Um Eremita na Corte

     "Na corte real teve lugar um faustoso banquete. Tudo havia sido disposto de tal maneira que cada pessoa tinha de se sentar à mesa de acordo com a sua classe. Ainda não tinha chegado o monarca ao banquete, quando apareceu um eremita muito pobremente ataviado, que todos tomaram por um mendigo. Sem vacilar um só instante, o recém-chegado sentou-se no lugar de maior importância. Aquele comportamento insólito indignou o primeiro-ministro que, gravemente, lhe perguntou:
     – Acaso és um vizir?
     – A minha classe é superior à do vizir – ripostou o eremita.
     – Acaso és um primeiro-ministro?
     – A minha classe é superior à de um primeiro-ministro.
     Enfurecido, o primeiro-ministro inquiriu:
     – Acaso és o próprio rei?
     – A minha classe é superior à do rei.
     – Acaso és Deus? – perguntou mordazmente o primeiro-ministro.
     – A minha classe é superior à de Deus.
     – Nada é superior a Deus! – berrou, fora de si, o primeiro-ministro.
     – Agora conheces a minha identidade. Esse nada, sou eu."

Retirado de Os Melhores Contos Espirituais do Oriente – Ramiro Calle.

Obrigado, maninha, por este livro fofinho!

Published in: on 27/08/2007 at 21:47  Deixe um Comentário  

Diarios de Sogenji – XVII (27 de Maio a 23 de Agosto)

 

2007, Maio 27 

 

     No Sanzen o Roshi pediu-me para lhe mostrar a respiracao. O rosto estava o habitual, com um sorriso muito subtil… Eu mostrei-lhe a minha respiracao, desta vez feita pela boca, como ele faz, para se perceber melhor. De repente, o rosto dele ficou muito serio, como que zangado, e soltou um grito, ao mesmo tempo que fez um gesto com o Keisaku como se estivesse a cortar uma arvore com um so golpe. Assustei-me bastante e deu-me vontade de chorar. Imediatamente ele fez soar a campainha. Eu levantei-me com as pernas a tremer e sai.

 

2007, Maio 28

     Mais um dia livre. Ouvi um pouco de Dredg nas amostras da Amazon e reparei que uma das musicas mais bonitas do "El Cielo" se chama "Sanzen". Sera o mesmo Sanzen que eu tenho todos os dias com o Roshi?

     De regresso a Sogenji, a meio caminho entre Okayama e Maruyama estava um grupo de 6 a 8 agentes da policia a beira da estrada. Tive o pressentimento que ia ser o feliz contemplado. Mandaram-me encostar e um deles comecou a falar – naturalmente em Japones. Eu la dise, "Sumi masen, watashi no niongo heta desu. Wakari masen", que e como quem diz, "Desculpa la, meu, mas nao percebo patavina do que dizes!" Ele mudou para o belo do Ingles, o que nem sempre e sinal que a comunicacao va ser mais facil.

     "Is this your bike?", perguntou. Eu respondi, "More or less", e isto deve ter feito azedar as coisas, embora tenha acrescentado "It’s Sogenji’s". O homem, com os seus 1,90m, comecou a falar cada vez mais proximo de mim, com uns olhos um pouco ameacadores. "Where do you live?", ao que eu respondi, "Sogenji". "Where do you live?", novamente. "Uh, Sogenji temple". "Sogenji tempuru? Where do you live?". Eu a olhar para os olhos do homem um bocado estranhos e a lembrar-me do que disseram da policia Japonesa – tao educada que as vezes ate tem vergonha de passar multas (principalmente a estrangeiros), mas que quando as coisas azedam e cacetade de 7 em pipa! Ja me estava a ver a provar do cacetete Japones (dizem que pequenito…). A pergunta do "where do you live?" continuou mais umas vezes, eu a tentar dizer a mesma coisa por outras palavras – "Sogenji, Maruyama, Shodo Harada Roshi, Zen temple…", parecia uma busca no Google.

     Tambem nao ajudou o facto de nao ter comigo nem passaporte nem "Alien Registration Card". Por obra do acaso, tinha comigo o livrete do Seguro de Saude que tinha ido fazer a cidade (e que devia ter feito 5 meses antes). Ele la perguntou o meu nome e data de nascimento enquanto via se condizia com o que estava escrito em "kanji" no tal livrete. A historia acabou com o cavalheiro a dizer que desta vez ok, mas que todos os estrangeiros deviam andar com passaporte ou "Alien Registration Card".

