Excertos de uma conversa sobre não-dualidade

A não-dualidade não te entra, porque estás a tentar fazê-la entrar quando ela nunca saiu. A não-dualidade é a realidade dos factos neste momento, não algo a ser concretizado no futuro. Todas as histórias surgem na realidade que tu és, mas o que tu és não é uma história. Parece paradoxal, porque é paradoxal a nossa forma de ver as coisas. Não é a não-dualidade que é paradoxal, mas sim a nossa percepção dela. Uma miragem poderá ser considerada paradoxal, porque aparenta ter água, quando na verdade não tem. Mas esta paradoxalidade é causada pela nossa visão, não pela miragem em si. Em última análise, o teu interesse terá talvez de ser o suficiente para procurares o suficiente de modo a poderes experienciar claramente a realidade que agora te parece paradoxal. O comum dos mortais jamais desvendaria os grandes segredos da ciência actual, mas um cientista, com o devido interesse e concentração, faz disso o seu dia-a-dia.

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Se não sabes o que é a realidade, tudo bem, mas não negues aos outros a possibilidade de o saberem. O teu desconhecimento sobre algo não implica o desconhecimento de outrem sobre esse mesmo algo. E sim, existe apenas uma realidade. Já reflectiste sobre o que implica dizer que há várias realidades? Realidade é sinónimo daquilo que existe – independentemente das suas mais diversas formas. Quer hajam universos paralelos, vários níveis de consciência, mundos físicos, metafísicos e não-físicos, tudo isso é uma realidade, são partes do todo que existe. A Realidade é apenas uma, porque tudo o que existe é real (de uma forma ou de outra), e se é real faz parte daquilo a que chamamos Realidade.

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O ego não existe para além de uma ideia na nossa mente. O ego é isso mesmo, uma ideia que atribuímos a um conjunto de experiências separadas. Tal como um rebanho não existe (enquanto entidade independente), apenas ovelhas, também o ego não existe – apenas acções, pensamentos e emoções que espontaneamente surgem na nossa percepção, sem uma entidade que os premedite ou leve a cabo.

Porém, é uma ideia importante, porque é ela a causa de toda a ideia de sofrimento alguma vez sentida pelo ser humano. Se a questão do sofrimento te interessa, a ideia do ego é uma ideia incontornável. Por exemplo, estás a caminhar numa floresta ao fim do dia e vês uma cobra. Naturalmente, sentes medo e procuras soluções para o teu sofrimento. Depois acendes uma lanterna e vês que era apenas uma corda. Na verdade, a cobra (o ego) nunca existiu, mas a crença na sua existência é o suficiente para criar todo um mundo de problemas. Como um mestre budista disse, “no ego, no problem.” Se queres resolver a raiz de todos os problemas, talvez o ego te interesse.

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Efectivamente nada é importante. Importante para quem? Se o planeta terra desaparecesse da face do Cosmos, achas que o universo se importaria? Achas que Marte ficaria triste? Que o Sol ficaria deprimido? Que Andrómeda teria um esgotamento nervoso? O próprio conceito de importância só existe na mente humana – ou qualquer outra com semelhantes capacidades e características. Se excluirmos a mente humana do universo, tudo o que sobra é uma dança cósmica de átomos e moléculas e partículas e ondas, matéria em eterna e constante transformação.

O que a não dualidade faz é mostrar-te que a paz é o estado natural de todos os seres quando estes conhecem a sua verdadeira natureza. O sofrimento é causado pela ignorância da verdadeira natureza. É isto que a não-dualidade propõe: descobre quem és e descobrirás que não só jamais irás sofrer, como nunca jamais sofreste.

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Um mundo inundado por não-dualistas não existe nem existirá, porque não existem não-dualistas. Os não-dualistas são partículas e átomos e moléculas a dançar no universo tal como qualquer outra forma de energia, sejam elas pedras, árvores ou Ipods. Que adiantará? Nada, porque nada adianta. O único propósito que a vida ou o universo tem é aquele inventado na cabeça de cada ser pensante. À parte disso, tudo é apenas e somente uma interminável dança de energia no vazio.

