Diarios de Sogenji – XVII (27 de Maio a 23 de Agosto)

 

2007, Maio 27 

 

     No Sanzen o Roshi pediu-me para lhe mostrar a respiracao. O rosto estava o habitual, com um sorriso muito subtil… Eu mostrei-lhe a minha respiracao, desta vez feita pela boca, como ele faz, para se perceber melhor. De repente, o rosto dele ficou muito serio, como que zangado, e soltou um grito, ao mesmo tempo que fez um gesto com o Keisaku como se estivesse a cortar uma arvore com um so golpe. Assustei-me bastante e deu-me vontade de chorar. Imediatamente ele fez soar a campainha. Eu levantei-me com as pernas a tremer e sai.

 

2007, Maio 28

     Mais um dia livre. Ouvi um pouco de Dredg nas amostras da Amazon e reparei que uma das musicas mais bonitas do "El Cielo" se chama "Sanzen". Sera o mesmo Sanzen que eu tenho todos os dias com o Roshi?

     De regresso a Sogenji, a meio caminho entre Okayama e Maruyama estava um grupo de 6 a 8 agentes da policia a beira da estrada. Tive o pressentimento que ia ser o feliz contemplado. Mandaram-me encostar e um deles comecou a falar – naturalmente em Japones. Eu la dise, "Sumi masen, watashi no niongo heta desu. Wakari masen", que e como quem diz, "Desculpa la, meu, mas nao percebo patavina do que dizes!" Ele mudou para o belo do Ingles, o que nem sempre e sinal que a comunicacao va ser mais facil.

     "Is this your bike?", perguntou. Eu respondi, "More or less", e isto deve ter feito azedar as coisas, embora tenha acrescentado "It’s Sogenji’s". O homem, com os seus 1,90m, comecou a falar cada vez mais proximo de mim, com uns olhos um pouco ameacadores. "Where do you live?", ao que eu respondi, "Sogenji". "Where do you live?", novamente. "Uh, Sogenji temple". "Sogenji tempuru? Where do you live?". Eu a olhar para os olhos do homem um bocado estranhos e a lembrar-me do que disseram da policia Japonesa – tao educada que as vezes ate tem vergonha de passar multas (principalmente a estrangeiros), mas que quando as coisas azedam e cacetade de 7 em pipa! Ja me estava a ver a provar do cacetete Japones (dizem que pequenito…). A pergunta do "where do you live?" continuou mais umas vezes, eu a tentar dizer a mesma coisa por outras palavras – "Sogenji, Maruyama, Shodo Harada Roshi, Zen temple…", parecia uma busca no Google.

     Tambem nao ajudou o facto de nao ter comigo nem passaporte nem "Alien Registration Card". Por obra do acaso, tinha comigo o livrete do Seguro de Saude que tinha ido fazer a cidade (e que devia ter feito 5 meses antes). Ele la perguntou o meu nome e data de nascimento enquanto via se condizia com o que estava escrito em "kanji" no tal livrete. A historia acabou com o cavalheiro a dizer que desta vez ok, mas que todos os estrangeiros deviam andar com passaporte ou "Alien Registration Card".

     Isto fez-me lembrar de um episodio "engracado" passado na Tuga com 3 agentes da Judiciaria na estacao do Campo GRande, onde fui denunciado por alguem como estando a incomodar pessoas no Metro e a pedir-lhes dinheiro. Seja na Tuga ou no Japao, a policia nao me da abebias… Um gajo bem quer roubar bikes e cravar uns trocos descansadinho e de forma honesta, mas a policia vem sempre chatear… "Deixem-me trabalhar", pa!

     Mas, ainda antes de chegar a Sogenji, fui a uma loja chama "Best" (a tipica mania Japonesa de dar nomes ingleses as coisas, mas depois nao falarem uma palavra de ingles) em busca de uma especia de cronometro. Quando ia a passar, vi uma camara digital com uma imagem colada no visor. Nao liguei muito, mas depois fiquei curioso por saber de que local seria a fotografia. Pensei, "Quase que aposto que e alguma praca europeia ou assim". Aproximei-me e pareceu-me logo ser algo de arquitectura ocidental. Depois fiquei surpreendido ao ver que era o Mosteiro dos Jeronimos, visto da Fonte Luminosa. Nao tive mais que 99% de certeza (podia ser algo muito parecido), mas achei curioso o facto de ter voltado atras para ver que imagem era aquela, para depois ver que era da minha linda cidade.

     Por falar em linda cidade, varias pessoas aqui ja estiveram em Lisboa e gostaram. Uma alema inclusive disse que a considera como uma das mais belas cidades da Europa.

 

2007, Junho 2

 

     Sanzen: "Para de carregar um saco de merda, uma saco de lixo e tomares isso por quem tu es… Esses pensamentos que tens, essas memorias, tudo isso e um saco de merda. Tu ves-te preso nisso, com dificuldade em respirar, dificuldade em sair dele. E como uma larva presa num casulo, mas que acaba por se transformar numa borboleta. Isso mesmo e o Zen. Tu nao estas preso, na verdade voas livremente. Isto e a verdade do Andre ("This is Andre’s truth".).

 

2007, Junho 3

 

     Dia 0 do Osesshin do mes de Junho. Decidi ligar a I___, 4 meses e meio depois do ultimo telefonema. Tinha algum receio, mas tu fazes magia com as coisas mais simples… Medo do que? Foi muito bom falar contigo, sentir a tua energia. Encheste-me de luz e saudade… Toquei a agua por ti… contigo. Amo-te, crianca de Luz! Es profunda como o oceano, infinita como o ceu estrelado, mas a tua presenca e suave e leve como a caricia de uma crianca…

 

2007, Junho 5

 

     Durante o longo Kinhin que temos durante os Osesshins, iamos todos a subir uma escadaria, rumo a um dos cemiterios, quando, a descer a mesma escadaria,vimos uma cobra com o seu belo metro e meio! Vinha toda ligeira, parecia um sabonete a escorregar! La nos assustamos um pouco e rimos tambem um pouquito.

 

2007, Junho 7

 

     Parabens, C___ do meu coracao! Espero que tenhas tido um dia maravilhosissimo!! Ti gosto mucho! Tenho saudades da tua impressionante alegria e estabilidade.

 

2007, Junho 10

 

     Ultimo dia do Osesshin, dia de Camoes, de Portugal, das Comunidades Portuguesas e da C___ O___. Outra que ja nem se deve lembrar de quem eu sou! Espero que esteja tudo bem contigo! Parabens!

     Ultimo Sanzen do retiro, Ban Sosan: "Como e que e, ja te consegues sentar completamente no zabuton (colchao onde nos meditamos)?" "As vezes", respondi eu. "As vezes e bom. Se conseguires sentar-te completamente a todo o momento nao conseguirias ir a casa-de-banho, comer, etc.", disse o Roshi a sorrir. A C___ acrescentou, "Ele nao te esta a provocar, ele esta a falar a serio. Sabes disso, nao sabes?", ao que anui com um "hum, hum". Depois o Roshi continuou: "As vezes e bom, e dai que se comeca, e dai que se parte para mais. Nao desistas", disse ele como que lendo os meus pensamentos. Soou a sineta e levantei-me. Tinha a esperanca que ele dissesse mais alguma coisa, como ja fez varias vezes. A meio das venias ele acrescentou, "Andre is very bright". Fiquei engasgado com o comentario. Aguardei 1 ou 2 segundos. Olhei para o Roshi que sorria, como de costume. Limitei-me a dizer, "Hai" ("Sim" ou "Ok") e sai.

 

2007, Junho 13

 

     Sanzen: "Andre is a very honest and bright young man. If you cultivate your essence, you will manifest a great functioning". Disse tambem que "Susokkan is not a breathing technic; susokkan is for you to know yourself".

     Ontem recebemos uns "caps" da equipa de basebol de um liceu aqui dos arredores, um liceu que creio ser de orientacao budista e que, de vez em quando, envia para aqui uns jovens por umas semanas. A C___ deu-nos os chapeus a hora de almoco, e muitos de nos tinhamos colocado os respectivos! Estava para ver a reacção do Roshi, que tambem tinha um chapeu "a espera" dele na mesa. Mas ele chegou e nao fez nenhum comentario, vinha muito serio.

     Porem, hoje estavamos todos a espera dele para irmos para o Takuhatsu e, para espanto e risota geral, o Roshi trazia o belo do "cap" colocado na cabeca, com um robe formal negro para o Takuhatsu. Foi muito comico. A saida de Sogenji, ele deu o bone a uns rapazinhos que estavam ali nas sua bicicletas.

 

2007, Junho 14

 

     Hoje fui Tenzo. No cha com o Roshi, ele serviu-me o "macha". Eu bebi, mas estas situacoes sao sempre um pouco estranhas – o Roshi mesmo a minha frente, a espera que eu acabe de beber o cha, sem trocarmos uma palavra, na falta de uma lingua comum. Mas depois la olhei para ele, ele olhou para mim. La sorrimos e ele disse: "You have a good energy".

 

2007, Junho 15

 

     Chegou o livro que encomendei da Amazon, o livro que mais marcou a minha vida: O Poder do Agora. Encomendei-o para o oferecer ao R___, mas tenho lido algumas partes. E impressionante a capacidade que o Eckhart Tolle tem para me inspirar e tocar profundamente.

 

      "Love is a state of being. Your love is not outside; it is deep within you. You can never lose it, and it cannot leave you. It is not dependent on some other body, some external form. In the stillness of your presence, you can feel your own formless and timeless reality as the unmanifested life that animates your physical form. You can then feel the same life deep within every other human and every other creature. You look beyond the veil of form and separation. This is the realization of Oneness. This is love.

      What is God? The eternal One Life underneath all forms of life. What is love? To feel the presence of that One Life deep within yourself and within all creatures. To be it. Therefore, all love is the love of God."

 

     Tocaram-me imenso estas palavras e alguma lagrimas cairam (felizmente nao em cima do livro!). Nao era tristeza, mas tambem nao era alegria. Era uma sensacao de regresso a casa, a um local mais profundo. Paz, mas simultaneamente a nostalgia de pensar "Porque tanto sofrimento?". Tenho que conhecer este homem e se for preciso vou ate Vancouver para o encontrar. Sinto-me mesmo inspirado pelas palavras dele. Existe mesmo aqui uma ligacao karmica qualquer…

 

2007, Junho 23

 
     Ontem chegou o J___, um amigo americano que conheci na Plum Village. E bom te-lo por ca, embora ele esteja a passar por uma fase complicada.
     Li hoje tambem um mail que recebi do F___, o meu melhor amigo da Plum Village, precisamente quando o J___ me tinha perguntado se tinha noticias deste belo Noruegues. Foi bom receber novidades dele. E impressionante como, passado mais de um ano de ter deixado a Plum Village, ainda sinto imensas saudades do F___ e doi-me o peito as vezes ao pensar nele e em como sinto a falta dele.
     Tenho me lembrado de todos os aniversarios – coisa impossivel de imaginar se estivesse em Portugal – , mas esqueci-me de um importante: do amigo R___. Nao sabia bem se era a 9 do 4 ou a 4 do 9. Com isto, acabei por deixar passar aquele que acho que e o teu dia: 9 de Abril. Mas prometo compensar-te e, por isso, dia 4 de Setembro dar-te-ei os parabens. Combinado?=)

2007, Junho 30

     O Roshi regressou das quase 2 semanas em que esteve em Italia e Suissa. No Sanzen, ele disse coisas do genero: "You have a great faith. With some Ki in you, what a great functioning you would manifest. What about that? Can you do it?". Eu respondi, "Wakaranai" (Nao sei). Ele riu-se e disse: "You cannot say that right from the begining. Your parents would cry if they heard you. Portugal is one of the 7 countries who discovered more countries in the world. You have that Ki inside you, you have that blood flowing inside you…"

2007, Julho 2

 
     Fizeram-me um bolo de chocolate e cantaram-me os parabens, como de habitual. Depois pediram por um poema, tambem como de habitual, mas, ao contrario do que e costume, tiveram mesmo que levar com uma declamacao. Nao de um poema meu, felizmente, mas uma traducao minha de um pedaco de Alberto Caeiro – que recebeu alguns elogios por parte da plateia (nao e de admirar, trata-se do melhor poeta do mundo!). No bolo vinha tambem uma rosa, cujas petalas (algumas) vao ja quase a caminho da Tuga. Alem disso, o meu amigo R___ ofereceu-me o "Angels & Demons" do Dan Brown e o "Synchronize" do JAmiroquai. Sao uns amores estes pequenos.
     Aqui fica o poema, agora na lingua de Camoes (ou, melhor dizendo, na lingua de Pessoa). Es o maior, Fernando Caeiro. Ups, quero dizer, Alberto Pessoa… Enfim!

     "Nao basta abrir a janela
     Para ver os campos e o rio.
     Nao e bastante nao ser cego
     Para ver as arvores e as flores.
     E preciso tambem nao ter filosofia nenhuma.
     Com filosofia nao ha arvores: ha ideias apenas.
     Ha so cada um de nos, como uma cave.
     Ha so uma janela fechada, e todo o mundo la fora.
     E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
     Que nunca e o que se ve quando se abre a janela."

 
     Qual Buda Shakyamuni, qual Lao Tzu ou Chuang Tzu. O verdadeiro mestre da sabedoria oriental e o nosso "Nandinho"… Puro Zen, puro Tao…

2007, Julho 3

     Recebi uma encomenda da minha mae, com muito amor e coisinhas boas. Quatro pacotes de Cerelac / Milfarin e 5 pacotes de bolachas. Alem disso, recebi 3 cd’s para me entreter com alguma boa musica Tuga. Um dos cd’s foi uma escolha acertada e natural. Os outros 2 cd’s sao um pouco mais curiosos: Amalia Rodrigues e Tony Carreira. Mas como tenho andado a ouvir muito Tool, A Perfect Circle, Mars Volta e Dredg, acho que um pouco de fado ou do romantismo do Sr. Carreira so farao bem. Obrigado, mae. Es um amor.
     Escrevo isto ao som do outro album que me ofereceste: "Lado a lado – Mafalda Veiga & Joao Pedro Pais". Ficam aqui dois pedacinhos de meiguice da Mafalda… So para ti, mae. Um pedacinho sobre a nossa cidade, outro sobre nos…

     "Ai Lisboa, estendida sobre o rio.
      Ai Lisboa, de mil amores perdidos.
      So de quem puder sentir
      Que ha um mar em ti escondido."

     "Seremos cumplices o resto da vida…"

2007, Julho 10

     Acabou mais um Osesshin. O ultimo para mim durante uns bons tempos. Balanco? Cinco pacotes de bolachas exterminado e 2 kg de Cerelac mandados abaixo. Zazen..? Who cares?!
     Recebi tambem um outro cd, no dia 1. Agora e que vai ser ouvir sonoro: "Sam, the Kid – Pratica(mente)". Merci beaucoup, cheri.

2007, Julho 12

     Amanha e sexta-feira 13. A minha ultima sexta-feira 13 foi, na verdade, um dia de sorte. Ou sera que nao…? Quem podera dizer? Fariamos amanha 9 meses se as coisas tivesses sido diferentes. Mas como diz o Mestre Caeiro, "Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo".

2007, Julho 14

     Ha cerca de 2 semanas que chove quase continuamente aqui em Sogenji – estamos na epoca da chuva, as moncoes japonesas. Mas hoje e ainda uma noite mais especial. e noite de tufao. Chove e faz vento e e bonito. A convite  do meu amigo St___, sentei-me um pouco com ele no alpendre do Kyoso, partilhando uma Yaza em noite de tempestade.
     Amanha parte o meu amigo R___. Adeus, companheiro Polaco!
     Hoje chegou a cartinha e o peluchinho da minha mana! ‘Bigado, princesa!

2007, Julho 15

    Partiu o meu amigo… Sniff, sniff!
    Parabens, "Ya". Hoje e o teu dia. Bem, todos os dias sao teus… Ja viste a tua sorte? Aproveita-o(s) bem! Beijo grande.

2007, Julho 16

    (…)

2007, Julho 22

     Fui mais uma vez mandado parar pela policia. Ate estava a admirar o carro deles, um Toyota punjante, quando de repente sai de la um agente disparado na minha direccao. Como desta vez tinha o "Alien Registration Card", eles foram mais simpaticos comigo. Depois de muita (des)conversa e de muito "no te entiendo", la fizeram sinal para eu me pirar.
     Ha dias recebi uma carta que nao estava a espera de receber. Muito fofa e amorosa. Merci, merci, C___.

2007, Julho 23

     Pirou-se a S___. "Bye, bye, miss american Y".
     Nunca pensei que esta musica de Tool se pudesse aplicar tao bem a mim. Nao estava habituado a "desgostar" tanto de alguem. Diz a letra, "Wear the grudge like a crown of negativety. Desperate to control all and everything. Unable to forgive… And [I’m] sinking deeper… Saturn comes back around… to consume you ’till you choose to let this go".
     Parabens, I___. Que tenhas um dia amoroso! Espalha luz, espalha brasas!

2007, Julho 29

     Here I am again, hitting the road… A ambigua sensacao de estar dentro de um autocarro/comboio/aviao, malas as costas, pes ao caminho. Um misto de excitacao e ansiedade, aventura e incerteza. Esta viagem tem, porem, o doce travo do regresso a casa – depois de 9 meses em terra estranha.
     Algumas coisas se passaram nos últimos tempos, embora nao as tenha anotado – peco desculpa ao meu Diario (de Noticias). Em Junho, durante e depois do Osesshin (que decorreu de 4 a 10) tomei a decisao de abandonar Sogenji depois do Kotai – a mudanca de funcoes que decorre todos os semestres. Como pensava que o Kotai seria a 31 de Julho (embora vá ser a 4 de Agosto), decidi marcar a viagem de regresso para inicios de Agosto. O mais proximo que consegui foi 30 de Julho.
     Falei com a C___ sobre isto no dia 17 de JUnho, a vespera da partida dela e do Roshi para a Europa. Regressaram a 30 de Junho, mesmo a tempo do Ban Sosan. O Sanzen nesse dia correu, como habitualmente, de forma muito positiva (ver "2007, Junho 30") – o Roshi parecia quase contente por me ver, sorriso pregado no rosto a minha espera. Mal sabia eu que iria ser o ultimo…
     Dia 1 de Julho foi um dia livre. De regresso a Sogenji, a C___ perguntou-me como estava a minha situação – se mantinha ou nao a decisao de partir. Quando falei com ela no dia 17 de Junho, ela disse coisas do estilo: "Porque vais embora antes do teu ano acabar? Os compromissos sao para se cumprir, as promessas nao sao para se quebrar. Nao es uma crianca, da-me uma boa razao para te ires embora", etc., embora esta minha citacao esteja muito enviesada e incompleta. Ela foi ate bastante compreensiva. Acabou por dizer, "Pensa nessa tua situacao e quando eu e o Roshi viermos da Europa conversamos".
     Assim sendo, alinhavei umas ideias durante as quase duas semanas que houve de intervalo, de modo a nao vacilar perante o Sr. Shodo Harada. Essas ideias resumiam-se a uma profunda desmotivacao e cansaco psicologico, fisico e emocional, bem como a "sensacao" de que a minha pratica nao estava a dar frutos alguns. Porem, nao foi necessario falar com o Roshi. No ja referido dia 1 de Julho, a pergunta tambem ela ja referida da C___, respondi com um claro e indiscutivel "yes". Ela respondeu simplesmente, "Ok, I’ll talk to the Roshi, so he doesn’t count on you for the next training period".
     Ela deve ter falado com o cavalheiro nesse mesmo dia, pois no dia seguinte, como prenda de aniversario, recebi no Sanzen um Roshi serio, zangado e com um discurso duro – embora nao tenha anotado nada e agora nao me lembre do que ele disse; apenas me lembro de ter ficado de neura durante toda a manhã. A partir desse (fatidico) dia, todos os meus Sanzens, com raras excepcoes, resumiram-se a alguns segundos de silencio, rasgados apenas pela sineta do Roshi, marcando o fim do Sanzen. Mesmo as referidas "raras excepcoes" limitavam-se a coisas como "Nao pares, triiimmm", ou "Hoje es o cozinheiro, triiimm" (como se eu nao soubesse). Este silencio durou ate 28 de Julho. O Sanzen desse dia, tal como o do seguinte (ou seja, os 2 ultimos), foram os Sanzens de "despedida".
     Esta mudanca de atitude nao se ficou pelos Sanzens, mas tambem afectou a postura geral do Roshi em relacao a mim. Todos os pequenos comentarios que o Roshi costumava fazer em varias ocasioes – sempre comentarios bem-dispostos e que revelavam alguma "amizade" -, desapareceram por completo. Por um lado, acho que o mestre e profundo demais para se chatear com o facto de eu me ir embora. Porem, por outro lado, disseram-me que quando o monge portugues de Sogenji abandonou o templo subitamente, o mestre bateu com o Keisaku em toda a gente no Sanzen seguinte. Pessoalmente, considero isto um comportamento de alguem que esta chateado!
     De qualquer forma, a C___ disse que estes Sanzens de silencio eram perolas do Roshi, a dadiva dele a mim, agora que sabia que estava de partida. Isto encontra alguma confirmacao na 1ª frase do 1º dos ultimos 2 Sanzens. "Tenho estado a mostrar-te a essencia do Buddhadharma, mas tu nao estas interessado. Estas mais interessado na forma, no acessorio. Depois continuou com algo do genero, "Dominaste bem a forma do Zen, mas nao estas nem perto de compreender a essencia.. E bom que vas embora". Vais la para fora, arranjas a tua vida, mas nao encontraras Buddhadharma algum ai. Porem, algo te fez bater a esta porta. Tens uma afiliacao karmica  com este caminho. A questao e ‘o que vais fazer com isso?’".
     O ultimo Sanzen deixou-me particularmente aborrecido, logo no dia da minha partida. Mas a vida continua e eu tinha muita coisa a tratar (incluindo uma ultima oportunidade de lavar a casa-da-banho mais "cheirosinha" de SOgenji). Minutos antes da minha derradeira partida, la tive o habitual cha de despedida com o Roshi. Deu-me duas caligrafias (como e habitual tambem, embora eu desconfiasse que talvez nem isso ele me desse…). A 1ª diz, "o tempo nao espera por ninguem", a 2ª, "todos os dias sao a tua vida". Perguntou-me tambem se ia ver os meus pais. Eu respondi que sim, embora eles nao soubessem que eu estava de regresso. Ele pediu-me para ser amavel com eles, que as pessoas que se dao bem com os pais tem mais facilidade em despertar – atingir a iluminacao.
     Deu-me tambem uma nota de 10000 yenes, o que me deu um jeitao do camandro, pois estava com um saldo de 40 yenes. Essa notinha tem feito maravilhas hoje – 3 donuts, um batido de morango, 1 agua, um bilhete de comboio para a baixa de Osaka e vamos ver que mais. Talvez ainda me pague uma entrada num barzinho de strip, mas e apertado…
     Bem, nao pagou uma entrada num bar de strip e nem tal foi preciso… O strip veio ate mim. Downtown Osaka – foi a p… da loucura, Deus meu. Estas mulheres nao andam de saias, em calcoes. Aquilo sao cuecas; de ganga, tudo bem, mas nao lhe chamem outra coisa.
     Vim para Osaka, mas como o ultimo comboio para Kansai (o aeroporto) era as 22H30, tive que ficar a espera que a estacao abrisse de novo as 5H da manha. Andei quilometros ja, contei um predio com 50 andares, passei por ruas que fazem Las Vegas corar de humildade e a "Red Light District" virar a cara para o chao, ja vi dancar 4 meninas de hip-hop e recebi um presente de uma delas – um leque para me refrescar, pois esta calor -, ja me encontrei 2 vezes com o mesmo bebedo e falamos meia hora sobre Deus, Liberdade, Zen e Vazio, e agora abriguei-me da tempestade que caiu de repente, chuva e vento forte e os trovoes mais assombrosos que ja ouvi na minha vida – pela primeira vez em muitos anos, quase me borrei ao som da trovoada. Assombroso! Agora sentado a porta da estacao, so falta uma hora para a mesma abrir. Haja esperanca, e Deus seja louvado! Aleluia! (Por falar nisso, o bebedo disse que Cristo e doido – ja o encontrei pela 3ª vez.)