     Isto fez-me lembrar de um episodio "engracado" passado na Tuga com 3 agentes da Judiciaria na estacao do Campo GRande, onde fui denunciado por alguem como estando a incomodar pessoas no Metro e a pedir-lhes dinheiro. Seja na Tuga ou no Japao, a policia nao me da abebias… Um gajo bem quer roubar bikes e cravar uns trocos descansadinho e de forma honesta, mas a policia vem sempre chatear… "Deixem-me trabalhar", pa!

     Mas, ainda antes de chegar a Sogenji, fui a uma loja chama "Best" (a tipica mania Japonesa de dar nomes ingleses as coisas, mas depois nao falarem uma palavra de ingles) em busca de uma especia de cronometro. Quando ia a passar, vi uma camara digital com uma imagem colada no visor. Nao liguei muito, mas depois fiquei curioso por saber de que local seria a fotografia. Pensei, "Quase que aposto que e alguma praca europeia ou assim". Aproximei-me e pareceu-me logo ser algo de arquitectura ocidental. Depois fiquei surpreendido ao ver que era o Mosteiro dos Jeronimos, visto da Fonte Luminosa. Nao tive mais que 99% de certeza (podia ser algo muito parecido), mas achei curioso o facto de ter voltado atras para ver que imagem era aquela, para depois ver que era da minha linda cidade.

     Por falar em linda cidade, varias pessoas aqui ja estiveram em Lisboa e gostaram. Uma alema inclusive disse que a considera como uma das mais belas cidades da Europa.

 

2007, Junho 2

 

     Sanzen: "Para de carregar um saco de merda, uma saco de lixo e tomares isso por quem tu es… Esses pensamentos que tens, essas memorias, tudo isso e um saco de merda. Tu ves-te preso nisso, com dificuldade em respirar, dificuldade em sair dele. E como uma larva presa num casulo, mas que acaba por se transformar numa borboleta. Isso mesmo e o Zen. Tu nao estas preso, na verdade voas livremente. Isto e a verdade do Andre ("This is Andre’s truth".).

 

2007, Junho 3

 

     Dia 0 do Osesshin do mes de Junho. Decidi ligar a I___, 4 meses e meio depois do ultimo telefonema. Tinha algum receio, mas tu fazes magia com as coisas mais simples… Medo do que? Foi muito bom falar contigo, sentir a tua energia. Encheste-me de luz e saudade… Toquei a agua por ti… contigo. Amo-te, crianca de Luz! Es profunda como o oceano, infinita como o ceu estrelado, mas a tua presenca e suave e leve como a caricia de uma crianca…

 

2007, Junho 5

 

     Durante o longo Kinhin que temos durante os Osesshins, iamos todos a subir uma escadaria, rumo a um dos cemiterios, quando, a descer a mesma escadaria,vimos uma cobra com o seu belo metro e meio! Vinha toda ligeira, parecia um sabonete a escorregar! La nos assustamos um pouco e rimos tambem um pouquito.

 

2007, Junho 7

 

     Parabens, C___ do meu coracao! Espero que tenhas tido um dia maravilhosissimo!! Ti gosto mucho! Tenho saudades da tua impressionante alegria e estabilidade.

 

2007, Junho 10

 

     Ultimo dia do Osesshin, dia de Camoes, de Portugal, das Comunidades Portuguesas e da C___ O___. Outra que ja nem se deve lembrar de quem eu sou! Espero que esteja tudo bem contigo! Parabens!

     Ultimo Sanzen do retiro, Ban Sosan: "Como e que e, ja te consegues sentar completamente no zabuton (colchao onde nos meditamos)?" "As vezes", respondi eu. "As vezes e bom. Se conseguires sentar-te completamente a todo o momento nao conseguirias ir a casa-de-banho, comer, etc.", disse o Roshi a sorrir. A C___ acrescentou, "Ele nao te esta a provocar, ele esta a falar a serio. Sabes disso, nao sabes?", ao que anui com um "hum, hum". Depois o Roshi continuou: "As vezes e bom, e dai que se comeca, e dai que se parte para mais. Nao desistas", disse ele como que lendo os meus pensamentos. Soou a sineta e levantei-me. Tinha a esperanca que ele dissesse mais alguma coisa, como ja fez varias vezes. A meio das venias ele acrescentou, "Andre is very bright". Fiquei engasgado com o comentario. Aguardei 1 ou 2 segundos. Olhei para o Roshi que sorria, como de costume. Limitei-me a dizer, "Hai" ("Sim" ou "Ok") e sai.