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O não-dualidade não se proclama como sendo o único caminho, porque a não-dualidade não é um caminho. A não-dualidade é o destino, a constatação da realidade dos factos. Caminhos tens o Budismo, o Taoismo, o Xintoísmo, o Cristianismo e tantos outros “ismos”, muitos deles alcançando certos aspectos da compreensão não-dual. Mas a não-dualidade em si não se enquadra dentro de nada que a mente humana possa conceber. A não-dualidade não é uma religião ou abordagem espiritual, mas sim o propósito destas, tal como a democracia não é um partido político, mas sim o objectivo de alguns deles. Nesse aspecto, a não-dualidade é fundamentalista, pois admite conhecer a Verdade, sabendo que esta é apenas uma. Verdade há uma, visões dela muitas.

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Isso é precisamente o que a não-dualidade propõe. Descobre quem és e tudo flui como sempre fluiu. Os sentimentos fluem, os pensamentos fluem, os mecanismos físicos fluem. No problem. No one there to care.

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A não-dualidade não nega a aparente multiplicidade da experiência/percepção. Tal como num oceano existem milhões de ondas de formas e durações diferentes, mas tudo é feito de água, também na nossa experiência passam milhões de pensamentos/emoções/experiências diferentes, mas todas necessariamente feitas da mesma essência – pois só há uma essência no universo. E essa essência és tu.

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Dré

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Published in: on 31/03/2011 at 23:28  Deixe um Comentário  

guerra e paz

o velho agricultor cavava lentamente o seu terreno

enquanto fileiras de homens se alinhavam

com armas em punho e revolução nos olhos

 

um jovem correu até ele e perguntou-lhe

então e você?, não se vai juntar a nós?

 

que fazem vocês?

 

vamos derrubar o regime, vamos acabar com a injustiça, com a maldade

 

o agricultor respondeu,

eu vou ficar por aqui, nenhuma revolução alguma vez mudou coisa alguma

 

o jovem ficou furioso,

como diz?, quantos regimes aos longo da história caíram às mãos do povo?

 

e que aconteceu aos novos regimes que se instalaram?

não se tornaram eles culpados dos crimes que outrora tentaram banir?

tu olhas o presente e vês um regime fascista que cai

e um regime democrático que se ergue

eu olho o passado e somo-o ao presente e vejo que no futuro

as caras de hoje se tornarão iguais às d’ontem

para os jovens de amanhã, os libertários d’hoje serão os seus ditadores

 

o jovem parecia confuso,

mas o que quer dizer com isso?

 

os homens procuram combater no mundo os males

que não conseguem combater dentro de si mesmos

dentro de todo o ser humano

existe um movimento que oscila entre a guerra e a paz

em toda a história da humanidade tem havido sempre luta

porque haveria hoje de ser o dia

em que toda a luta terminaria para sempre?

porquê hoje

se nada mudou dentro da cabeça da humanidade?,

o local onde todas as guerras começam

 

dré

Published in: on 31/03/2011 at 23:09  Comments (2)  

Advaita Ramblings

Advaita Ramblings é uma página web em inglês criada por Teo Jasmin.

 

Ali partilham-se pequenos pensamentos, aforismos e algumas reflexões mais extensas sobre Não-dualidade  (Advaita em sânscrito). Literalmente, “Advaita Ramblings” significa “devaneios sobre Não-dualidade”.

 

A Não-dualidade é uma abordagem filosófica com pouco ou nenhum interesse por questões filosóficas. O seu enfoque é exclusivamente prático e existêncial. Obviamente, para que o olhar directo sobre a natureza da realidade aconteça, é necessário partilhar um conjunto de ideias ou perspectivas teóricas.

 

A Não-dualidade tem essencialmente um pressuposto básico: apenas Um existe. A realidade é una, não havendo, de forma absolutamente alguma, espaço para dualidade ou para uma percepção de uma realidade múltipla. A natureza básica dessa realidade una é Consciência. De acordo com a Advaita, apenas Consciência existe. Em última análise, a única coisa da qual estamos seguros é que estamos conscientes. Quem é que está consciente e do quê, já não será tão claro, de acordo com esta abordagem.

 

Implícito neste pressuposto, está um segundo: em toda a realidade não existe nenhuma entidade ou ser individual separado do todo. Isto não significa que somos todos Um. Significa que não existe sequer algo chamado “todos”, mas sim apenas Um.

