Eternas almas escondidas



Talvez porque a alma seja transparente e o corpo se meça com músculos e
palmos de mão, será por isso que somos sempre seres invisíveis, quem
somos fica invariavelmente por mostrar, ou por dizer, porque a nossa
transparência não se pinta com a cor das palavras que nos saem da boca,
nem se vê na dança dos gestos que habitam o corpo, somos eternas almas
escondidas, como cubos de ar fechados dentro de caixas, cativos em
prisões nunca inventadas, estátuas encarceradas em blocos de granito por
esculpir. A mim nunca ninguém me viu ou verá, o que habita dentro, e
que é o sonho maior do meu coração, é mundo incógnito para quem apenas
olha, os cotovelos roçam na multidão, mas para esta serei sempre e só
um corpo, um corpo com uma boca que grita palavras escritas em
dicionários alheios, em nenhum deles encontrei eu algum dia a minha
alma, nenhuma palavra foi inventada para ou por mim, nenhuma delas
nasceu de dentro de mim, todas vêm de fora e, quando as volto a lançar
para a multidão, elas levam somente o meu cheiro, não aquilo que sou, o
cheiro é sempre pista para algo mais, indício daquilo que talvez não se
veja ainda, mas já se sabe existir, quem me vê apenas sabe que aqui
estou, o meu corpo é o meu porta-voz, mas a voz que ele transporta e
que é o que se esconde por dentro, essa ninguém procura, sabe-se que
existo, como ou porque existo?, isto continua como um corpo de braços
abertos por detrás de um muro.

Dré


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Published in: on 31/07/2009 at 22:26  Deixe um Comentário  

Caderno Fernando Pessoa



     
Chamo a esta entrada Caderno Fernando Pessoa porque é esse o
nome do bloco de notas onde escrevi os meus pensamentos aquando da
minha busca em Santa Cruz, CA, com o John Wheeler. Mais do que o descrito nos
The California Diaries, este é o retrato do que foi a verdadeira viagem.
      A introdução que se segue foi acrescentada durante o processo.


[i n t r o d u ç ã o]

às vezes precisamos de um abanão para questionarmos certas coisas
às vezes
precisamos de questionar certas coisas para encontrarmos as nossas
próprias respostas

o u  s e j a

à
s vezes precisamos de um abanão para encontrarmos
as nossas
próprias respostas
venham
então os abanões da vida

estou numa fase de questionar tudo em mim
se não o
fizer, jamais poderei alguma vez encontrar uma só resposta
verdadeira, uma só resposta que seja genuinamente minha
enquanto
seguirmos pela vida amarrados aos carris que nos colocam sob os p
és, jamais
poderemos encontrar a nossa verdadeira identidade
se seguimos nos caminhos
que já estão feitos, nunca chegaremos a nenhum lugar a que possamos
chamar de nosso
nunca chegaremos à nossa casa enquanto continuarmos a seguir os caminhos dos outros

prefiro caminhar perdido
sem saber a onde me dirijo
do que me encontrar parado
em lugar que não o meu

sou grande,
não pelo que encontro,
mas
pelo que busco

[a p o n t a m e n t o s]

24 Jan


     Quem sou eu?
     Parece haver uma qualquer
relação com este corpo, mas tal não está plenamente provado. Ele
aparece-me inúmeras vezes, mas é apenas algo que vejo e sinto. É uma
percepção em nada diferente do mar que oiço ou do pão que mastigo, com
excepção da sua persistência em me importunar. Eu vejo-o, eu toco-o,
sinto-o de várias formas, mas serei eu ele?
     Claramente não sou nenhuma parte em especifico, não há nenhum
pedaço que eu consiga isolar e dizer com toda a certeza, "Isto é quem
eu sou".
___

[ISTO
corresponde à soma de todas as percepções possíveis – todos os sons e
imagens, todas as sensações e odores, todos os pensamentos e emoções]

     ISTO é tudo o que aparece, de nada mais estou seguro. Estarei
eu n’ISTO? Onde? O corpo parece estar sempre presente, mas isso é um pressuposto. Quando estou imerso em pensamentos, estará o corpo ainda lá?
Eu penso ter estado, há cinco minutos, sentado junto ao farol (em Santa Cruz), mas isso
é só um pensamento que tenho Agora, apenas mais um dos muitos pedaços
d’ISTO. Não tenho, portanto, qualquer prova de alguma vez ter estado
sentado junto ao farol.
     ISTO muda constante e completamente, ficará algo alguma vez igual?
Haverá algo que permaneça durante a mutação permanente d’ISTO?
___

    
Existo eu? Como posso provar a minha existência? Será ela assim tão
óbvia? Tudo o que vejo é o mundo, existirei eu nele? Não me encontro em
lugar algum.
     Será que existo?
___

     Serei eu o
corpo ou estarei apenas dentro dele? Serei eu o corpo ou estará ele
dentro de mim? Definitivamente parece o segundo caso o mais verdadeiro.
O corpo está dentro de mim, tal como o mundo está dentro de mim. O
corpo está dentro do mundo que está dentro de mim. Mas não há diferença
entre corpo e mundo. Um não está dentro do outro, nem o segundo engloba
o primeiro. Tudo é percepção individida, una, indiferenciada.
___

    
"Eu quero saber quem sou". O que é isto senão um pensamento?, uma
percepção n’ISTO? Quem é que quer saber quem é? Quem? Onde? Onde está
essa pessoa? Vejo apenas percepções indiferenciadas, indivisíveis.
     Que diria eu do mundo se nascesse agora mesmo e sem qualquer ideia
sobre ele? O mundo parece estender-se por muitos quilómetros, os meus
olhos alcançam grandes dist
âncias, mas será isso real ou haverá apenas
uma percepção de dist
ância? Um ecrã de televisão pode ser plano, ou uma
tela de cinema espalmada, mas neles vemos paisagens sem fim, oceanos
imensos, profundidades extensas. Qual a profundidade do que vejo? A
percepção da realidade não é a realidade, mas haverá realidade de todo
para al
ém da percepção dela? Poderá a realidade ser irreal e apenas a
percepção dela ser tudo o que temos?
___

     Haverá eu e outro? Emocionalmente parece que sim, mas não encontro a prova física disso. Imagens vão e vêm, mas nenhuma delas é necessariamente eu ou outro.
___

    
Em 26 anos de existência, nenhuma célula do meu corpo sobreviveu até
hoje, nenhuma se manteve igual. No pensamento, nenhum conceito,
nenhuma ideia sobreviveu até hoje sem mudança. Como poderia eu ser
algum destes, corpo ou pensamento?
     Parece que é sempre este "meu" corpo que aparece e, embora pareça
não ter nada a ver comigo, sinto-me como que preso dentro dele. Mas não
será isso apenas uma ideia? Como provar que tenho estado sempre dentro
deste pedaço de carne? Se me mostram fotografias do passado isso é apenas ISTO,
Aqui-Agora. Se recupero uma memoria de tempos idos isso é apenas um
pensamento n’ISTO, Aqui-Agora. Uma imagem, um pensamento, tudo percepção.
     Neste momento, Aqui-Agora, vejo o que vejo. Tudo o resto é
especulação. Se há este corpo, tudo bem, é a percepção possível
Aqui-Agora. Há quanto tempo me acompanha este corpo? Aqui-Agora não há
prova alguma de que o tempo exista, nem aquilo a que chamo corpo.
     São perguntas que faço que não trazem respostas, mas o silêncio de ausência de resposta é verdadeiramente meu. São perguntas que me levam a lado nenhum, mas esse é um lugar que genuinamente procurei e mereci.
___

    O que é o sofrimento? É dor do que corre diferente do que se queria, ou corre quando não se queria ou não corre quando se queria.
   