2007, Julho 30

     Mais "une voyage" com a Lufthansa – realmente sao uns impecaveis. Ate a paparoca vegetariana que reservei estava a maneira. Cheguei a Frankfurt por volta das 15H. Foram +/- 12 horas de viagem, mas passaram rapidamente, pois dormi pelo menos metade, para compensar a mui cansativa directa feita em Osaka.
     Meti-me no "quimboio" para downtown Frankfurt   e rapidamente me lembrei das palavras do D___ respondendo a uma pergunta minha: "Frankfurt? Nao tem grande coisa de interesse. E a mais americana das cidades alemas". Numa outra conversa, onde a N___ tambem estava, ela referiu que Frankfurt tem um zoo muito interessante. O D___, sempre perspicaz, notou muito prontamente que eu havia passado 9 meses num zoo, pelo que nao haveria necessidade de me meter noutro.
     Apesar das palavras do D___, 5 minutos depois de chegar a baixa "Frankfurtina" ja tinha visto mais coisas de interesse – para mim – do que em 9 meses no Japao. Definitivamente, as cidades europeias sao o meu estilo! Sai da estacao de Frankfurt e subitamente senti-me em casa. Alem disso, parece-me que esta cidade combina muito inteligente e eficazmente a classe da arquitectura europeia antiga com a imponencia envidracada dos arranha-ceus estilo americano. Pessoalmente, fiquei encantado.
    Naquela que deve ser a praca mais tipica da cidade, estavam duas mocoilas a tocar musica classica – uma com uma flauta e outra com um violoncelo. La lhes dei uns centimos e perguntei-lhes qual o compositor que estavam a tocar (perdoem-me a ignorancia, principalmente quando se esta na Alemanha). Mozart foi a resposta, nome sonante, mas que eu ja tinha excluido da lista de possiveis compositores, pelo facto de a musica soar muito animada e ligeira. Fazia o rapaz um pouco mais soturno… Isto para dizer que acho das coisas mais bonitas estar numa praca europeia a ouvir alguem tocar musica ao vivo – seja classica ou jazz ou outra.
     La jantei numa pizzaria. Falei um pouco com o que parecia ser o dono. Italiano, como mandam as regras, mas falava comigo em espanhol. Perguntou-me o que fazia eu em Frankfurt, la disse que vinha do Japao a caminho a caminho da velha Tuga e que tinha estado la 9 meses – mas que nao falava japones. Ele achou estranho e, entre outras coisas, disse "perdeste nueve meses de tiempo". Achei um perfeito disparate o que ele disse, vindo daquele contexto (a questao do nao falar japones), mas deixou-me a pensar se, fora desse contexto, o que ele dissera nao faria algum tipo de sarcastico sentido. Porem, essa e uma questao a qual nao estou a pensar responder.
     Acabei a janta e rumei (remei?) para a outra margem do rio que atravessa a cidade para assistir a um concerto de (passo a citar) "tango, bossa nova, valsa musette e flamenco" de um cavalheiro chamado Stefan Grasse, guitarrista acompanhado por um percussionista e um contrabaixista. A entrada da mini-tenda de circo que ia servir de sala de concerto fui informado do preco: 16€ (no cartaz que anunciava a actuacao nada vinha referido). Sorri e virei costas. Minutos depois vi que a desilusao se transformou em dadiva. Da rua ouvia-se perfeitamente a musica e a vista era bem mais interessante: a ja referida conjugacao arquitectonica antigo/moderno mesmo a minha frente do outro lado do rio; umas nuvens pintadas de rosa a pala do por-do-sol; e muitas "babes" e "babos" a correr, patinar e andar de bici – o que tornou tudo muito familiar e aconchegante.

2007, Julho 31

     Uma noite mal passada num banco de aeroporto, mas deu para descansar as pestanas um pouco. Dentro de meia-duzia de horas estarei a meia-duzia de quilometros de uma meia-duzia de pessoas que, quando a distancia de um mundo, sonhei duzias de vezes, dia e noite, em rever, abracar, amar… Agora tao perto de realizar este "sonho", agora que poderei abracar com carne e osso aqueles que abracei em mil realidades apenas imaginadas, por que sinto a maior indiferenca em relacao a isso? E frustrante realizar um sonho e nao sentir qualquer realizacao pessoal nisso.
     E um sentimento que me acompanha ha ja algum tempo, a sensacao de que nada realmente tem qualquer importancia. Sinto alguma ansiedade em relacao ao futuro – que destino me aguarda profissional e espiritualmente, etc. -, mas parece tudo passar-se na periferia. No centro de mim proprio, a resposta a maioria das perguntas surge com um encolher de ombros: "Nao sei…"
     Por vezes, tenho a esperanca que isto possa advir de alguma profundidade interior adquirida – sabe-se la como – ao longo destes "nueve meses de tiempo". Outras vezes, sinto que algo morreu, ou hibernou ou foi anestesiado, dentro de mim, algo que uma voz me diz poder ser importante – como uma crianca que desaprendeu a arte de brincar ou sorrir. A maioria das vezes, porem, creio nao ser nem uma coisa nem outra. Algo parece diferente, embora nao saiba o que ou o porque. "Eis tudo!", como diria Caeiro.
     Ontem, em Frankfurt, vi um jovem numa cadeira-de-rodas, provavelmente com paralisia cerebral, de boca escancaradamente aberta, como se quisesse engolir o mundo, enquanto que uma mulher, presumivelmente a mae, segurava a cabeca, impedindo-a de deslizar para a frente ou para trás. A imagem deixou-me pregado ao chao. O sinal ficou verde para os peoes, mas nao atravessei a rua, embora o rapaz estivesse do outro lado. So quando o sinal voltou ao vermelho o fiz apressadamente. Instintivamente quis dar dar uma moeda a senhora, pois tinha recentemente dado esmola a 2 pedintes. Imediatamente pensei, "Que estupidez! A senhora nao esta a pedir nada. Que utilidade teria esta moeda?". Percebi que tinha sido o instinto de ajudar que equivocadamente assumira a mesma forma manifestada nas duas "ajudas" anteriores. O instinto de curar, de extirpar o sofrimento daquele ser humano, a vontade de chorar por nao compreender (sem ser apenas intelectualmente) por que motivo tem alguem de viver uma vida assim. Vontade de me bofetear por sofrer tanto com tao pouco, quando incontaveis almas "sub-vivem" em situacoes de indizivel sofrimento. O sonho de que o primeiro voto do Budismo Mahayana e Zen – "os seres vivos sao incontaveis, juro salva-los a todos" -, que recitei 3 a 6 vezes todas as manhas, durante estes mais de 250 dias, possa um dia tornar-se realidade.
     Agora, enquanto aguardo no aeroporto, um rapaz arabe passou por mim, acompanhado pela mae. Sem pernas, diligentemente fazia girar as rodas da sua cadeira…

2007, Agosto 23

     Tres semanas passaram desde que voltei a pisar terras lusitanas. Da vontade de tirar conclusoes sobre o que se passou nestes "nueve meses de tiempo". Mas as conclusoes nao tem chegado, nem eu tenho tido vontade de ir busca-las "la dentro", onde quer que elas possam estar. Sinto que nao aprendi nada, e mesmo tendo suportado tanta dor psicologica, emocional e fisica, creio que nada disso me fez amadurecer. Porem, e facil dizer que se aprende sempre alguma coisa, embora nao saiba bem se acredito nisso ou nao, tal como e facil dramatizar e dizer que foi tudo um desperdicio. A questao que por vezes me navega na mente e: terao sido as "perdas" maiores ou menores do que os "ganhos"? A questao que depois imediatamente surge e, "Mas quais ganhos? Sim, porque as perdas sao obvias…". Pelo menos a perda.
     De qualquer forma, tem sido optimo estar de novo com as pessoas que tanto me tocam dentro, que tanta cor dao ao meu coracao, tanto brilho ao meu espirito. Alem disso, viver a deriva – sem quaisquer objectivos profissionais ou mesmo espirituais – nem e assim tao mau. Traz uma estranha sensacao de liberdade, bem como um ligeiro toque de inseguranca.
     Enfim, obrigado a todos os loucos que queimaram preciosos minutos das suas vidas a ler estas minhas palavras, parcialmente ou na integra. Os Diarios chegam oficialmente ao fim – finalmente! C’est fini.
Game over.
Owari mashite…

Dre


 

Published in: on 24/08/2007 at 20:56  Deixe um Comentário  

Diarios de Sogenji – XVI (26 de Abril a 26 de Maio)

 
2007, Abril 26
     Hoje pedi o computador emprestado ao R___ para ouvir um pouco de Damien Rice – ja que o F___ e o respectivo Ipod foram embora ha precisamente 1 mes. Levei tambem as baquetas comigo para dar uns toques. Xii, que loucura, que saudades. “Toquei” Sting, toquei Santana, toquei D.A.D. (claro!), Queen, Incubus. Que espectaculo. D.A.D. entao foi o climax. Ja suava e ja estava praticamente em tronco nu a vibrar com 2 baquetas e um par de auscultadores. Que saudades da minha “menina”…
     Para compensar, depois tive 3 horas do pior Zazen da minha vida.
 
2007, Abril 28
     Sanzen da noite: “Watch! Watch! Watch… your Tanden, everywhere, everytime!” Mais explicito e concreto que isto nem com 1 desenho, pois ele acompanhou os “watch” com os movimentos da sua mao em direccao ao seu Tanden.
     E vou mesmo ter que observar o meu Tanden. Hoje chegou a N___, uma inglesa linda de morrer…
 
2007, Maio 1
    Ha dias o Roshi disse: “Neste momento, a tua pratica esta no seu momento mais importante. Se relaxares, tudo se perde. Nao tires os teus olhos do teu interior”.
 
2007, Maio 4
     Hoje o Sanzen foi estranho, mas no bom sentido. Nunca tinha visto o Roshi assim. Falou com muita docura, parecia uma mae (nao um pai) a falar suave para o filho. E falou imenso; foi um dos Sanzens mais longos – precisamente numa altura em que a minha pratica descambou novamente (…).
      Entre outras coisas, disse que eu era muito honesto, mas que parecia estar sem confianca; a confianca nao e do ego. Ego e acreditar num “eu” e compara-lo com os outros. A confianca e a energia da vida, que quer expressar-se em mim, mas eu nao estou a permitir.  Disse que ve em mim a vontade de gritar de alegria, mas eu coloco uma tampa nessa energia. Falou em como as criancas expressam tao bem essa energia, com tanta vivacidade e espontaneidade. Referiu que eu nao sou o unico assim, que dezenas de alunos “sofrem” deste mal. Ele ve em mim essa fonte de energia – essa (qualidade de) mente – e que, por isso, teve que me dizer isto.
     Hoje fui tambem Shuya – e liderei (somos 2), o que e pouco comum. Na altura de dizer ao Roshi que tinha acabado e que estava tudo bem (em japones), meti os pes pelas maos. Tinha que dizer: “Onegaitashimasu, shuya wa owari mashita.  Ijo ga arimasen deshita. Oya sumi nasai mase”. Na 3Ş frase espetei-me ao comprido (nao tinha a minha cabula), mas do outro lado da porta ouvi o Roshi a rir-se. E assim a vida.
     Nos entretantos, tenho passado as “passas do Algarve” (…). Resultado: tenho tido alguns ataques de “mau humor” (to say the very least…) e decidi atacar o corpo – como forma de tambem fragilizar esta mente desgracada. Comecei a fazer jejum e ontem a noite tentei manter-me acordado toda a noite – queria ver se com tanto sono e tanta fome a minha cabecinha ainda tinha tempo para pensar (…). Dei um passeio nocturno pela serra (bastante medo a mistura, mas nao recuei), soltei 2 gritos descomunais que ecoaram pela floresta e acabei por adormecer num banco num jardim a meio caminho de Okayama. Quando acordei, so queria era xonar mais, por isso, a passo acelerado, regressei aos lencois – ainda dormi 4 horas. Hoje acabei com o jejum – durou 1 dia (ou um dia e meio). Mas valeu a pena.
 
2007, Maio 5
     Parabens, L___. Que tenhas um dia muito amoroso! =) Como vai a tua pequena M___? Se calhar ja nao e assim tao pequena!
     Hoje no Sanzen: “Nao permitas quebras na tua respiracao. Respiracao em cima de respiracao. Fa-lo com o Tanden. De forma alguma pode isto ser feito com a cabeca. Se assim fosse, todas as pessoas a ler nas bibliotecas atingiriam a iluminacao”. Terminou com um sorriso. E o maior este Roshi. Espectacular!
 
2007, Maio 8
      Hoje recebi um postal lindissimo. Um postal do “Principezinho” que diz, em frances, algo como “tens que procurar com o coracao”.  O “Principezinho” esta no topo de uma montanha de gelo, mirando o horizonte. Obrigado, meu anjinho careca! Es um anjo lindo!
     (…)
 
2007, Maio 9
     Hoje foi a loucura… ia em busca de uma loja de postais quando dei de caras com uma loja de instrumentos – onde ja tinha entrado com o Ab___. Lembro-me, na altura, de ele ter dito que tinha experimentado alguns instrumentos. E nao e que encontrei o que ja ha tanto procurava? Uma bateria electronica! Ligada, com auscultadores e baquetas a jeito, num cantinho bem discreto. Resultado? Uma hora a partir a loica toda! Que espectaculo. Ja me doia o rabo! Uma qualidade de som brutal, uma serie de efeitos e musicas disponiveis e so cerca de 1000 euros. Senti-me tentado a negociar com os papas uma prenda para os anos!
 
2007, Maio 12
     Primeiro dia de Osesshin. Parabens, M___!! Espero que tenhas tido um dia muito bonito e feliz.
 
2007, Maio 14
     Hoje fui Tenzo. Depois do almoco terminar, o Roshi veio ter comigo e com a minha ajudante e perguntou “Qem fez o arroz?”. Eu la disse, um pouco a medo, “Eu fiz”. Ele acrescentou “Perfeito!” Eu respondi “Sorte, sorte de principiante”.
 
2007, Maio 15
     Parabens, S___!! A loirinha mais giraca da tuga. Tiveste um dia feliz? Claro que sim.
     Hoje tive o Sanzen mais “divertido” e bem disposto destes quase 7 meses. Eu “cheguei-me a frente” e disse: “Posso fazer uma pergunta?” O Roshi fez uma cara como quem diz “Eh la, o homem tem uma pergunta”. Eu disse “Estou quase sempre encurralado na minha cabeca. Eu gosto de pensar, estou viciado nos pensamentos. Se eu nao cortar esta adicao, nao consigo cortar os pensamentos. Como cortar com a adicao?” A expressao dele mudou automaticamente: passou do rosto concentrado e quase mistico de quem aparentemente esta em profunda meditacao para uma expressao divertida e risonha. Esteve sempre a sorrir e mesmo a rir durante todo o Sanzen. Entre outras coisas, disse: “E verdade, estas muito preso na tua cabeca. Consigo ver isso quando estas sentado (durante o Zazen). Mas essas coisas nao nasceram contigo. Foste tu que as foste apanhando pelo caminho. Se calhar gostas dessas coisas, o que torna tudo muito engracado. E como apaixonares-te pelo teu proprio reflexo no espelho. E como um paradoxo e tu es o teu proprio paradoxo.  Mas nao te preocupes, a pouco e pouco vais ganhando forca na tua pratica, eu consigo ver isso. Tu tornaste o pensar compulsivo num padrao condicionado. Podes fazer do “nao-pensar” tambem um padrao, substituindo o anterior. Tens que saber que o teu centro nao e na cabeca, mas sim no Tanden. Quando a trabalhar tens que levantar uma pedra, fa-lo com o Tanden, nao com as tuas ideias. E muito melhor”, disse, gesticulando comicamente para exemplificar o levantar e pousar de uma pedra. Foi mesmo muito engracado este Sanzen. Nao pude deixar de rir com a afectividade divertida do Roshi. Es mesmo um querido! =)
 
2007, Maio 16
      Sanzen: “Tens de morrer em cada respiracao. Assim, renasces tambem a cada respiracao. Susokkan is a practice of dying”.
 
2007, Maio 17
      R___, hoje e o teu dia!! Ja ha tanto tempo que nao nos vemos. Ja nem me deves conhecer! Anyway, espero que tenhas um dia amorosinho e cheio de docinhos e coisas boas!
     Sanzen da tarde, sem traducao, onde o Roshi resumiu a essencia do Zen (so para mim, olhos nos olhos): “You are living right here, right now… only!”
 
2007, Maio 18
      Sanzen da tarde, com o Roshi a fazer uso do seu melhor ingles!=)  “Are you full (of energy)? From the top of your head, down to the bottom of your foot…”. Expirou profundamente. “No ideas, no body, just breathing. And you will find the truth”. Ia ja a caminho de me ir embora quando ele acrescentou “Don’t look at your shadow!”
      Nao sei com que intencao e que o Roshi utiliza este termo, pois fa-lo varias vezes, mas e um conceito que ouvi pela primeira vez na Plum Village, pelas palavras de um americano que me estava a falar do Ken Wilber – um dos filosofos mais aclamados do nosso tempo (e um individuo supostamente iluminado, por acaso). Curiosamente, esse americano (o D___) e um grande fa de Tool, Tool esses que tem precisamente uma musica que fala deste mesmo conceito: “46 & 2”. Uma das musicas instrumental e liricamente mais poderosas da banda, que creio referir-se a uma busca, batalha, evolucao e consequente revolucao espiritual.
 
2007, Maio 19
     Mais um dia livre; mais um pouco de internet. Um mail (…). Mais um prego espetado fundo no coracao, mais uma oportunidade para aprender a amar incondicionalmente… A vida tem sido mesmo generosa nesse aspecto nestes ultimos 7 meses.
 
2007, Maio 20
     (…) palavras (que) nao me saem da cabeca, esmagam, espetam-se no meu coracao, cospem-me na alma, fazem lagrimas descer pelo meu rosto… Acho que me encontrei na alma de uma mulher e o sabor amarga os labios.
     (…) Vida ironica, e o filha da puta do ego sempre a cravar as suas garras…
 
2007, Maio 21
     Parabens, maninho!! Vinte e nove aninhos, ein? Estas aqui, estas nos 30! Espero que tenhas um dia cheio de revolucao, mudanca de atitudes e clareza de espirito! Um abraco saudoso, aqui do teu bro.
     Hoje tive mais uma prova de como o ambiente externo nao afecta necessariamente o “clima interno”. Sai do Kohojo (a sala de espera do Sanzen) e dirigi-me para o Zendo. Seis e um quarto da manha, um silencio profundo, o sol a romper por entre os ramos das arvores, os passaros a chilrear suavemente, a imponencia do Hondo a erguer-se por entre o verde da floresta, um corvo pousado num telhado para de seguida voar por entre os pinheiros japoneses…  Porem, no meu coracao nem um vislumbre de paz, nem uma pegada de alegria… Apenas a mais pura melancolia, nostalgia e a eterna fraqueza de espirito.
 
2007, Maio 22
     Com 9 dias de atraso, aqui vao os parabens para o menino G___, o melhor guitarrista da tuga, e para o menino P___, que deve ter completado o seu terceiro aniversario! Muitos parabens aos meninos e perdoem o atraso!
      Hoje fui telefonar a mama e ao papaa cabine telefonica em frente ao portao de Sogenji. No caminho cruzei-me com um homem negro que se dirigia para a sua carrinha. Achei curioso, pois foi o primeiro negro que vi no Japao. Entrei na cabine telefonica, mas, a uma distancia de 10 metros, ouvi o homem a cantar algo muito descontraidamente.  Achei piada, principalmente porque cantava muito bem. Abri a porta da cabine para ouvir melhor e depois gritei-lhe de longe, “Falas ingles?”. Ele fez uma pausa e disse, “Acho que sim”. Cantas muito bem”, disse eu. Ele riu-se e disse que estava a cantar uma musica Reggae. Aproximamo-nos e cumprimentamo-nos. Chama-se M___, nasceu na Nigeria, mas vivia nos EUA antes de ter vindo para o Japao ha 12 anos atras. Em 5 minutos de conversa muito animada falamos de futebol, musica, religiao e aulas de ingles (que e o que ele faz no Japao). Gostei mesmo do espirito do homem. Aquela alma negra, cheia de vida e inspiracao – a mesma alma que respira no Jazz, no Reagge e no Gospel.
 