 

Assim sendo, a pessoa que julgamos ser, uma entidade separada entre milhões de outras entidades separadas a deambular por um universo físico inconcebivelmente extenso, não existe. Quando dizemos “eu quero isto ou aquilo”, o “eu” a que fazemos referência não existe, sem ser conceptualmente.

 

O sujeito por detrás de todo o pensamento, palavra ou acção,  não é o “eu” separado, não é uma pessoa, mas sim a própria Consciência. Todos os movimentos do corpo e da mente são, na verdade, movimentos espontâneos na Consciência e desprovidos de qualquer controlo por parte de uma qualquer entidade individual. Os pensamentos surgem por si, tal como todos os mecanismos corporais.

 

A Não-dualidade é, no fundo, extremamente simples, embora as implicações das suas conclusões sejam radicais, revolucionárias e brutalmente avassaladoras. A esmagadora maioria dos seres humanos vive diariamente sob o efeito de uma hipnose colectiva, um erro de percepção e identidade com as mais profundas repercussões na experiência do Real. Esta é a mensagem da Advaita.

 

http://www.wix.com/naodual/advaitaramblings

 

André

Published in: on 19/03/2011 at 22:43  Deixe um Comentário  

Os caminhos cruzados da espiritualidade

A espiritualidade é um mundo muito confuso, como são quase todas as coisas criadas pelo homem. Basta percorrer o catálogo do transcendente para perceber que a oferta é quase ilimitada. Comparado com a espiritualidade, os menus dos restaurantes Italo-Indianos parecem uma anedota!

Há diversas áreas exploradas na denominada busca espiritual: cura, devoção, meditação, transcendência, status quo, etc. Quem está familiarizado com este universo, estará habituado a ouvir falar de coisas como “estar no momento presente”, “meditação na respiração”, “acalmar/parar a mente”, “pensamento positivo/criativo”, “yoga”  (nas suas várias formas), “oração”,  “desenvolvimento das características positivas da mente” (compaixão, paciência), “boas acções para com o próximo”, “mestres ascensos”, “transição para a 4ª dimensão”, “canalizações”, “reiki”, “karuna”, “ayahuasca”, “merkaba”, “kundalini”, “vipassana”, “zazen”, “satori”, “limpeza/leitura de auras”, “alinhamento de chakras”, “invocação da chama violeta”, “experiências de quase-morte”, “projecção astral”, “regressão a vidas passadas” e muitos outros rituais ou práticas. Isto sem falar das várias religiões e dos seus textos sagrados.

Ao longo do tempo, e pelas mais variadas razões, foi desenhando-se também a imagem daquilo que seria um ser “iluminado” ou desperto. Alguém que compreendeu/alcançou a sua essência comporta-se sempre de forma exemplar, demonstrando uma calma permanente (excepto quando repreende os seus discípulos), falando suavemente. Será vegetariano ou mais, usará vestes exóticas e cheirará a incenso. Na sala onde instrui os seus seguidores, flutuará sempre uma música tranquilizante e todos se cumprimentam com as palmas das mãos juntas e dizendo “Namasté”.

Este comportamento ajudou sempre os principiantes na busca espiritual a perceber quem são os verdadeiros mestres e quem são os mais avançados de entre os inúmeros discípulos. Estes estereótipos tornaram-se tão fortes, que até mesmo grandes empresas utilizam alguns deles. Palavras como “zen” ou “o segredo” tornaram-se habituais; imagens de jovens mulheres a meditar passaram a ser o prato do dia; “vive o momento” virou slogan de marketing.

Porém, a essência da espiritualidade continua escondida de uma embaraçosa e esmagadora maioria, porque essa maioria não faz a mais pequena ideia de qual poderá ser a essência da busca espiritual. Não que os líderes espirituais tenham propositadamente enganado os seus seguidores, embora tal possa ter acontecido em alguns casos. A verdade é que a maioria dos líderes ou não compreendeu a essência da espiritualidade ou não a soube explicar.