Estará o sofrimento dependente da minha existência? Não… Sim, se eu não
existir como poderá algo mais existir, incluindo o sofrimento? Tenho a
sensação de que se eu não existir nada mais existe. Não falo do corpo que
vejo, dos pensamentos que passam. Isso são apenas pedaços d’ISTO. ISTO,
inevitavelmente, surge em mim.
___

     A quem interessa o sofrimento? Se eu não existir, que importância terá isso?
     Sim, definitivamente eu existo. Onde estaria tudo o resto, como percepcionaria eu tudo o resto, se eu não estivesse aqui?
___

     O que é isto que existe? Sempre a mudar, o que é?
___

    
Há uma dor que me entra de mansinho no coração. O que é? Parece uma
percepção mais intima, mais próxima, mais pesada do que um mero
pensamento, mais dolorosa do que uma nuvem no céu ou uma gaivota no mar.
     É uma dor que surge porque penso ser este corpo pequeno. Claro, só
pode ser isso. A dor surgiu porque vi uma mulher a passear na praia com
o filho e senti-me só. Mas porque penso que este sentir é meu? Porque
me sinto só, se tudo o que vejo é igual entre si e igualmente não-eu?
Parece haver uma ligação com este corpo que não consigo cortar. Mas
quem é que não consegue cortar a ligação com este corpo que vejo? De
onde nasce esta noção de existência? Creio ser apenas um pensamento que
me diz que eu existo algures aqui nesta parte do que vejo, que me diz
ser algo dentro do que percepciono.
     O sofrimento surge da aparente ligação que aparentemente sinto com este aparente corpo.
     Não sou o corpo, nem o pensamento, mas haverá alguma ligação entre o que sou e o que eles são? Se não houver, porquê o sofrimento? Será que ainda acredito ser corpo e mente?
___

26 Jan


     A d
úvida sobre a minha existência surge ao identificar-me com o corpo. O corpo é
apenas algo que surge na minha percepção, implicando que a minha
existência poderá ser apenas aparente, uma percepção cuja realidade
carece de prova. Mas ao compreender que eu não sou o corpo, que ele é
apenas algo que surge na minha presença, então torna-se claro que eu
existo. O corpo pode ser uma percepção vazia, uma espécie de sonho,
miragem ou fantasma visual, mas eu, enquanto espaço onde todas as
percepções surgem, sou real.
___

     Disse que nenhuma
célula do meu corpo se manteve intacta nos últimos 26 anos, mas isso é
especulação pura. Onde é que estão as células? Na minha experiência
directa elas não surgem como dado adquirido. São apenas algo que li em
livros ou que alguém me contou.
     E o que é isso de 26 anos? Através de uma observação directa,
poderá alguma vez ser encontrado algo a que chamar "ano"? Na verdade,
não faço ideia se as células do meu corpo se mantiveram ou não iguais
nos últimos 26 anos, porque não consigo provar a existência das células
ou do próprio tempo.
___

    
A realidade é sempre uma percepção despida de conceitos. Quando estes
surgem, isso é apenas mais uma parte indivisível da realidade, mais uma
percepção despida de conceitos.
___

28 Jan


     O
mundo todo é sempre algo que vejo e sinto. Nada do que me acontece será
alguma vez mais do que isso. É sempre consciência e percepção,
sujeito e objecto. Toda a vida, todo o universo resume-se a isso: algo
que vê e algo que é visto. Quem é que vê? Nunca o conseguirei ver, pois
ele é sempre quem vê. O que é? Em última análise, sou eu quem vê. O que
é isso? Qual o seu sabor? Quem sou eu nessa consciência?
     Existe uma dualidade existencial que é a causa de toda a confusão.
Eu sou sempre apenas essa consciência que tudo regista, mas
posteriormente surge a ideia que me diz que eu sou algo daquilo que é
registado ou visto, seja isso o corpo ou alguma ideia ou padrão de
pensamento. Mas isso é sempre algo que surge e mais tarde desaparece.
Tudo o que vejo e sinto, vejo-o e sinto-o porque eu sou a consciência
que o regista. Eu nunca poderei ser nada do que é registado, do que é
visto ou sentido, porque eu sou sempre aquele que vê ou sente.

     Essa consciência que
tudo observa é, e isto está logicamente comprovado, pura tranquilidade,
pura liberdade, pura invulnerabilidade. Tudo é reflectido sem escolha
ou dificuldade, nunca nada é demasiado grosseiro ou violento para
quebrar o espelho da consciência que reflecte. Qualquer que seja a
emoção ou pensamento, qualquer que seja a percepção ou situação, a
consciência está lá a reflectir. Isto é, em termos puramente lógicos e
racionais, quem eu sou. O sofrimento só pode surgir ao imaginar ser
algo diferente. Tanto esse aparente sofrimento como a imaginação de ser
algo diferente são apenas objectos reflectidos na consciência.
___