 

2007, Junho 13

 

     Sanzen: "Andre is a very honest and bright young man. If you cultivate your essence, you will manifest a great functioning". Disse tambem que "Susokkan is not a breathing technic; susokkan is for you to know yourself".

     Ontem recebemos uns "caps" da equipa de basebol de um liceu aqui dos arredores, um liceu que creio ser de orientacao budista e que, de vez em quando, envia para aqui uns jovens por umas semanas. A C___ deu-nos os chapeus a hora de almoco, e muitos de nos tinhamos colocado os respectivos! Estava para ver a reacção do Roshi, que tambem tinha um chapeu "a espera" dele na mesa. Mas ele chegou e nao fez nenhum comentario, vinha muito serio.

     Porem, hoje estavamos todos a espera dele para irmos para o Takuhatsu e, para espanto e risota geral, o Roshi trazia o belo do "cap" colocado na cabeca, com um robe formal negro para o Takuhatsu. Foi muito comico. A saida de Sogenji, ele deu o bone a uns rapazinhos que estavam ali nas sua bicicletas.

 

2007, Junho 14

 

     Hoje fui Tenzo. No cha com o Roshi, ele serviu-me o "macha". Eu bebi, mas estas situacoes sao sempre um pouco estranhas – o Roshi mesmo a minha frente, a espera que eu acabe de beber o cha, sem trocarmos uma palavra, na falta de uma lingua comum. Mas depois la olhei para ele, ele olhou para mim. La sorrimos e ele disse: "You have a good energy".

 

2007, Junho 15

 

     Chegou o livro que encomendei da Amazon, o livro que mais marcou a minha vida: O Poder do Agora. Encomendei-o para o oferecer ao R___, mas tenho lido algumas partes. E impressionante a capacidade que o Eckhart Tolle tem para me inspirar e tocar profundamente.

 

      "Love is a state of being. Your love is not outside; it is deep within you. You can never lose it, and it cannot leave you. It is not dependent on some other body, some external form. In the stillness of your presence, you can feel your own formless and timeless reality as the unmanifested life that animates your physical form. You can then feel the same life deep within every other human and every other creature. You look beyond the veil of form and separation. This is the realization of Oneness. This is love.

      What is God? The eternal One Life underneath all forms of life. What is love? To feel the presence of that One Life deep within yourself and within all creatures. To be it. Therefore, all love is the love of God."

 

     Tocaram-me imenso estas palavras e alguma lagrimas cairam (felizmente nao em cima do livro!). Nao era tristeza, mas tambem nao era alegria. Era uma sensacao de regresso a casa, a um local mais profundo. Paz, mas simultaneamente a nostalgia de pensar "Porque tanto sofrimento?". Tenho que conhecer este homem e se for preciso vou ate Vancouver para o encontrar. Sinto-me mesmo inspirado pelas palavras dele. Existe mesmo aqui uma ligacao karmica qualquer…

 

2007, Junho 23

 
     Ontem chegou o J___, um amigo americano que conheci na Plum Village. E bom te-lo por ca, embora ele esteja a passar por uma fase complicada.
     Li hoje tambem um mail que recebi do F___, o meu melhor amigo da Plum Village, precisamente quando o J___ me tinha perguntado se tinha noticias deste belo Noruegues. Foi bom receber novidades dele. E impressionante como, passado mais de um ano de ter deixado a Plum Village, ainda sinto imensas saudades do F___ e doi-me o peito as vezes ao pensar nele e em como sinto a falta dele.
     Tenho me lembrado de todos os aniversarios – coisa impossivel de imaginar se estivesse em Portugal – , mas esqueci-me de um importante: do amigo R___. Nao sabia bem se era a 9 do 4 ou a 4 do 9. Com isto, acabei por deixar passar aquele que acho que e o teu dia: 9 de Abril. Mas prometo compensar-te e, por isso, dia 4 de Setembro dar-te-ei os parabens. Combinado?=)

