectido.

Uma investigação interessante de se levar a cabo é precisamente em relação ao espaço. A percepção de distância é exactamente isso – uma percepção. Porém, toda a percepção é de um carácter imediato, intimista em grau absoluto – temporal e espacialmente. A lua situa-se a milhares de quilómetros de nós, diz o pensamento. Todavia, a lua é, na sua totalidade, apenas percepção. Na nossa experiência subjectiva, nada há que constitua a lua que não seja a nossa própria consciência. Assim, “consciência” e “lua” são sinónimos em questão de identidade. Desse modo, a lua existe para nós numa realidade para além do espaço, pois situa-se a distância zero – ela é quem somos. “Lua” e “Eu” formam uma unidade perceptiva e identitária perfeita.

Esta unidade identitária entre todas as coisas, a dissolução das fronteiras conceptuais que separam sujeito e objecto – e os objectos entre si – é um dos objectivos principais de qualquer abordagem espiritual. É a “religião” – o re-ligar – de todas as coisas, o dissipar da separação, o deixar cair de quaisquer rótulos identificativos e identitários, onde “eu” e “outro” se transformam apenas em movimentos despreocupados de uma dança primordial.

Algumas das investigações interessantes de levar a cabo no nosso campo subjectivo serão então:

– Procurar por um “eu” que seja o sujeito da experiência, o detentor da experiência;

– Procurar por uma linha que separa interior e exterior; o que é que significa algo ser exterior à experiência?

– Procurar pela existência de um sujeito e objecto independentes de qualquer percepção ou experiência; quando olhamos para um objecto, além do acto puro de percepção, conseguimos experienciar o objecto e o sujeito de forma independente da própria percepção?

– Procurar por algo objectivo, independente da consciência; existe alguma coisa além de experiência puramente subjectiva?

– Procurar por algo físico, que não seja apenas uma manifestação imaterial da consciência que apreende a sensação de fisicalidade;

– Recordar que não há experiência “atrás dos olhos”, que tudo o que existe é o campo aberto que se estende “diante” de nós; tudo o que existe são os “objectos” percepcionados, sem qualquer observador, e a substância/essência desses mesmos objectos é a luminosidade natural da percepção;

– Deixar a identidade dissolver-se totalmente, deixando apenas a experiência directa como realidade fundamental; ou deixar a identidade regressar à sua posição natural de luminosidade básica que permite e subjaz qualquer experiência.

– Compreender que, mesmo relativamente, nenhum objecto ou entidade tem existência inerente – não existem sozinhos nem possuem uma consistência interna estável e imutável. Todos os objectos são feitos de outros objectos, todos podem ser reduzidos a partes mais pequenas. Não existem “eus” nem “objectos” que não sejam dependentes de outros factores. Tudo é interdependente, uma dança fundamentalmente indiferenciada.

Ficam aqui algumas ideias para explorar e quiçá libertar a experiência de algumas das correntes que (aparentemente) a aprisionam a paradigmas dualistas, reificadores e materialistas.

The Kragle e a negação da Vida

A ideia de que o corpo nos pertence é particularmente tentadora. Celebramos o nosso aniversário e achamos efectivamente que a idade do nosso corpo corresponde aos anos que passaram desde o nosso nascimento. Porém, somos bem mais velhos do que isso.

A matéria que compõe o nosso corpo – átomos e partículas – existe desde os primórdios do universo. Ainda o sistema solar não tinha nascido e provavelmente já os componentes do nosso futuro corpo existiam, dispersos, flutuando pelo cosmos, escondidos no interior de estrelas, no fundo do mar ou no corpo de outros organismos. Temporalmente, somos ancestrais para além da nossa compreensão. Espacialmente, somos seres intergalácticos, puzzles de matéria e energia e forças físicas oriundas dos quatro cantos do universo.