2007, Maio 23
     (…) Sei que quando sai de Portugal estava desesperado por respostas para as minhas duvidas espirituais. Estava verdadeiramente necessitado de esclarecimento espiritual. Agora, 7 meses mais tarde, vejo que nao estou preparado. Vejo que sou imaturo, sou um miudo num caminho de homens maduros. O Zen e para homens (e mulheres), nao para criancas – como eu. (…)
     (…)
     Hoje foi tambem dia de Takuhatsu (Omotecho). Houve uma altura em que paramos todos a espera do sinal verde para atravessarmos a rua.  Eu estava na “fila” da frente e senti alguem atras de mim, mas estranhamente proximo – mesmo colado.  Fiquei curioso, mas nao olhei para tras. Depois essa pessoa deu um toque com o seu chapeu no meu – os chapeus estilo “tigela invertida”. Pensei: “Deve ser o R___, o meu melhor amigo agora em Sogenji, a meter-se comigo”. Olhei para tras e vi o Roshi a sorrir. Afastei-me para o lado, como que a dar-lhe passagem, e disse, “Dozo” – palavra japonesa para “forca” ou “a vontade” (em ingles seria “help yourself” ou algo do estilo). Ele riu-se e empurrou-me com a mao, como quem diz, “tu vais a frente”. Estava a brincar comigo, o menino Roshi. =)
 
2007, Maio 26
     Neste preciso momento uma das minhas bandas preferidas deve estar ja a tocar no Pavilhao Atlantico – Dave Matthews Band. Eu vou agora pegar na vassoura e varrer as passadeiras de Sogenji. Digam la que nao sou um gajo com sorte… Ao menos vou a trautear a #41…
     Mas mais importante que isso sao os aninhos da minha maezinha mais linda (se bem que seja a unica que eu tenho!). Que tenhas um dia sereno e cheio de alegria – mereces isso mais que ninguem! Adoro-te imenso, meu amorzinho. Obrigado por todo o teu esforco continuo e dedicado. Parabens, bebezinho.
     Obrigado, J___. Ve-se bem que es irma da I___… A mesma alma, o mesmo calor, a mesma ternura e meiguice. Como diria o Sam, the kid, voces “mandam B.I.” – beleza interior. E muita, mesmo. Obrigado pelas tuas palavras gentis e sensatas, pelo teu apoio, pela tua doce compreensao.
 
Dre
Published in: on 28/05/2007 at 5:59  Comments (3)  

Diarios de Sogenji – XV (28 de Marco a 22 de Abril)

 
2007, Marco 28
 
     Hoje tem passado por aqui dezenas de pessoas – tudo por causa de uma cerejeira em flor (viva a Primavera). Hoje de manha estavam cerca de 10 fotografos a arvore – que esta realmente linda. Todos eles com grandes tripes e objectivas bem razoaveis. Eu juntei-me a eles com a minha maquina descartavel de 2,5 euros (420 yenes).
     Desde anteontem que eu e o J___ (o "amigo russo", como lhe chamei ha alguns meses atras) andamos de "turras as avessas". Ele ficou picado por nao ter sido convidado para a "festa" de despedida do F___ e do J___ e desde ai anda sempre em cima de mim. Cada coisa "errada" que faco e motivo para uma palestra dela. Ele vem quase sempre com falinhas mansas, dando licoes de moral, mas o ego dele tresanda a milhas de distancia. Nao tenho conseguido lidar muito bem com a situacao: embora nao entre em grandes argumentacoes com ele, na minha cabeca ja o desanquei argumentativa e fisicamente de 1001 formas diferentes!
 
2007, Abril 5
 
     Ola, ‘Vozinha!! Parabens! Oitenta e sete aninhos… Ja sao alguns anos de vida, ein? Algumas primas veras. Espero que esteja tudo bem, dentro do possivel. Beijo grande, Vovo!
     Hoje vao embora os 10 cristaos-zen provenientes da Holanda que chegaram dia 1 de Abril. Foi bom te-los ca – precisamente numa altura em que a Sangha esta muito pequena (cerca de 10 ou 12 membros).
     (…)
     Desde ontem e durante 9 dias, temos aqui uma coisa chamada "Kenshukai" – homens e mulheres, recem-contratados por grandes empresas, vem por 1 ou 2 dias conhecer-se melhor no contexto das actividades do mosteiro. Ontem e hoje tivemos uma serie de enfermeiras novinhas – rostos bonitos e sorridentes (nem todos, claro), so faltaram mesmo as fardas para completar o quadro.
     Claro que nem tudo sao rosas e ter entre 20 a 40 pessoas extra aqui no templo aumenta em muito o volume de trabalho.
     Desde meados de Marco que estava mesmo decidido a abandonar Sogenji em Finais de Abril. Entretanto, para  nao tomar nenhuma decisao precipitada, decidi so falar com a C___ sobre isso a partir de 1 de Abril. A vida e ironica e, precisamente a partir de esse dia, deu-me um ataque de alguma indiferenca em relacao ao meu "mundo portugues". Nao que goste de estar aqui, mas passou a ser mais toleravel – em Marco estava a vomitar Sogenji por todos os poros.
     Mas agora sinto-me um bocado esquisito: estou farto de estar aqui, mas ja nao sinto aquela vontade assambarcadora de regressar. Se o fizesse agora, seria uma decisao puramente mental, sem verdadeira conviccao.
 
2007, Abril 8
 
     Parabens, bebe Buda! Hoje e o dia do nascimento do Buda. Ja lhe lancei cha sobre a cabecinha, numa cerimonia no Hondo.
     Chegamos ao dia do meio do Kenshukai – a semana agitada e cheia de trabalho, mas que, por vezes, ate e engracado.
     (…)
 
2007, Abril 14
 
     (…)
 
2007, Abril 16
 
     Primeiro dia de mais 1 Osesshin. Sanzen da tarde (quase que me espalhei na lama): "Mata o teu Eu. Mata o teu Eu completamente com esta respiracao".
 
2007, Abril 19
 
     No Sanzen: "Nada de espacos, senao a tua concentracao esvai-se. Ainda es muito esperto. Tens que te tornar estupido, idiota, tonto. Se queres purificar a tua mente nao podes ser esperto".
 
2007, Abril 21
 
     Neste Osesshin tive o prazer de contar com a presenca do AL___. Porem, hoje e o sexto dia e ele vai embora. Diz que nao esta a aguentar mais – e desta vez acho que vai embora para nao mais regressar. Estou a ver que os tugas nao foram feitos para isto! Curiosamente, ele vai embora no dia em que eu fui o cozinheiro. Sera que a minha paparoca lhe deu a volta ao estomago?=) Acho que nao – ainda por cima fiz uns biscoitos a maneira!
     Acabei de vir do Sanzen da noite. Como sou o Tenzo, fui o primeiro a ir, pelo que nao tive traducao (os "traduzidos" sao sempre os ultimos a ir). Ele falou algumas coisas em japones intercaladas com ingles. "…How do you feel?… Your head pushes the sky – pontou com o Keisaku para cima – your foot pushes the earth – apontou com o Keisaku para o chao. Full – com os bracos alargou-se, mostrando-se cada vez maior. You’re gradually becoming good at everything (at your breathing??, nao percebi o que ele disse). Tomorow (ultimo dia do Osesshin) don’t stop!"
     De facto, embora antes do sesshin comecar nao me sentir nada motivado (oh, meu Deus! Mais um Osesshin!!), a verdade e que logo desde o primeiro dia que tenho vindo a dar o litro (dentro do possivel, claro!). Vou tentar aproveitar amanha (e hoje, e AGORA!!).
     E, mesmo depois do Sanzen, vinha eu a caminho dos meus "aposentos" – a cozinha! -, a C___ chamou-me e, no escuro, sussurrou-me ao ouvido: ("Socorro, estou a apaixonar-me!! E impossivel resistir a tanto charme!" Eu sei, nina, eu sei!Lol.) Agora a serio, disse: "O Al___ disse-te alguma coisa sobre o porque de se ir embora?" A conversa seguiu o seu rumo, mas foi engracado falar com ela, tao sussurantemente, no escuro, tao proximo (para ouvir o que ela dizia tao baixinho). As vezes gostava de me poder dar melhor com a C___, mas regra geral nao sei bem como agir com ela. Tenho a sensacao que ela nao muito com a minha cara, mas outras vezes ate acho que vai… Num sei…
 
2007, Abril 22
 
     Fim de mais um Osesshin (so faltam 35 mil para a iluminacao!) e que vim eu fazer? Abanar o capacete para a Guesthouse – ha mais de um mes que nao ouvia D.A.D.!
     No ultimo Sanzen do Osesshin: Levantou a mao ao alto e depois bateu com ela na barriga. "Como esta esse Tanden? Cheio de energia ("Life energy")?" Como se a resposta fosse nao, ele continuou: "Porem, a tua essencia esta realmente a ser cultivada". Voltou a dizer que "o ‘Andure’ e uma pessoa realmente honesta" – ainda nao percebi onde e que ele quer chegar com essa expressao (verdade seja dita, ainda nao assaltei os cofres do templo, por isso devo ser mesmo honesto – embora a unica razao seja por nao saber onde eles estao!). Disse ainda "Tens que ter fe no teu Verdadeiro Eu ("True self"). O Susokkan (a tecnica de respiracao) nao e apenas uma ferramenta. Ele e a propria fonte onde podes encontrar a fe no teu verdadeiro Eu". Ja nao me lembro muito bem – escrevendo ao som das guitarradas dos D.A.D. custa-me lembrar as palavras exactas do Roshi! =)
      Mas por acaso correu bem este Osesshin. Estava mesmo desanimado antes de ele comecar – "Meu Deus, mais um Osesshin!". Ja tinha dito isto, nao? Mas decidi (ou algo decidiu por mim) voltar ao tal do Susokkan – contar as expiracoes, expirar completamente, morrendo em cada uma delas. E a verdade e que senti o meu Ki (ou Chi, ou energia vital – a segunda parte da conhecida palavra ReiKi) a crescer progressivamente, dia apos dia. Por vezes, sentia-me mesmo cheio e era capaz de varrer os terrenos de Sogenji… 5 vezes seguidas! E faz toda a diferenca ter o Tanden vibrante de energia ou nao. Nos ultimos tempos tinha abandonado o Susokkan e estava mesmo sem energia. Sem esse Ki, a mente facilmente toma conta de mim – a nostalgia, as saudades, os medos pautam a minha vida. Quando estou cheio de Ki, quando respiro (expiro) seriamente, todos esses problemas encolhem drasticamente. Quando penso nos receios em relacao ao futuro profissional, em relacao a I___ ou a A___, ou tantas outras coisas, ate da vontade de rir. COm um Tanden tao grande esses problemas ficam mesmo pequenos.
     Duas coisas tambem me ajudaram a ganhar forca para este Osesshin. Uma foi a demonstracao que o St___ fez do "expirar completamente" e do "cortar". Ele puxou um determinado assunto e eu peguei nisso e comecei a desabafar as minhas dificuldades, os meus medos, as partidas da minha mente. Ele respondeu simplesmente "Entao corta. Comeca agora mesmo. Corta!". La se foi a minha oportunidade para desabafar. Depois mostrou o "expirar completamente" dele. Expirou e expirou. E expirou ainda mais. Com os olhos quase a sair das orbitas, as veias a querer saltar do corpo, expirou mais um pouco ainda. Depois inspirou profundamente e dise "Corta, certo?"
     A outra foi um mail do S___ onde ele me disse que costumava ter problemas com o tedio (principalmente quando foi monge na Tailandia numa ilha quase deserta). Quando percebeu que o tedio e apenas um estado mental, nunca mais sentiu tedio na vida. Tambem costumava ter problemas gravissimos de depressao. Quando percebeu que nada nem ninguem exterior o poderia satisfazer, ficou curado de vez do problema.
     Assim, quando durante o Osesshin sentia a minha mente a cultivar saudades ou carencias ou anseios em relacao ao futuro ou ao que deixei na Tuga, dizia para mim mesmo "E apenas um estado mental (talvez uma melhor traducao para "mental state" seja "estado de espirito")" e expirava profunda e corpolentamente e "cuspia" tudo isso para fora do meu corpo-mente. Cuspi familia, amigos, ex-namoradas, empregos e todo o tipo de lixo que vinha ao de cima no oceano poluido da minha mente. Perdoem-me, mas a unica forma de vos amar verdadeiramente e libertar-vos do fardo de viverem na minha cabeca.
     Fio engracado tambem ver como, na minha cabeca, alguns pensamentos parecem ser mais reais, ou ter mais validade ou razao de ser, que outros. O pensamento "Quem me dera ser rico" e logo desmascarado e cuspido na expiracao seguinte, mas o pensamento "Bolas, este Zazen e mesmo dificil" ou "Nunca hei-de realizar a Mente de Buda" parece bem mais real. Mas com a dica do S___ ("nao passa de um estado mental") rapidamente me apercebi que um pensamento e apenas isso: um pensamento, tenha ou nao uma base material por detras (ou uma aprente razao de ser). Tornou-se mais facil libertar-me dos pensamentos mais "justificados".
     Outra coisa sao os pensamentos emocionais – aqueles que evocam uma reaccao directa no corpo (aquilo que o Eckhart Tolle chama de "corpo de dor"), como a saudade, a tristeza ou a nostalgia. Parecem reais porque o corpo todo vibra com eles – o que nao acontece com o "Quem me dera ser rico", por exemplo. Mas agora, mesmo esses, sao um pouco mais faceis de "cuspir".
     Acho que regressei um pouco a essencia da practica Zen, resumida pelo Hogen Yamahata da seguinte forma: "Respirem apenas".
 
Dre
Published in: on 08/05/2007 at 8:50  Deixe um Comentário  

Diarios de Sogenji – XIV (26 de Fevereiro a 26 de Marco)

 
2007, Fevereiro 26
 
     Recebi mais uma cartinha, desta feita da mae mais bonita do mundo. Realmente estou rodeado das pessoas mais maravilhosas. Obrigado!!
 
2007, Marco 2
 
     No Sanzen o Roshi disse algo do genero: "Estar sentado ai nessa auto-satisfacao (por acaso nao estava a correr mal a meditacao) nao serve para nada. Sentado no teu proprio egoismo, que mais valia trazes tu ao mundo?Que ajuda podes levar aos outros? Se te sentares com uma motivacao verdadeira e pura, a energia flui de dentro de ti para o exterior naturalmente. E isso que vejo em ti, essa energia, mas esta coberta por uma camada espessa de pensamentos dualistas".
     Acho que o meu Zazen (havera algo a que possa chamar de "meu" Zazen?) esta a melhorar, o que e bom para tentar aproveitar ao maximo o Osesshin que comeca ja dia 7, precisamente no aniversario da minha mana mais linda!
     As palavras do Roshi desanimaram-me um pouco, porque estava a correr bem o Zazen. Mas depois pensei "Quem e que esta aborrecido? Quem e que ficou frustrado? Fora com as ideias dualistas". Voltei logo a pergunta com a qual tenho estado a trabalhar: "Quem sou eu?"
 
2007, Marco 6
 
     No Sanzen nao percebi muito bem o inicio da traducao: "You’re (not?) being able of letting go (of ideas, thoughts). When walking just walk, when sitting just sit. No duality. If you allow duality, that’s a life of suffering. Just allow the life energy to manifest. There is only this!" Tocou a sineta e fiz a prostracao para sair. Quando ia a fazer a venia que se segue, ele acrescentou algo. Esperei pela traducao: "Don’t let go of it (this life energy)". Fiz a venia e ia para a segunda prostracao, ja quase fora da sala, quando acrescentou ainda "Even a child can do it, if she let go of the adult state of mind".
     Amanha comeca mais um Osesshin. Hoje foi a habitual cerimonia de abertura, chamada Osesshin Kokuho. Vendo o meu diario, no ultimo Osesshin, ha precisamente 31 dias atras, escrevi: "Mais 7 dias de meditacao intensiva, mas e a miha mente pergunta ‘Para que?’". Hoje o espirito e bem diferente e a minha mente pergunta "Quem sou eu?" .
     A tarde disse ao F___, entusiasmado: "Amanha a S___ faz anos. Vou-lhe ligar. Estou ansioso". Ele disse: "Amanha? Em Osesshin? Nao podes!" Eu resmungei e contra-argumentei um pouco; ele abafou-me dizendo: "Osesshin e para mandar tudo fora!"
     Decidi fazer isso e mandar "fora" varias coisas que iria fazer durante o Osesshin. Perdoa-me, S___. Vou-te buscar a reciclagem depois e ligo-te quando o retiro acabar.
     Antes do Kokuho fui ao atelier do Dairin. Depois, na despedida, ele desejou-me um bom sesshin e disse "Vemo-nos no outro lado, na outra margem". Ha 31 dias tambem escrevi algo sobre esta outra margem.
     Depois fui por um croissant com chocolate no cantinho do F___, pensando que ele nao estaria la. Apareci la e dei de caras com ele sentado sob a luz de uma pequena vela. Estava a preparar-se/mentalizar-se para o retiro. Trocamos umas palavras amigas, eu disse-lhe que ia mandar tudo fora como ele ‘exigiu’ e que ia comecar por ir a retrete. Depois sai.
     Senti e estou a sentir um clima muito diferente para este retiro. Parece que esta tudo um pouco em estagio. Antes do Kokuho senti-me nervoso, como que antes de uma importante actuacao (como se tivesse tido alguma). Arrumei a minha secretaria, pus as "imagens de sofrimento" bem a vista e preparei-me para o confronto. Espelho meu, espelho meu, diz-me, por favor, "Quem sou eu?"
    
2007, Marco 7    
 
     Parabens, mana princesa! Realmente, mesmo que hoje quisesse ligar-te nao devia dar. Estes Osesshins partem-me a cabeca toda – e os joelhos tambem!
     Mas espero que estejas a ter um dia feliz, que nao julgues que me esqueci de ti – isso seria esquecer uma das partes mais importantes de mim proprio. Fica um beijo grande. Adoro-te! Nao sei o que dizer mais… queimei os neuronios todos no Zazen.
 
2007, Marco 8
 
     A temperatura, que ja estava a ficar bem amena, caiu 10 graus ontem – e tem-se mantido assim. E para fazer lembrar o mes de Dezembro. Foste tu, mana, zangada por nao ter ligado?=P
 
2007, Marco 10
 
     Aiii… Senti a "outra margem" quase deste lado. No Zazen, fechei os olhos – contrariando as instrucoes do Roshi – e perscrutei, segundo a segundo, a minha mente. Os pensamentos surgiam e eu cortava-os logo, sem contemplacoes, com a espada do bodisatva Manjusri. Nenhum pensamento – apenas o olho da mente cravado na propria mente.
     Senti uma energia a surgir dentro de mim, principalmente na cabeca. Senti que estava quase "la". Com a mente completamente vazia (pelo menos assim eu achei), perfeitamente atenta a ela propria, que obstaculos poderia haver que a impedissem de constatar a sua verdadeira natureza? O medo surgiu.Algo em mim assustou-se. De cada vez que eu fincava a atencao na minha mente, algo parecia dizer "Deixa la isso. Isso e perigoso!" Tentei ignorar isto, mas acabei por perder a concentracao ao fim de algum tempo.
     Mas senti, de uma forma exttremamente forte, aquilo que sinto esporadicamente com menos intensidade: que algo dentro de mim esta quase a compreender alguma coisa, prestes a explodir num "Eureka" cosmico!
     No Sanzen seguinte relatei a minha experiencia ao Roshi. Ele focou-se essencialmente no medo que surgiu e, entre outras coisas, disse que "as pessoas focam-se no seu medo e nos problemas do mundo como se eles fossem a coisa real. O importante e manterem-se com ‘isto’." Afirmou, expirando lenta e profundamente.
 
2007, Marco 11 
 
     Parabens, S___ M___!! Tenho saudades tuas e da A___! Que pena termo-nos afastado… Tem um dias maravilhoso! Saudades de nos no Iscte…
     Hoje lembrei-me de uma musica dos Tool (que saudades tambem!) que tem uma letra bastante espiritual (que raio quer isto dizer?!). Chama-se "Reflection":

So crucify the ego, before it’s far too late
To leave behind this place so negative and blind and cynical,
And you will come to find that we are all one mind
Capable of all that’s imagined and all conceivable.
Just let the light touch you
And let the words spill through
And let them pass right through
Bringing out our hope and reason …
Before we pine away.

 
     Estava tambem preocupado com o que ia cozinhar no ultimo dia do Osesshin, embora nao tenha pensado tanto nisso como no dia anterior. E um dos pontos de referencia da minha pratica: o quanto me consigo desprender da tendencia para me preocupar com os meus dias como cozinheiro, que nao envolvem apenas cozinhar, mas tambem atender o telefone – em Japones (Moshi, moshi! Sogenji desu!) – e receber as pessoas que vem oferecer ou entregar coisas ao templo – tambem em Japones, o que por vezes e complicado de gerir. Mas em relacao a isso, a minha pratica e "Que se f#&$!!". Anyway, estava a pensar no que cozinhar, quando a C___ me perguntou o que queria eu para o meu dia de Tenzo, que ela comprava (por ser o ultimo dia do retiro). Eu disse, feliz: "Batatas!" Alem disso, tivemos uns pudins gostosoes! Da vontade de dizer: "Abre as maos e relaxa – a vida oferece".
 
2007, Marco 12
 
     Um destes dias lembrei-me do album dos Live que recebi no Natal de 1996 – o primeiro ano em que recebi cd’s. Para referencia, este e para mim tambem um dos melhores albuns de rock que conheco (Live – Throwing Copper). Lembrei-me disto, em pleno zazen, porque o album seguinte dos mesmos meninos (que nao e tao bom, na minha opiniao) chama-se "Secret Samadhi" – sendo este "samadhi" uma palavra varias vezes ouvida aqui no templo. E pronto, fiquei nostalgico, a ter pensamentos dignos de um velho: "Xii, 1996, ha mais de 10 anos. Deixa ver, tinha os meus 13/14 anos, estava ainda na (4a classe!) secundaria da Povoa, cheio de sonhos e esperanca, cheio de vontade de ser vocalista de uma banda (adoro cantar, embora acerte sempre nos tons errados – mas cheguei a ter um album completo composto na minha cabeca). Enfim, um jovem cheio de vida e forca para viver". Quando olho para o panorama da minha vida nos ultimos meses (serao ja anos?) nao posso deixar de me perguntar "onde foi parar essa esperanca e vontade de sonhar?". As vezes penso que esta pratica Zen esta a deixar-me deprimido. Bem, nao penso, tenho a certeza, pois tem sido essa a minha experiencia nos ultimos 5 meses. Pela primeira vez, acho que estou a sofrer daquilo que tantas almas sofrem nestes "gloriosos" tempos modernos: depressao.
     Nao sei se perder a esperanca nao sera bom. Pelo menos no "Clube de Combate", esse filme tao Zen (muitos nao sonhariam), diz-se "Loosing all hope was freedom". Em ultima analise, a esperanca e apenas uma manifestacao cor-de-rosa da sempre negra tendencia do ego para se focar no futuro. Se nao me engano, a palavra "esperanca" deve derivar da palavra "espera" e, como diz "O Pensador", "Quem espera nunca alcanca", pois quem espera nao esta vivo, ja que esta a espera que a vida assuma uma determinada forma no futuro – "Estou a espera. Estou na fila para a felicidade". O proprio Eckhart Tolle disse para eliminarmos a espera enquanto postura mental ou atitude perante a vida.
     Mas acho que esta minha perda de esperanca nao e assim tao positiva. O futuro na minha cabeca assume sempre formas assustadoras e acho que a palavra "sonhar" desapareceu do meu coracao… Um dia escrevi "Quem sonha voa alto; quem nao sonha perdeu as asas". Onde se meteram essas asas? Acho que atei as minhas asas de sonhar com correntes de medo.
     Ate me envergonho ao pensar em todos os livros espirituais que ja li, nos proprios textos que escrevi, esperancosos e luminosos, nos workshops que frequentei e nos anos razoaveis  a que ja me dedico com algm afinco a esta jornada interior. Pensar nisso e ver onde me encontro agora, psicologica e emocionalmente, e como ver um doutorado em Matematica incapaz de contar feijoes dentro de uma sacola. Da vontade de dizer "Conta pelos dedos, man!"
     Da-me vontade de gritar, como nos filmes, "Liberdade ou morte". Quero ser livre, mas nao consigo e as vezes sonho com uma bala no centro do cranio. Estou tao cansado de ser eu proprio, sempre comigo as costas… Morre, por favor, (fantasma psicologico chamado) "Andre"!
     Este passado e este futuro, que nao existem, pesam como montanhas de chumbo. Arrastando estes pensamentos e emocoes diariamente, sinto-me como uma crianca de colo a gatinhar atada com uma corda a um Boing 747 (e nao, nao e o concurso "Homem de Ferro"). Se este aviao nao levantar voo, ao menos que se lance no fundo do mar.
     Escrevo estas palavras enquanto oico os DAD (quem mais?) a cantar "Here’s my heart, my hope is drowning". Bem, foi so um desabafo. Mas que estas palavras sirvam para quem as ler apagar da memoria que eu sei alguma coisa sobre espiritualidade. Sou como uma flor de lotus, maravilhosa vista de fora. Se olharmos a fundo, vemos que esta enterrada no lodo! Ouviste, S___?
 