O paradigma convencional da espiritualidade afirma que cada indivíduo é de alguma forma incompleto ou imperfeito. Desse modo, tal como um diamante que é tratado e polido, somos sujeitos a um certo número de práticas que têm como objectivo tornar-nos completos e perfeitos. Basicamente, antes da busca espiritual começar encontramo-nos no ponto A, e através da prática espiritual alcançamos o ponto B. Há claramente um caminho a percorrer, claramente uma divisão entre aquilo que somos e aquilo que queremos/devemos ser. É esta a divisão entre o Céu e a Terra, o Samsara e o Nirvana, a Ignorância e a Iluminação, a consciência individual e a consciência cósmica, etc.

Porém, e por mais simples que este trajecto entre A e B possa parecer, toda esta estrutura é baseada num erro simples, mas profundo: a presunção de que o indivíduo existe. Ou seja, quando alguém diz a um “mestre” ou instrutor espiritual Eu quero atingir a iluminação, ou Eu quero encontrar Deus, todos assumem a existência do “Eu”, da pessoa que de alguma forma deseja encontrar algo.

Esta é a fundação de toda a nossa existência, não meramente da vida espiritual. Um “eu” pode querer encontrar Deus, enquanto outro “eu” deseja encontrar a mulher/homem da sua vida, e outro ainda almeja apenas um aumento do salário. Toda a nossa a vida se resume a uma simples equação: sujeito + acção. Exemplo? Eu (sujeito) tenho sede (acção); o Miguel quer ver um filme; a Dº Maria das Dores quer ver Deus; etc.

O que a maioria das tradições espirituais não faz é questionar o sujeito. Se alguém diz, Eu quero atingir a iluminação, algumas escolas tentarão oferecer os seus serviços na tentativa de alcançar o desejo do “cliente”. Outras escolas vão um pouco mais longe, e tentam destruir o desejo em si, e não o objecto de desejo. Ou seja, tentam polir a mente de forma a esta ver-se livre do desejo. Contudo, o sujeito da acção continua presente, o “eu” permanece incólume e inquestionado.

Deste modo, são prescritas infindáveis receitas para a felicidade, inúmeras técnicas e truques para finalmente trazer a paz de espírito tão desejada, ou a compreensão da realidade que há tanto tempo se buscava. Porém, nunca nada funcionará, porque todas as respostas são baseadas nas perguntas erradas. As tradições espirituais oferecem respostas para perguntas como “o que fazer para ganhar o Céu?”, “como ser uma melhor pessoa?”, “como atingir o Nirvana?”. Todavia, a única resposta que interessa poucos a dão, porque também poucos fazem a única pergunta que interessa, porque quase todos pensam saber a resposta. É por isso que tão raramente se ouve alguém sinceramente perguntar “quem sou eu?”.

Quando digo que nada funcionará dentro do paradigma espiritual convencional, digo-o em termos profundos. À superfície, muitos serão os resultados: a meditação fá-lo-á mais calmo quando estiver preso no trânsito ou em alguma reunião infernal na empresa; as mais diversas terapias ajudá-lo-ão a ver o mundo de forma diferente e a interagir com os outros de uma forma mais amorosa, mantendo um delicioso sorriso nos lábios permanentemente; determinadas visualizações e pensamentos realizarão aquele sonho de infância e poderão até curar aquela doença aparentemente incurável.

Tudo isso será possível e, sob determinadas condições, provável até, mas ainda assim, nada daquilo descrito acima refere uma única palavra sobre “quem nós somos”. Se o propósito da espiritualidade é compreender a essência de quem somos, e muitos e respeitados mestres assim proclamaram, então a esmagadora maioria das escolas espirituais passou a correr e sem olhar para trás pelo cerne da questão.

Para aqueles verdadeiramente interessados em perceber o que é que está realmente por detrás de tudo, qual a essência da vida e de nós mesmos, qual a nossa verdadeira natureza, então, somente a esses poucos deverá ser dito que todas as acções levadas a cabo em nome de um “eu” separado são invariavelmente inconclusivas. A ideia que temos de nós próprios como pessoa individual, longe de ser aquilo a ser limado e polido e transformado, é precisamente aquilo que nos impede de ver a real e profunda natureza da existência.

O objectivo da verdadeira meditação não é levar alguém a um determinado estado, não é acalmar a mente, não é cultivar metta ou amor universal, não é viajar até outras dimensões de consciência ou canalizar mensagens de seres de luz, não é abandonar o seu corpo físico em prol de turismo astral, não é nada disso. O objectivo e derradeira paragem na real meditação é a simples compreensão de que o “meditador” não existe. De que o conceito que tínhamos de nós enquanto pessoas individuais num universo infinito é erróneo.