30 Jan


    
Há, assim muito de repente, dois tipos de busca espiritual: a daqueles
que querem adicionar algo ao seu ser, ser algo maior ou mais profundo;
e a daqueles que muito simplesmente querem saber quem são. Aos do
primeiro grupo não tenho quase nada para dizer. Aos do segundo, pouco mais do que isso.
     "Quem sou eu?" é a pergunta que assola a mente dos que se incluem
no grupo que não o primeiro. Esta é uma busca que tem sido mascarada
das mais diversas formas, muitas delas a roçar o ridículo, outras
tantas a beijar o criminoso ou a abraçar a mentira insana. Quem eu sou
é quem eu sou. De uma forma muito clara, quem eu sou está totalmente
presente Aqui-Agora. Várias vezes tenta-se complicar esta procura de
identidade, por motivos vários, colocando uma palavra pelo meio que
parece querer mistificar ou aprofundar todo o processo, como por
exemplo, "Quem sou eu realmente?" ou "Qual a verdadeira essência de
quem eu sou?" Isto é palha para o burro mascar, é o excremento que ele
larga sem sequer olhar para trás, pois quem eu realmente sou, ou a
essência de quem sou, continua plenamente presente Aqui-Agora.
     Eu não posso estar na sala-de-estar e o meu coração estar na
cozinha a preparar o jantar, nem posso eu estar a ler um livro na
casa-de-banho enquanto os meus olhos estão no quarto a dormir. Da mesma
forma, não posso estar sentado em posição de lótus na minha sala de
meditação e o meu ser mais profundo e verdadeiro estar a acampar na
praia ou a deambular em alguma floresta longínqua.
     Enquanto eu procuro, luto, purifico e desenvolvo o que quer que
seja durante a minha meditação, o meu verdadeiro ser encontra-se
tranquilamente presente. Quero saber quem sou, mas, esquecendo-me de
começar em casa, vou à minha procura pelo mundo inteiro.
     É neste momento que um estudioso destas matérias nos relembra que,
apesar de quem nós somos estar presente Aqui-Agora, a sua essência
parece estar um pouco enublada ou obscurecida, como que um sol a
brilhar por detrás das nuvens, ou uma suave melodia soprada por
debaixo de um incessante e perturbador ruído. O mesmo estudioso diz-nos
que essa nuvem que tapa o sol é a nossa própria mente; que o ruído que
engole a doce melodia provém do nosso ego. Aqui surge-nos uma inocente
mas pertinente questão: quem eu sou será um… ou dois? Esta é a
pergunta que um bebé saberia responder se já lhe tivessem colado as
palavras à língua, mas é a pergunta na qual muitos profissionais da
meditação e da demanda espiritual parecem não ter reparado, e daí não
a terem considerado relevante. Não que a questão seja, por si, relevante,
pois a resposta é óbvia – Quem eu sou é apenas e tão somente Um.
     Mas se eu sou apenas um, como poderá a minha essência estar alguma
vez obscurecida ou encoberta? Obscurecida para quem? Claro que o sol
pode esconder-se atrás de uma nuvem, mas isso só acontece a quem se
encontra por debaixo das nuvens, mas se eu sou apenas um, sob que
perspectiva poderia o sol alguma vez ser encoberto? Dizer que a minha
essência espiritual está encoberta pela minha mente ou pelo meu ego é
colocar três parcelas nesta equação: a essência, aquilo que a
encobre e aquele que não a consegue percepcionar directa ou
desimpedidamente devido ao objecto de obstrução. Se desde o inicio percebemos que somos a nossa própria
essência e somos apenas um, que entidade é esta que não consegue chegar
até à essência? De onde surge este terceiro factor, esta pessoa extra?
Não é quem nós somos, isso é certo!

     Imaginemos o seguinte exemplo:
         – Um budista;
         – Ele busca a natureza de Buda;
         – É-lhe dito que a natureza de Buda é a sua própria essência;
         – É compreendido que esta essência tem de necessariamente
estar presente Aqui-Agora em toda a sua plenitude, como um coração que
tem de bater sempre dentro do corpo;
         – É compreendido que o individuo budista é apenas um ser, pelo
que só poderá ser a essência já referida, a natureza de Buda;
         – Quem é então a pessoa que busca a sua essência? Onde está o
budista, agora que se viu que o único ser existente é a própria natureza
de Buda?

     O exemplo pode ser visto sobre uma perspectiva mais tradicional,
utilizando a palavra Deus em vez de natureza de Buda. Claro que a
palavra Deus pode também ser substituída por Amor, Vida, Ser, Absoluto,
Consciência Cósmica ou outra qualquer que faça mais sentido:

         – Imaginemos um praticante espiritual;

         – Ele busca Deus;

         – É-lhe dito que Deus é a sua própria essência;

         – É compreendido que esta essência tem de necessariamente
estar presente Aqui-Agora em toda a sua plenitude, como um coração que
tem de bater sempre dentro do corpo;

         – É compreendido que o praticante espiritual é apenas um ser, pelo
que só poderá ser a essência já referida, o próprio Deus;
         – Quem é então a pessoa que busca a sua essência? Onde esta o
praticante espiritual agora que se viu que o único ser existente é o
próprio Deus?

     A questão que fica é: terá a pessoa, entidade ou ser que busca a sua essência alguma vez existido de todo?

     Vemo-nos então confrontados com um cenário insólito: temos buscado
penosamente por uma essência espiritual que tem necessariamente, por
questões existenciais, estado sempre e completamente presente
Aqui-Agora. Não só está totalmente presente agora mesmo, como por
razões lógicas, só pode ser quem plenamente somos, visto sermos uma
única entidade – e não duas. Somos como uma onda em busca da água,
percebendo que esta esteve sempre plenamente presente dentro de si e
nunca existiu separadamente, e descobrindo que, se na verdade só existe
um ser, este sempre foi a vasta extensão de água que constitui a sua
essência. A onda é constatada como estando realmente ausente, tendo
sido apenas uma espécie de ilusão de óptica.

     É neste momento que outra pertinente questão se ergue: estão se a
minha essência está presente Aqui-Agora e se ela é quem eu plenamente
sou, porque motivo obscuro não sou eu capaz de a percepcionar? É aqui
que o bebé de há pouco articula novamente uma língua ainda despida de
palavras para nos dizer que um olho nunca poderá ver-se a si mesmo, nem
a flecha espetar-se em si própria, ou o espelho reflectir-se como se
fosse objecto exterior a si mesmo. A percepção sempre implica alguém
que percepciona e algo que é percepcionado; chama sempre por sujeito e
objecto. Assim sendo, procurar a nossa própria essência ou buscar por
nós próprios, é querer ser, ao mesmo tempo e na mesma experiência e
lugar, sujeito e objecto, aquele que vê e aquilo que é visto, ser o
"eu" que encontra o "eu" que se encontrava perdido. É como pedir à
ovelha que se perdeu do rebanho para encontrar a ovelha que se perdeu
do rebanho, ou pedir ao policia que assaltou uma joalharia que encontre
o ladrão que assaltou a joalharia. Obviamente, tanto ovelha como
policia poderão correr toda a Terra, mas nunca encontrarão o que
procuram.
     Muito obviamente, tudo aquilo que vemos é apenas isso mesmo –
aquilo que vemos. Nós irremediável e inevitavelmente somos aquele que olha,
que percepciona. Tudo o que vemos é não-eu, é quem não somos. Corpo e
mente, pensamentos e emoções, percepções e tudo o resto são meramente
fragmentos de não-eu a flutuar perante o olho do Eu.
     É assim que vemos que toda a busca espiritual é baseada num erro
de percepção, num caso de identidade trocada, pois confudimo-nos com
algo que vimos, pensámos ser algo do que estava a ser percepcionado.
Vemos, deste modo, toda a demanda por "Quem eu sou" escorregar pelo
cano abaixo, empurrado pelas águas intransigentes da mais cristalina
lógica e observação directa.
     De onde surge então toda a confusão? Todo o sofrimento, toda a
busca, toda a sensação de algo se ter perdido, de algo faltar? Em
última análise, é uma ilusão de óptica que surgiu do mesmo sitio donde
surgiram as batatas, as nuvens e as pedras, as árvores, os oceanos e os
astros: de lado nenhum ou de todo o lado. Tristeza e algodão doce,
busca espiritual e ribeiros fluindo, tudo são destroços a flutuar na
presença oceânica que somos, tudo pedaços de poeira cósmica a flutuar
no espaço da nossa própria consciência. Juntamente com tudo isto, surge
a ideia de um "eu", um ego individual que parece ser o centro
gravitacional em redor do qual gira todo o tipo de pensamentos e
emoções, como um enxame de abelhas a rodar sobre si mesmo, vazio de
existência individual, ou como um tornado que faz girar mil ventos em redor
de um espaço vazio.
     Desde tenra infância que esta ideia de "eu" é alimentada e é ela
que transformamos em sujeito da nossa vida, no olho que tudo vê, no
espelho onde todas as percepções são reflectidas, transformação aquela
que não passa, ela mesma, de um mero pensamento ou crença. Porém, esse
"eu" é apenas uma ideia que flutua na nossa consciência, que é
reflectida na nossa presença. É uma ideia que, por ter tantas outras a
ela associadas, julgamos ser real.
     Mas onde está esse "eu" então? Essa entidade que sofre e busca? A
pessoa que chora e ri? Onde está esse caminhante que procura a sua
própria essência?
    