2007, Marco 13 
 
     No cha que os Tenzo tem com o Roshi no dia em que estao de "servico", ele despediu-se de mim com um bem pronunciado "obrigado". Foi engracado e ate tocante. No final do dia, enquanto esperava por ele para irmos para o Zendo, ele agradeceu-me "thank you", ao que eu respondi, com uma venia e um gassho, "you’re welcome". Depois ele disse "obrigado", mais uma vez. Eu ri-me. Passados alguns segundos respondi "de nada". Passados alguns segundos ele riu-se tambem. Gosto de ti assim, Harada Roshi!
 
2007, Marco 17 
 
     Hoje lembrei-me de uma das minhas musicas preferidas de Pearl Jam – "Present Tense" -, que fala precisamente sobre algo que eu nao consigo fazer e que e a razao da minha vinda para o Japao:
 
You can spend your time alone redigesting past regrets.
Or you can come to terms and realize
you’re the only one who cannot forgive yourself.
Makes much more sense to live in the present tense.
    
     E precisamente o que nao tenho conseguido fazer – sempre assombrado pelos fastasmas do passado e, principalmente, do futuro (do condicional, ainda por cima).
     Logo a seguir cheguei a uma "triste" conclusao: o nome do meu blog, onde transcrevo este diario, tambem ele me recorda cabalmente esta minha incapacidade de viver plenamente cada "Encontro no Aqui-Agora". Devia mudar o nome para "Desencontro no Aqui-Agora" ou mesmo "Encontrao ao Aqui-Agora" (chega para la, nao quero nada contigo!).
 
2007, Marco 19
 
     Feliz dia, paizinho! Aqui o filhote hoje foi Tenzo. Mais um dia super cansativo, mas correu tudo bem!
     Agora ando a ouvir Damien Rice no Ipod do Frank. Tenho que aproveitar, porque ele esta quase a ir embora! =(  Mas realmente em Portugal nao me tinha apercebido da beleza (triste) das musicas do Damien. E um album mesmo bom. Deixa-me com os sentidos a flor da pele – cheio de alma, com tudo o que ela traz de bom e de mau. E uma mudanca radical – de DAD (este album) para Damien Rice -, mas uma boa mudanca. Por favor, oicam este album!=)  "And I look to my eskimo friend when I’m doooooowwn!" Sem palavras! Apenas um arrepio na espinha de cada vez que oico o final desta musica ("Eskimo").
 
2007, Marco 21
 
     Bem-vinda, Primavera! O teu sol sabe bem, depois de um Inverno gelado (nao tanto como o habitual, disseram-me), embora as pontas do dia ainda sejam frias.
     O mesmo passa-se dentro de mim. O sol parece querer surgir, mas, muitas vezes, sou ainda apanhado nas chuvas frias de Inverno. Todos os "guarda-chuvas" que tenho utilizado tem-se revelado pouco eficazes. So me resta aprender a viver encharcado ate aos ossos…
 
2007, Marco 23
 
     Hoje, durante o Niten Soji (limpezas matinais), quando varria um dos caminhos de Sogenji, o Roshi, que estava a meia duzia de metros, chamou "Andre". Eu olhei para ele; ele bateu com a mao dele na sua barriga, como quem diz "Tanden, nao te esquecas.
 
2007, Marco 24
 
     No cha com o Roshi ele perguntou-me "Como estao os teus pais?" "Estao bem", respondi. "Pelo menos na ultima vez que falei com eles". "Quando foi isso?" "Ha 3 semanas, talvez." "Eles vivem numa cidade grande?" "Sim, em Lisboa." Depois disse "Ah, porque tu es tao honesto", como se fosse uma especie de honestidade rural – contrastando com a esperteza citadina, talvez. Ja varias vezes ele me disse isso no Sanzen. Uma vez disse "Es uma pessoa honesta. E por isso que nao quero que percas o momento (presente)".
     Durante o cha tambem disse que eu, o R___ e o St___ formamos uma boa "equipa" – de espirito jovial. Depois, ao sair da sala do cha (Osetsuma), o Roshi despediu-me com um sorriso um pouco estranho. Parecia emanar um profundo amor – quase paternal -, mas ao mesmo tempo triste, como se soubesse que eu ja tinha tomado a decisao de abandonar Sogenji num futuro proximo. De qualquer forma, sai da sala com um sentimento de profundo amor e respeito pelo mestre. Tanto amor e respeito que, em conjugacao com uma conversa que tive com o F___ mais tarde nessa noite, decidi repensar a minha opcao. Vamos aguardar.
 
2007, Marco 26
 
      Hoje, dois dos meus melhores amigos foram embora – o J___ deve regressar dentro de 2 meses – vindo da Coreia -, mas o F___ so pensa regressar em Novembro – nessa altura ja devo estar por terras lusas.
     ONtem a C___ pos um gravador de cassetes no meu quarto (estou a pensar gravar os Sanzens – e quem sabe os Teishos). Juntamente deixou um pequeno papel com umas palavras atribuidas e utilizadas a Nelson Mandela, mas escritas por Marianne Williamson:
 
O nosso pior medo nao e sermos inadequados. O nosso medo mais profundo e sermos incomensuravelmente poderosos. E a nossa luz, nao as nossas trevas, que mais nos assusta. Perguntamo-nos a nos proprios "Quem sou eu para ser talentoso ou fabuloso?" Na verdade, quem e que tu nao es para o ser? Tu es um filho de Deus; fingires-te de pequeno nao serve o mundo. Nao ha nada de iluminado no acto de te encolheres de modo a que os outros nao se sintam seguros ao pe de ti. Nos nascemos para tornar manifesta a gloria de Deus dentro de nos. Nao esta apenas dentro de alguns de nos; esta em toda a gente. E ao deixarmos a nossa luz brilhar, inconscientemente damos permissao aos outros para fazer o mesmo. Ao sermos libertados do nosso proprio medo, a nossa presenca automaticamente liberta os outros".
 
     Desconfio que ela me deu os gravadores porque o F___ falou com ela – eu tinha lhe dito a ele na vespera precisamente que queria comprar um gravador. O papel com as bonitas palavras deve ter sido porque ele tambem lhe disse que eu estava "vai, nao vai…" para me pirar de Sogenji.
 
Dre
Published in: on 11/04/2007 at 8:28  Deixe um Comentário  

Diarios de Sogenji – XIII (12 a 25 de Fevereiro)

 
2006, Fevereiro 12
 
     Hoje foi mais um dia a arrastar a alma pela lama do chao… Tem sido a regra das ultimas 2 ou 3 semanas… Uma desmotivacao gritante, um anseio por casa sufocante, uma inseguranca, uma ansiedade… e a lista continuaria mais algumas linhas. Claro que tenho bastantes bons momentos, mas parece que mais cedo ou mais tarde volto a cair no mesmo buraco.
     Agora tenho andado a ouvir DAD como um desalmado e algumas das letras reflectem o meu estado de espirito:
 
     Some people live so close to their bones with just themselves to be,
     but I run around inside myself like something’s after me.
     You’re telling a drowning man not to grab for straws.
     I’m a kid in a rowboat who’s lost his oars.
     I take off my skin, underneath there is nothing.
     Everything’s gonne, a naked skeleton.
     A piece of an arm. A piece of a leg. A piece of my tongue
     and peace for everyone.
 
     Mas hoje liguei a S___. Foram 2 minutos e meio, mas quando se trata de uma alma do tamanho do mundo como ela, 2 minutos valem por 2 semanas! Mais uma vez, obrigado! Fiquei logo melhor.
 
2006, Fevereiro 14
 
     Ainda ontem disse ao telefone com a minha mae que aqui nao chove muito. Hoje, logo em dia de Takuhatsu, uma carga de agua valente! E para arrefecer os coracoes mais escaldantes neste dia de S. Valentim.
 
2006, Fevereiro 18
 
     Parabens, L___!  Onde quer que estejas, com quem quer que estejas, quem quer que sejas, que estejas bem e sejas feliz!
     Ha dias, num dos meus passeios pela floresta – que descambou parcialmente num passeio pelo bairro – vi mais um carro com um nome engracado: "Mazda Familia". Parece que a influencia tuga chega ate ao pais do Sol Nascente. De facto, aquela que, provavelmente, e a palavra japonesa mais utilizada no Japao e conhecida fora dele, deriva da lingua de Camoes. E facil de ver como "Obrigado" evoluiu para "Obrigato" e acabou em "Arigato". Foi o que me disseram, pelo menos.
 
2006, Fevereiro 21
 
     Hoje fui dar um passeio nocturno pela floresta, antes do Kaichin. Mas nao fui sozinho; fui com o meu anjo belga, o F___. Foi muito fixe, quase sempre em silencio, de lanternas apagadas sob a luz suave de uma lua em quarto minguante. Paramos algumas vezes para meditarmos um pouco em 2 locais com uma vista privilegiada para a cidade. Muito bom.
     Depois, chegados aos nossos aposentos, mostrou-me, no seu Ipod, uma parte de um Teisho que o Roshi deu no Osesshin de Outubro – 2 dias antes de eu chegar. Sempre inspiradoras, motivadoras e desafiantes as suas palavras. Depois disse: "Estou a procura de uma musica… Conheces Damien Rice?" Eu sorri, surpreendido. "Sim, claro! Essas musicas trazem-me muitas recordacoes…", disse nostalgico. Passou-me os auscultadores e uma voz suave cantou:"Cold water surrounds me now, and all i’ve got is your hand. Lord can you hear me now? Or am i lost?" Voltei 4 meses atras…
     Depois disse-lhe que fui ver um filme chamado "Closer" com a minha ex-namorada, que nao tinha gostado muito do filme, mas que a musica "The blower’s daughter" (do mesmo cantor) me tinha marcado. Ele depois disse: "Que coincidencia. Tambem fui ver esse filme com a minha ex-namorada que me disse que tinhamos que encontrar essa musica, mas nunca a encontrei. Agora que me falaste nela, percebi que era essa musica. Tenho que lhe a enviar". Mundo pequeno – e ainda por cima redondo!
     Depois li a carta da A___ – muito bonita, acompanhada por uma foto igualmente bonita, de cabelo curtinho. Tres cartas em 4 meses, excelente media! Das 6 cartas que recebi de Portugal, metade sao tuas. Obrigado! =)
 
2006, Fevereiro 22
     Hoje houve jogatana de futebol – ah pois e, o tuga aqui teve que partir alguns rins. Americanos e Niponicos a jogar futebol?! Mas o que e que isso?! Deixem isso para os latinos! Mas fiquei a saber que o japones conhece o Figo e o Cristiano. Foi bom, para queimar energias e mexer o corpo – e foi divertido!
 
2006, Fevereiro 24
 
     Parabens S___. Aqui o tempo esta um pouco cinzento. Espero que nas terras alem Tejo o sol brilhe para te aquecer (e ao teu soldado do amor!). Mas se o sol nao brilhar, a vossa luz sera suficiente. Um dia feliz para ti (ou mil dias, ou um milhao!).
 
2006, Fevereiro 25
 
     Questiono-me "Donde vem tanta dor? Tanta angustia?" Quem ler estes "Diarios de Sogenji" deve pensar que cai direitinho no inferno! Estou a passar as passas do Algarve aqui, mas a causa disto tudo e a minha cabeca, estes pensamentos destrutivos que consomem toda a minha energia. Tanto medo, tanta ansiedade, mas porque?
     Nao consigo render-me a vida, aceita-la em toda a sua extensao… Vou por uns "reminders" no meu qaurto, pode ser que ajude. Um diz "Let go", outro "Surrender" e o terceiro diz "Quem sou eu?". Este ultimo faz parte da tecnica de "Self-enquiry" ensinada pelo Sri Ramana Maharshi e que eu estou a utilizar agora. Qualquer uma delas e suficiente para me levar a paz, mas nao consigo. Ando as voltas dentro de mim mesmo e nao dou com a saida.
     Talvez acrescente um quarto papel colado na parede a dizer "A vida nao passa de um sonho". Se assim e, que temo eu com tanta tenacidade? Sou um novelo humano de MEDO!
     Hoje, pela segunda vez em quatro meses (completados hoje), tive a certeza: "Vou-me embora deste lugar. Nao consigo mais estar aqu". Da-me vontade de chorar so de pensar nessa "derrota", mas duvido das minhas capacidades no que concerne a esta batalha.
 
Dre
Published in: on 14/03/2007 at 5:34  Deixe um Comentário  

Diarios de Sogenji – XII (23 de Janeiro a 10 de Fevereiro)

 
2007, Janeiro 23
 
     Dentro de Sogenji ha um edificio Xintoista – o que equivaleria a dizer que dentro dos estudios da RTP haveria uma redaccao da TVI. Acho muito bem, abracar a "concorrencia". Em frente ao portao desse pequeno templo, ha um poste de madeira que diz "May peace prevail on Earth". Achei bastante bonito e inspirador, mas tambem me fez pensar que esta frase reflecte um dos erros basicos do homem, na minha opiniao: o habito de se focar no exterior, de tentar mudar o que esta fora.
     Por que nao diz o poste "May Peace prevail on human heart", por exemplo? E muito bonito lutar pela paz mundial, mas eu digo "abaixo a paz mundial!" (lol). (…) Isto faz-me lembrar as aulas de sociologia, onde o professor uma vez perguntou "o que e a sociedade? Alguem alguma vez a viu? Ja alguem tomou um cafe com ela? Ja falaram com ela?" A sociedade nao existe, e apenas um conceito forjado a partir da soma tosca do conjunto dos individuos. O que e a paz mundial? Nao sera tambem um conceito abstracto?
     Creio que, sem duvida, todos deveriamos comecar por alcancar (ou procurar, pelo menos) a paz dentro de nos mesmos. Essa e a unica materia-prima real e concreta com que podermos moldar as nossas vidas e, eventualmente, afectar positivamente as vidas dos outros – caso contrario, estaremos a tentar pintar um quadro sem adquirir primeiro uma tela (os graffiters que pintam nas paredes nao contam, ein?). Esta tendencia para olhar para o exterior pode muito bem ser uma das causas da existencia de tanto sofrimento no mundo, pois, quer queiramos quer nao, tudo comeca dentro de nos. Tudo aquilo que o homem cria e manifesta exteriormente (cidades, obras de arte, guerras, revolucoes, etc.), comeca inevitavelmente primeiro na sua cabeca e no seu "coracao".  Se estes nao estiverem em paz, toda e qualquer accao do homem criara apenas mais sofrimento. O desequilibrio interior cria o desequilibrio exterior.
    Bem, foi nisto que pensei enquanto tirava areia e lama de um ralo para a chuva em mais uma manha de Samu. Nesta linha de pensamento, deixo aqui duas citacoes de 2 grandes mestres budistas:
  
Onde eu poderia encontrar couro bastante
Para cobrir toda a superfície do mundo?
Mas [usar] couro apenas nas solas dos pés
É o mesmo que cobrir o mundo inteiro.

Da mesma forma, não é possível
Controlar o curso externo das coisas;
Mas se eu controlasse a minha mente,
Que necessidade teria de controlar o resto?

 
– Shantideva, Guia para o Modo de Vida do Bodhisatva
 
 
Mas enquanto se perseguem tao nobres ideais
Esquecemo-nos de limpar os nossos quintais.
Tentamos combater todos os males da terra
Quando afinal e na nossa casa que comeca a guerra.
 
– Da Weasel, Toda a Gente
 
     Da parte da tarde fui explorar mais um pouco a floresta de Sogenji. Peguei num cajado e lembrei-me do bom Caminho de Santiago. Era so o que era preciso: um cajado e muitos quilometros pela frente. O destino nao e importante; chegando a esse destino, logo um outro surge. Diria que o que interessa e partir, mas mesmo isso so tem relevancia na medida em que permite o que realmente interessa: caminhar. Passo a passo, esquece-se a nossa origem e o destino que nos espera. Caminhar apenas e suficiente.
 
2007, Fevereiro 1
 
     Ha uns tempos atras o Roshi, no Sanzen, disse-me uma coisa umj pouco desanimadora, mas algo comica. Disse: "A tua respiracao e como uma espada – barulhenta, enferrujada e superficial". Toma la que ja almocaste!
     Ontem, 31 de Janeiro, foi o Kotai – mudanca de funcoes que acontece semestralmente.Eu fiquei como ajudante de cozinheiro (main tenzo helper). Como consequencia, deixei de morar no Zendo, ao fim de 3 meses, e passei a viver num quarto, numa casinha mais no centro de Sogenji, com o cozinheiro-chefe. E um homem de 58 anos, monge ha 20, creio, e esta em Sogenji ha 8. E um homem duro e exigente, mas tem bom coracao.
     Fiquei triste por abandonar os meus companheiros do Zendo – la tem-se uma vida mais comunitaria -, embora no meu novo quarto tenha um pouco mais de conforto e algum espaco so para mim.
 
2007, Fevereiro 3
 
     As vezes tenho a nocao que me falta sofrimento. Que tenho tido uma vida demasiado facil e calma. Essa e das poucas explicacoes que encontro para o facto de tantas vezes nao me importar com a minha mente egoica. Sinto que se me dissessem "na outra margem encontraras a felicidade suprema", eu poderia responder preguicosamente "nao faz mal, neste lado do rio tambem se esta bem". Mas e irritante, porque ao mesmo tempo sinto um chamamento interior em direccao a essa "outra" margem, a margem da paz interior, da realizacao espiritual. Sinto que a vida "convencional" e por demais vazia, mas parece que estou habituado a ela. Ou, se calhar, sou demasiado preguicoso para rumar firmemente a tal outra margem.
     Amanha comeca outro Osesshin – mais 7 dias de intensa meditacao, mas a minha mente pergunta "para que?". Mais uma serie de horas a dormir na almofada (no meu banquinho), outras tantas a ruminar na minha cabeca, intervalados por breves minutos ou segundos de vislumbres espirituais. O meu Zazen e como um cadaver em decomposicao, com uns espasmos de "vida" de vez em quando.
     Tenho no meu quarto umas "imagens de sofrimento", para me lembrar de quanta dor existe neste mundo – nao bastaria olhar para dentro de mim? Tanta dor causada pelo ego, pela falta de consciencia humana, pela ignorancia relativamente a nossa verdadeira natureza espiritual. Ainda assim, vivo adormecidamente com os meus velhos habitos, vivo uma vida vazia, sem andar para a frente ou para tras.
     Serei tao egoista ao ponto de nao conseguir um unico periodo de Zazen util, em paz (sem mente), mesmo quando o que esta em causa e a resolucao do problema fundamental do homem: a cura para o sofrimento?
     Olho para uma imagem do holocausto ou para a de uma familia sub-nutrida em Africa e sinto a sua dor. As lagrimas vem-me aos olhos. Penso: "Vou perseverar neste caminho, rumo a minha paz interior. Talvez um dia possa ajudar aqueles que ainda nao a tem". Tres segundos depois, volto de novo ao esterco mental que inunda a minha cabeca a todo o momento. Porque? Porque tanto ruido? Porque tanto passado? POrque tanto futuro? Por que nao o silencio, a paz do silencio interior, Aqui e Agora? Pode haver algo mais facil que isso? Essa rendicao a vida e tudo o que e preciso para alcancar a mais perfeita paz e dar a mao aos que sofrem pela ausencia desta, mas, ainda sssim, perco-me continuamente nos corredores infinitos da minha mente. Nao consigo baixar as armas – a luta contra a vida continua diariamente.
     Estarei a querer desperdicar um ano da minha vida, longe dos que amo, causando sofrimento, sem lhes dar nada em troca? Serei capaz de levar algo de real e util dentro de mim, ou voltarei a Portugal estupido, superficial e egoista como sempre?
     Os mestre dizem que viver sem conmpreender a Verdadeira Mente, a Natureza Ultima, e viver uma vida em vao. Sera que e isso que tento fazer, vivendo indulgentemente atraves do meu microscopico "eu"? Tantas horas de Zazen vividas em vao, tantos Sanzens em que me sentei em frente do Roshi com a certeza de nada ter  de real para lhe mostrar. Detesto estar longe de tudo o que me e querido, sentindo tanta saudade e tristeza por estar numa terra tao estranha para mim, mas mesmo assim fraquejo em cada Aqui-Agora que deixo passar esquecido. Tanta saudade, tristeza e raiva… Sera tudo em vao? Sera que me esqueco da dor da minha mae quando adormeco em pleno Zazen? Sera que esqueco a minha propria dor quando vivo dia apos dia anestesiado pelas ilusoes do meu ego?
     Estas palavras saem-me directamente do coracao, mas sei que quando pousar a caneta voltarei a mesma inconsciencia de sempre… "Ate quando?", como disse o Gabriel, o Pensador…
 
Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente
A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente

Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura
Na mudança de postura a gente fica mais seguro
Na mudança do presente a gente molda o futuro

Até quando você vai levando porrada?
Até quando vai ficar sem fazer nada?

 
     Ate quando, Andre, vais levar porrada do teu ego? Quanta dor e sofrimento mais preciso para escolher a paz, de uma vez por todas? De quanto tempo mais preciso – de quanto futuro mais preciso – para saber, de uma vez por todas, que a vida e apenas AGORA?!
     Curiosamente, hoje o Roshi, antes da abertura habitual do Osesshin, fez um pequeno discurso para incentivar a Sangha para o novo periodo de treino que agora comeca (Fev-Ago). Relatou-nos 2 historias sobre 2 mestres exemplares – Jimyo Zenji e Hakuin Zenji. O primeiro, antes de se tornar um mestre, perseverou muito na meditacao, mas um dia, referindo-se a ele proprio, disse: "Inutil enquanto vivo, rapidamente esquecido depois de morto, que utilidade tive eu para o Dharma?" Estas palavras marcaram-me logo e enfiei rapidamente esta grande carapuca!
 