A compreensão profunda é a descoberta de que haver alguém à procura de algo é a raiz de toda a busca. O problema não está no algo que se busca, mas sim no alguém que o busca. Todos os problemas que alguma vez foram experienciados, todos os medos e traumas, todos os sofrimentos e anseios, tal como todas as alegrias e aspirações, tudo girou sempre em redor de uma entidade que nunca existiu. O “eu”, o sujeito que viveu todos os problemas em toda a nossa vida, é um ser que nunca nasceu. O “ego”, o arqui-inimigo de todo e qualquer aspirante espiritual, na verdade, não existe. O demónio interior contra o qual todo o meditador sempre lutou não passa de uma falácia.

Esta é a verdade suprema que muitos mestres proclamaram ao longo dos tempos. Aqui está ela nas mais simples palavras: o “eu” não existe. Esta é a resposta para todas as perguntas que a humanidade fez ou fará sobre si mesma: quem sou eu?, para onde vou?, o que faço aqui?, de onde vim?, qual o caminho para a felicidade?, porque é que nada disto parece fazer sentido?, etc.

Acalmar a mente faz sentido enquanto acreditamos que existe alguém a controlá-la. Treinar a paciência fará sentido enquanto acharmos que há alguém que a possa desenvolver. Salvar todos os seres tem a sua lógica quando achamos que existem seres. Fazer boas acções faz sentido quando acreditamos em pessoas separadas e num Deus que nos recompensará por isso. Obviamente, tudo isto tem o seu lugar no mundo do dia-a-dia. Ajudar os outros é louvável, sublimar a mente e a personalidade é gratificante. Mas, espiritualmente, a soma é zero. Pura e simplesmente, nada tem a ver. É como escavar um buraco para chegar ao céu.

A verdadeira busca espiritual consiste na investigação honesta e implacável sobre a nossa verdadeira identidade. Esquecendo tudo o que foi aprendido e lido e visto e assimilado, quem realmente sou eu? Se olharmos bem, veremos que existe algo em nós que não tem problemas, não sofre com os males do mundo, que não deseja atingir ou alcançar nada, que não tem medo da morte, que, acima de tudo, não tem medo da vida. Mais importante e correcto, não é algo em nós, mas sim nós próprios. A única coisa que tem problemas é a ideia que temos sobre nós próprios. A única pessoa a precisar de cura é aquela que imaginamos ser.

“Quem tiver olhos que veja, quem tiver ouvidos que oiça”. A verdade está perto, tão perto que ninguém sonha que ela se poderia tão intimamente ali esconder. Antes do próximo pensamento, antes da próxima emoção, ela lá está: a nossa verdadeira essência, imperturbavelmente presente e silenciosa, convidando-nos a compreender.

Enfim, não somos quem pensamos ser. Somos todos vítimas de um equívoco de identidade deveras inocente e subtil. Sofremos de um distúrbio de personalidade a nível espiritual. Somos todos sonâmbulos numa hipnose colectiva. Não há problema se a hipnose continuar. Ninguém se importará ou sofrerá com isso porque, na realidade, ninguém existe, nem mesmo um Deus que se importe. Somos todos personagens num sonho. Ninguém se preocupa com o que se passa se é tudo um sonho. Na pior das hipóteses acordaremos.

Dré

Published in: on 16/03/2011 at 1:46  Comments (1)  

o n e i d e a

hundreds of religions

hundreds of spiritual paths

hundreds of esoteric practices

hundreds of good-deed doers

all fools

all full of beside-the-pointness

all fueled by one single idea

 

one idea

and a whole world is built upon it

millions of beings striving under one idea

thousands of wars

waged in the name of one idea

billions of dreams, fears,intentions, endeavours

all nurtured in the minds of all beings everywhere

all embraced by one single idea

the mother-idea

the mother-idea of chaos

the mother-idea of birth and death

the mother-idea of confusion

of delusion, illusion and dream

the mother-idea of all twoness

of all apparent duality

the mother-idea

of all apparent strife to overcome it

 

one idea

and hell breaks loose in all beings’ hearts

everywhere everytime

this one idea is the idea of one

of being one

only one

one amongst innumerable others

a person in the crowd

the individual in the multitude

just another brother or sister

in the congregation

the idea of being one against the many

the part against the whole

the particular opposing the universal

 

this one idea settles in

and the vulnerable one is born

the desperate one is born

the naked one gets exposed

pain and suffering emerge

longing and seeking materialize

meaninglessness becomes the truth

shouted in the heart

 

just one single idea

where did it come from?

who is that one amongst the many?

