O aluno

 
Um jovem atravessou o Japão em busca da escola de um famoso praticante de artes marciais. Chegando ao dojô, foi recebido em audiência pelo sensei.
— O que é que você quer de mim? – perguntou-lhe o mestre.
— Quero ser seu aluno e tornar-me no melhor praticante de karaté do país – respondeu o rapaz. – Quanto tempo preciso de estudar?
— Dez anos, pelo menos – respondeu o mestre.
— Dez anos é muito tempo – tornou o rapaz. – E se eu praticasse com o dobro da intensidade dos outros alunos?
— Vinte anos – disse o mestre.
— Vinte anos! E se eu praticar noite e dia, dedicando todo o meu esforço?
— Trinta anos – foi a resposta do mestre.
— Mas, eu digo-lhe que vou dedicar-me o dobro e o senhor responde-me que a duração será maior? – espantou-se o jovem.
— A resposta é simples. Quando um olho está fixo aonde se quer chegar, só resta um para se encontrar o caminho.
 
 
Published in: on 29/06/2008 at 2:11  Deixe um Comentário  

O observador

 
     Certo dia um rei chamou ao seu palácio o mestre zen Muhak – que viveu de 1317 a 1405 – e disse-lhe que, para afastar o cansaço e a tensão do trabalho administrativo, queria ter uma conversa completamente informal com ele. De seguida, o rei comentou que Muhak parecia um grande porco faminto à procura de comida.
     – E você, excelência, parece o Buda Sakiamuni a meditar num pico elevado dos Himalaias.
     O rei ficou surpreso com a resposta de Muhak.
     – Eu comparei-o a um porco e você compara-me ao Buda?
     – É que um porco só pode ver porcos, excelência, e um Buda só pode ver Budas.
 
 
Published in: on 29/06/2008 at 2:09  Deixe um Comentário  

A crise dos combustíveis e a salvação do planeta

 
     Dei comigo há dias a falar com um amigo sobre o bloqueio dos camionistas e a crise dos combustíveis. Disse-lhe que fiquei muito feliz ao imaginar um país com todos os carros parados, um planeta a respirar de alívio, mesmo que por breves momentos num pequeno país de um pequeno continente…
     Ele falou-me na economia, nas dificuldades que as pessoas passariam, and so on and so on
    
     Bem, tenho que admitir que, neste momento, as dificuldades que as pessoas passariam, as convulsões económicas e sociais, os encontrões políticos, etc., soam-me a algo muito pouco importante. O planeta está doente. A espécie humana é um cancro que tem vindo a penetrar em todas as células deste corpo celeste. O que é que acontece com um corpo que está a ser consumido por um cancro? Tratamento de choque para cima, pelo menos a julgar pela medicina tradicional ocidental. Quimioterapia, radioterapia e afins.
     Em estados avançados de patologia não se resolvem situações com toques de maquilhagem, novos penteados ou operações de cosmética. É preciso uma machada em força, em cheio no centro vital do problema. O mundo não vai mudar com essas operações de cosmética que são os diálogos habilidosos entre sindicatos e patronato, os novos penteados que as grandes multinacionais fazem nos cucurutos económico e político do mundo industrial e empresarial, nem com os toques de maquilhagem dados na opinião pública internacional. Resumindo, isto já não vai lá com conversa.
 
     Qual é o centro vital do problema? E o que seria a machada dada em força?
 
     Bem, em última análise, o centro vital é coração do Homem, o local profundo de onde surgem todas as coisas, boas ou más. O centro vital do problema reside na falta de amor que temos uns pelos outros, pelo planeta que é a nossa única casa; a falta de amor por nós próprios. A única esperança de salvação para o planeta e para a humanidade que o habita reside numa profunda transformação interior. Mais amor, menos ódio; mais paz, menos perturbação; mais oferta, menos exigência para mim, para mim, para mim. Mais empatia, menos indiferença; mais união, menos separação.
     Mas essa transformação não está perto. Basta olhar para os telejornais diariamente; para as notícias que nos fazem estremecer em cada página que viramos de mais um diário gratuito que nos é dado por alguém à entrada do metro. Enfim, basta olhar para rostos que nos miram de manhã nos autocarros, nos corpos que se atropelam às portas dos comboios…
     O planeta está doente. E, como qualquer organismo, tem os seus mecanismos de defesa. O sistema humano está doente e, também ele, tem os seus mecanismos de auto-regulação. O limite tem vindo a ser puxado, a fronteira do razoável tem vindo a ser ultrapassada, a lógica do mentalmente sano tem vindo a ser ignorada. A corda estica e estica, mas tem as suas limitações. O equilíbrio está finalmente a tombar… finalmente.
     Finalmente, porque o planeta está doente. Eu estou doente, tu estás doente, o mundo está doente. Basta abrir os olhos e ver, inclinar os ouvidos e escutar. Assim sendo, a catarse é inevitável. As estruturas desabarão. Os sistemas ruirão. As sociedades capitularão. Ou eles ou o planeta, pois este sistema materialista e o ecossistema planetário são incompativeis. Apenas um ficará.
 