     "Quem sou eu?" é a pergunta que tem alimentado a busca espiritual
de milhões de pessoas ao longo de milhares de anos, mas, sendo o nosso
ser apenas um e eternamente em intimo contacto consigo próprio, como
poderá ele não saber quem é? Será esta questão apenas mais um dos
fragmentos ou pensamentos a cruzar a nossa consciência sem qualquer
aplicação pratica?
     A essência de quem eu sou está necessariamente presente
Aqui-Agora. Sendo eu apenas um, essa essência é quem eu já sou, não
havendo qualquer periferia no meu ser. Sendo eu já a profunda essência
de quem eu sou e sendo impossível ver-me ou encontrar-me a mim mesmo
como objecto de mim próprio, serei eu algo mais (ou menos) do que o grande
espaço invisível e inefável onde tudo o que é visto, sentido e
percepcionado existe? Não serei a presença onde o universo inteiro se
manifesta? Restará algo mais que possa ser quem eu sou?
___

1 Fev


     Tenho andado muito preocupado a tentar encontrar o "eu", mas se eu
ignorar o pensamento que me diz que há um "eu" ou que me diz que tenho
de encontrá-lo, onde está o "eu"?
     Emoções fortes surgem, por vezes, e tenho a tendência a
atribuí-las a um "eu", a uma entidade que as possui, mas não parece
fazer muito sentido. Imaginemos uma sensação de irritação no peito. Por
um lado, temos um corpo, por outro um peso no peito e noutro temos
ainda a ideia de um "eu", mas qual a lógica em aglutinar tudo na mesma
entidade, quando na verdade são tudo experiências separadas e
independentes umas das outras? Um corpo, uma sensação, um pensamento,
não estão todos eles apenas a surgir na minha experiência?
___

     Parece haver uma separação entre mim e algo profundo, seja isso
chamado de vida ou existência ou ser. Mas onde está essa separação?
Onde está a linha que divide? Onde está o fosso? Não sou eu um pedaço
de vida em perfeita união com tudo o resto? Onde está a separação entre
mim e a minha essência? Entre mim e a existência?
___

     A busca espiritual parece terminar ao fim de quatro perguntas:
     1) Estou presente? Não como corpo que vejo ou pensamentos-emoções que percepciono, mas como aquilo que vê e
percepciona. Estarei eu presente? Sim, estou aqui, algures, isso é
certo.
     2) Estou consciente? Sim, tudo é registado sem esforço. Giro a
cabeça e as alterações na paisagem são reflectidas instantaneamente. Os
sons são registados, as imagens são assimiladas, os odores, as
sensações, tudo é percepcionado.
     3) Existe alguma separação entre mim e esta presença consciente?
Não, "eu" não posso existir sem a presença desta consciência – tudo
seria escuro e silêncio se tal acontecesse. Não existindo separação, eu sou essa consciência.
     4) Há algo de errado com essa presença consciente? Tendo em conta
que essa presença se mantém inalterada perante tudo, ela parece estar
num estado de profunda paz e liberdade. Não será isso que buscamos na
vida espiritual? Não é isso que eu sou agora mesmo? Se não existe
qualquer separação em relação a algo tão profundo, de onde surge a
busca então?

4 Fev


     Toda esta busca espiritual, esta tentativa de
clarificar a minha identidade, quem é que leva tal a cabo? Se eu sou o
olho que tudo vê, o eterno observador, incluindo desta busca, nenhuma acção é feita por mim, pois eu sou quem percepciona essa acção – do
início ao fim.
     Eu vejo a minha mente a tentar clarificar a minha identidade.
Sento-me nesta poltrona decidido a reflectir sobre isso, mas quem é que
o faz, se a consciência que sou apenas observa?
    
Essa presença-consciência não parece ter dúvidas sobre a sua natureza,
pois ela nem sequer tem uma mente para articular pensamentos, dúvidas
ou questões. Mas se essa consciência é quem eu sou, quem é que então
está a tentar clarificar a sua identidade?
     Não existe nunca qualquer separação entre mim e esta consciência.
Na verdade, não existe "mim", apenas a consciência. Toda a dificuldade
surge na identificação com o corpo, identificação essa posteriormente reforçada pela mente. É percepcionado um corpo; depois surge um
pensamento que diz "Isto é quem eu sou". Corpo e mente surgem assim
como a essência da minha existência, mas o corpo e mente são objectos
de um sujeito observador. Eu claramente vejo um corpo e pensamentos
vários, mas qual a minha relação com eles? A mente vai e vem, eu fico.
O corpo sofre alterações várias, eu mantenho-me igual. Haverá alguma ligação?
     Tenho a sensação de que quando descobrir quem é que está nesta busca
espiritual, descubro a minha verdadeira natureza, pois descubro que não
existe ninguém na busca espiritual. A consciência de certeza que não
está na busca espiritual, ela parece perfeitamente completa e
independente de tudo o resto. Tudo parece provir dela, mas nada é quem
ela é, tal como todas as folhas surgem da árvore, mas nenhuma é a raiz central de onde todas provieram.
     Parece existir uma tão abissal desconexão entre consciência e aparência, entre sujeito e objecto, que parece irrelevante prestar
qualquer atenção aos objectos. Tentar fazer o que quer que seja para
clarificar a natureza desta consciência não parece fazer sentido,
porque tudo o que é feito é feito no plano dos objectos. É como um
actor num filme a tentar compreender a natureza da tela de cinema onde
o filme está a ser projectado.
     Realmente há a sensação de ser um actor separado dentro de um
filme maior, mas quando procuro a essência do actor, a única coisa que
encontro parece ser a própria tela onde o actor é projectado. Tenho a sensação de ser dois ao mesmo tempo, pois embora ao procurar pelo "eu"
(actor) encontre apenas a consciência (tela), a verdade é que o "eu"
parece continuar a representar quem eu sou. Se cada vez que procuro o
actor ou o "eu" só encontro a tela ou a consciência sempre presente,
onde estará o actor ou o "eu"? Será real de todo?

     Sinto-me quase a perceber tudo isto, a clarificar a minha verdadeira natureza, mas… quem é que está quase a fazê-lo? Será o actor que julga estar a compreender a tela?