 

solve this question

and you will find the only answer

everyone everywhere everytime

has ever sought for

everyone everywhere everytime

under whatever disguise

only really wanted to know the Truth

 

find the one looking for the Truth

and you will find that the Truth

is the one who is

looking

 

teo jasmin

Published in: on 15/03/2011 at 21:56  Deixe um Comentário  

everywhere everytime everyone

everywhere everytime everyone

lost in a lostness beyond imagination

searching for scraps of happiness

oblivious to the obvious

looking for a way out

of a maze they forgot never existed

 

everywhere everytime everyone

living under the spell of ignorance

the hypnosis of individuality

building edifices of unreality

nurturing heroic stories of no one at all

striving to get to places

unaware of the inevitable hereness of This

lost in imaginations

of invented times and memories

negligent of the inescapable nowness of This

 

everywhere everytime everyone

struggling amongst the crowd

unconscious of the Oneness of it all

killing and hatin

gin the name of concocted realities

in the name of beliefs

based upon nothing absolutely at all

 

everywhere everytime as everyone

Ultimate Reality Is

without exception

without intention

with and without anything whatsoever

all happening and dishappening

for the sake of eternally nothing at all

 

isness beyond limits

beyond any concept of limitedness

eyond any concept of a concept

beyond the beyondest Beyond!

 

(“I wonder, I am going to far in saying these things?”

Is there someone to understand This?)

 

teo jasmin

Published in: on 15/03/2011 at 21:47  Deixe um Comentário  

nothing to say

there is nothing to say really

words fail – unfailingly

although their failing is part

of the always-perfect-success of things

 

not that there is nothing to say

there is just an intriguing absence

the absence of someone

to either say it or hear it

 

and it is in this fascinating absence

that the dialogue of Oneness

reveals its true essence

it is in the absence of speaker-and-listener

that words reach their deepest meaning

 

teo jasmin

Published in: on 15/03/2011 at 21:46  Deixe um Comentário  

“I”

Is

For

Illusion

.

Teo Jasmin

Published in: on 15/03/2011 at 21:40  Deixe um Comentário  

The mystery of human drama

Aah, what a mystery it is, and most mysteriously intriguing, because it is here, now, throughout all time available to all.

How is it even possible that it happens, how such a phenomenon ever came to be?

Flooded in the infinite, a desire comes to search and delve and get submersed in the apparent fragments of a scattered reality, in the unfathomably tiny little pieces of the finite imagined world.

There is only one illusion in the human brain, there is only one sin in all religion, one logical flaw in all philosophical systems, only one demon in the hell realms, only one demi-god in all the heavens. There is only one lie haunting mankind: “I”.

The smallest word in the whole dictionary, causing immeasurable unimaginable unsought and undesired immense trouble and suffering and confusion, loneliness, sadness and all the diseases and demons of the human soul.

The sole idea that we exist as individual units of consciousness, as separate islands of flesh and bone, of lonesome trees lonely wavering in the wind of our own thoughts and emotions. That sole idea turns us into meaningless fragments of our True Nature. Apparent fragments, floating in that which we only are. We are dreams ghosts specters wandering lost and confused in the infinite space-like emptiness that we only ever exclusively are.

With that idea comes the entrenched belief that, somehow, we are perishable. That we can, even if in the slightest, be affected. Oh, what a dream this is, what a funny little drama-dream this is.

All passes through us, the universe is born and passes away and is born again, daily, and we remain without a speck. Since the day we are “born” to the day we “die”, all hell floats through, all pain and mud and blood and viscera passes through us, still not one speck gets printed in our Reality. All worlds in all the galaxies can one day explode, and nothing will happen. That is the mystery: That our True Nature, dependent upon nothing, would disguise in such a way, making us believe that we depend upon the slightest thing, be it either love or happiness or career or air or food.