2007, Fevereiro 5
 
     No Sanzen, o Roshi pediu-me "Mostra-me a tua verdadeira natureza". Estava a espera da habitual "Mostra-me a tua respiracao". Pensei em dar um muro no chao ou dar um grito, como muitos fazem quando lhe mostram o Koan "Mu". Depois deu-me vontade de rir, mas tambem nao o fiz. Limitei-me a "mostrar-lhe a minha respiracao". Quando encontrar a minha verdadeira natureza, entao mostro-lhe.
 
2007, Fevereiro 7
 
     Hoje tive o melhor Sanzen de sempre. Este homem, por vezes, deixa-me completamente esmagado com a sua presenca. Que forca, que poder, que transcendencia. As suas palavras sao mais do que sinais ou simbolos foneticos. Sao materia viva, sao energia pura – sao "o dedo que aponta para a lua" e sao a lua em si tambem. E como ler um livro espiritual poderosissimo, mas ao vivo e a cores, com gestos bruscos, vozes fortes e carismaticas, com movimentos do Keisaku, com uma forca, um poder, uma energia, uma alma que em muito transcende o mundo dos sentidos comuns. Este homem vive perfeitamente enquadrado no mundo convencional. As vezes, parece um mero homem, mas a profundidade da sua Mente vai para alem de tudo o que pode alguma vez ser encontrado "neste" mundo. E o que eu sinto.
     Quando ele me olha nos olhos, sem os desviar um milimetro, e eu tenho a forca para fazer o mesmo, ha uma energia ali inexplicavel. Nessas alturas sinto que nao pode haver ninguem neste planeta superior em profundidade e compreensao ao Roshi. Igual sim, superior nao.
 
2007, Fevereiro 8
 
     O Sanzen continua muito forte. Parece que tem andado assim de ha uns dias para ca – talvez porque passei a ir sempre no grupo da traducao, o que lhe permite aprofundar as suas palavras.
     Hoje lembrei-me que o Eckhart Tolle disse que, embora nunca o tenha feito, o J. Krishnamurti podia ter resumido os seus ensinamentos a 2 palavras: "No thought" ou "Don’t think", nao me lembro bem. Depois pensei que era giro se o Roshi me dissesse algo assim, embora ele me o diga sempre, embora por outras palavras.
     No Sanzen mostrei-lhe a minha respiracao, como sempre. Ele disse: "Don’t close… Open". Depois bateu com o seu Keysaku na sua propria cabeca e disse: "Don’t think!" Depois sorriu enigmaticamente. Nao pude deixar de sorrir tambem.
 
2007, Fevereiro 10
 
     Acabou o Osesshin. Recebi uma carta do An___, um dinamarques que saiu de Sogenji em Janeiro. Nao foi bem uma carta, mas sim CD: "Helpyourselfish", dos dinamarqueses D.A.D. (os mesmos que tem uma musica chamada "Sleeping My Day Away"). Mas este album e completamente diferente dessa musica. Este e, para mim, sem duvida, um dos melhores albuns de Rock de sempre – embora ja date de 1995. Mas Rock a serio, nao e para meninos!=)
     Assim sendo, acabou o Osesshin e eu fui para a Guesthouse abanar o capacete!
 
Dre
Published in: on 04/03/2007 at 5:34  Deixe um Comentário  

Diarios de Sogenji – XI (1 a 22 de Janeiro)

 
2007, Janeiro 1
 
     Outra coisa que nao imaginaria ver num mosteiro: um monge, praticante ha 18 anos e ordenado ha 11, a jogar um dos meus jogos de comutador preferidos – Warcraft! Portatil aberto em pleno Zendo. Evaporem-se da minha mente preconceitos e estereotipos.
     Ha cerca de 3 anos e meio, num workshop da Flower of Life, a mestra disse que a expiracao (e tambem a inspiracao) devia durar cerca de 8 segundos e na altura ja achei um pouco longo. Aqui em Sogenji, a respiracao e a pratica central, mesmo que se trabalhe com koans. O S___ uma vez ate disse uma coisa engracada: "o Zen e a arte marcial da respiracao".
     O Roshi disse que a expiracao (aqui e so a expiracao que e "relevante"), mesmo para principiantes, devia durar no minimo 15 segundos. Um meditador experiente devera expirar durante 30 seguntos a 1 minuto. E um abuso, mas as minhas melhores expiracoes ja estao a durar entre 25 e 30 segundos. Ja cronometrei! =) Obviamente, nao e (ainda) uma expiracao 100% natural. Ha um esforco e uma intencao concreta no sentido de, como eles dizem, "expirar completamente".
 
2007, Janeiro 4
     Parabens, miudo! Como vai isso? Espero que nao tenhas passado o teu dia no Isel! =) Na verdade, ai ainda sao 10H da manha, por isso quero que tenhas um dia muito fixe, cheio de energia e coisas doces! Que tenhas tambem um excelente 2007! Abracao intercontinental! =)
     Ontem houve noite de poemas. Cada um escreveu um poema, que a C___ depois traduzia para Japones, para o Roshi comentar. Nao achei que o meu poema estivesse nada de extraordinario, mas ainda recebi alguns elogios. Aqui fica ele:
 
"I’m in search for the warmth that’s always there
Though I know I can find it everywhere.
Consequently, will there be an end?
Or is this continuously starting life my only friend?
It’s so hard to go nowhere all the time
As it’s hard to search for what no one can ever hide.
Is there a point in cracking a dream-made shell?
Will I reach Paradise if there’s no such thing as Hell?
A million birds and a thousand clouds pass by
But not a single trace is left behind.
Is it me who is looking for that place inside?
Or is it that empty sky that’s piercing through my crowded eyes?
I know there’s no place like home, but I wander astray instead.
I’m as good as dead, shooting randomly with my machine-head.
I never wore chains, why this longing to be free?
I’ve glimpsed that warmth inside… and that’s where I wanna be."
 
 
2007, Janeiro 7
 
     Primeiro dia de mais um Osesshin. Primeiro dia de neve em Sogenji – e nem foi das manhas mais frias. Foi muito bonito ver tanta neve a cair e a pintar as arvores, os edificios e os caminhos . Depiois veio a chuva e lavou tudo!
 
2007, Janeiro 13
 
     Jill, hoje e o teu dia, nao e? Se for, muita paz e amor para ti. Se nao for, muita paz e amor para ti! =)
     Ultimo dia do Osesshin. Para festejar, recebi uma quantidade gigantesca de correio. So da mae querida recebi 4 pacotoes! Muita comida e roupa tambem. Obrigado mae, obrigado pai! Obrigado maninho tambem!
     Recebi ainda uma carta e uma prenda de Natal da A___. Em resposta a pergunta "To bear or not to bear?" eu diria: "To bear", definitivamente.
     Finalmente, chegou tambem uma encomenda da Amazon: um livro do Osho que vou oferecer ao meu amigo Belga no aniversario dele – "Love, Freedom, Aloneness – the koan of relationships" ("Amor, Liberdade e Solidao – Uma nova visao dos relacionamentos").
 
 
2007, Janeiro 15
 
     Nao resisti. Perdi a cabeca! Passei por uma loja de musica e comprei um par de baquetas! Bem baratas, por sinal – 600 yenes, cerca de 3,5 euros. Agora e que vai ser batucar nos intervalos do Zazen! =)
     Hoje terminei o meu processo de obtencao do visto. Ja estou legal ate 12 meses. O processo incluiia a obtencao de um assim chamado de "Alien Card". Eu sempre desconfiei ser de outro planeta. Agora tive a confirmacao oficial por parte do governo Japones!
     Recebi tambem a tua carta, S___. Muito bonita, muito sincera, 100% tua. Es uma alma bela como conheco muito poucas. A tua beleza (o Sam the Kid chamar-lhe-ia "B.I.") ultrapassa em muito o horizonte tracado pelas palavras. Es de longe uma das pessoas mais maravilhosas e importantes que podia alguma vez ter cruzado o meu caminho. Es um anjo de Deus, com um coracao cheio de paixao! Fora com as palavras, tu sabes o que sinto. Obrigado sempre!
 
2007, Janeiro 16
 
     Daqui a 2 dias vou ser pela primeira vez Tenzo (cozinheiro principal). Vamos ver como corre, mas como o Roshi nao esta ca e a comunidade esta reduzida a 15 cabecas, sera um pouco mais facil. De qualquer forma, o Ca___ disse que vao manter em aberto a encomenda das pizzas. So no caso… Brincadeirinha!
     Hoje tive uma sessao dupla de DVD. Primeiro vi uma palestra do Eckhart Tolle – sempre marcante. Depois vi 2 episodios de uma serie passada numa nave espacial, estilo "Star Gate", chamada "Firefly". Muito fixe mesmo, com uns pormenores mesmo comicos.
 
2007, Janeiro 18
 
     E pronto, o meu primeiro dia como Tenzo esta a correr bem. As refeicoes principais ja foram (pequeno-almoco e almoco) e correu tudo bem, com a preciosa ajuda do Do___.
 
2007, Janeiro 21
 
     Hoje assisti a um concerto em pleno Hondo. Um senhor Japones, ja com alguma idade, a tocar a sua viola classica. Era o Carlos Paredes-san ca da zona. Foi um concerto de beneficiencia, a favor da Cruz Vermelha. Deu-me vontade de ouvir a bela e unica guitarra Portuguesa e, quica, ate um triste fado. Apetecia mesmo!
     Entretanto, anteontem, ontem e hoje anedi a explorar os caminhos que se estendem por esta serra. Muito interessantes e muita (boa)zona(!) por conquistar. Sinto-me bem a caminhar por estas colinas misteriosas fora.
 
2007, Janeiro 22
 
     Ontem acabei de ler o capitulo sobre o "Corpo de dor" do ultimo livro do Eckhart Tolle – "A New Earth". Hoje, o meu corpo de dor despertou do seu sono, tudo gracas a um telefonema menos feliz ontem a noite. bem, pelo menos deu-me a possibilidade de por em pratica o que li ontem, embora precise de mais Presenca – consciencia – para lidar com esta dor emocional. De qualquer forma, amo-te!
 
Dre
Published in: on 23/02/2007 at 7:50  Deixe um Comentário  

Diarios de Sogenji – X (19 a 31 de Dezembro)

 
2006, Dezembro 19
     Mais umas lagrimas que cairam durante o zazen. Esta cabeca pensa demais e este coracao tem demasiadas coisas ca guardadas dentro. E uma verdadeira "caixinha-surpresa" (surpresas desagradaveis, note-se!).
     Hoje apercebi-me o quao proximo esta o Natal. Normalmente, por esta altura estaria com um estusiasmo quase infantil dentro de mim, embora o Natal ja nao me diga muito. Porem, aqui enfiado neste (por vezes maldito) templo, nao se ve um sinal desa epoca habitualmente tao especial para mim. E, de longe, a minha altura preferida do ano – Natal mais Ano Novo. Este ano, contudo, sera absolutamente diferente e indiferente! As vezes ainda me questiono sobre  o que faco aqui "dentro", quando a vida parece continuar la "fora". As penso se valera a pena mudar para Outubro a viagem de regreso que para ja esta para 20 de Janeiro… Principalmente quando a pratica vai tao mal, como esta a ser o caso deste Osesshin. Um verdadeiro desperdicio… Tantas vezes me questiono: "Serei capaz de levar este caminho ate ao fim? Levar este barco a bom porto?" Tantas vezes questiono, tantas vezes duvido das minhas capacidades… Sinto-me demasiado fraco e medroso, como uma crianca a tentar percorrer um caminho de homens fortes e corajosos.
     No Sanzen, o Roshi disse: "Nunca feches os olhos. Esta focagem (feita no Tanden) e muito importante".
 
2006, Dezembro 20
     Sanzen: O Roshi pediu-me novamente para lhe mostrar a respiracao. Respirei profundamente e fechei os olhos durante breves segundos. Ele depois disse: "Parece que andas a fechar os olhos com muita frequencia. O Zazen trata de alcancar aquele lugar onde ja nao existe distincao entre interior e exterior. Se fechares os olhos, nunca conseguiras alcancar esse lugar".
     Este Osesshin tem sido marcado pela luta incessante contra o frio, contra a raiva que esta a surgir dentro de mim em relacao a 2 ou 3 pessoas (extremamente forte em relacao a 1), contra a falta de motivacao para meditar e, mais que tudo, contra uma gula e uma vontade de comer estupida e inacreditavelmente anormal. Eu vou observando estas coisas dentro de mim, mas nem sempre consigo observar a distancia. Muitas vezes confundo estes movimentos do ego com quem eu sou. Nao tem sido nada facil.
 
2006, Dezembro 22
     Dia de solsticio de Inverno, marcado com uma jantarada a maneira. Cada um de nos foi convidado a fazer um prato ou uma sobremesa, e muitos responderam a chamada – incluindo eu proprio, imagine-se. Comida boa, ambiente descontraido, com guitarradas, cantorias, didgeridoo e ate uma luta de sumo – com rasgos de actuacao teatral! Excelente. Mas o melhor foi quando o J___ pegou num leitor e pos a tocar, por cima de uma guitarra bem calminha, uma mistura que ele fez com a musica da Guerra das Estrelas e a voz do Roshi durante uma palestra ou um recitar de sutras. Foi hilariante. A C___ e o proprio Roshi a rirem imenso! Foi mesmo comico.
 
2006, Dezembro 24
     Hoje, como presente de Natal, comecei a ler o livro que o meu amor me deu! E tao bonito que e, e profundo, e infantil, mas cheio de sabedoria. Tal como tu. Na verdade, parece que es tu que me estas a ler o livro. Parecem as tuas palavras, a tua linguagem, a tua maneira tao especial de tornares algo tao banal em algo tao doce e fofinho. E sinto que este livro tem imenso para me ensinar, se eu estiver disposto a aprender. Isso e que vai ser mais dificil. Muito obrigado. Tudo e perfeito!
     E para quem estava a espera de passar uma noite de Natal triste e vazia, longe dos que me sao mais queridos, tive uma grande e agradavel surpresa. Juntamo-nos todos na cozinha, a ver um curto DVD sobre o mestre do nosso Roshi – Yamada Mumon Roshi. De seguida, foram dadas uma serie de prendas ao mestre e eu fui o escolhido para o fazer. Foi giro.
     Depois tambem tivemos as nossas prendas e docinhos bons. Mas o momento altissimo da noite surgiu quando o J___ se lembrou de por um DVD do Mr. Bean – "Merry Christmas, Mr. Bean". Foi completamente hilariante, de rir e chorar por mais, e foi bom ver a C___ a rir as bandeiras despregadas e o Roshi tambem. Tenho vindo a aperceber-me de como aprecio e valorizo o riso e o sorriso. POr estranho que possa soar, acredito que ua boa gargalhada, ou mesmo um ataque de riso, e uma das coisas mais genuinas e nobres que um ser hmano pode fazer. eve ser mesmo uma experiencia profundamnte espirtual. Nesses momentos nao existe ego, nao existe ninguem a rir, apenas o riso em si, espontaneo e vivo.
 
2006, Dezembro 25
    Dia de Natal – pelo menos em Portugal e alguns outros paises. Um dinamarques aqui ficou chocado com isso: "E isso que vos ensinam?!" Ele diz que Jesus nasceu dia 24 – sem sombra de duvidas. Tambem que importa isso? "O que interessa e que ele tenha nascido", disse eu, tal e qual um bom catolico!
     Sao 9 da manha. Em Portugal e meia-noite, pelo que os meus pais, mano e avozita devem estar a trocar prendas na sala, iluminada intermitentemente pelo piscar da arvore de Natal, a televisao ligada, mas sem som (a passar o "Titanic" ou algo do estilo), com musicas calmas de Natal na aparelhagem e com uma mesa farta em bolos e doces. Tao bom, tantas saudades…
     Eu desde as 8H que estou vestido de monge, a pedir esmola pelas ruas de Okayama. E uma forma diferente de passar o dia de Natal. Pelo menos, fizemos muito dinheiro (comparativamente com o habitual).
 
2006, Dezembro 27
     Acabei de ler o livro que o meu amor me ofereceu – "Morte e Nascimento de uma Flor". Lindo! Tem aquela inocencia profunda e aquela sabedoria de crianca que apenas encontro em livros como "O Principezinho" ou "Fernal Capelo Gaivota". Muito belo e profundo. Tenho de o reler. Tenho muito a aprender com ele, especialmente nesta fase da minha vida. Tu sabes o que fazes, minha flor branquinha do deserto.
 
2006, Dezembro 28
     Parabens, A___! Ha muito que nao falamos, mas continuas aqui no meu coracao! =) Esper que tenhas um dia cheio dessa tua alegria, tambem ela marcada por aquela "infantilidade luminosa" que tanto admiro; aquela crianca interior que brilha no rosto de alguns adultos mais "esclarecidos". Se feliz!
     Hoje o Roshi deu-me um "presente". Virou-se para mim e disse: "Toma, um presente para ti", enquanto me estendia um gatinho preto, pegando no bichano pelo cachaco. E um gatinho fofinho que apareceu por ca e que eles estao a tentar arranjar alguem para o adoptar.
 
2006, Dezembro 31
     Parabens! Parabens! Ai, como desejo que sejas feliz!=) Espero que tenhas um dia muito bom ai por terras belgas. Que te divirtas muito e entres cheia de forca num novo ano que promete trazer muitasmudancas e coisas novas na tua vida! Adoro-te imenso e certas coisas nunca mudam. "Soulmates never die…"
     Hoje vi uma coisa que nao esperaria ver num templo Zen: um dos jovens praticantes a enrolar um cigarro em plena cozinha. Alem disso, hoje temos uma serie de filmes para ver, ate dia 2 ou 3, incluindo titulos como "Guerra das Estrelas II", "Frida", "V de Vendetta", "Clube de Combate" e "Codigo da Vinci".
 
Dre
Published in: on 01/02/2007 at 5:43  Deixe um Comentário  

Diarios de Sogenji – IX (13 a 15 de Dezembro)

 
2006, Dezembro 13
     Hoje faria (ou faco) 2 meses com a I___. Como estaria a nossa relacao se eu nao tivesse partido? Dois mesinhos ja eh algum tempo!=) Estaria maravilhosa, com certeza, e creio que mesmo com a distancia as coisas estao bem.
     Hoje fomos a uma festa em Hot Springs, uma especie de termas com uma especie de restaurante la dentro, a convite de um amigo abastado do Roshi. E habitualmente feita todos os anos em Dezembro.
     Chegamos debaixo de chuva, mas depois de entrarmos nas aguas fervilhantes das termas, nenhum frio osou aproximar-se. Tinhamos jacuzzi e tudo! Hhhmm, tao bom. Depois de quase uma hora de molho, fomos para a refeicao, numa sala com uma temperatura ambiente muito alta tambem. A comida estava muito boa e so eu "mamei" 3 gelados deliciosos!!
     Este ano nao houve, mas parece que e habitual haver karaoke! Ainda bem que nao houve!! Lol. Depois, fomos a casa do amigo do Roshi recitar 3 sutras, como agradecimento.
     Antes disso, vi um livro que estava em cima de uma estante e que me chamou logo a atencao. Chamava-se "Against the pollution of the I", de Jacques Lusseyran, autor de "And there was light". O livro tinha uma especie de magnetismo. Fiquei mesmo com vontade de o ler e deixou-me com uma energia forte dentro de mim. Quando, logo a seguir, comecamos a recitar os sutras, juro que senti o chao a tremer debaixo dos meus pes.
 
2006, Dezembro 14
     Hoje foi-se embora o meu melhor amigo aqui de Sogenji. Ele era para ter ficado 1 ano, mas foi-se embora ao fim de 3 meses, porque nao consegui o "visto cultural" que permite ficar ate 1 ano. Foi uma estupida falha humana que causou a sua partida, mas talvez nao tenha sido por acaso.
     Mas foi muito dificil ve-lo partir. Senti-me imensamente triste e chorei bastante. Desejo-te as maiores felicidades nesses mosteiros budistas da Coreia do Sul. Tenho a sensacao que ainda nos vamos encontrar por la, amigo!
 
2006, Dezembro 15
     Parabens, grande! Vinte e quatro aninhos, sempre a andar! Se estivesse ai, ja estava a imaginar a sessao de lerpa ou poker na tua arrecadacao – ou o belo do Risco. Era ate ser dia. Divirtam-se, que eu tambem. =)
     Primeiro dia de Osesshin. E um pouco duro, tantas horas de meditacao, mas acho que e a minha altura preferida aqui em Sogenji. Os sesshins de 3 meses na Coreia do Sul sao tentadores. Creio que para mim e a unica forma de manter a concentracao bem afinada.
     Primeiro dia de Osesshin, mais umas lagrimas a cair durante o Zazen. Lembrei-me do que o meu amor escreveu no pacote de acucar que me enviou: "Mascara para fora, o teu interior e de ouro". Isto tocou-me bastante. Acredito que, de facto, tenho um interior de ouro, um coracao desejoso de espalhar amor por todos os seres, mas tenho uma mascara (mente) que nao o deixa faze-lo. E e muito irritante olhar para ela tantas horas por dia, mas mesmo assim nao ser capaz de a tirar.
     No Sanzen da manha, o Roshi despachou-me com a sua campainha ainda eu nao tinha terminado a prostracao inicial. Fiz imediatamente a prostracao final e sai, sem ouvir mais que um rugido qualquer.
     No Sanzen da tarde, ele pediu-me para lhe mostrar a minha respiracao. Eu fi-lo e ele disse: "Ainda nao. Ainda e muito superficial. Tens que te concentrar".
     No Sanzen da noite, pediu-me o mesmo. Depois perguntou: "No que e que te concentras?" "Tento concentrar-me no Tanden", disse eu. Ele depois disse: "Nao esta mal de todo. Quando respiras, tens de abandonar todas as ideias dualistas, bom, mau, tudo. Se tiveres ideias dualistas, o (teu) bom zazen transformar-se-a em algo sem valor".
 