Por outro lado, somos bem mais novos do que imaginamos. O corpo que pensamos agora ser está em constante fluxo e transformação, com células a morrer e outras a nascer constantemente. Neste momento há partes do nosso corpo que têm apenas fracções de segundo de existência. Somos como fénix renascida, a cada instante, das suas cinzas.

Assim, no nosso próximo aniversário, quando apagarmos as velas, podemos lembrar-nos de que somos, simultaneamente, o ser mais velho e novo do universo. Tal como uma nascente milenar no topo de uma montanha, mas cuja água brota sempre fresca e nova a cada segundo.

Todavia, no meio de tão profunda e permanente mudança e transformação, como poderemos achar que este corpo nos pertence? Como poderá ele ser quem somos? Que entidade, que “eu”, conseguiria residir numa realidade tão impermanente e fugaz? Apenas  um ser igualmente impermanente e transitório pode resultar de tal processo. Tal como uma onda, que percorre o oceano, aparentemente sempre a mesma, mas na verdade constantemente mudando a água que a compõe, do mesmo modo somos nós processos, e não entidades; somos dança em movimento, em vez de corpos sólidos e estagnados; somos a vida em construção, o cosmos em transformação, como um ilusionista, sempre ele próprio, mas nunca igual a si próprio.

De notar que, com os avanços da física quântica, até a nossa identidade a um nível atómico se vê questionada. De acordo com aquele ramo da física, as próprias particulas “fundamentais” do universo, quando observadas a um nível quântico, deixam de ser partículas individuais, estáveis e independentes e passam a ser meras ondas probabilísticas dependentes de um observador para transformarem-se em algo “particular”. Então de que será realmente feito o nosso próprio corpo? Em última análise, seremos nós apenas como que actualizações constantes de um campo probabilístico transcendente? Seremos apenas personagens de um universo virtual, habitantes de uma projecção holográfica sem realidade física e material, holograma esse oriundo de um vácuo quântico e cuja manifestação aparente depende das consciências que a criam? Será o universo a dança de uma consciência suprema, como alguns místicos indicam?

Businessandkragle

A nossa mente tenta invariavelmente solidificar o real, congelar e petrificar a água que flui, como uma parede erguendo-se contra a dança existencial. Somos como o vilão do Lego Movie, com o seu Kragle, constantemente a querer colar as peças de todos os universos, negando o fluxo natural da vida.

Os nossos pensamentos habituais regularmente erguem-se contra o mistério e complexidade do real, tentando cobri-lo com uma capa de certeza, segurança e banalidade. Porém, tanto filósofos como cientistas em geral provavelmente admitirão a sua ignorância perante a natureza fundamental da existência. Quem somos nós então para deixarmos a vida cair na rotina, nós que somos, literalmente, seres interestelares?

Libertação Natural

toda a realidade se liberta espontaneamente

essa é a natureza das coisas

dentro deste fogo inevitável

nada chega a ser coisa alguma

 

as sensações apresentam-se, mas naturalmente se libertam

assim, os corpos surgem, mas dissolvem-se no perfeito vazio

 

os pensamentos nascem para logo desaparecer, naturalmente libertados

assim, mentes manifestam-se e cessam a todo o momento, como vultos fugazes

 

as percepções sempre em mudança constante, naturalmente se dissolvem

assim, mundos aparecem, transformam-se e desaparecem, como simples correntes de ar

 

nada há que não ISTO

a vastidão envolvente d’ISTO

eternamente ISTO

infinitamente ISTO

ainda que ISTO fundamentalmente seja apenas nada

 

apenas ISTO, para além de “isto” ou “aquilo”

ideias de multiplicidade e unidade libertam-se ao surgir

sentimentos de “um” ou “muitos” dançam e aposentam-se espontaneamente

 

apenas ISTO aqui, para além de conceitos de “aqui” ou “ali”

não um ponto geográfico no espaço, apenas ISTO que se manifesta

o próprio espaço se liberta à medida que as aparências se desfazem

 

apenas ISTO agora, para além de passado, futuro ou presente

o próprio tempo se liberta na fornalha da vacuidade

sem deixar cinzas que proclamem um qualquer “antes” ou “depois”