(…)

17 Fev


     Eu sou o espaço onde tudo ocorre, onde tudo é permitido, onde tudo aparece e, inevitavelmente, desaparece.
     Dentro de ISTO tudo é permitido. Não há escolha, não há critério, não há nada, apenas ISTO, Aqui. Tudo é acolhido, mesmo a ideia de que eu sou algo que não isto, algo separado, algo dentro d’ISTO.

     É hilariante a ideia de que o pensamento tem qualquer valor.

     Só agora me apercebo que não tenho de encontrar o "eu" ou ver-me livre dele. A noção de ser um "eu" separado pode continuar a surgir. Agora tenho a noção de que ele aparece em quem eu sou.

8 Mar


– Onde é que vou encontrar o meu ser? Não pode ser no passado nem no futuro, tem de ser agora. Eu existo sempre Agora;
– Nem pode ser ali ou além, tem de ser aqui. O meu ser está sempre Aqui;
– Quem eu sou tem de estar sempre constante e presente, não pode oscilar na minha experiência;
– Quem eu sou não pode também estar escondido de mim ou imperceptível, pois isso exigiria que eu fosse dois seres ao mesmo tempo, e eu sou apenas um.

Assim sendo, Aqui e Agora, sempre Presente e Constante e sempre Acessível, quem sou eu?

16 Abr


It is seen that consciousness appears; it is seen that it
disappears. I remain. Whatever appears in consciousness, it is what it
is. Where is it coming from? That’s itself just a question appearing in
consciousness; an "object" in consciousness, as any other. Ultimately,
the only answer would be, "it’s coming from the presence beyond
consciousness, the presence that I am".

In consciousness a body
is seen. Thoughts manifest as well. The idea of a separate person
appears – all appearing in consciousness, appearing in me. Whatever
happens in consciousness is of no relevance to the presence prior to
it. I am that.

Whether beliefs say I am some-thing inside
consciousness, that is of no relevance. All things are seen in
consciousness. I am not in consciousness; consciousness is in me. Only
one "person" exists in consciousness. There is only one existence. When
that existence rests in sleep, I remain.

Death can only be as
going to sleep, for is consciousness shutting down. Death is the end of
consciousness, not necessarily the end of the body. Consciousness fades
at night. One day it won’t resurface from unconsciousness and that is
all. The presence prior to it is unconcerned. Every night a kind of
death happens to consciousness. There is no proof that it won’t be
permanent. And if tomorrow a different set of memories was to appear in
consciousness, nothing real would change. There would be just different
perceptions floating in consciousness. And there would be just
consciousness floating in presence. This presence is… unfathomable.

Clarity
may fade, it may appear and disappear. Of what relevance can it be? At
night, consciousness sleeps, but presence is ever awake. Clarity is not
present nor absent. The very concept of clarity does not apply. The
spiritual search is rooted in consciousness, where no final answer can
be found. On the other hand, outside of consciousness there are no
questions, no doubts, no-thing whatsoever. But there I am.

The
need for answers is an illusion of consciousness, and so is the search
for peace or truth. Whatever manifests in consciousness, it will
eventually disappear, for consciousness is transient, or is it not?
That’s my experience. Inside consciousness all things seem also to be
transient. So, whatever truth or peace is found in the transience of
consciousness, they will too eventually fade, for consciousness is
bound to fade.

Who am I? This is a question appearing in
consciousness. In consciousness nothing real is to be found. The answer
to “who am I?” lies in the presence “outside” of consciousness. In
there there are no questions. In here there are no answers. In presence
nothing is ever sought for. So nothing is ever lost.

The idea of
a separate person still persists. But separate from what? Only one
sense of existence is ever present – and even that comes and goes. All
other persons are assumed in the mind. In truth, only perceptions can
be seen. In direct evidence, I alone exist.

But the complete
absence of the person has to be seen. Otherwise, identity will forever
lie trapped inside the walls of consciousness. Presence, in itself,
seems pretty unconcerned about anything happening in consciousness.
Therefore, whatever is experienced in consciousness will have the
flavor of truth or reality. Experientially, there is no other reality
than consciousness, no other truth, because beyond it there are no
experiences, just presence.

Suffering manifests when it is
believed that I am something appearing IN consciousness, when in fact,
consciousness is something appearing IN me. Whether this idea is
deconstructed or not, nothing real is affected. Nonetheless, the
experience in consciousness is. Here lies the seed of the spiritual
search.

8 Mai


     A mente é um órgão de reflexo – um mecanismo de reacção a estímulos. Vê uma imagem e cria um conceito sobre ela. Ouve um som e responde com um pensamento. Podemos eliminar todos os estímulos e deixar apenas o silêncio e vazio absolutos, e ela criará reacções a isso, reflectirá sobre essa não-experiência. A mente é um órgão de reflexo, de reacção, mas a reacção é sempre involuntária, é sempre produto do estímulo, não de um sujeito que a coordena conscientemente.

___

     As características do ser existem sempre em estado absoluto. Será por isso que há quem lhe chame o Absoluto, o Supremo. O ser está presente, absolutamente presente, pois a presença é sempre absoluta – ou se está presente ou ausente, não existem graus de presença. O ser está consciente, absolutamente consciente. Não existem também graus de consciência – ou se está consciente ou inconsciente. O ser é silencioso, absolutamente silencioso – o silêncio não tem níveis. O ser é vazio, absolutamente. É sem forma, absolutamente. É paz, sem graus; é liberdade, absoluta. Todas as suas características existem em estado absoluto. Porque não chamar-lhe o Absoluto?


16 Jun


Listening to Mooji on my mp3 player in the redwoods forest, he asks, "Can the observer be observed? That which sees, can that be seen? You see everything, can you be seen?" I pause the player and try to find an answer. Mooji said, "use all you have to answer me, if you can". I try… Can the seer be seen? Can the space in which everything happens, can that be seen? My mind is running fast in search for an answer, I see the movement of the mind but the space is forever unseen, the seer cannot be seen, the eye cannot see itself.

Then comes the recognition that I am indeed that space where all is seen and there is no need to see it, the seer has no need to see itself.

There is this huge presence, huge beyond any idea of hugeness, infinite and absolute beyond anything imaginable, I am that space where all appears, body and mind and world appear in it, but the space is completely beyond them and not connected with what is seen. This body-mind has absolutely nothing to do with it.

There is a clear knowing that this presence is God, it is the ultimate. A deep reverence dawns on me, I feel like prostrating myself to it. There’s an energy flowing in this body, a bliss, it feels like an Ayahuasca "high", but without the drugs. It may be a kundalini awakening, who cares?

It is seen that the True Understanding has nothing to do with this body-mind, it comesfrom beyond it, way way beyond, beyond words, beyond description, beyond imagination or the wildest dreams. This Void is unfathomable, it is untouchable. The world is nothing but a dream – images and perceptions always seen from This, always perceived by the space where they float in. All ideas of ever having been inside a body or a world, of ever having "incarnated" make absolutely no sense whatsoever.

There was a sense of familiarity, of "home", in all this, like I had this experience many times in my life – but I haven’t. There was also a fear, likesomething was afraid to die or disappearing.