..Dre
Published in: on 30/01/2007 at 7:25  Comments (1)  

Diarios de Sogenji – VIII (1 a 11 de Dezembro)

 
2006, Dezembro 1
 
     Dia da Restauracao da Independencia em Portugal, feriado nacional. Aqui tambem foi quase feriado em Sogenji e por isso fui a Okayama restaurar o acucar no sangue com uns biscoitinhos.
     Alguns homens do templo ficam doidos com as mulheres la fora. E eu que achava que tinha uma libido muito forte. Lol. A verdade e que as vezes e complicado nao ceder a "tentacao". As jovens japonesas, todas com as suas fardas colegiais, rostos bonitos e exoticos (nem todas claro!) e saias escandalosamente curtas (mesmo com um frio de rachar) sao, por vezes, provocantes. Ainda assim, tenho resistido a tentacao de "comer com os olhos". O mesmo nao posso dizer de alguns "colegas" de Sogenji.
     E por falar nos prazeres do mundo, hoje vi um carro que me deixou completamente apaixonado. Chama-se Nissan FairladiZ. Um nome comico, mas um desportivo que me cortou a respiracao e que "comi" com os olhos, sem remorsos! =) Ai, os prazeres do ego sao tao tentadores!!
     Hoje vi tambem uma senhora a fazer marcha a um ritmo muito acelerado. Lembrei-me da Dra. I___ e da Da. A___. E engracado como as pessoas sao todas iguais, mesmo quando separadas por mais de 10 mil quilometros e seculos de culturalizacao diferenciada.
 
2006, Dezembro 2
 
     A noite passada fiz a experiencia de tentar dormir sentado. Com um cachecol e umas pecas de roupa fiz duas "cordas" e com elas atei o meu corpo e a minha cabeca a um dos pilares do Zendo. Demorei muito tempo a adormecer e uma hora depois acordei completamente gelado! Desisti e deitei-me, mas so voltei a aquecer a meio da manha de hoje. Ha 2 sofas optimos para dormir sentado, mas nao sei se estarao disponiveis. Talvez com o cansaco do Rohatsu seja mais facil adormecer…
     Hoje recebi duas cartas maravilhosas! Uma da minha mae linda e outra do meu amor lindo, que trazia um livro e tudo – intitulado "Morte e nascimento de uma flor"; e bom, de certeza. A sensacao de reber uma carta, vinda de tao longe, e excelente. Traz muito quentinho ao coracao!!=) E num mes e pouco ja recebi 3! Muito obrigado! Nao mereco tantos miminhos (mas quero ainda mais!!).
 
2006, Dezembro 3
 
     Hoje a noite foi a sessao de abertura do Rohatsu, com um pequeno discurso do Roshi. Nos estamos de joelhos, nos nossos lugares, sentados nos calcanhares. Quando o mestre comeca a falar, colocamos a cabeca no chao, a frente dos joelhos, como se fosse uma venia. Eu estava bastante expectante em relacao ao discurso de abertura, mas quando dei por mim estava a levar uma cotovelada do meu vizinho do lado. Mesmo naquela posicao, consegui adormecer. So ouvi mesmo o inicio e o fim da traducao. Depois, o S___ veio-me perguntar quem e que estava a ressonar no Gaitan. "Pois, devo ter sido eu", respondi.
 
2006, Dezembro 5
 
     Hoje acordamos com a temperatura ligeirissimamente abaixo dos 0 graus. Que gelo brutal. Foi muito complicado. Agora apercebi-me que nos retiros o frio e um problema bem maior que nos dias normais, porque como estamos sempre em meditacao, nunca podemos usar gorros, meias e afins. Sinceramente, se a temperatura baixar para os -5 ou -10 graus como ja previram aqui, duvido que aguente, principalmente as maos e pes, com o frio parece que me estao a espetar facas pelas unhas a dentro! Todo eu tremia como varas verdes! Nao sou homem para isto! Mas como me disseram que depois do Rohatsu vao colocar 2 aquecedores no Zendo, e como ja temos meditado quase sempre de janelas fechadas, pode ser que no pico do Inverno eles autorizem luvas, cachecois, etc. Vamos aguardar.
     Esta noite foi a primeira do Rohatsu, como tal, foi a primeira em que dormi sentado (exceptuando a minha curta experiencia!). Nao correu mal. Nao dormi atado ao poste, mas sim encostado a uma esquina de uma parede com um armario. Com uma almofada e um colchao a servir de encosto, ate nao se passou mal.
 
2006, Dezembro 6
 
     No Sanzen, o Roshi disse: "Cud, cud". Tendo em conta que ele fala Ingles Niponico, traduzindo isso para Ingles Padrao, acredito que ele tenha dito "Good, good". Foi um bom feedback. E bom saber que a pratica esta a ir bem. Mais importante, ele disse isso enquanto pregava os seus olhos na minha barriga – no Tanden. Ele faz quase sempre isso. Deve estar a avaliar o meu nivel de Ki no Tanden. Pelos vistos esta a melhorar.
 
2006, Dezembro 8
 
     Dia da Iluminacao do Buda. No Sanzen, o mestre voltou a dar um bom feedback: "Don’t stop. Good!" Num outro Sanzen, estava tao entusiasmado e cheio de energia que estava decidido a ser o primeiro a chegar a sala de espera. Soaram os 4 toques da sineta e voamos todos para fora das almofadas de meditacao. Peguei nos chinelos e corri descalco, sempre a abrir! Estava em primeirissimo lugar quando comecei a sentir o corpo a deslizar para a frente. Ja quase na "meta" espalhei-me ao comprido no meio do chao de terra molhada. Durante um segundo pensei "Que chatice, la se foi tudo". Depois acordei e levantei-me de rompante e acabei a "corrida" em 5 lugar – com os pes e maos ligeiramente raspados e as calcas enlameadas nos joelhos.
     Ja na sala de espera, aguardei de pe a minha vez. Quando estava quase a chegar a minha vez, um dos monges principais fez-me uma venia – significando que ia passar a minha frente – e eu respondi com outra venia, ambos de pe. Segundos depois, senti o Keisaku veementemente no meu ombro e o responsavel por isso disse: "Tu respondes as venias que te fazem sempre de joelhos, nunca de pe". Percebi entao que o outro monge tinha feito a venia de pe porque eu estava tambem de pe. Mas nao gostei nada da maneira como ele falou comigo – ainda por cima nunca ninguem me tinha dito nada sobre isto. Adicionando esta situacao ao facto de ter caido alguns minutos antes, o que criou algum stresse emocional, fiquei bastante irritado com a situacao. Enquanto esperava a minha vez para o Sanzen, algumas lagrimas percorreram-me as faces.
 
2006, Dezembro 9
 
     Uma dor no lado direito das costas tem vindo a acentuar-se ha ja varios dias. Depois de 6 dias de Rohatsu, aquela tornou-se verdadeiramente insuportavel. Nao aguentei mais. Tentei penetrar a dor com a minha mente, concentrar-me nela e transcende-la, compreendendo que a dor fisica e apenas uma "interpretacao" da mente (por exemplo, se estiver distraido, nem me lembro que me doem as costas, pois a mente nao esta la mais, esta entretida com o factor de distracao). Tentei tudo, mas a dor continuava la. Desisti. Na pausa seguinte decidi falar com alguem responsavel sobre a possibilidade de meditar de pe. Nessa pausa, a R___ perguntou-me "Estas a sentir-te bem?". Perguntou isto porque tinha-me visto a contorcer-me nas posicoes mais esquisitas a tentar fugir da dor. Eu respondi que nao estava bem. Ela disse que podia meditar de pe e para pelo menos tentar aguentar ate ao fim do retiro (faltam cerca de 2 dias).
     Voltei para o meu lugar, desta feita fiquei de pe. A dor passou bastante nesse posicao, embora gradualmente tenha feito sentir-se gradualmente mais. Era uma dor estranha: Parecia mais energetica do que fisica. Bastava colocar a mao sobre a zona dorida para a dor desaparecer totalmente, sem massajar, sem nada.
     De pe, passado algum tempo, as pernas comecaram a tremer ligeiramente, depois mais e mais. Depois o tronco e o corpo todo em geral comecaram a tremer. Comecei a estranhar a situacao. Comecei a sentir uma energia estranha em mim. Fechei os olhos, concentrei-me nas sensacoes. A mente comecou a ficar num turbilhao, o corpo em convulsao. Pensei que talvez fosse algum tipo de experiencia de "break through", pensei que a mente talvez fose quebrar, ter algum insight. Comecei a tentar encurrala-la. Perguntei-me repetidas vezes "Quem es tu?", outras vezes "Quem sou eu?", a ritmos lentos, normais e vertiginosamente acelerados. Queria romper pela mente iludida adentro. Por vezes, silenciava o questionamento e ficava apenas com o tremer do corpo e a energia aos saltos dentro dele.
     Senti que estava quase "la" (talvez), mas nao consegui. Entretanto soou a sineta e partiram todos para o Sanzen, com excepcao de 3 ou 4 pessoas. Antes de ir para o Sanzen, a R___ veio ao meu lugar perguntar-me se eu me sentia bem, que nao parecia nada bem. Eu disse para ela me deixar estar. Mas perdeu-se o feeling e parei. Tentei sentar-me, mas tinha os joelhos bloqueados na posicao erecta e tinha medo de os dobrar para me sentar. Pedi ao Ab___ para me ajudar a sentar. Sentei-me, a tentar retirar algum sentido de toda a situacao, mas sem pensar intelectualmente nela, apenas estando. Alguns segundos mais tarde, comecei a sentir uma energia a surgir dentro de mim, mais forte e mais forte. Rebentei num choro compulsivo, espontaneamente. Sem razao nenhuma chorava. Estive assim alguns minutos. Uma das praticantes mais antigas veio ter comigo e disse para eu limitar-me a respirar. O choro acalmou por fim, passado algum tempo. Sai do Zendo, tentando perceber que raio tinha sido aquilo. Ainda tive a esperanca que o insight pudesse surgir a qualquer momento, mas havia muita mente em toda a experiencia. Raras vezes consegui ser a experiencia, e nao alguem que vive uma experiencia. Mas mesmo assim procurei a C___. Podia ser que ela sentisse alguma coisa em mim ou me ajudasse a perceber o que se tinha passado. Ainda pensei ir ter com o Roshi, mas nao o fiz.
     Mais tarde, a R___ disse-me que tinha falado com a C___ e que ela tinha dito que era bom sinal, sinal que me estava a esforcar. Que era normal coisas estranhas ou dores invulgares surgirem durante o Zazen.
 
2006, Dezembro 10
 
     Tenho os pes doridos, um deles inchado e um pouco esfolado, uma costela deslocada devido as noites de sono passadas numa posicao sentada provavelmente incorrecta e que tera sido a causa das minhas dores alucinantes nas costas, um joelho dorido, faces rosadissimas e escaldantes com uma ligeira febre, perdas de equilibrio quando de pe… Estara o meu corpo a passar por alguma fase de purgacao devido a meditacao, ou sou eu que sou louco por me sujeitar a isto?!
 
2006, Dezembro 11
 
     Fui a acupunctura de manha para tentar resolver a dor nas minhas costas. Como estava com a directa da ultima noite do Rohatsu em cima, naturalmente adormeci durante a sessao. Sai de la completamente derreado! Mal conseguia andar de bicicleta, rumo a biblioteca. Depois, enquanto estava a enviar uns e-mails, o meu estado fisico foi piorando. Quando dei por mim, estava completamente torto na cadeira, torcendo-me com dores nas costas, sentindo-me sem energia e com o rosto a ferver, talvez com febre. Passei as passas do Algarve em frente ao computador. Depois foi passando e quando regressei ao templo estava a sentir-me alegre e bem disposto fisica e mentalmente. O S___ avisou-me que a acupunctura funciona assim. Faz descer a energia para depois a fazer subir novamente ao seu nivel normal.
 
..Dre
Published in: on 23/12/2006 at 5:54  Deixe um Comentário  

Diarios de Sogenji – VII (22 a 29 de Novembro)

 
2006, Novembro 22
 
     Hoje foi um dia livre, terminado o Osesshin. Aproveitei para ir a uma sessao de acupunctura. Mil yenes (6 euros) por meia hora e ainda direito a uns biscoitos no fim. O dinheiro e mesmo so para pagar as agulhas. Foi estranho. No inicio tive uma especie de ligeiro ataque de panico, por causa das agulhas. O coracao comecou a bater mais depressa… Mas mal se sentem as picadas, nao doi nada; depois e so relaxar, sentir o calor emanado da marquesa e de uma luz vermelha apontada para o corpo.
 
2006, Novembro 23
 
     Hoje foi uma manha de trabalho arduo! Carregar troncos e ramos pesados, ravina acima, ravina abaixo. Foi "puxadote". Mas quando ia levar os troncos para o local onde iam ser cortados, vi varias vezes uma pomba a esvoacar graciosamente, embora apressada, com um raminhos no bico. Afinal nao era so eu que estava a trabalhar forte e feio. A pequena pomba tambem. Toda a natureza estaria a trabalhar. Sempre em movimento… As arvores a esforcarem-se para deixar cair as folhas todas antes do inverno chegar, as chuvas a dar os primeiros sinais de agua… Sempre a natureza a mudar, a girar. Arvores despem-se para se voltarem a vestir de verde; os cumes brancos das montanhas perdem o seu branco para voltar a recupera-lo no ano seguinte. O movimento perpetuo, o ciclo da vida. Mas porque este movimento? Porque este processo continuo, eterno? Porque nao apenas o silencio e o vazio?
 
     Hoje foi tambem dia de raspanete a valer, depois de almoco. Ha umas semanas, foi dado a mim e ao S___ 3 papeis escritos em Japones, por causa do nosso visto cultural – para podermos ficar 1 ano no Japao. Nenhum de nos se recorda de quem nos deu os papeis. Eu pensava que ele mos tinha dado; ele pensava que eu lhos tinha dado. Na altura, achamos por bem guardar os papeis num sitio seguro e aguardar instrucoes.
     De manha, a C___ puxou as orelhas ao S___. No almoco ele avisou-me que estavamos tramados. Ja estava preparado. Depois ela veio ter comigo e disse: "Andre, consegues-me explicar como e que papeis guardados numa gaveta se transformam num visto? Diz-me, porque nao consigo perceber. Tu nao tens 12 anos, es um rapaz crescido, tu e o S___, como foram capazes de fazer isto? Estavas tao preocupado com as tuas financas, mas agora corres o risco de ter de ir a Coreia! Nao es atrasado mental, funcionas bem, nao pensaste que devias ter feito alguma coisa com os papeis? Nao podias ter perguntado a alguem? O Roshi esforca-se por vos dar o visto e e assim que agradecem? A vida nao e assim, meu querido".
     E pronto. Toda a minha vida nunca soube como lidar com raspanetes. Ficava sempre "de trombas", amuado. Mas talvez por estar a espera, este nao me afectou muito. Mas ela foi mesmo dura. Acho que deve ter exagerado um bocado, para incluir isso no meu treino!
 
     Depois de jantar, fui dar uma voltinha por um dos cemiterios do templo – onde alguns mestres do passado estao sepultados. Procurava um lugar solitario onde meditar 1 dia destes. O sol estava a por-se e a penumbra invadia o local. Estava sozinho; o silencio reinava, abrindo excepcao apenas aos sons vindos da floresta. De repente, ouvi uma voz estranha, um misto de murmurio e exclamacao. Dei um salto! Um arrepio de medo correu-me por todo o corpo. Fiquei gelado. Olhei para todos os lados: ninguem! Tive a certeza que um espirito tinha soltado semelhante som. Olhei de novo em redor e vi os joelhos de alguem a espreitar por detras de um portao. Vi tambem a ponta de um livro, 2 palmos mais acima., Alguem sentado junto a uma sepultura recitava sutras, acentuando certas palavras. Uma delas pregou-me um susto de morte. Pisguei-me rapidamente! Ufa!
 
2006, Novembro 24
 
     Um dos praticantes mais antigos aqui do templo (20 anos aqui passados) foi expulso. Parece que o tal episodio de violencia passou-se com ele. Ja nao tinha sido o primeiro incidente com ele. Agora tomaram medidas drasticas.
 
2006, Novembro 25
 
     O meu sentimento por ti continua forte como uma montanha, estavel como uma montanha, grande como uma montanha. As vezes e dificil percorrer este caminho com uma montanha tao grande as costas!
     Tambem da familia e amigos continuo a ter muitas saudades; continuo dividido. Tenho um pe de cada lado do mundo; o coracao pendurado no meio! A minha pratica vai muito irregular, mas o saldo acredito ser negativo. Estou sem forca, sem determinacao. A mente vence-me em cada batalha. Conseguirei eu vencer esta guerra? As vezes penso que nao tenho nem a forca nem sequer a vontade para percorrer este Caminho. Apetece-me voltar para casa, abracar as pessoas que amo, divertir-me com aqueles que mais adoro, comer bolachinhas molhadas no leite quente nas noites frias de Inverno. Quero a minha cama, a minha musica, a minha paz… Quero o meu mundo, quero a minha seguranca. Tenho medo. Medo do presente, muito medo do futuro. As vezes sinto-me completamente a deriva, um farrapo espiritual ao vento da vida – esse jogo cosmico cujas regras continuo a desconhecer por completo.
     Choro ao ver a minha propria tristeza derramada nestas paginas. Sinto-me um falhado. Sinto-me a vergonha do mundo.
 
     Hoje a Mafalda Veiga destronou a Margarida Pinto no radio que toca quase constantemente na minha cabeca. Dizia-me ela:

 
Em qualquer lado
Onde quer que eu vá
Levo no corpo o desejo
De te abraçar

Em toda a parte

Onde quer que o sonho me leve

Hei-de lembrar-me de ti
 
     Tudo por causa de ti, crianca azul.
     Vesti finalmente as tuas meias ha uns dias atras. Ainda tinham o teu cheiro. Agora ja nao! Agora ja so cheiram ao meu chule!
 
2006, Novembro 26
 
     "Parabens a voce, nesta data querida…" Parabens a mim – faz hoje 1 mes que para Sogenji vim!
 
     Sanzen de hoje: "Sem pausas, sem quebras, sem espacos. Se permitires espacos (na tua concentracao na respiracao) e ai que os pensamentos inuteis surgem". Ontem disse-me: "Continua a expirar completamente, a expirar completamente. Obviamente, a questao nao e a expiracao, mas sim o cortar com a mente conversadora".
     Agora mesmo, hoje a noite, baldei-me ao Yaza e fui antes a "7 Eleven" comprar um pacote de chocolates. Virei 12 bombons em 90 segundos. Estava a precisar da minha dose. Foi para comemorar o 1o mes!
     Amanha comeco o Takuatsu.
 
2006, Novembro 27 
 
     E la fomos nos em Takuatsu – a mendicidade religiosa. Vestimos umas roupagens especiais, colocamos uns chapeus tipo "tigela invertida" na cabeca, uma corda grossa emrolada aos nos a volta da cintura e umas sandalias feitas de cordel. Partimos em fila indiana, embora em ruas japonesas, pedindo esmola a porta das casas e das lojas que encontramos pelo caminho. O Takuatsu comecou muito mal para mim. Vestimo-nos muito a pressa – como tantas coisas feitas aqui em Sogenji – e eu nao apertei bem as minhas sandalias; nao atei bem o cordel em redor do tornozelo. Resultado? Quando estavamos a ir para a paragem do autocarro, a sandalia esquerda comecou a soltar-se! Que stresse! O grupo a afastar-se e eu a ficar para tras – o que nao e nada bom, quando algo e tao ritualizado e formal. Felizmente, o universo esteve do meu lado, como sempre (mesmo que por vezes nao o sinta), e um dos "colegas" deu-me uma ajuda preciosa. Pedi ao meu Eu Superior para me ajudar tambem e a partir dai  foi sempre a andar. Caminhamos a bom ritmo, entoando um continuo "ooohhh!", fazemos uma venia a porta das lojas ou das casas, ficamos ali alguns segundos, entoando o mesmo "mantra" e, se ninguem aparecer, fazemos outra venia e seguimos caminho. Se aparecer, fazemos outra venia, estendemos o saco das oferendas e entoamos um sutra, como forma de agradecimento. Com uma venia final retomamos a marcha.
     Foi giro "passear" pelas ruas de Okayama, com mais 15 manos, todos a entoar o mesmo "ooohhh". Foi engracado pedir esmola junto de lojas como a Gucci, Prada ou a Channel.
 
2006, Novembro 28
 
     No Sanzen de hoje de manha o Roshi disse: "De pe, a andar ou a fazer Zazen… A recitar sutras, a comer a refeicao… Continua. Continua. CONTINUA!"Hoje fui o segundo a chegar a "sala de espera" do Sanzen. E nem precisei de correr sem chinelos – o que e mais doloroso, mas mais rapido.
     Ontem a noite o Roshi disse: " Facas o que fizeres, nunca percas este momento de mente ("mind moment"). Tudo o que existe e este momento de mente. Nao o facas com a cabeca, fa-lo com o Tanden", exclamou ele, batendo na sua propria barriga!
     "Parabens a voce, nesta data querida…" Desta vez os meus parabens vao para o meu grande amigo D___, um grande fan do Japao! Depois de amanha envio-te um e-mail, tenho um dia livre. Hoje fica anotado aqui – e no meu coracao! =) Que tenhas um dia muito feliz.
 
2006, Novembro 29
 
     Sanzen: O mestre perguntou-me: "Como e que esta a ir (a pratica)?" Nao estava nada a espera da pergunta, mais uma vez. Meio a toa respondi: "Bem. Acho que esta a ficar mais forte, o Tanden, embora devagar". Ele soltou um "hhmmm…", mais rosnado que murmurado, como que pensando "Devagar? Muiitoo devagar!!" e disse: Tens que te tornar nessa respiracao completamente. Concentra-te totalmente numa respiracao, depois na outra a seguir. Entre as respiracoes nao cries buracos, nao deixes espacos, senao nunca conseguiras atingir o samadhi".
     Voltei para o meu lugar determinado a tornar-me na respiracao, tanto na tentativa de alcancar esse tal fulano chamado Samadhi, como para ver se nao desiludo o Roshi – aquele "hhmm" parecia um suspiro de quem dizia "Estou aqui a perder tempo com este badameco!" De volta ao meu assento, pronto a acelerar rumo ao Samadhi, a meditacao estava a correr bem quando se ouviu o "ting, tac, tac!" da sineta e dos "clappers" utilizados na meditacao. De seguida, o Roshi disse: "Sarei!" Sarei e o chazinho e o docinho de final de dia durante os retiros. E pronto. Eu estava gelado e esfomeado; com um cha quente e um bolinho delicioso la se foi a meditacao. A partir dai qual respiracao qual que! So pensava em comer! Resultado? Terminado o curto Zazen pos-sarei, la fui eu sorrateiramente a "7 Eleven" (onde encontrei outros 2 malandros de Sogenji) comprar chocolates. Mamei uma tabelete e cerca de 8 ou 9 palitos" de chocolate num quarto de hora. Sinto-me um "drogado". Estou realmente a querer compensar alguma coisa. So espero nao me tornar num frequentador assiduo da "7 Eleven" em horario "pos-laboral". Aquilo pode tornar-se no meu "casal ventoso", mas em vez de heroina, "injecto" acucar no meu corpo!
 