 

ideias de se ser pessoa, uma entidade, uma alma que percorre a estrada da vida

espontaneamente se libertam

sentimentos de se ser uma essência última, a fonte suprema que gera universos

também eles se libertam no vasto firmamento do Real

 

ideias de sofrimento, separação e emprisionamento

elas espontaneamente se libertam

sentimentos de paz, união e libertação

também eles se libertam no profundo oceano do Real

 

ideias de ilusão, confusão e desilusão

espontaneamente se libertam

sentimentos de verdade, iluminação e compreensão

também eles se libertam no fogo escaldante do Real

 

ideias do caminho, prática e perseverança

espontaneamente se libertam

sentimentos de destino, realização e transformação

também eles se libertam na montanha maciça do Real

 

porém

até o vasto firmamento do Real se dissipa em total libertação

como o último suspiro de um idoso

até o profundo oceano do Real se evapora no vazio

como uma chávena de chá esquecida ao sol

até o fogo ardente do Real mergulha no esquecimento

como o calor de uma vela na frescura da noite

até a imensa montanha do Real se transforma em pó

como um punhado de terra lançado no ar

 

nenhum chão para ISTO

nenhum tecto para ISTO

nem norte nem sul, nem este nem oeste

nem alto nem baixo

nem nascimento nem morte

nem eterno nem transitório

nem aqui nem ali

 

sem chuva, sem sol

sem terra, sem vento

ainda assim o perfume manifesta-se

busca a flor e todos os Céus se desmoronarão

 

quando o chão se estilhaça

o céu naturalmente explode

apenas ISTO e nada mais

Published in: on 08/05/2015 at 15:48  Deixe um Comentário  
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A vida como a conhecemos

Acho fascinante e revolucionário o simples facto de nenhum ser humano, alguma vez, em qualquer ponto da história, ter experienciado algo que não apenas a sua própria consciência.

O que julgamos ser o aço da torre Eiffel é, na verdade, apenas uma inefável e insubstancial imagem na nossa mente, uma representação neuronal de uma suposta realidade exterior – suposta, na medida em que, dado que nunca experienciaremos essa realidade, podemos naturalmente questionar a sua existência. Nada há de sólido ou físico na nossa experiência, à semelhança de uma projecção holográfica.

 Não entrando em campos ontológicos(1), realço apenas o quão extraordinária esta simples reflexão pode ser. Mesmo que a materialidade exista, a complexa multiplicidade de seres, bem como um mundo exterior e objectivo, a verdade é que essas (aparentemente) sólidas “realidades” nunca são – ou poderão sequer alguma vez ser – experienciadas objectivamente. Experiência implica inevitavelmente consciência, que é sempre subjectiva e imaterial. Toda a experiência é de uma natureza intimista, inefável e quiçá onírica.

A nossa vivência está para sempre encarcerada numa cela de subjectividade e imaterialidade, habitante num casulo de luminosidade, de não-separação e universalidade. Na experiência mental – que é a única “realidade” disponível -, tudo é sempre apenas uma mesma substância, um mesmo campo aberto de percepção, uma sopa indiferenciada e unificada de existência-consciência. Uma possibilidade muito válida para a libertação da condição humana poderá estar apenas à distancia de um olhar mais atento.

Independentemente das fragilidades ontológicas que possam ser apontadas a esta perspectiva epistemológica(2), a vida como a conhecemos é sempre e apenas consciência. Tudo o que alguma vez encontraremos estará eternamente dentro do nosso crânio. Somos os deuses da nossa existência subjectiva, a realidade suprema e transcendente do nosso intra-cosmos.

          (1) Ontologia consiste numa parte da filosofia que estuda a natureza do ser, da existência e da realidade.