     Um país à beira de uma guerra cívil soou-me a algo extremamente apetecível, aquando da crise dos combustíveis. Imaginar o povo nas ruas fez-me sonhar mais alto que as paredes desta sociedade. O sofrimento e as lágrimas dos homens e mulheres deste mundo fazer-me-iam sentir estranhamente em paz. Porque seria finalmente a queda do Velho para o surgir do Novo; o cambalear do disfuncional para o nascimento de um sistema lógico e funcional; o apagar da lanterna fosca do Medo para o acender da chama eterna e gloriosa do Amor.
 
     Gostaria de poder acreditar que a transformação poderia vir através de uma mudança interior ocorrida no ser humano e gradualmente transposta para o exterior. Mas não me parece… Somos demasiado limitados, estamos demasiado embrutecidos pela rotina do vazio, pelo tépido do cinzento das nossas vidas. Amamentamos um recém-nascido que se tem vindo a tornar um monstro incontrolável, mas somos incapazes de o afastar do nosso peito. Não creio que iremos mudar de direcção por erguer os nossos olhos mais alto. Acredito que vamos ter de tombar, para nos erguermos de novo.
 
     A mudança interior continua, ainda assim, disponível para quem a quiser encetar ou desenvolver. Estarás tu disposto a caminhar dentro de ti mesmo rumo a mundo melhor? Ou estarás antes disposto a esperar pela inevitável queda das estruturas que todos temos vindo a alimentar?
 
Are you willing to find out how deep the rabbit hole goes…?
 
Dré
 
Published in: on 27/06/2008 at 18:03  Deixe um Comentário  

Parabéns…

 
Um beijo de 3 horas…
 
                                3 dias….
                                            3 anos!
 
 
Três aninhos faz este blog este mês.
 
E de maneiras que é assim… É isto!
 
Dré
 
 
Published in: on 26/06/2008 at 23:37  Deixe um Comentário  

Insights na costa da caparica!

 
(Sentado numa rocha, num pontão junto ao mar…)
 
O oceano é imenso, sem fim, calmo – mas poderoso
As praias estendem-se por quilómetros sem término
O vento sopra livre
E o céu estende-se infinitamente para cima e para a frente
 
Tudo isto é mundo
Tudo isto é o meu mundo
Tudo isto é meu
A minha terra, a minha Terra
O planeta, o meu lar
A minha Mãe sem fim
 
Tudo isto é meu para viver
Tudo isto sou eu
a viver
 
Sou rei, imperador
 
O meu império é maior que todas as montanhas do mundo
Maior que todos os ocenos
Maior que todas as paisagens que todos os olhos abarcam
 
Porque vivo eu como um pedinte
Mendigando cinco dias por semana?
Descanso dois
E julgo ser feliz nas pausas que a pobreza faz
 
A pobreza interior busca tesouros na rua
Onde os mendigos suplicam migalhas de paz
Apenas a riqueza interior é suficiente
Para vaporizar todo o traço de miséria
 
Na mesma medida em que o mundo é grande sem fim
Assim sou eu. A mesma magnitude habita em mim
 
Dré
 
Published in: on 26/06/2008 at 22:50  Deixe um Comentário  

Tudo passa.

 

Tudo passa

As estações, os dias, as noites

As mentes, os corpos, as almas

Os temores, as alegrias, os amores

Tudo passa

 

Tu e eu, tudo aquilo que somos

Aquilo que sonhámos e antevemos e vivemos

Tudo morre

 

Impermanência…

Essa é a essência da vida

Essa é a bênção da existência

O desejo de imortalidade é uma doença da alma

Um capricho da mente

Um fardo na leveza natural do espírito

 

Tudo passa

Porque o tudo é feito de nada

E ao Nada sempre volta

És imortal por natureza, mas não da forma que imaginas

E enquanto imaginares essa imortalidade estarás preso na tua própria fugacidade

 

Desejar a eternidade do corpo é chamar o efémero

Alcançar a extinção é encontrar a vida sem fim

 

Tudo passa

E quando deixares tudo passar

E quando tu mesmo passares completamente

Saberás que as rugas no teu rosto são sinal de Vida Eterna

 

 

Dré

  

Published in: on 26/06/2008 at 21:59  Deixe um Comentário