Ginasta de dor


O seu rosto contorce-se como um ginasta, dez pontos de pura dor, perfeito esmagamento emocional, absoluta escuridão d’alma rasgando o ser com a velocidade de um relâmpago, num coração de papel, esta dor é chama que consome até as cinzas, a mulher é um cartucho de pólvora detonada, eu sou agora um pacote de alma vazia, sinto-me esmagado pelo sentimento expresso no rosto desta mulher, como se o seu peito tivesse sido furado por uma bala de canhão e lá se encontrasse agora somente um buraco vazio, a dor que sinto em mim é apenas a presença do mesmo vazio naquilo que outrora havia sido o meu coração, sou praia sugada por onda gigante, em tempos luminosa sob a luz do sol, hoje sou terra escura no fundo do mar. Ela chora durante duas horas, eu vejo-a chorar durante duas horas, pergunta-me porque não choro, eu digo-lhe Já chorei tudo o que houve alguma vez neste mundo para chorar, o meu ser está enxuto como apenas um pão numa despensa esquecida o está, sou nuvem que choveu já tudo o que era e dessa forma desapareceu, o que vês em mim é uma gaveta vazia, é uma moldura sem quadro, a alma caiu-me há muito das mãos, o que vês e abraças e sentes entre dedos é um desenho feito de pele, do lado de dentro já não existo, do lado de fora nunca existi, o não-ser que sou agora é mero limiar entre mundos, é marca de água num copo seco, recordação somente do que era, este corpo que vês diante de ti é uma mera certidão do que fui, algo que, existindo, existe apenas como prova de algo que deixou de existir.

Dré

Retirado do Diário de um Condenado à Morte

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Published in: on 19/08/2009 at 4:10  Deixe um Comentário  

Corpo vin d o d o c é u


A morte cai-me nos braços
como um corpo vindo do céu,
é vida que se solta
como suor
que lentamente se larga da pele,
a terra que a recebe
é a lama que piso,
sozinho um vulto se ergue agora,
sou pele que fica para trás,
vazia como uma casa abandonada.

Dré

Published in: on 19/08/2009 at 4:07  Deixe um Comentário  

Elo gi o d o ab r a ço

 

Este é um abraço que é como fazer amor, nada perde em intimidade ou profundidade, a excelência da união e da partilha é a mesma, a única diferença é que no abraço não se olha nos olhos do outro, por isso os mais sinceros abraços são dados às escuras, olhos cerrados e persianas corridas, o mundo inteiro desligado, apenas o outro se sente, o outro que é o mesmo, é neste abraço que a ideia do outro cai na terra e se faz semente de um segredo sussurrado aos ouvidos do coração, um segredo que diz Não existe Outro, e este é o verdadeiro abraço, que é o único amor, o próprio acto de penetração física do ventre, a execução do amor, deverá ser como aquele abraço, mas de olhos abertos, essa é a doçura particular desta outra partilha, beber do amado com os cinco sentidos, olhos bem despertos e pousados no rosto que amamos, mas com a certeza de que o olhar do amado é apenas o outro lado do nosso próprio olhar.

Dré

Published in: on 19/08/2009 at 4:04  Deixe um Comentário  

A textura do alcatrão

Sucesso ou insucesso, na vida dependem mais de acasos ou curvas do
destino do que propriamente de deliberação humana, os momentos
decisivos são frequentemente cruzamentos pelos quais passamos a olhar
para o lado, distraídos com algo que não o fundamental no momento, o
que decide o caminho é mais a textura do alcatrão que pisamos ou os
ângulos mortos da estrada do que propriamente os pés que levamos
calçados.

Retirado d’O Génio
Dre’

Published in: on 16/08/2009 at 4:05  Comments (1)  

con tradição ab surda

A existência humana é uma contradição absurda,
como a de um homem que detesta rir.

Dre’

Published in: on 16/08/2009 at 4:03  Deixe um Comentário  

Exército de bor bo l e t a s







Desmorono-me perante o meu amor por ti, como um gigante musculado derrubado por um exército de borboletas, uma montanha rasgada por balas de água, este sentimento rebola-se em mim como a erosão do tempo e transformo-me em pedra polida, brilhante mas gasta, eu, aquela que todos olham com ânsia e uma luz no rosto, agora nas mãos do coração de alguém que não consegue sequer olhar-me de forma a ver-me realmente.

Retirado d’O Génio

Dré





Published in: on 16/08/2009 at 3:36  Deixe um Comentário  

Reflexões sobre a morte


Obviamente, quem sou eu para não morrer?, de costas para o enorme pedestal no centro da praça, uma multidão desloca-se debaixo do meu olhar, no meio de tantos futuros cadáveres sou apenas mais um, que diferença imaginei eu ter, que sonhos cri eu carregar no coração que me permitiriam uma excepção à regra da vida, que é a regra da morte de tudo o que respira – através de pulmão, guelra ou folha, é tudo o mesmo perante os olhos da morte, tudo o mesmo trigo, quando a foice desliza e decepa tudo sem excepção cai e se faz terra.