Whatever is done in the appearance, inside the dream, it is always just appearance, always dream activity. The dreamer, the Void, the Ultimate Space, the Unfathomable Emptiness is always beyond any activity.

The true nature of reality is extraordinary beyond comprehension. It is simpy amazing, and amazingly simple – when it is seen clearly.



Dré

Published in: on 31/07/2009 at 14:13  Comments (1)  

A única estrada


O

meu

coração


é

a

única

estrada

que

conheço

d r é

Published in: on 30/07/2009 at 2:32  Deixe um Comentário  

Take a look around

Take a look around
all things green and brown
they are here to stay

The people walking by
buildings built so high
will be gone someday

Take a look around
everything you’ve found
will be gone someday…

Dredg – Take a look around, The parot, the Pariah, the Delusion

Published in: on 25/07/2009 at 23:13  Deixe um Comentário  

The California Diaries VIII


     Vinte e sete de Junho, mochila às costas, às seis e um quarto da manhã arranco para São Francisco com uma directa em cima, é a única forma de estar acordado a tal hora matutina, passo um tempo em São Francisco a matar saudades daquela cidade muito especial, subo à Coit tower, provavelmente a melhor vista da cidade.


A vista da Coit Tower – a qualidade da imagem dá a parecer que estive lá em 1967


     Por volta da hora de almoço apanho o autocarro para Santa Rosa, paragem forçada, o meu destino é Sonoma, chego lá por volta das dezanove horas, caminho até ao Whole Foods Market, compro um "burrito" para matar a fome, é uma pequena vila, alguns milhares de habitantes apenas, os meus pensamentos deslizam para o sossego que é viver em semelhante sitio, uma paz de espírito impressionante, é neste preciso instante de profunda contemplação e pachorrento repasto que vejo um grupo de jovens aos saltos e gritos, apercebo-me que seis ou sete rapazolas estão a tentar espancar um outro, depois reparo que afinal seis ou sete contra dois ou três, enfim, sempre é mais equilibrado, um lembra-se de pegar num vaso de plástico com flores que estava para venda à frente da "Longs Drugs", é uma cena que se arrasta do grotesco para o cómico passando pelo absurdo, os seis ou sete jovens dão-se como vencedores e abandonam a cena uivando triunfalmente, um arrufo de gangs, com certeza, coisa habitual pelos EUA, acabo de comer o meu "burrito" e penso, Aaahh, como é pacata a vida numa pequena vila do interior". É uma zona vinhateira, região famosa pelo seu vinho, a população é dois terços hispânica, sinto-me como que em LA ou San Diego, na fronteira com o México, caminho até ao parque/bosque onde encontro um lugar para dormir, está bastante calor, adormeço numa "torre" num parque infantil.


A árvore que me serviu de abrigo


     Acordo cedo, por volta das 5H30, já há algumas pessoas a girar no parque, notando a hora e o pormenor de ser Domingo, naturalmente passa-me pela cabeça que estas pessoas são loucas, enfim, sigo a minha vida, às 10H tenho o encontro com o Prasanna, o Buda vivo da Califórnia, é uma honra e privilégio poder partilhar as minhas dúvidas com semelhante ser "celestial". Resumindo a coisa, ele convida-me a ficar na casa dele, não se sente confortável com a ideia de eu ficar no parque/bosque, mesmo que não há primeira acabo por aceitar o convite, passo cinco dias em casa dele, conversamos imenso, ele entrega-se de alma e coração às minhas perguntas, eu entrego-me de alma e coração às suas respostas, vamos jantar e, embora eu tenha puxado de uma nota de cem, ele insiste em pagar o jantar, dias antes ele tinha feito o mesmo, dia vinte e dois de Junho fomos cinco visitá-lo de Santa Cruz, estivémos sete horas com ele a conversar sobre não-dualidade, no fim ele vira-se e diz, "Tive uma ideia, e que tal se encomendássemos uma pizza", se este doce homem de setenta e três anos já estava nos píncaros da minha consideração, com a ideia da pizza ficam batidos todos os recordes, e foi aí que ele puxou de uma nota de cem também. Durante estes cinco dias penso muito, leio algumas coisas também, nomeadamente de um livro chamado Consciousness is All, bebo do néctar que o Prasanna me dá à boca através das suas palavras, parece um avozinho a dar de comer ao netinho, "Olha o aviãozinho", aqui o aviãozinho é a colher da não-dualidade que vem cheia do meu próprio ser, a minha verdadeira natureza, ele lê-me algumas passagens de uma escritura indiana monumental chamada "Vasistha’s Yoga", um tiro de luz radiante que viaja pelos séculos e me atinge em cheio no coração da alma, mostra-me também alguns dos seus próprios escritos, cita Maharaj muitas vezes, sinto-me como se estivesse na presença do próprio Nisargadatta, mas este é um Maharaj doce e paciente, um poço de ternura e amor, sinto-me como se pudesse morrer agora em paz, agora que estive na presença de alguém assim. De manhã ele toca flauta, acompanhado por um modelo electrónico de um instrumento indiano chamado tampura, cozinha comida indiana para dois, são dias passados nas traseiras da casa dele onde uma fonte artificial faz o som da água bailar no ar 24H por dia, são dias de puro néctar para a alma.


Dois quadros do Prasanna


O Prasanna e eu


     Dia três de Julho ele tem família a visitá-lo por uns dias, por isso não posso continuar em casa dele, ele diz-me que vou regressar a Santa Cruz, mas que sou sempre bem-vindo a casa dele, eu fico um pouco baralhado, porque estava a pensar ficar por Sonoma, regresso ao parque ainda indeciso, mas acabo por ficar mesmo por ali, não tenho nada para fazer em Santa Cruz, mais vale aproveitar e ficar ali a ler e a reflectir sobre algumas coisas, ele ofereceu-me o tal "Vasistha’s Yoga", um resumo em inglês do terceiro livro mais extenso do mundo, um resumo que ainda sim conta com mais de setecentas páginas, por ali fico, leio um bom bocado, assim passo sete noites a dormir no parque, sexta-feira, dia dez, regresso a casa para me despedir do Prasanna, ele recebe-me alegremente, diz-me que já estava a ficar preocupado, pois tinha ligado para Santa Cruz e eu não estava em casa, conversamos umas duas horas, ele lê-me um pouco de um outro texto impressionante da tradição Kashmir Shaivism, são tópicos que a mente comum jamais sonhará tocar, palavras escritas há centenas de anos atrás, dá-me vontade de rir da arrogância imatura da ciência moderna na sua busca pelas respostas às perguntas mais profundas sobre a vida e o universo. A conversa chega ao fim, eu agradeço do fundo do coração a profunda hospitalidade deste pequeno homem, pintor de máxima categoria, homem espiritual de compreensão absoluta, foi uma honra, ele diz-me que está bastante feliz com a minha situação, que percebe claramente onde está a minha última dúvida, que é apenas uma pequena impureza a flutuar numa consciência infinita, que vou continuar a combater por um pouco mais tempo, mas que ele tem a certeza absoluta que tudo estará terminado muito em breve, eu sorrio, de certa forma sinto o mesmo, dois abraços, palmas juntas no peito, um namasté silencioso, um gassho de gratidão, dentro de mim próprio prostro-me cem mil vezes diante deste homem, as práticas preliminares estão terminadas, "o que havia para ser feito já foi feito", disse-me ele, assim é.
     Hoje, quinze de Julho, sento-me à mesa de um restaurante no San Francisco International, durante os últimos dias estive a aproveitar os meus momentos finais na lindíssima Santa Cruz, ontem almocei com o John Wheeler uma última vez, uma conversa muito interessante, um abraço para o caminho e aqui cheguei com a boleia da Elizabeth, um amor de amiga que me acolheu durante estes seis meses, aqui estou no SFO, esta aventura chega ao fim, a "viagem para terminar todas as viagens" está a terminar, regresso à base, com serenidade suficiente, com paz que chegue, sinto que o fruto não foi plenamente colhido, mas a semente foi plantada, o meu trabalho está terminado, agora é o amadurecimento natural do reconhecimento interior, todas as coisas têm o seu timing, também este encontro comigo próprio tem o seu ritmo, sei que dei tudo o que tinha para dar, todas as células do meu corpo se moveram nesta busca, todos os músculos da alma se esforçaram intensamente por alcançar o topo da montanha de mim próprio, sinto-me agora como que a cair de um precipício, o salto que havia para dar foi já dado, agora é apenas esperar, a queda é inevitável.