2007, Junho 30

     O Roshi regressou das quase 2 semanas em que esteve em Italia e Suissa. No Sanzen, ele disse coisas do genero: "You have a great faith. With some Ki in you, what a great functioning you would manifest. What about that? Can you do it?". Eu respondi, "Wakaranai" (Nao sei). Ele riu-se e disse: "You cannot say that right from the begining. Your parents would cry if they heard you. Portugal is one of the 7 countries who discovered more countries in the world. You have that Ki inside you, you have that blood flowing inside you…"

2007, Julho 2

 
     Fizeram-me um bolo de chocolate e cantaram-me os parabens, como de habitual. Depois pediram por um poema, tambem como de habitual, mas, ao contrario do que e costume, tiveram mesmo que levar com uma declamacao. Nao de um poema meu, felizmente, mas uma traducao minha de um pedaco de Alberto Caeiro – que recebeu alguns elogios por parte da plateia (nao e de admirar, trata-se do melhor poeta do mundo!). No bolo vinha tambem uma rosa, cujas petalas (algumas) vao ja quase a caminho da Tuga. Alem disso, o meu amigo R___ ofereceu-me o "Angels & Demons" do Dan Brown e o "Synchronize" do JAmiroquai. Sao uns amores estes pequenos.
     Aqui fica o poema, agora na lingua de Camoes (ou, melhor dizendo, na lingua de Pessoa). Es o maior, Fernando Caeiro. Ups, quero dizer, Alberto Pessoa… Enfim!

     "Nao basta abrir a janela
     Para ver os campos e o rio.
     Nao e bastante nao ser cego
     Para ver as arvores e as flores.
     E preciso tambem nao ter filosofia nenhuma.
     Com filosofia nao ha arvores: ha ideias apenas.
     Ha so cada um de nos, como uma cave.
     Ha so uma janela fechada, e todo o mundo la fora.
     E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
     Que nunca e o que se ve quando se abre a janela."

 
     Qual Buda Shakyamuni, qual Lao Tzu ou Chuang Tzu. O verdadeiro mestre da sabedoria oriental e o nosso "Nandinho"… Puro Zen, puro Tao…

2007, Julho 3

     Recebi uma encomenda da minha mae, com muito amor e coisinhas boas. Quatro pacotes de Cerelac / Milfarin e 5 pacotes de bolachas. Alem disso, recebi 3 cd’s para me entreter com alguma boa musica Tuga. Um dos cd’s foi uma escolha acertada e natural. Os outros 2 cd’s sao um pouco mais curiosos: Amalia Rodrigues e Tony Carreira. Mas como tenho andado a ouvir muito Tool, A Perfect Circle, Mars Volta e Dredg, acho que um pouco de fado ou do romantismo do Sr. Carreira so farao bem. Obrigado, mae. Es um amor.
     Escrevo isto ao som do outro album que me ofereceste: "Lado a lado – Mafalda Veiga & Joao Pedro Pais". Ficam aqui dois pedacinhos de meiguice da Mafalda… So para ti, mae. Um pedacinho sobre a nossa cidade, outro sobre nos…

     "Ai Lisboa, estendida sobre o rio.
      Ai Lisboa, de mil amores perdidos.
      So de quem puder sentir
      Que ha um mar em ti escondido."

     "Seremos cumplices o resto da vida…"

2007, Julho 10

     Acabou mais um Osesshin. O ultimo para mim durante uns bons tempos. Balanco? Cinco pacotes de bolachas exterminado e 2 kg de Cerelac mandados abaixo. Zazen..? Who cares?!
     Recebi tambem um outro cd, no dia 1. Agora e que vai ser ouvir sonoro: "Sam, the Kid – Pratica(mente)". Merci beaucoup, cheri.

2007, Julho 12

     Amanha e sexta-feira 13. A minha ultima sexta-feira 13 foi, na verdade, um dia de sorte. Ou sera que nao…? Quem podera dizer? Fariamos amanha 9 meses se as coisas tivesses sido diferentes. Mas como diz o Mestre Caeiro, "Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo".

2007, Julho 14

     Ha cerca de 2 semanas que chove quase continuamente aqui em Sogenji – estamos na epoca da chuva, as moncoes japonesas. Mas hoje e ainda uma noite mais especial. e noite de tufao. Chove e faz vento e e bonito. A convite  do meu amigo St___, sentei-me um pouco com ele no alpendre do Kyoso, partilhando uma Yaza em noite de tempestade.
     Amanha parte o meu amigo R___. Adeus, companheiro Polaco!
     Hoje chegou a cartinha e o peluchinho da minha mana! ‘Bigado, princesa!