Eternally we are That Which Never Passes, That Which Never Is Born, That Which Never Passes Away. That, the Eternal, the Infinite, That is the only “I” there ever is. The “I” that suffers and expects and dreams and hopes and craves, that “I” never ever existed. Not in all eternity has it ever been; never will be.

teo jasmin

Published in: on 15/03/2011 at 21:24  Deixe um Comentário  

B u s c a s …

(to see the whole things go here: http://espalharcoisasboas.wordpress.com/2011/03/07/vipassana/)

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Olá! Pediste um comentário… Cá vai!=)

Gostei muito de ler as tuas palavras – revi-me em inúmeras coisas. Lembrei-me dos pequenos retiros budistas que fiz – a energia e o clima que sempre se sente nesses momentos. Lembrei-me por outro lado dos longos retiros que também fiz – e da tensão e frieza e alienação que neles se vive.

 Ao ler-te, lembrei-me dos tempos em que profundamente me dedicava à busca interior, frustrado com a constante “falta de resultados”, sem perceber que estes não podem chegar se não soubermos onde procurar. Nunca se alcançará o céu escavando um buraco na terra.

Sinto um carinho por ti muito grande ao ler estas tuas palavras, porque é muito bonito sentir a tua genuinidade e sinceridade e honestidade na tentativa de te tornares um ser humano melhor, mais sereno e compassivo, mais humano.

Em última análise, não há nada de mais nobre neste mundo, pelo menos esta é a minha opinião, do que o voto do bodhisatva (cancelar a própria libertação final até que todos os seres atinjam a libertação), ou mesmo até a simples máxima budista, “que todos os seres sejam felizes”.

Porém, e não é por capricho que borro a pintura em tão doce quadro, está presente em toda esta abordagem uma profunda, ainda que subtil, incompreensão da Realidade. O mais importante na busca espiritual é descobrir a essência daquilo que somos, é compreender – directa e inequivocamente – a natureza da existência. Para isso, há uma só pergunta à qual é necessário responder: “quem sou eu?”

É esta a pergunta que eu te coloco. Depois de 10 dias de meditação; depois de possivelmente mais de 100 horas de meditação: quem és tu? Durante 10 dias observaste a respiração; durante 10 dias observaste os pensamentos, as sensações físicas, as emoções, etc. Observaste a impermanência de tudo, mas algo se manteve permanente durante todo o processo. A impermanência é observada a partir de um ponto não ele impermanente. Onde estás tu que vês toda a impermanência passar? Quem és tu?

Na verdade, tudo o que observaste foram fragmentos a flutuar na tua consciência – sensações, pensamentos, emoções. Mas e a própria consciência? Será ela impermanente também? Alguma vez a viste chegar? Alguma vez a viste partir? Há algo tão próximo de nós, tão íntimo, tão constantemente presente que raramente pensamos nele. Será que aquilo que procuramos afincadamente na busca espiritual está mais próximo do que imaginávamos? Tão próximo que nunca reparámos nele?

“Que todos os seres sejam felizes” é uma aspiração lindíssima, mas errónea. É uma afirmação que pressupõe a existência de seres. Mas não foi o Buda que proclamou o Anatman (o não-eu, a ausência de um ego individual)? Se não há nenhum ego individual, quem serão esses seres que pretendemos salvar? Gautama não disse que o Não-Eu é um estado que se alcança após longa jornada espiritual. Ele afirmou que o Não-Eu é a essência da própria Vida- Existência.

Será a individualidade a maior mentira do mundo? Todas as acções espirituais – ser mais calmo, compassivo, paciente, ter a mente mais pura, etc. – pressupõem sempre a existência de alguém que as faça – ou sofra os seus efeitos. Mas onde está esse alguém? Quem és tu? Serás tu um ser individual que poderá um dia, através de meditação e purificação e contemplação e progressão, atingir algo mais elevado, mais sublime, mais eterno? Ou será a crença de que és um ser individual separado do todo que te impede de ver que tu és, já e neste preciso momento, a Realidade Suprema que procuras?

O caminho espiritual pressupõe a existência de alguém que o percorra. Onde está esse alguém?

Dré

Published in: on 09/03/2011 at 23:57  Deixe um Comentário