..Dre
Published in: on 22/12/2006 at 6:16  Deixe um Comentário  

Diarios de Sogenji – VI (Horarios nos diferentes retiros)

 
Dias normais:
 
3H40 – Acordar
4H – Choka
5H – Zazen (com Sanzen)
7H – Pequeno-almoco
7H30 – Trabalho
13H – Almoco
14H – Tempo livre
17H – Jantar (opcional)
18H30 – Zazen
 
Kosesshin (pequeno retiro):
 
3H40 – Acordar
4H – Choka
5H – Zazen (com Sanzen)
7H – Pequeno-almoco
7H30 – Trabalho
13H – Almoco
14H – Tempo livre
16H – Jantar (opcional)
17H – Zazen (com Sanzen)
21H – Yaza (opconal)
 
Osesshin (grande retiro):
 
3H40 – Acordar
4H – Choka
5H – Zazen (com Sanzen)
7H – Pequeno-almoco
7H30 – Trabalho
8H – Pausa
8H30 – Zazen
9H – Teisho
10H30 – Zazen
13H – Almoco (seguido de curto Zazen)
13H50 – Tempo livre
15H – Zazen (com Sanzen)
16H30 – Jantar (opcional)
17H – Zazen (com longo Kinhin e Sanzen)
21H – Yaza
 
Rohatsu Osesshin (retiro de Dezembro celebrando o Despertar do Buda):
 
Em tudo igual a um Osesshin normal, com as seguintes excepcoes:
– Cinco Sanzen por dia e 4 sarei (ao inves dos 3 habituais em Osesshins);
– Uma hora extra de meditacao antes do Yaza (o Yaza passa assim para as 22H);
– Na ultima noite do retiro faz-se uma "directa" ate as 8H da manha do dia seguinte;
– Nao existe pausa para jantar, nem pausa matinal.
 
..Dre
Published in: on 22/12/2006 at 4:37  Comments (1)  

Diarios de Sogenji – V (16 a 21 de Novembro)

 
2006, Novembro 16
 
     Depois de um dia e meio de Osesshin veio-me a musica dos Guano Apes a cabeca: "Trapped in yourself, break out instead. Beat that machine that works in your head!" Argh!, maldita maquina que "tic-ataca" na minha cabeca. Apenas um dia e meio e ja estou a ficardoido! Parece um tacho a estalar pipocas. Salta tudo, a todo o momento: imagens bizarras, ridiculas, musicas do "arco da velha" e todo o tipo de coisas sem sentido. Este meu subconsciente parece um sotao cheio de lixo e passado, inabitado ha mais de 10 mil anos!
     No primeiro dia estava cheio de energia, a concentracao estava forte. Ao final do dia comecou a fraquejar. Hoje a minha mente parece uma folha de uma arvore num dia ventoso de Outono. Nao consigo respirar sem a interferencia da minha mente por mais de 30 segundos. Irra, apetece-me dar-me chapadas, bater com a cabeca nas paredes. Maldito "eu" que habita em mim. Maldita nocao individualista de existencia. Tu nao es real, Ego! Desaparece e deixa-me afundar na minha Mente Original, no meu "Eu" Universal.
 
     O Sanzen tem sido uma ajuda, apesar de tudo. Fui duas vezes sem traducao. O Roshi limitou-se a respirar sonoramente, a rosnar algo em japones e a apontar veementemente para o seu proprio Tanden. Quando fui com traducao, a ideia foi a mesma: "No gaps, no interruption on your counting… The Tanden is like a fire… You can die, but your breathing can’t. When your Tanden is full of energy, it will overflow to the outside, on everything you do. But now, you have to go from the inside…"
     O Teisho tambem tem sido inspirador, embora a minha energia esteja nas lonas. O Roshi tenta puxar por nos, mas acho que muitos poucos tem a forca para se deixar ir… Vamos ver.
     O meu joelho esquerdo esquerdo esta quase pronto para o caixote de lixo. Se nao melhorar, vou ter que me sentar a velhote: estilo cadeira!=/ Let us see.
     No Sanzen da tarde, sem traducao, o Roshi voltou a rosnar algo em japones, enquanto respirava muito lentamente, deixando fugir um suspiro continuo dos seus labios. Depois percebi, mais uma vez, que talvez nao fosse japones. Ele tinha dito "slow!" Estava a mostrar-me como devia respirar (principalmente a expiracao, longa e lenta). Resolvi experimentar essa forma de respirar. E nao e que "resulta"? Traz-me calma, desperta e fortalece o meu Tanden.
     Durante um dos periodos de Zazen tive uma especie de mini experiencia "mistica". Estava com uma dor desgracada nas costas. Uma dor alucinante. Decidi concentrar-me na dor a 100% – e doeu imenso. Entretanto, e creio nao ter tido nada a ver com essa concentracao da minha parte, a dor desapareceu por completo. Nem um vestigio dela. Senti-me super leve e a mente ficou tambem num estado de extrema suavidade e silencio. Porem, durou 2 ou 3 segundos. Depois voltou tudo! Mas esses segundos bastaram para me tocar la bem no fundo. Se durante 2 segundos me senti leve e livre, sei que posso tornar esse estado permanente.
 
2006, Novembro 17
 
     Hoje, no Teisho, o Roshi dise uma coisa que me marcou muito. Disse que se um aluno nao superar o seu mestre, os ensinamentos deste estao destinados a decair. Dise que, se assim for, o Dharma esta destinado a extinguir-se! Que sera entao dos nossos descendentes? Como sera a vida das futuras geracoes, sem um caminho de Libertacao? Ele diz que as escrituras nao sao suficientes. E preciso um Dharma vivo. Um mestre vivo, para passar o ensinamento de "alma a alma". Questionou-os se e na preservacao da Verdade e do caminho que leva ate ela que pensamos quando nos sentamos em meditacao, ou se e apenas um sentar baseado nas ideias do nosso pequeno "eu". Pensamos nas geracoes que nos seguirao, ou e um sentar vazio e inutil?
     Isto tocou-me imenso. No Zazen seguinte varias coisas aconteceram. Levei com o Keisaku e deixei as palavras do Roshi tocar no meu fundo. Senti o sofrimento das geracoes que sofreram antes de mim e daqueles que poderao sofrer no futuro, principalmente sem um caminho espiritual a seguir. As lagrimas cairam-me pelo rosto abaixo. Tive que segurar as emocoes para nao solucar numa sala com mais 30 pessoas. Que faco eu sentado no meu banquinho de meditacao? Sera que e nas geracoes futuras que penso quando desperdico o meu Zazen com pensamentos inuteis e nefastos? Estarei MESMO a tentar alcancar a minha Mente Original e preservar o ensinamento do Buda, o Desperto? Se morrer sem encontrar a minha verdadeira natureza, que terei para oferecer aos meus filhos e netos e a todos os que vierem depois de mim?
     Consequencia desta realizacao ou nao, as sessoes de Zazen seguintes foram brutais… Tomei em consideracao as instrucoes do mestre em relacao a expiracao. Respirei lenta, mas muito profundamente. Contei cada respiracao atentamente, nao criei espacos na minha mente para pensamentos inuteis. Expirei repetidamente e de forma veemente para o meu Tanden. Este comecou a encher-se de energia. A energia subiu e subiu e continuou a subir. Estava a "rebentar pelas costuras". Sentia-me vivo e cheio de poder. Sentia-me cheio de forca. Apetecia-me deitar paredes abaixo, sentia-me "com a forca de mil homens"! Sentia que se gritasse com garra, o chao tremeria. Mas havia ego nesta forca, nesta excitacao criada por tanta energia. No Kinhin apetecia-me correr mais que os outros, atropelar toda a gente. Era como o nascer do sol: a Luz espreita, mas as Trevas ainda reinam no mundo. A mente ficou mais estavel, menos pensamentos brotaram, mas ela continuava la, a tentar enfiar-se na minha cabeca, controlar-me.
     Agora tudo passou. Voltei a ser um mero "humano". Mas a procissao ainda vai no adro. Vamos aguardar!
 
     Aguardei mas a energia desapareceu por completo. A mente voltou a tomar conta da situacao. Acabei o dia deprimido.
     No Sanzen o Roshi dise: "Kill it, kill it, kill it! Kill the small self. Zazen is not a practice to learn how to do anything. It’s a practice to kill yourself completely. We hang around with our small selves, creating confusion, conflicts and problems… Susokkan is a practice to do 24 hours a day. Kill yourself completely!"
     Numa outra ocasiao a C___ perguntou: "How’s your breathing?". "Uh, I don’t know", gaguejei eu. Ela continuou: "Are you exhalng completely?". "Yes", respondi. "From the Tanden?". "Yes". "Perfect!", fechou ela. Acho que isto resume muito bem a pratica aqui em Sogenji.
 
     Uma outra musica "Zen" que me veio a cabeca, mesmo antes de comecar mais uma sessao de Zazen. O Jamiroquai disse uma vez: "Future’s made of virtual insanity… Virtual insanity that we’re living in." Grande verdade. Para que o futuro? Porque nao viver agora? Por vezes e dificil…
 
2006, Novembro 18
 
     Mais um grande Teisho hoje! O Roshi puxa mesmo por nos: "o Zen nao e para brincar, o Zazen nao e um passatempo. Se nos sentamos no Zendo de animo leve, sem determinacao, isso e um problema!"
     Hoje no Sanzen o Roshi olhou-me nos olhos pela @rimeira vez. Foi estranho! Nao desviou o olhar por um segundo. Eu olhava apenas intermitentemente. Ele tem uma personalidade muito forte. Disse-me: "Never do Zazen with your eyes closed. People who do Zazen with their eyes closed are useless to the world. Have you ever seen a Daruma Daichi (Bodai Daruma "Daichi", o fundador historico do Zen que viveu no seculo VI d.C.) with his eyes closed? Zen masters always have their eyes wide open. Do Zazen like that. Zen is about being fully in the real world, with eyes fully open. People who close their eyes live in two different worlds."
     A minha pratica aqui e mesmo irregular. Tao depressa penso "Que estou eu aqui a fazer? Nunca hei-de chegar a lado nenhum", como penso "Isto esta a correr muito bem agora! Sinto-me nas nuvens! Vou ficar aqui para sempre!"
     A espera para o Sanzen da noite, estive a aguardar a minha vez durante talvez 1H30. Sempre de pe, uma grande parte do tempo totalmente imovel. Foi bom, mas quando teitei mexer as pernas e os pes, pois estava quase na minha vez, eles estavam completamente paralizados. Tinha criado raizes e encontrava-me "enterrado" pelo chao abaixo. Ser arvore nao e facil, mas foi bom.
     E uma espera tao longa para que? Para ouvir uma so palavra do Roshi, embora dita 2 vezes. Enquanto esperava, tinha colocado uma pergunta na minha mente, na certeza de que o mestre a ouviria telepaticamente. Ajoelhei-me de frente para o Roshi e respirei o melhor que sabia, lenta, consciente e profundamente. Depois lembrei-me a questao novamente, na minha cabeca: "How should I breathe?". Passados poucos segundos ele disse: "Continue… Continue."
     E pimba! Uma hora e meia de "arvorificacao" lenta para ouvir isto. Sera que valeu a pena? Valeu, sem sombra de duvidas! Aquelas palavras bateram-me forte e fundo! Fiquei muito contente. De certa forma, senti que ele estava a dizer para continuar o que tenho feito, senti que algum efeito a minha fraca pratica estaria a ter. A minha pergunta foi respondida. Como devo respirar? Como o tenho feito, e o que sinto. Mesmo que nao esteja a faze-lo ainda bem, como disse a C___, "o Zendo e um laboratorio. Deixa que o teu Zazen te mostre o caminho a seguir". E sei que e isso que esta a acontecer.
 
     A cada dia que passa admiro e confio cada vez mais neste mestre chamado Shodo Harada Roshi. Nao ha duvidas, ele e um Buda (alguem que "despertou" totalmente), um Bodhisattva, um verdadeiro mestre realizado. Ele sabe tudo. Aquela respiracao sonora no Sanzen, os olhos semi-cerrados, aquele ambiente repleto de penumbras misteriosas, navegado por odores de incenso perfumado… Ele sabe!
 
     Hoje tomei finalmente o tradicional banho japones. Ou seja, 4 homens peludos e feiosos dentro da mesma banheira ( e nao, a banheira nao e assim tao grande)! Mas calma, pois quando saltamos para o banho colectivo ja tomamos o banho ca fora, com duches normais ou com alguidares de agua quente retirada da dita banheira. Numa agua a 44 graus C., e quase impossivel, pelo menos para mim, entrar. Mas que relxante, estupendo. Num Japao tao frio, um banho destes vem mesmo a calhar!
 
2006, Novembro 19
 
     Hoje ao almoco passou-se algo de estranho (sem contar com o facto de termos tido direito a uma especie de Donuts divinais!)… A C___, depois de terminada a refeicao, disse: "Qualquer tipo de violencia fisica nao sera tolerada em Sogenji. Isso demonstra um desrespeito total pelo Roshi e pelos ensinamentos do Buda. Quem entrar nesse tipo de comportamentos, seja qual for a razao, sera de imediato levado ao Roshi e a possibilidade de expulsao do templo sera seriamente considerada. Aproximam-se 3 importantes retiros, isto e um local de treino…" Parece que ja houve molho!
     Apesar de duras, estas palavras acalmaram uma parte de mim que estranhava certos acontecimentos passados em Sogenji. Contaram-me que ja por varias vezes as pessoas passaram a "vias de facto" e que um dos praticantes mais antigos do templo (note-se bem, sao 20 anos de treino!) agrediu por 3 vezes uma outra praticante. Alem disso, a cena de quase agressao a que eu proprio assisti ha dias comprova que algumas pessoas andam com os nervos a "flor da pele".
     Pelo menos agora fiquei a saber que os responsaveis pelo mosteiro nao compactuam nem fecham os olhos perante este tipo de ocorrencias.
 
     Veio-me um poema a cabeca no inicio de um periodo de Zazen. Faco tudo menos meditar!! "Portas em todas as janelas, ja nem sei por onde entrar. Sai pela entrada, espero nunca mais voltar. Olhos bem abertos no escuro, olhos fechados na luminosidade estranha desta noite fria onde o sol brilha a direito sobre mim". Palavras estranhas, nascidas ao "som" de uma musica de Margarida Pinto.
 
     No Sanzen o Roshi dedicou-me apenas 2 palavras: "Don’t stop!" Vieram mesmo a calhar, porque a dois dias do fim do Osesshin ja estava a querer baixar os bracos; a minha concentracao/mente esta um bocado esgotada. Mas vamos tentar aproveitar o tempo que resta.
 
2006, Novembro 20
    
     O Yaza e uma parte interessante do Osesshin. Meditar na rua e a noite e muito bonito e inspirador. E como podemos agasalharmo-nos a vontade, o frio nao incomoda. E giro ver toda a gente a vir com os seus tapetes de "tatami", os seus cobertores, os seus gorros e cachecois, etc. Sentamo-nos em redor do Hondo ou do Kyoso – um edificio com algumas reliquias la dentro, incluindo pecas protegidas pela Unesco e textos de sutras com mais de 100 anos.
     Porem, uma das partes mais interessantes do Yaza e o seu final. O Roshi passa por nos, para confirmar que ninguem se baldou! Vem com os seus passos decididos, mas serenos, com o seu caminhar "sui generis" e com um pauzinho de incenso a fumegar na mao. No meio da escuridao da noite, a pequena "luz" vermelha do incenso avistada ao longe, acompanhada pelo som de passos, e sinal que o mestre vem a caminho. Por vezes sente-se o cheiro do incenso no ar. E bom! =)  A partir daqui, cabe a cada um decidir se quer continuar a meditar (ou dormitar) debaixo de um tapete de estrelas brilhantes ou se prefere ir dormir para os lencois.
 
2006, Novembro 21
 
     O ultimo dia do Osesshin! Yuppi!! Sabe bem ver a luz ao fundo do tunel a brilhar cada vez mais forte. Claro que este tipo de retiros nao e suposto ser uma tortura, mas sim uma oportunidade optima de crescimento. Porem, e bom saber que vamos ter quase duas semanas para abrandar o ritmo antes de comecar o para ja assustador Rohatsu Osesshin.
     Nao me sinto muito diferente, apesar destes 7 dias intensivos de meditacao. Tambem estou quase a completar o meu primeiro mes, e nao acho que a minha pratica tenha evoluido muito. Ainda assim, o meu Zazen tem me levado, gradual e lentamente, a locais cada vez mais profundos dentro de mim. Pelo menos e a minha precepcao. Mas a mente e matreira e para ja a minha meditacao anda muito irregular: optimo Zazen, pessimo Zazen.
     Mas uma coisa e certa: quando vejo o Roshi, quando oico as suas palavras e quando o Zazen "vale a pena", ai sinto que "a alma nao e pequena", e que este e um dos melhores caminhos para a tornar cada vez maior! Claro que apesar de reflectir a luz mais pura, a te a lua tem o seu lado negro. Vamos ver como vai "evoluir" o meu!
 
     E pronto! Acabou o Osesshin! Bolos no final, paparoca, a malta toda feliz e contente, recebi dois abracos e tudo! Mas mais importante foi a mensagem do Roshi. Este foi o Osesshin de preparacao para o Rohatsu! Para esse retiro o mestre pede que estejamos prontos para morrer pela Realizacao, se for preciso. Este e o retiro que festeja e marca a data do despertar do Buda (8 de Dezembro). Mas se nao tivermos como objectivo obter a mesma realizacao fundamental que o Buda alcancou, este retiro nao tera qualquer significado. Sera desprovido de sabor ou essencia, como "uma cerveja bebida 2 horas depois de ter sido tirada" – palavras do Roshi.
     Como ja estava a espera, e nos pedido que nao nos deitemos para dormir, para dormirmos na posicao sentada. Ja estive a estudar a situacao. Basta encostar-me a um poste, atar a cabeca ao mesmo para ela nao cair ao adormecer e nao magoar as costas, e esta feito. Enlightenment, here I come!! Bodhi svaha!!
     No Sanzen, o Roshi perguntou-me: What’s your state of mind?" Nao estava a espera da pergunta. Pensei um pouco. Respondi: "Confused…." A C___, a tradutora, perguntou: "Confused?. Acrescentei: "Confused… Up and down in the practice". O Roshi responde: "We all go through tha. There are always things outside of us that we don’t like and we are always trying to change it outside. Nevertheless, is nside that we must change and it’s on that we must work creatively".
 
     Os meus pensamentos ainda foge para a I___ varias vezes, sinto nostalgia pelo que deixei em Portugal. Penso no futuro, penso no pssado, penso muito, sinto muito. Tambem penso na A___ e em toda  situacao envolvente.
     Penso muito no futuro, que sera da minha vida quando sair de Sogenji, que sera de mim e da I__, de mim e da A___, de mim e do meu futuro "profissional", bla, bla, bla…
 
Dre
Published in: on 01/12/2006 at 5:47  Deixe um Comentário  

Diarios de Sogenji – IV (11 a 14 de Novembro)

2006, Novembro 11
 
     Hoje fui ao meu primeiro Sanzen. Cheguei a sala do Roshi e, depois da prostracao e da venia, ajoelhei-me em frente dele. Ele disse algo que eu nao percebi. Fiquei a espera da traducao, mas ela nao surgiu. Passado alguns segundos, percebi que ele tinha falado em ingles. Disse-me "Show me your breath". Quando percebi, pensei, "Bolas, estou aqui todo nervoso, a minha respiracao esta uma bosta!" Acalmei-me num segundo, concentrei-me no Tanden e respirei. Passado mais alguns segundos ele comecou a falar, agora claramente em japones. A C___ traduziu: "Open your eyes, your ears, open all your senses to the outside world. That is Zazen". Depois acrescentou algo: "Return to your breath, return to the original breat, that very deep and all-encompassing breath".
     Foi uma experiencia excelente, revigorante e inspiradora. No Sanzen, o Roshi estava muito diferente do habitual. Sob uma luz muito suave (o sol estava ainda a nascer), de olhos semi-cerrados e um sorriso muito subtil, vi um Buda ou um Bodhisattva diante de mim. Grande energia. Excelente.
     Fica so uma questao: a sala bastante escura, o Roshi de olhos fechados e eu com varias camadas de roupa, como conseguiu ele ver a minha respiracao?Talvez estar em frente ao mestre seja como estar frente-a-frente com Deus, o Absoluto.
    
     Estive a trabalhar com o An___. Ele tem a mesma opiniao sobre o J__. Tenho que ter cuidado, porque ele tem problemas a nivel psicologico. Ja me comecei a aperceber de certas coisas e afastei-me.
     Disse tambem uma coisa curiosa: que eu era o melhor "novato"que tinha aparecido em Sogenji nos ultimos tempos. Claro que o meu ego agradece! Mas ele tambem me assustou um pouco. Disse que ha pessoas aqui com um ego gigantesco e que o Roshi nao se preocupa muito com isso. Diz que ele e um excelente mestre, mas um mau gestor de pessoas. Que o treino Zen tem feito mais mal do que bem a muita gente aqui.
 
     Caminhando por entre os mortos procuro a minha propria extincao. Atraves da Grande Morte alcancarei a Vida Eterna. Viver e morrer lentamente; morrer de uma vez por todas e renascer para sempre. Mil campas alinhadas, passos de paz, fonte de liberdade.
 
2006, Novembro 13
 
     Hoje 2 praticantes por pouco nao se envolveram em actos de violencia fisica! Um deles era o J__, o russo "amigo" que tanta gente me tem avisado. Chegaram a encostar as cabecas um ao outro – pareciam 2 jogadores de futebol ressabiados. O J__ disse para o outro: 2Don7t make yourself bigger than you are. You are no one". Sem comentarios!
 
     Hoje no Sanzen o mestre so me dedicou uma frase: "Allow no gaps, no breaks. The life is just this!" Mas foi bom. A presenca do Roshi em Sanzen e extraordinaria e estas palavras fizeram-me lembrar Hogen Yamahata, um dos mais inspiradores de todos os mestres espirituais que conheco.
 
2006, Novembro 14
 
     Amanha comeca o grande combate. Sete dias a dormir 5 horas por noite, a meditar 11 horas por dia e com menos de 2 horas de intervalo entre as actividades agendadas. Deve ser uma correria doida! Mas sinto-me preparado (mais psicologica do que fisicamente), embora saiba que vou defrontar aquilo a que ja chamaram "a besta que nunca dorme": a minha propria mente!
 
 
..Dre
Published in: on 30/11/2006 at 7:16  Deixe um Comentário  

Diarios de Sogenji – III (5 a 10 de Novembro)

 
2006, Novembro 5
 
     Este fim-de-semana (4 e 5) esta a haver uma cerimonia muito importante aqui no templo. Chama-se "Kaisanki", acontece uma vez por ano e agora estamos todos ocupados a servir os convidados. Basicamente, sao bastantes "professores"e mestres Zen a cantar sutras, beber cerveja e sake. So falta mesmo as meninas a dancar no varao!
     Entretanto, soube ha dias que nao foi o Almerindo que se afastou do templo. Foi a "gerencia" de Sogenji que o afastou. Hhhmm… Isto faz-me pensar nalgumas coisas. Se eu ja punha em causa algumas das suas palavras, agora a sua credibilidade desceu bastante. De qualquer forma, isso nao muda muito a minha postura: "bola p’ra frente que o jogo mal comecou."
 