2007, Julho 15

    Partiu o meu amigo… Sniff, sniff!
    Parabens, "Ya". Hoje e o teu dia. Bem, todos os dias sao teus… Ja viste a tua sorte? Aproveita-o(s) bem! Beijo grande.

2007, Julho 16

    (…)

2007, Julho 22

     Fui mais uma vez mandado parar pela policia. Ate estava a admirar o carro deles, um Toyota punjante, quando de repente sai de la um agente disparado na minha direccao. Como desta vez tinha o "Alien Registration Card", eles foram mais simpaticos comigo. Depois de muita (des)conversa e de muito "no te entiendo", la fizeram sinal para eu me pirar.
     Ha dias recebi uma carta que nao estava a espera de receber. Muito fofa e amorosa. Merci, merci, C___.

2007, Julho 23

     Pirou-se a S___. "Bye, bye, miss american Y".
     Nunca pensei que esta musica de Tool se pudesse aplicar tao bem a mim. Nao estava habituado a "desgostar" tanto de alguem. Diz a letra, "Wear the grudge like a crown of negativety. Desperate to control all and everything. Unable to forgive… And [I’m] sinking deeper… Saturn comes back around… to consume you ‘till you choose to let this go".
     Parabens, I___. Que tenhas um dia amoroso! Espalha luz, espalha brasas!