O John Wheeler e eu



A partida de Santa Cruz, a 15 de Julho, com duas mochilas, um saco e uma guitarra


***


     A partilha do que me foi dado a conhecer aqui na República da Califórnia será sempre um esforço em vão, sinto-me como alguém que foi convidado, por um estranho, a subir ao sótão da sua própria casa, e lá foi levado até uma velha porta, uma porta familiar, muitas vezes tinha sido vista, outras tantas ignorada, o estranho pede para abrir a porta e ela é aberta, do lado de lá as palavras caem, os olhos não alcançam, o que é visto é o Paraíso para além de todos os paraísos, o Céu mais alto de todos os céus mais altos, o espaço é infinito, a luz é sem fim, o coração explode em mil direcções e em todas elas me encontro eu próprio, a mente fica em silêncio perante a vastidão imensa do que é sentido, perante o abismo que se abre diante dos seus pés, nenhum conceito se aplica, nenhum esforço do pensamento toca o Real, O Que É é para sempre além de tudo, quando os infinitos reflexos desaparecem e são esquecidos, apenas o que fica é real.
     A partilha de tal dádiva só poderá ser efectivada quando a Compreensão for profunda e conclusiva no meu coração, só aí poderei expressar o que foi, por enquanto, apenas visto. Nessa altura as palavras serão secundárias, pois dos próprios poros da pele transpirarão palavras sagradas, num simples olhar estará presente a Luz que é a mãe de todos os sóis, num mero sorriso será visível a eterna vastidão e infinita presença onde todas as estrelas brilham, onde todos os astros dançam, esse infinito Ser, essa eterna Luz, Eu Sou.
     Esta é a verdadeira partilha, esta é a única dádiva, mas já nem posso dizer ser esse o meu desejo mais profundo, porque, hoje em mim, não existe nenhum outro desejo, esta Compreensão perfeita e a sua partilha é o meu único sonho. A natureza de tal propósito, o tecido com que semelhante ambição se tece é de um carácter tão sagrado que qualquer palavra ou esforço para o expressar não será mais do que uma mancha de tinta no mais imaculado dos céus. O meu silêncio mais profundo e pleno da mais inacreditável gratidão é a única forma de honrar o que me foi dado a conhecer aqui na Califórnia.

***


     Fica o meu agradecimento a todos os que representaram os seus papéis nesta minha aventura Americana. De entre eles, à Elizabeth e ao Michael, ao John e ao Prasanna, o meu mais sincero obrigado.

Dré

Published in: on 24/07/2009 at 11:36  Deixe um Comentário  

A d i s função do A mo r

O amor são sonhos que ergues no coração por não teres os pés pousados na terra, imaginas ter um buraco no peito e buscas em todos os cantos na tentativa de o preencher, mas o buraco não o tens no peito, o buraco tens-no no corpo e é ele o próprio peito, é eternamente um lugar vazio, ele é céu e vale, por ele passam todas as coisas, mas ele em si é sempre coisa nenhuma, ausência apenas de tudo o resto, por isso o amor dos homens é inevitavelmente uma actividade disfuncional da mente, tentando preencher aquilo que nunca será preenchido, o verdadeiro amor é apenas olhar e ver passar e ser feliz assim, os que tentam encher o coração com os corações dos outros querem abastecer o céu de ar, atafulhar o vazio com silêncio, o que procuram é coisas que as mãos possam e queiram agarrar, mas para que quereria o peito as coisas das mãos?, aquilo que as mãos tocam o coração não almeja, aquilo que a cabeça sonha nada diz ao mundo que habita no peito, ele é sempre completo por si mesmo, como um olho que para ser pleno apenas precisa de olhar, perfeita visão mesmo que nada seja visto, ao coração basta olhar e ver tudo o que se mexe dentro dele, como corpos que se movem dentro de uma casa sem nunca derrubar ou manchar as paredes, assim é o coração, é ele o mais profundo amor, é a mais sólida parede que se ergue dentro do peito, as sombras e medos e fantasias da cabeça do homem nunca racham a muralha de ar e luz que vive no centro da alma do homem.

Dré

Published in: on 23/07/2009 at 9:39  Deixe um Comentário  

Fingir-me de ti

 
 
 
 
 
 
A minha alma, mais esquina menos esquina, esbarra sempre em ti,
és sempre a pedra onde tropeço,
e a queda é inevitavelmente tão doce que quero tropeçar em ti diariamente,
cair em ti, mergulhar em ti, fingir-me de ti dentro de mim.
 
Dré
 
 
 
 
 
 

Published in: on 20/07/2009 at 19:23  Comments (1)  

Elogio da alma

 

 

 

Sempre fui coração com corpo à volta, não um corpo com coração dentro, a minha alma é o meu mundo, lá fora só há desertos e passos em vão, são caminhos cegos, apenas quem não vê neles se perde, a minha alma é estrada chinelo pé perna e todo um ser, é ela quem caminha, é nela que caminho, nada de mim existe fora dela, é um envelope onde apenas eu me escrevo e me envio em todas as direcções, fora dela nenhuma palavra é minha, nenhuma me descreve, se me queres conhecer, conhece-me a alma, pois nada mais há que eu seja que não aquilo que guardo dentro do peito. Para quem vive para as carnes do corpo tudo prende, tudo é corrente e grilhão, cárcere e prisão, em cada pedra se tropeça, em cada curva de novo se começa, apenas a alma voa, apenas ela é asa e céu simultaneamente, pássaro invisível em atmosfera transparente.