Mas não agora. É o travo da juventude, ainda nos meus lábios, que sempre me afasta o pensamento da extinção, quando a existência me corre nas veias com a força de rios e mares, quando os sonhos que trago no peito parecem mais férteis do que as primaveras deste mundo, como pode sequer o pensamento da não-existência ser ponderado?, a morte é sempre teoria, a prática da vida é a de olhar sempre em frente, sempre mais além, sempre construir mais, e mais alto e mais sólido, mais impressionante, caminhar sempre para adiante, e embora cada dia de caminhada seja um dia mais próximo do fim de tudo, apesar disso é a força da vida a correr debaixo destes pés que me empurra sempre para a frente, a vida do ser humano é como um dedo que aponta, uma flecha que voa constantemente, é o néctar da juventude que me faz esquecer que, mais além, sempre espera a mesma parede, uma muralha que se ergue para o alto, e uma vala que mergulha para o fundo, para trás não há viagem, passo dado é sempre passo perdido, gasto, somos sempre seres sem costas, sem regresso, e para a frente cessou o caminho, mas a paragem é impossível, eterno movimento eu sou, a inquietude do pensamento empurra estes sapatos, a jornada continua enquanto há vida nestas veias, o último passo é dado finalmente, é um pé que resvala na fenda aberta, um peito que esbarra na parede tosca, é aqui que o espírito se entorna na poeira da estrada, faz-se lama e quem vem atrás apenas pisa, é este o destino, o fim, o culminar inevitável de todo o caminhar.

Mas não agora. Trinta e quatro anos e neste momento, nesta cidade, não haverá ninguém que queira viver
mais intensamente do que eu, sinto um grito a querer rebentar da garganta, mas fica amortecido na humidade que me invade os olhos, uma lágrima cai e toca-me os lábios, no seu sal vem a certeza de que este grito mudo será o meu companheiro nos dias que me restam. A praça está repleta de gente, mas a solidão que sinto do lado de cá da pele é interminável, dentro deste corpo sei que sou o único habitante de um mundo imenso, sem água nem luz, eterno deserto de escuridão absoluta, sem fim nem principio, sem pontas ou abismos de onde saltar, o peso que me esmaga a alma é o de saber que este deserto é mar que se estende interminavelmente, sem continentes ou costas de terra, nem em mil anos de naufrágio encontraria uma praia onde morrer em paz.

No topo do pedestal, atrás de mim, uma estátua de mármore, nem sei se aponta para algum lado, ou se carrega nas mãos um qualquer objecto, sei apenas que, sorrindo ou não, ela diverte-se inocentemente com a minha tormenta, dentro deste peito há mares varridos por ventos que são como braços grossos de gigantes, mas na pedra que é coração e cabeça deste homem estático, nessa pedra habita a solidez que queria como jangada no mar que trago dentro.

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Hoje sinto-me como que deitado numa cama de hospital, anestesiada a psique, o corpo caminha lentamente, parece animado por uma força exterior, a mente está parada como uma poça de água numa tarde límpida de Inverno, como um tronco grosso de uma árvore, nada se mexe dentro do crânio, não há vento, não há ondulação, não há nada, há apenas este caminhar, há apenas este olhar, a água bate na lona do chapéu-de-chuva, o som é constante, repetitivo, é um cântico amortecedor, soa a canção de embalar, mas nada dentro de mim adormece porque nada há que esteja ainda desperto, sou um corpo-mente entorpecido, desço no elevador entre nascimento e óbito, há vida e morte em mim, simultaneamente sou ambas, no mesmo espaço e tempo sou morte que nasce e vida que perece.

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Duas igrejas na rua que se espraia à minha frente, uma terceira mais adiante, levanto-me e caminho até lá, a da esquerda está aberta, encostado à direita da porta está um indigente com um copo de plástico vazio de moedas, sinto uma empatia estranha com este homem, estamos ambos do mesmo lado da vida, o lado que resvala para a morte, pés na vida, olhos na morte, este farrapo de homem já nada faz neste mundo, este mundo já nada faz a este farrapo de homem que eu sou hoje.

Entro e sento-me, apenas de longe miro a água que se diz benta, se esta morte que se aproxima é castigo de Deus, não será naquela pia sagrada que me lavarei dos pecados que em meu nome exaltaram a pessoa divina. Dentro do edifício o silêncio parece fazer eco e nas profundezas desta mudez sinto os meus pensamentos a bailar em ricochete, são balas em ziguezague, um enxame de abelhas de ferrão alçado a redopiar em forma de ciclone, no epicentro da tempestade está o meu coração, trespassado mil vezes por minuto, parece um saco-de-plástico cheio de água, mil furos cravados nele e o líquido esguicha como repuxo, agora é no meu peito que se ergue esta fonte, nela me debruço e nos dois palmos de água me afogo diariamente.

O silêncio que senti na praça é apenas memória agora, memórias são ruídos afiados na minha mente, as paredes do meu crânio sangram com os golpes do meus próprios pensamentos, os sons da rua são lembranças de uma vida que se vai embora, lentamente, de mão erguida em saudação de despedida, o silêncio que fica é o cobertor da morte, um falecimento de sentidos que me deixa esquecido debaixo de uma manta suja e rota, cosida com remendos de trapos.

Retirado do Diário de um Condenado à Morte

Dré

Published in: on 12/08/2009 at 17:22  Deixe um Comentário