2007, Julho 29

     Here I am again, hitting the road… A ambigua sensacao de estar dentro de um autocarro/comboio/aviao, malas as costas, pes ao caminho. Um misto de excitacao e ansiedade, aventura e incerteza. Esta viagem tem, porem, o doce travo do regresso a casa – depois de 9 meses em terra estranha.
     Algumas coisas se passaram nos últimos tempos, embora nao as tenha anotado – peco desculpa ao meu Diario (de Noticias). Em Junho, durante e depois do Osesshin (que decorreu de 4 a 10) tomei a decisao de abandonar Sogenji depois do Kotai – a mudanca de funcoes que decorre todos os semestres. Como pensava que o Kotai seria a 31 de Julho (embora vá ser a 4 de Agosto), decidi marcar a viagem de regresso para inicios de Agosto. O mais proximo que consegui foi 30 de Julho.
     Falei com a C___ sobre isto no dia 17 de JUnho, a vespera da partida dela e do Roshi para a Europa. Regressaram a 30 de Junho, mesmo a tempo do Ban Sosan. O Sanzen nesse dia correu, como habitualmente, de forma muito positiva (ver "2007, Junho 30") – o Roshi parecia quase contente por me ver, sorriso pregado no rosto a minha espera. Mal sabia eu que iria ser o ultimo…
     Dia 1 de Julho foi um dia livre. De regresso a Sogenji, a C___ perguntou-me como estava a minha situação – se mantinha ou nao a decisao de partir. Quando falei com ela no dia 17 de Junho, ela disse coisas do estilo: "Porque vais embora antes do teu ano acabar? Os compromissos sao para se cumprir, as promessas nao sao para se quebrar. Nao es uma crianca, da-me uma boa razao para te ires embora", etc., embora esta minha citacao esteja muito enviesada e incompleta. Ela foi ate bastante compreensiva. Acabou por dizer, "Pensa nessa tua situacao e quando eu e o Roshi viermos da Europa conversamos".
     Assim sendo, alinhavei umas ideias durante as quase duas semanas que houve de intervalo, de modo a nao vacilar perante o Sr. Shodo Harada. Essas ideias resumiam-se a uma profunda desmotivacao e cansaco psicologico, fisico e emocional, bem como a "sensacao" de que a minha pratica nao estava a dar frutos alguns. Porem, nao foi necessario falar com o Roshi. No ja referido dia 1 de Julho, a pergunta tambem ela ja referida da C___, respondi com um claro e indiscutivel "yes". Ela respondeu simplesmente, "Ok, I’ll talk to the Roshi, so he doesn’t count on you for the next training period".
     Ela deve ter falado com o cavalheiro nesse mesmo dia, pois no dia seguinte, como prenda de aniversario, recebi no Sanzen um Roshi serio, zangado e com um discurso duro – embora nao tenha anotado nada e agora nao me lembre do que ele disse; apenas me lembro de ter ficado de neura durante toda a manhã. A partir desse (fatidico) dia, todos os meus Sanzens, com raras excepcoes, resumiram-se a alguns segundos de silencio, rasgados apenas pela sineta do Roshi, marcando o fim do Sanzen. Mesmo as referidas "raras excepcoes" limitavam-se a coisas como "Nao pares, triiimmm", ou "Hoje es o cozinheiro, triiimm" (como se eu nao soubesse). Este silencio durou ate 28 de Julho. O Sanzen desse dia, tal como o do seguinte (ou seja, os 2 ultimos), foram os Sanzens de "despedida".
     Esta mudanca de atitude nao se ficou pelos Sanzens, mas tambem afectou a postura geral do Roshi em relacao a mim. Todos os pequenos comentarios que o Roshi costumava fazer em varias ocasioes – sempre comentarios bem-dispostos e que revelavam alguma "amizade" -, desapareceram por completo. Por um lado, acho que o mestre e profundo demais para se chatear com o facto de eu me ir embora. Porem, por outro lado, disseram-me que quando o monge portugues de Sogenji abandonou o templo subitamente, o mestre bateu com o Keisaku em toda a gente no Sanzen seguinte. Pessoalmente, considero isto um comportamento de alguem que esta chateado!
     De qualquer forma, a C___ disse que estes Sanzens de silencio eram perolas do Roshi, a dadiva dele a mim, agora que sabia que estava de partida. Isto encontra alguma confirmacao na 1ª frase do 1º dos ultimos 2 Sanzens. "Tenho estado a mostrar-te a essencia do Buddhadharma, mas tu nao estas interessado. Estas mais interessado na forma, no acessorio. Depois continuou com algo do genero, "Dominaste bem a forma do Zen, mas nao estas nem perto de compreender a essencia.. E bom que vas embora". Vais la para fora, arranjas a tua vida, mas nao encontraras Buddhadharma algum ai. Porem, algo te fez bater a esta porta. Tens uma afiliacao karmica  com este caminho. A questao e ‘o que vais fazer com isso?’".
     O ultimo Sanzen deixou-me particularmente aborrecido, logo no dia da minha partida. Mas a vida continua e eu tinha muita coisa a tratar (incluindo uma ultima oportunidade de lavar a casa-da-banho mais "cheirosinha" de SOgenji). Minutos antes da minha derradeira partida, la tive o habitual cha de despedida com o Roshi. Deu-me duas caligrafias (como e habitual tambem, embora eu desconfiasse que talvez nem isso ele me desse…). A 1ª diz, "o tempo nao espera por ninguem", a 2ª, "todos os dias sao a tua vida". Perguntou-me tambem se ia ver os meus pais. Eu respondi que sim, embora eles nao soubessem que eu estava de regresso. Ele pediu-me para ser amavel com eles, que as pessoas que se dao bem com os pais tem mais facilidade em despertar – atingir a iluminacao.
     Deu-me tambem uma nota de 10000 yenes, o que me deu um jeitao do camandro, pois estava com um saldo de 40 yenes. Essa notinha tem feito maravilhas hoje – 3 donuts, um batido de morango, 1 agua, um bilhete de comboio para a baixa de Osaka e vamos ver que mais. Talvez ainda me pague uma entrada num barzinho de strip, mas e apertado…
     Bem, nao pagou uma entrada num bar de strip e nem tal foi preciso… O strip veio ate mim. Downtown Osaka – foi a p… da loucura, Deus meu. Estas mulheres nao andam de saias, em calcoes. Aquilo sao cuecas; de ganga, tudo bem, mas nao lhe chamem outra coisa.
     Vim para Osaka, mas como o ultimo comboio para Kansai (o aeroporto) era as 22H30, tive que ficar a espera que a estacao abrisse de novo as 5H da manha. Andei quilometros ja, contei um predio com 50 andares, passei por ruas que fazem Las Vegas corar de humildade e a "Red Light District" virar a cara para o chao, ja vi dancar 4 meninas de hip-hop e recebi um presente de uma delas – um leque para me refrescar, pois esta calor -, ja me encontrei 2 vezes com o mesmo bebedo e falamos meia hora sobre Deus, Liberdade, Zen e Vazio, e agora abriguei-me da tempestade que caiu de repente, chuva e vento forte e os trovoes mais assombrosos que ja ouvi na minha vida – pela primeira vez em muitos anos, quase me borrei ao som da trovoada. Assombroso! Agora sentado a porta da estacao, so falta uma hora para a mesma abrir. Haja esperanca, e Deus seja louvado! Aleluia! (Por falar nisso, o bebedo disse que Cristo e doido – ja o encontrei pela 3ª vez.)