Dré

 

 

Published in: on 20/07/2009 at 19:19  Deixe um Comentário  

Estrangeiro em mim

 

 


Sou ser descompassado de mim próprio, alma fragmentada, dividida, olho para mim como que de fora, há como que um ângulo, recto ou agudo ou grave, sob o qual me vejo, como se fosse dois dentro do mesmo, sou sempre um apenas, mas é duplo o meu sentir e pensar nestes dias, são dias que parecem corridas, corro de mim para mim, tento alcançar-me e ser eu novamente, em terra pátria sou como que estranho, em corpo e alma meus sou estrangeiro, não falo a língua do meu próprio coração, ele toca-me e eu não o entendo, a mim todos me falam e sorriem, mas ninguém me conhece.

Retirado do Diário de um Condenado à Morte

Dré

 

 

Published in: on 20/07/2009 at 15:34  Deixe um Comentário  

Bola de fogo



Sento-me em frente ao computador e a única prova de que estou ainda vivo é a dor imensa que me invade a alma, sou um boneco de palha desfeito em farrapos sob os pés de mil exércitos, sou um coração perfurado pelos cornos de cem mil bestas, rasgado pelas garras de todas as feras da terra, sou todas as árvores do mundo queimadas, sou todos os mares enegrecidos, os céus obstruídos, sou maior do que todas as dores do mundo, sou infinitamente mais pequeno do que a mais insignificante das alegrias desta vida, se o sofrimento fosse corpo eu seria gigante entre os gigantes, grande de mais para caber dentro das paredes deste universo. A minha respiração é pesada como se tentasse puxar com braços de seda todos os infernos escaldantes do submundo, os membros do meu corpo estão exaustos, sinto-me decepado por estas emoções, sou fatias de alma espalhadas pelas ruas nojentas de uma existência esvaziada de sentido, se sei que existo é porque todo eu sou um novelo de angústia, se calculo ter alma é apenas porque dela saem estas labaredas que me derretem por dentro, sou uma bola de fogo, como um sol, mas nesta dor apenas arde a mais pura escuridão.

Cada recordação tua é um soco no peito, hoje sou carne amassada, pisada por estes punhos, dentro e fora.

Retirado de um Diário de um Condenado à Morte

Dré

Published in: on 20/07/2009 at 0:28  Deixe um Comentário  

Eu S O U


Como um rosto reflectido na á g u a

co m o  imaginação de m i m próprio


E u S o u


causa-e-efeito

Dre’



Published in: on 14/07/2009 at 2:41  Deixe um Comentário  

Sobre um Império


Este mundo está podre, podre como uma maçã caída no chão, tão podre que
ao a agarrarmos ela desfaz-se na mão, mas mesmo na podridão de uma maçã
velha se encontra uma semente, enfim, é sempre da maçã podre que nasce
a nova árvore, as maçãs boas comemo-las nós e daí nada novo nasce, que
este velho mundo se desfaça no chão e dê à luz uma nova árvore, uma
árvore onde os frutos nasçam para todos, somos todos humanos, porra,
para quê ignorar isso?, todos temos um buraco no estômago e outro no
coração, ambos requerem o seu alimento, as fomes de corpo e espírito são
a maior podridão que a árvore deste Império alguma vez pariu, se
ignorarmos a semente que aqui se esconde nenhuma árvore mais nascerá
neste mundo, este Império será sempre um lugar desolador debaixo do
sol, neste deserto nem uma sombra onde repousar, nem um ramo onde
escutar uma ave, nem uma folha onde possa o vento sussurrar, porra,
isto não é morte, nem
é isto vida, isto é somente morte em vida.

Retirado de Doença do Coração

Dre’

Published in: on 14/07/2009 at 1:29  Deixe um Comentário  

Apenas Deus é suficiente


Não deixes nada
     incomodar-te;
Não deixes nada
     desanimar-te;
Todas as coisas passam;
Deus nunca
     muda.
A paciência alcança
tudo aquilo que
     ambiciona.
Aquele que encontra Deus
descobre que nada
     lhe falta:
Apenas Deus
    
é suficiente.

Santa Teresa de Ávila (1515 – 1582)

Let nothing
     disturb thee;
Let nothing
     dismay thee;
All things pass;
God never
     changes.
Patience attains
All that it
     strives for.
He who has God
Finds he lacks
     nothing:
God alone
     suffices.

Published in: on 14/07/2009 at 1:06  Deixe um Comentário  

tu e eu

Nos nossos corações, tu e eu somos iguais.
No nosso ser, tu e eu somos o mesmo.

Dre’


Published in: on 13/07/2009 at 11:42  Deixe um Comentário  

Um dia!

 
 
Ahaha, nao resisti!!
 
Published in: on 09/07/2009 at 21:02  Comments (2)  

Os olhos do coração

Você é homem, não peço nem espero que compreenda, os vossos olhos estão no sítio errado do corpo, estão na cabeça, que sentido faz isso, que poderá a cabeça saber sobre um mundo, sim, um mundo que não é este ainda, mas poderia ser um dia se o criássemos com o coração, um mundo sem esta dor, sem esta hipocrisia, esta indiferença, esta falsidade, este fingimento, sem esta dissimulação, esta impostura, esta duplicidade, sem esta aparência, esta farsa, este disfarce, este é o mundo da cabeça, um mundo de angústia, de aperto, de constrição, de obstipação, um mundo de estrangulamento, de opressão, de aflição, de desassossego, de ansiedade, de desespero e agonia e tormento perpétuos, este é o mundo dos homens, é o sofrimento, é o pesar, é a dor, é a pena e a tristeza e a mágoa contínuas, os olhos de homem não podem ver isto, estão cegos na cabeça, apenas os olhos de uma mulher podem contemplar semelhante cenário hediondo, olhos de mulher mesmo que em coração de homem, esses podem observar o descontentamento das almas, o desagrado, a displicência, os peitos que arfam ansiosos, inquietos, irrequietos no seu silêncio forçado, estão ávidos, estão desejosos, estão sôfregos, os olhares que se baixam tolhidos pelo desânimo, pelo desalento, pelo acanhamento, pelo esmorecimento, pelo abatimento da alma, pela fraqueza, pela prostração dos ideais, é o mundo ignorado da doença, do calvário, do martírio e do sacrifício, da provação, da desgraça, é a gangrena das sociedades, cegas na sua putrefacção moral e humana, o mundo do coração não é este ainda, este com as suas injustiças, as suas iniquidades e arbitrariedades, os seus atropelos e as suas injúrias, a desigualdade, somos todos humanos, mas uns sê-lo-ão mais que outros certamente, vivem uns como homens, outros como esterco, pior que esterco, que este aduba a terra, a este esterco humano nem sequer é-lhe permitido contribuir para o mundo, foram abandonados, esquecidos, desprezados, deixados na sua imundice, deles agora mas herdada dos erros dos outros, dos tropeções dos pés dos olhos cegos postos na cabeça e não no peito, você é homem, não peço nem espero que compreenda o que poderia ser o mundo olhássemos nós pelas vistas do coração.
 
Dré
 
Retirado d"O Génio
 
Published in: on 06/07/2009 at 18:56  Deixe um Comentário