         (2) Epistemologia consiste numa parte da filosofia que estuda o conhecimento humano, a sua natureza e validade.

Ser diferente

Numa altura em que parece estar na moda ser diferente, alternativo ou radical, gostaria de alertar para o facto de, na minha opinião, não haver nada mais radical do que romper as barreiras da convencionalidade e abraçar a sabedoria profunda da experiência directa.

Ser alternativo é dissolver os filtros conceptuais que separam sujeito e objecto, “eu” e “outro”, que diferenciam corpo, mente e mundo. Nada há de mais radical do que compreender a vacuidade dos fenómenos e do “eu”.

 Mais do que usar piercings ou cobrir o corpo de tatuagens, ser diferente é desenvolver uma profunda compaixão por todos os seres e agir em prol dos seus mais fundamentais interesses. Mais do que usar roupa larga ou ouvir world music, a pessoa verdadeiramente alternativa é a que descobre uma verdadeira alternativa à condição humana, às convenções que a perpetuam e ao sofrimento que dela advém.

Para sermos realmente diferentes, poderemos começar por ver que nada nem ninguém é fundamentalmente diferente, que tudo é uma mesma substância e atrevermo-nos a ser radicais ao ponto de viver de acordo com essa compreensão.

Que a nova moda seja a da sabedoria profunda e da compaixao ilimitada, para que ser diferente faça realmente a diferença.

Published in: on 08/05/2015 at 15:43  Deixe um Comentário  

Dilema

cada banal noticiário

cada corriqueiro jornaleco

coloca a cada ser humano – quando digno desse nome –

uma questão fundamental

um dilema visceral

 

perante os 140 mortos numa escola no médio oriente

perante o sequestro na austrália

perante os combates sociais na europa

a chacina escolar nos estados unidos

os aviões abatidos e desaparecidos

perante todas estas extraordinárias e banalizadas situações

o dilema ergue-se

a questão coloca-se

na mente de qualquer ser humano:

que vou eu fazer?

 

se pretendo continuar a ser humano

continuar a sentir

a pensar

a agir

se não sufoco a minha sensibilidade

razoabilidade e noção do real

então tenho de fazer algo

tenho de abandonar a minha insignificante rotina

quebrar as correntes desta vida solitária

tenho de fazer algo

tenho de reagir

estrebuchar, erguer-me

lutar, gritar e despertar

 

mas há quem necessite desta minha vida insignificante

as contas que têm de ser pagas

os dependentes que procuram a minha contribuição mísera

e assim sendo

não posso livremente sentir

livremente pensar

livremente agir

tenho de matar toda e qualquer sensibilidade humana

qualquer compaixão ou razão

qualquer noção de liberdade, dignidade, humanidade

tenho de ignorar quem neste momento morre

nas mãos de um sistema corrupto, primitivo e selvagem

tenho de continuar a participar

a ser cúmplice

conivente com aqueles que matam os meus semelhantes

que destroem vidas, esmagam civilizações

torturam as almas

ameaçam o planeta

 

cada banal noticiário

cada corriqueiro jornaleco

coloca uma questão fundamental:

quem escolho ser?

um ser verdadeiramente humano,

um pedaço de carne e alma viva?

ou um soldado, um robot

uma máquina de sentidos desligados

um mecanismo desprovido de sensibilidade

uma aplicação que apenas executa

mecanicamente as ordens arbitrárias do sistema que a comanda?

 

toda a manchete é uma bofetada,

um soco no estômago da alma

um desafio à humanidade inerte em nós

em cada acção levada a cabo

escondem-se as milhares que deixámos por fazer

 

para viver a existência automatizada que me foi atribuída

quanto deixo eu por fazer por um mundo que sangra

que rasteja, que clama e implora?

a cada momento,

tantos são empurrados para o sono da morte

quantos mais, até que possamos despertar?

Published in: on 08/05/2015 at 15:41  Deixe um Comentário