2007, Julho 30

     Mais "une voyage" com a Lufthansa – realmente sao uns impecaveis. Ate a paparoca vegetariana que reservei estava a maneira. Cheguei a Frankfurt por volta das 15H. Foram +/- 12 horas de viagem, mas passaram rapidamente, pois dormi pelo menos metade, para compensar a mui cansativa directa feita em Osaka.
     Meti-me no "quimboio" para downtown Frankfurt   e rapidamente me lembrei das palavras do D___ respondendo a uma pergunta minha: "Frankfurt? Nao tem grande coisa de interesse. E a mais americana das cidades alemas". Numa outra conversa, onde a N___ tambem estava, ela referiu que Frankfurt tem um zoo muito interessante. O D___, sempre perspicaz, notou muito prontamente que eu havia passado 9 meses num zoo, pelo que nao haveria necessidade de me meter noutro.
     Apesar das palavras do D___, 5 minutos depois de chegar a baixa "Frankfurtina" ja tinha visto mais coisas de interesse – para mim – do que em 9 meses no Japao. Definitivamente, as cidades europeias sao o meu estilo! Sai da estacao de Frankfurt e subitamente senti-me em casa. Alem disso, parece-me que esta cidade combina muito inteligente e eficazmente a classe da arquitectura europeia antiga com a imponencia envidracada dos arranha-ceus estilo americano. Pessoalmente, fiquei encantado.
    Naquela que deve ser a praca mais tipica da cidade, estavam duas mocoilas a tocar musica classica – uma com uma flauta e outra com um violoncelo. La lhes dei uns centimos e perguntei-lhes qual o compositor que estavam a tocar (perdoem-me a ignorancia, principalmente quando se esta na Alemanha). Mozart foi a resposta, nome sonante, mas que eu ja tinha excluido da lista de possiveis compositores, pelo facto de a musica soar muito animada e ligeira. Fazia o rapaz um pouco mais soturno… Isto para dizer que acho das coisas mais bonitas estar numa praca europeia a ouvir alguem tocar musica ao vivo – seja classica ou jazz ou outra.
     La jantei numa pizzaria. Falei um pouco com o que parecia ser o dono. Italiano, como mandam as regras, mas falava comigo em espanhol. Perguntou-me o que fazia eu em Frankfurt, la disse que vinha do Japao a caminho a caminho da velha Tuga e que tinha estado la 9 meses – mas que nao falava japones. Ele achou estranho e, entre outras coisas, disse "perdeste nueve meses de tiempo". Achei um perfeito disparate o que ele disse, vindo daquele contexto (a questao do nao falar japones), mas deixou-me a pensar se, fora desse contexto, o que ele dissera nao faria algum tipo de sarcastico sentido. Porem, essa e uma questao a qual nao estou a pensar responder.
     Acabei a janta e rumei (remei?) para a outra margem do rio que atravessa a cidade para assistir a um concerto de (passo a citar) "tango, bossa nova, valsa musette e flamenco" de um cavalheiro chamado Stefan Grasse, guitarrista acompanhado por um percussionista e um contrabaixista. A entrada da mini-tenda de circo que ia servir de sala de concerto fui informado do preco: 16€ (no cartaz que anunciava a actuacao nada vinha referido). Sorri e virei costas. Minutos depois vi que a desilusao se transformou em dadiva. Da rua ouvia-se perfeitamente a musica e a vista era bem mais interessante: a ja referida conjugacao arquitectonica antigo/moderno mesmo a minha frente do outro lado do rio; umas nuvens pintadas de rosa a pala do por-do-sol; e muitas "babes" e "babos" a correr, patinar e andar de bici – o que tornou tudo muito familiar e aconchegante.