     O frio nocturno penetra como farpas de gelo. No fim da jornada, ate as noites de inverno sao quentes como o sol de verao.
 
2006, Novembro 6
 
     Hoje foi um dia livre. Porem, eu era o "Tenzo helper" (ajudante do chefe de cozinha). Xoida, que stresse, estas refeicoes: tira pratos e tachos, poe tachos e pratos, vai buscar isto, vai buscar aquilo, senta, come, levanta, mais tachos, come outra vez… uff! Que loucura. Ja para nao falar do stresse de ter a comida feita a horas. Quando for eu o Tenzo nem quero imaginar! Lol.
     Ha dias, a falar com o Myo-san, apercebi-me de um aspecto curioso no nosso treino: durante Zazen, Choka e Kaichin (ou seja, quando estamos com roupa de meditacao) nao podemos usar gorros, cachecois ou meias (nem sapatos). Ou seja, aguentar o friozinho que fizer (que promete descer a temperaturas negativas no inverno). Tendo em conta que meditamos de janelas abertas (eu tenho uma mesmo nas minhas costas), completamente imoveis, vai ser engracado!
     Hoje andei pela primeira vez de autocarro. Foi comico tentar perceber o sistema de bilhetes deles e tentar perceber como funcionam as paragens e os destinos. Tudo isso porque peguei numa bicicleta com um pneu furado!
     Amanha comeca o Kosesshin. Vai ser o meu primeiro retiro, embora seja dos mais "softs". Apenas 5 dias com cerca de 5,5H de meditacao. Dia 15 comeca o Osesshin, um osso duro de roer, dizem (7 dias, 10H por dia).
     O mestre deu-nos 5.000 yenes a todos, pela ajuda prestada na cerimonia "Kaisanki". Soube que nem ginjas; nao estava nada a espera. Acabei por dar 2.000 yenes ao Ab___, um americano recem-chegado, mas que tambem ajudou. Ele e bastante porreiro! Basta ter o meu nome! =)
 
2006, Novembro 7
 
     Hoje comecou o Kosesshin. O Zazen da manha foi passado com muitos pensamentos! Tenho que me concentrar mais e ser mais forte que a vontade de viajar no "tapete magico do pensamento".
     Perguntei a C___ sobre como praticar. Ela disse para deixar o meu corpo e a minha respiracao ensinarem-me o caminho. "The Zendo is a laboratory", disse ela.
     Deu-me 3 conselhos: alongar ao maximo as expiracoes, mas sem forcar; nao deixar espaco entre as respiracoes, pois isso leva a mais pensamentos; e para me centrar no Tanden sempre.
     Deu-me tambem uma boa novidade: provavelmente terei Sanzen em breve, ainda antes do Osesshin, talvez.
     O Sz_____, responsavel pelo Zendo, acabou de passar ao meu lado com uma serie de chapeus-de-chuva na mao. Pelo vistos nao temos de ir a chuva do Zendo para o Hondo e vice-versa de manha.
     Tenho tentado nao calcar meias, para enrijar o osso, mas esta a ficar bem frio. De qualquer forma, na meditacao e afins nao vou poder de todo.
 
2006, Novembro 8
 
     Hoje acordei num cubo de gelo chamado "Zendo". Estavam cerca de 3 graus C. Foi estupidamente dolorosa a meditacao da manha – e estou quase a esgotar os meus recursos a nivel de roupa de Inverno. Mas vou ter que os usar a todos; hoje foi brutalmente dificil suportar o frio. Tive que contrair e descontrair os musculos repetidamente, por varias vezes, para tentar aquecer o corpo. Nos intervalos da meditacao vou ter que comecar a beber agua quente. Surpreendentemente, o Roshi ate mandou fechar as janelas. Porem, com as portas todas abertas, a corrente de ar manteve-se.
     Contam-se aqui algumas historias interessantes sobre o mestre. Uma vez, irritado por nao conseguir um "insight"/iluminacao, decidiu nao se deitar mais enquanto nao o conseguisse. Esteve 2 anos sem se deitar (dormia na posicao sentada de meditacao, para conservar a energia). Estragou o corpo, mas conseguiu o seu "insight".
     Uma outra vez, caiu de uma escada de 2 metros e partiu as costas (traducao literal de "broke his back"). Mas como era o primeiro dia de um retiro, sentou-se durante 30 minutos na posicao de meditacao, sem anestesia, antes de ir para o hospital. Dizem que e por causa disso que ele tem um anadar estranho. E eu a pensar que era para o estilo!
     Nessa conversa sobre o Roshi, voltou a falar-se muito bem dele. Dizem que e um dos maiores Roshis desde a guerra (nao sei qual), embora nao meca mais que 1,60m. Lol. Dizem que e um dos "Dalai Lamas" do Zen. Que e um homem "feliz", embora quando se "chateia" seja duro como pedra.
     Quanto ao mestre, todos sao unanimes: subir mais alto nao e possivel; ele e o topo dos topos. Parece que estou no local certo!
     Depois dos 3 graus C. matinais, a temperatura elevou-se aos 15 graus durante o dia. Hip Horay!!
 
2006, Novembro 9
 
     Hoje rapei o cabelo. E aqui rapar e mesmo com gilete. Vamos ver como a minha cabecinha agora totalmente despida vai lidar com as noites e manhas geladas deste outono japones.
 
2006, Novembro 10
 
     Hoje a C___ virou-se para mim ao almoco e disse: "Comecas o Sanzen hoje a noite!" Fiquei super surpreendido, mas muitissimo entusiasmado. Ate o Ab___, sentado a minha frente, mostrou-se muito surpreendido. Varias pessoas me congratularam. Parece que normalmente demora-se mais tempo a conseguir Sanzen. A primeira coisa que o Sh___ disse foi: "Man, who did you blow?!" Ele diz que as portas se estao a abrir para mim mais rapidamente que o habitual. Ah pois e, aqui o tuga nao brinca em servico! =)
     Sao 21H20… Acabaram as 4H de Zazen do fim do dia, quando em Kosesshin. O meu joelho esquerdo esta a dar-me problemas… Hoje tive que me sentar em posicao "cadeira". Alem disso, picado por melgas em pelo menos 4 sitios diferentes. Quando nao e aconselhavel movermo-nos muito, e f#あlx !!
     Alem disso, a minha mente nao da descanso. Continua aos saltos por todos os lados… Vamos ver como progride a minha concentracao com o avancar do tempo.
 
Dre
Published in: on 22/11/2006 at 6:19  Deixe um Comentário  

Diarios de Sogenji – II (29 de Outubro a 3 de Novembro)

 
2006, Outubro 29
 
     E verdade, comecou hoje a minha integracao oficial. Como as pessoas mudaram, depois de acabar o Osesshin. Muito faladoras, apresentaram-se a mim, falaram comigo. Porem, o amigo da Invicta, o Al___ – que vai embora amanha -, continua os seus avisos: "Fecha-te, concentra-te em ti, demonstra que queres praticar, nao entres em socializacoes. Os mais faladores, os mais simpaticos estao apenas a conhecer-te. Depois vao atirar-te tudo a cara. Vao usar tudo isso para atacar o teu ego. Depois vai ser tudo mais dificil. Eu digo isto para te avisar".
     O Al___ continua a apontar o dedo aqueles comquem eu simpatizo mais: o J___ (Russia) e agora um dinamarques (An___).
     O Al___ diz tambem que os monges mais velhos estao apenas a observar-me agora. Quando as informacoes que os mais novos estao a tentar recolher lhes chegarem aos ouvidos, vao-me "fazer a cabeca em agua". Ele diz que o Roshi e o meu unico amigo aqui dentro. Com ele posso abrir-me a 100%. E uma teoria interessante. Vamos ver como se desenvolve.
     Hoje vou fazer o meu primeiro Zazen. Vamos ver como corre. Hoje mudei-me tambem para o Zendo E la que vou dormir. Acabou-se a privacidade, acabou-se o quartinho so para o "Je". Mas acho que e melhor assim. O quarto estava a tornar-se um refugio para mim, e aqui nao preciso de refugios. Tudo tem que vir ao de cima.
     O Al___ diz tambem que o Sanzen e algo de extraordinario. Que encontrarmo-nos assim pessoalmente com o Roshi e como encontrarmo-nos com Deus. Uma energia impressionante.
    
2006, Outubro 30
 
     Hoje foi o ultimo dia do Al___. A partir de agora, e ate 2 de Dezembro, serei o unico portugues em Sogenji. Fiquei sem o meu conselheiro, mas nao sem os seus conselhos. Esses guardei-os bem.
     O zazen comecou em forca. Ainda nao morri – o pior esta ainda por vir -, mas ja tive as minhas dores – bem razoaveis.
 
2006, Outubro 31
 
     Dia das bruxas… Hoje fui a coxear na minha "vassoura" para a cozinha, depos do Zazen da manha.
     Hoje bati no fundo mais negro da minha mente. Dentro de mim explodiram raiva, tristeza, confusao e nao-aceitacao. Para curar isso, passado algum tempo, liguei a I___. A hora tinha mudado – agora sao 9H de diferenca. Depois de 55 minutos e 4500 yenes mais pobre, sentia-me melhor. Es uma grande pessoa, uma grande alma. Obrigado.
 
2006, Novembro 1
 
     Hoje estou melhor – desde que nao pense na I___…
     Estive a trabalhar na cozinha ate ao almoco. Foi stressante, mas no final compensou muito. Trabalhei com a So___. No inicio foi muito bruta e antipatica. Estava a sentir-me bastante triste com isso. Depois comecou a meter-se comigo e a sorrir muito. Foi muito bom. No final deu-me um conselho relativamente aos Sesshins. Obrigado. E que excelente almoco preparamos!
 
2006, Novembro 3
 
     A minha integracao esta a avancar a olhos vistos, posso afirmar, e isso repercute-se na minha pratica. As sessoes de Zazen de ontem a noite e hoje de manha foram muito fortes. O meu Tanden esta a ganhar energia, estou a comecar a senti-lo mais profundamente.
     Falta um mes para o Rohatsu. Se me aplicar bem nos 3 retiros que vao haver antes desse "colosso", e com a ajuda do Sanzen com o Roshi (ainda por confirmar), tenho a sensacao que a iluminacao e possivel. Sinto isso devido a energia criada nos ultimos Zazens e a determinacao adquirida depois de ler a experiencia de iluminacao do Philip Kapleau ("Os Tres Pilares do Zen").
     De qualquer modo, como disse a A___, a iluminacao vira quando tiver que vir… Es um anjo. Obrigado pela tua forca e certeza.
     Ja me apercebi da rotina nos dias normais: levanto-me as 3H40. As 4H temos cerca de uma hora de Choka no Hondo. De seguida corremos para um pequeno altar junto a cozinha para mais 10 minutos de sutras (Itaten). Depois corremos para o Zendo, onde temos 2H de Zazen. Finalizado o Zazen, corremos para a cozinha para o pequeno-almoco (as 7H). Depois de uma refeicao relativamente rapida e altamente ritualizada, com sutras e gasshos a mistura, corro de novo para o Zendo, troco de roupa (tiro as roupas de meditacao e visto as roupas de trabalho) e corro agora para a arrecadacao das ferramentas. Uma vassoura, uma pa e uma especia de gedanha sao os meus companheiros durante cerca de uma hora. Isto e a "limpeza exterior". Seguidamente, rumo de novo ao Zendo para a "limpeza interior". Lavo casas-de-banho, urinois, lavatorio, etc. Terminada esta limpeza no Zendo, rumo de novo para mais trabalho no exterior – este agora dependente do que me for ordenado no momento.
     Utilizei sempre a expressao "correr" porque aqui tudo e feito a ritmo acelerado. Engana-se quem procura aqui paz de espirito e um ambiente sem stresse.
     As 13H e o almoco, depois do qual surge um periodo de descando ("la siesta") que durara ate ao jantar (tipo "self-service") as 17H. Depois tenho Zazen das 18H30 as 20H30. As 21H, regra geral, encerram-se as actividades com o Itaten da noite, no altar junto a cozinha.
     Esta e a minha rotina em dias normais, ou seja, em dias fora dos retiros e sem actividades adicionais.
     Um exemplo de actividade adicional e o Shuya, que e feito depois do cantico das 21H. E uma ronda feita ao mosteiro, por 2 pessoas entoando um cantico, para verificar se as portas estao fechadas e os aparelhos electricos e a gas estao desligados. Fiz esta ronda no dia 1 de Novembro com o An___. Foi giro.
     Enquanto escrevo estas linhas (no Zendo), decorre no Hondo uma cerimonia chamada Bishamon. Preferi ficar por minha conta, mas vejo que perdi algo de interessante. Oico varias vozes a gritar e berrar a plenos pulmoes. Tipicamente japones!
 
Dre
 
Published in: on 13/11/2006 at 3:53  Deixe um Comentário  

Diarios de Sogenji – I (26 a 28 de Outubro)

 
Glossario:
 
Choka – Periodo de cerca de uma hora de leitura de sutras, feito logo pela manha.
Dharma – Ensinamento do Buda. A Verdade Ultima para a qual esses ensinamentos apontam.
Gaitan – Sala secundaria dentro do Zendo, local onde se pode mover o corpo durante a meditacao e optar por posturas de meditacao mais acessiveis a principiantes.
Gassho – Venia feita com as palmas das maos juntas, significando respeito e simbolizando a uniao cosmica.
Hondo – Templo (sala principal) onde se realizam cerimonias especiais e onde recitamos os sutras diariamente.
Itaten (ou Kaichin) – Breve recitacao de sutras, feita de manha (depois do choka) e a noite.
Kaichin – (ver Itaten).
Kinhin – Meditacao em marcha.
Koan – Especie de pergunta ou quebra-cabecas criado para ultrapassar a logica mental ou o raciocino convencional de modo a atingir um nivel de percepcao e compreensao da realidade mais directo e profundo. E outro dos instrumentos base do Zen.
Kosesshin – Retiro de 5 dias (em pouco diferente da rotina habitual).
Maruyama – Bairro ou zona suburbana onde o templo fica especificamente situado.
Okayama – Cidade onde se situa o templo.
Osesshin – Retiro Intensivo de 7 dias.
Rohatsu – O retiro mais intensivo do ano, comemorando o aniversario do Buda.
Roshi – Mestre
Samu – Trabalho.
Sangha – Comunidade (normalmente referente aos praticantes budistas).
Sanzen – "Entrevista" ou encontro com o mestre onde o discipulo recebe orientacao e inspiracao.
Sarei – Cha acompanhado ou nao por um pequeno lanche.
Sesshin – Retiro. Palavra que significa a uniao do coracao e da mente.
Shuya – Ronda feita diariamente pelo templo para conferir se as portas estao fechadas e os aparelhos electricos ou a gas desligados.
Sogenji – Templo onde me encontro.
Susokkan – Tecnica meditativa consistindo na contagem das expiracoes e na concentracao no Tanden.
Sutra – Texto sagrado do Budismo (entre outras religioes asiaticas).
Takuatsu – Mendicidade religiosa.
Tanden – Centro energetico do ser humano, situado 2 dedos abaixo do umbigo.
Teisho – Palestra
Zazen – Meditacao sentada. Base da pratica Zen.
Zen – Escola de Budismo Mahayana, uma especie de fusao entre Budismo e Taoismo.
Zendo – Sala de meditacao e residencia de alguns praticantes.
 
 
2006, Outubro 26
 
     E pronto! A primeira etapa ja esta, pois escrevo estas palavras ja em Sogenji, Okayama – Japao. A viagem para o pais do Sol Nascente correu bem. Deu para dormir algumas horinhas e compensar a directa feita na vespera, bem como para ver Lisboa do alto, ver mares e ocenos de nuvens que tapavam as aguas e as teras la em baixo, e ainda ver um horizonte de fogo ao nascer do sol ja em terras niponicas.
     No aeroporto de Kansai, Osaka, apos uma pequena reuniao no gabinete de imigracao (estava dificil convence-los que vinha para um templo budista), la consegui apanhar o comboio para Okayama, nao sem antes telefonar para Portugal e derramar meio litro em lagrimas, num ataque de medo e inseguranca.
     Ja na minha nova "cidade natal", apanhei um taxi e foi ai que eu reparei que no Japao tambem se conduz pela esquerda, tal como os ingleses, por exemplo. Entrei no templo e, apos alguns minutos de exploracao, cruzei-me com um homem vestido a rigor (estilo monge) e com uns oculos curiosos que me perguntou: "Where are you from?", ao que eu respondi, com a minha bela pronuncia anglo-saxonica, "Portugal". Eis senao quando ele contrapoe: "Bem me parecia que eras tu o portugues". Tinha acabado de conhecer o Al___.
     Numa conversa a dois, perguntou-me se eu sabia no que me estava a meter, que Rinzai (uma das 3 escolas de Budismo Zen) e duro, mas que nao era so isso que havia para saber sobre Sogenji…, e para nao alimentar grande vontade de socializar, que o melhor era pregar os olhos no chao e mostrar vontade de trabalhar e de estar concentrado.
     Descobri tambem, com a natural "alegria" de quem sofre de aracnofobia, que o templo – bem como a cidade em geral – esta cravejado de aranhas coloridas de tamanho razoavel. Parece ser mesmo o local ideal para perder todos os medos!
     A minha chegada parece ter acontecido na pior altura possivel: a meio de um Osesshin (retiro intensivo de 7 dias). A C___ (a pessoa com quem falei via e-mail antes de ir para o Japao) mostrou que nao tinha pensado muito nessa situacao, mas que nao haveria grande problema – ficaria a ajudar na cozinha enquanto o retiro nao acabasse (eu cheguei no antepenultimo dia). Quando fui apresentado a E___, a mexicana encarregue da cozinha nesse dia, a sua opiniao era bem diferente: o melhor era eu desaparecer do mapa durante os proximos 2 dias e meio. "Vai ver a cidade, vai fazer montanhismo (ha uma serra mesmo por detras do templo), enfia-te no teu quarto, mas passa o mais despercebido possivel" – tudo isso para nao afectar a concentracao dos meditadores, concentracao essa que naquela fase do retiro estaria numa fase critica. "Ainda por cima tens cabelo e barba", disse ela com ar assustado. "Vais ter que te barbear, isso e certo".
     Depois foi falar com a C___ que, para espando dela, disse que eu devia pelo menos comer com o resto da Sangha (comunidade). Ela avisou-me que a refeicao e muito complexa, rapida e cheia de rituais. Eu ficaria no canto da mesa, o mais discreto possivel.
     Entretanto fui a cidade de bicicleta – eles tem em Maruyama umas ruas muito sossegadas para peoes e velocipedes – comprar laminas e espuma de barbear. A muito custo, la consegui desbravar a minha selva facial. Falta o cabelo…
     Esta sensacao de ter chegado em ma altura, somada a descricao assustadora que o portugues fez ("isto tem tanto de Ceu como de Inferno"), e somada ainda a tristeza de "abandonar" a familia, amigos e namorada, deixou-me a beira de um ataque de nervos. Vamos ver se tenho a forca psicologica e emocional suficientes para aguentar um regime militarista Zen, principalmente quando tenho o coracao tao fragilizado e sensivel. Admito, apetece-me chorar, por vezes, e comprar ja o bilhete de regresso a casa…
     Apesar de tudo, as pessoas foram simpaticas e nao parece ser um cenario tao mau como o Al___ pintou.
 
2006, Outubro 27
 
     Ja de manhazinha, fui instruido pelo Al___ sobre como proceder na refeicao. Ensinou-me alguns dos truques e deu-me o "kit refeicao" necessario: 3 tigelas enfiadas umas nas outras (tipo Matrioska), um par de pauzinhos "chineses" (e eu a pensar "como e que se come com isto?!"), um guardanapo, um livrinho de sutras (textos sagrados) para recitar na refeicao e um pano para embrulhar isso tudo.
     Alem disso, deu-me um colchao para por debaixo do saco-cama (na primeira noite dormi no chao, por opcao propria). Tem sido uma boa ajuda, este Al___, uma personagem engracada, natural da "Invicta".
     Percebi que o terco e a pulseira que trazia no pulso sao para tirar e o relogio nao o posso ter no pulso nem nas refeicoes, nem no Zazen. Os fios que tenho ao pescoco tambem nao durarao muito tempo.
 
     Doi-me o coracao de cada vez que penso na I___. Tenho evitado olhar para as fotos dela, pois so de as imaginar da-me vontade de chorar… Sinto muito a tua falta. Amo-te… Que faco eu aqui?
 
     Pus todas as fotos que trouxe em exposicao no meu quarto: Avo e Avo A___, pai, mae e irmao, A___ e I___. Ajudam-me a manter a esperanca.
     Acho que ja me habituei as fotos da I___. Ja nao doi tanto o peito ao ver o seu rosto.
 
     O J___ (da Russia) hoje foi uma grande ajuda. Ele e muito simpatico e ajudou-me na minha integracao. A C___ tambem se tem mantido atenta e preocupada.
     Hoje tomei um "cha" com o Roshi (mestre), na companhia de mais 5 "colegas". O cha foi horrivel; a presenca do mestre foi interessante.
 
2006, Outubro 28
 
     Continuo um pouco a parte da comunidade… Como nao pareciam precisar de mim na cozinha, fui explorar as dezenas de trilhos que se escondem por detras do templo, numa serra muito interessante.
     Passei por 1001 aranhas, todas elas coloridas. Embora ontem no meu quarto tenha tido uma aventura com uma aranha – esta mais pequena e "descolorida", gracas a Deus -, creio que comeco a entender-me com elas. Ainda nao segui o conselho do meu amor – "fala com elas" -, mas as coisas parecem estar a encaminhar-se.
     Ontem e hoje assisti aos meus dois primeiros Teisho (palestras do mestre). Sao interessantes, nao so pelo grotesco do ritual e da voz do Roshi, como pelo conteudo espiritual das suas palavras.
     Talvez amanha consiga ir ver o e-mail, creio que temos um dia livre, pois hoje acaba o Osesshin. A partir de amanha espero comecar a minha integracao oficial na comunidade.
 
     Afinal consegui ir ao e-mail hoje. Andei na cidade – foi muito giro, cheia de gente, muitas bicicletas e eu sobre 2 rodas tambem. Mas que dificil encontrar a loja da internet. Mas com japoneses tao prestaveis, como poderia nao chegar ao meu destino? Chegam a acompanhar-me (eles a pe e eu de bicicleta) ao longo de diversos quarteiroes!
 
 ..Dre
 
Published in: on 06/11/2006 at 6:04  Deixe um Comentário