2007, Julho 31

     Uma noite mal passada num banco de aeroporto, mas deu para descansar as pestanas um pouco. Dentro de meia-duzia de horas estarei a meia-duzia de quilometros de uma meia-duzia de pessoas que, quando a distancia de um mundo, sonhei duzias de vezes, dia e noite, em rever, abracar, amar… Agora tao perto de realizar este "sonho", agora que poderei abracar com carne e osso aqueles que abracei em mil realidades apenas imaginadas, por que sinto a maior indiferenca em relacao a isso? E frustrante realizar um sonho e nao sentir qualquer realizacao pessoal nisso.
     E um sentimento que me acompanha ha ja algum tempo, a sensacao de que nada realmente tem qualquer importancia. Sinto alguma ansiedade em relacao ao futuro – que destino me aguarda profissional e espiritualmente, etc. -, mas parece tudo passar-se na periferia. No centro de mim proprio, a resposta a maioria das perguntas surge com um encolher de ombros: "Nao sei…"
     Por vezes, tenho a esperanca que isto possa advir de alguma profundidade interior adquirida – sabe-se la como – ao longo destes "nueve meses de tiempo". Outras vezes, sinto que algo morreu, ou hibernou ou foi anestesiado, dentro de mim, algo que uma voz me diz poder ser importante – como uma crianca que desaprendeu a arte de brincar ou sorrir. A maioria das vezes, porem, creio nao ser nem uma coisa nem outra. Algo parece diferente, embora nao saiba o que ou o porque. "Eis tudo!", como diria Caeiro.
     Ontem, em Frankfurt, vi um jovem numa cadeira-de-rodas, provavelmente com paralisia cerebral, de boca escancaradamente aberta, como se quisesse engolir o mundo, enquanto que uma mulher, presumivelmente a mae, segurava a cabeca, impedindo-a de deslizar para a frente ou para trás. A imagem deixou-me pregado ao chao. O sinal ficou verde para os peoes, mas nao atravessei a rua, embora o rapaz estivesse do outro lado. So quando o sinal voltou ao vermelho o fiz apressadamente. Instintivamente quis dar dar uma moeda a senhora, pois tinha recentemente dado esmola a 2 pedintes. Imediatamente pensei, "Que estupidez! A senhora nao esta a pedir nada. Que utilidade teria esta moeda?". Percebi que tinha sido o instinto de ajudar que equivocadamente assumira a mesma forma manifestada nas duas "ajudas" anteriores. O instinto de curar, de extirpar o sofrimento daquele ser humano, a vontade de chorar por nao compreender (sem ser apenas intelectualmente) por que motivo tem alguem de viver uma vida assim. Vontade de me bofetear por sofrer tanto com tao pouco, quando incontaveis almas "sub-vivem" em situacoes de indizivel sofrimento. O sonho de que o primeiro voto do Budismo Mahayana e Zen – "os seres vivos sao incontaveis, juro salva-los a todos" -, que recitei 3 a 6 vezes todas as manhas, durante estes mais de 250 dias, possa um dia tornar-se realidade.
     Agora, enquanto aguardo no aeroporto, um rapaz arabe passou por mim, acompanhado pela mae. Sem pernas, diligentemente fazia girar as rodas da sua cadeira…

2007, Agosto 23

     Tres semanas passaram desde que voltei a pisar terras lusitanas. Da vontade de tirar conclusoes sobre o que se passou nestes "nueve meses de tiempo". Mas as conclusoes nao tem chegado, nem eu tenho tido vontade de ir busca-las "la dentro", onde quer que elas possam estar. Sinto que nao aprendi nada, e mesmo tendo suportado tanta dor psicologica, emocional e fisica, creio que nada disso me fez amadurecer. Porem, e facil dizer que se aprende sempre alguma coisa, embora nao saiba bem se acredito nisso ou nao, tal como e facil dramatizar e dizer que foi tudo um desperdicio. A questao que por vezes me navega na mente e: terao sido as "perdas" maiores ou menores do que os "ganhos"? A questao que depois imediatamente surge e, "Mas quais ganhos? Sim, porque as perdas sao obvias…". Pelo menos a perda.
     De qualquer forma, tem sido optimo estar de novo com as pessoas que tanto me tocam dentro, que tanta cor dao ao meu coracao, tanto brilho ao meu espirito. Alem disso, viver a deriva – sem quaisquer objectivos profissionais ou mesmo espirituais – nem e assim tao mau. Traz uma estranha sensacao de liberdade, bem como um ligeiro toque de inseguranca.
     Enfim, obrigado a todos os loucos que queimaram preciosos minutos das suas vidas a ler estas minhas palavras, parcialmente ou na integra. Os Diarios chegam oficialmente ao fim – finalmente! C’est fini.
Game over.
Owari mashite…

Dre


 

Published in: on 24/08/2007 at 20:56  Deixe um Comentário