The California Diaries VIII


     Vinte e sete de Junho, mochila às costas, às seis e um quarto da manhã arranco para São Francisco com uma directa em cima, é a única forma de estar acordado a tal hora matutina, passo um tempo em São Francisco a matar saudades daquela cidade muito especial, subo à Coit tower, provavelmente a melhor vista da cidade.


A vista da Coit Tower – a qualidade da imagem dá a parecer que estive lá em 1967


     Por volta da hora de almoço apanho o autocarro para Santa Rosa, paragem forçada, o meu destino é Sonoma, chego lá por volta das dezanove horas, caminho até ao Whole Foods Market, compro um "burrito" para matar a fome, é uma pequena vila, alguns milhares de habitantes apenas, os meus pensamentos deslizam para o sossego que é viver em semelhante sitio, uma paz de espírito impressionante, é neste preciso instante de profunda contemplação e pachorrento repasto que vejo um grupo de jovens aos saltos e gritos, apercebo-me que seis ou sete rapazolas estão a tentar espancar um outro, depois reparo que afinal seis ou sete contra dois ou três, enfim, sempre é mais equilibrado, um lembra-se de pegar num vaso de plástico com flores que estava para venda à frente da "Longs Drugs", é uma cena que se arrasta do grotesco para o cómico passando pelo absurdo, os seis ou sete jovens dão-se como vencedores e abandonam a cena uivando triunfalmente, um arrufo de gangs, com certeza, coisa habitual pelos EUA, acabo de comer o meu "burrito" e penso, Aaahh, como é pacata a vida numa pequena vila do interior". É uma zona vinhateira, região famosa pelo seu vinho, a população é dois terços hispânica, sinto-me como que em LA ou San Diego, na fronteira com o México, caminho até ao parque/bosque onde encontro um lugar para dormir, está bastante calor, adormeço numa "torre" num parque infantil.


A árvore que me serviu de abrigo


     Acordo cedo, por volta das 5H30, já há algumas pessoas a girar no parque, notando a hora e o pormenor de ser Domingo, naturalmente passa-me pela cabeça que estas pessoas são loucas, enfim, sigo a minha vida, às 10H tenho o encontro com o Prasanna, o Buda vivo da Califórnia, é uma honra e privilégio poder partilhar as minhas dúvidas com semelhante ser "celestial". Resumindo a coisa, ele convida-me a ficar na casa dele, não se sente confortável com a ideia de eu ficar no parque/bosque, mesmo que não há primeira acabo por aceitar o convite, passo cinco dias em casa dele, conversamos imenso, ele entrega-se de alma e coração às minhas perguntas, eu entrego-me de alma e coração às suas respostas, vamos jantar e, embora eu tenha puxado de uma nota de cem, ele insiste em pagar o jantar, dias antes ele tinha feito o mesmo, dia vinte e dois de Junho fomos cinco visitá-lo de Santa Cruz, estivémos sete horas com ele a conversar sobre não-dualidade, no fim ele vira-se e diz, "Tive uma ideia, e que tal se encomendássemos uma pizza", se este doce homem de setenta e três anos já estava nos píncaros da minha consideração, com a ideia da pizza ficam batidos todos os recordes, e foi aí que ele puxou de uma nota de cem também. Durante estes cinco dias penso muito, leio algumas coisas também, nomeadamente de um livro chamado Consciousness is All, bebo do néctar que o Prasanna me dá à boca através das suas palavras, parece um avozinho a dar de comer ao netinho, "Olha o aviãozinho", aqui o aviãozinho é a colher da não-dualidade que vem cheia do meu próprio ser, a minha verdadeira natureza, ele lê-me algumas passagens de uma escritura indiana monumental chamada "Vasistha’s Yoga", um tiro de luz radiante que viaja pelos séculos e me atinge em cheio no coração da alma, mostra-me também alguns dos seus próprios escritos, cita Maharaj muitas vezes, sinto-me como se estivesse na presença do próprio Nisargadatta, mas este é um Maharaj doce e paciente, um poço de ternura e amor, sinto-me como se pudesse morrer agora em paz, agora que estive na presença de alguém assim. De manhã ele toca flauta, acompanhado por um modelo electrónico de um instrumento indiano chamado tampura, cozinha comida indiana para dois, são dias passados nas traseiras da casa dele onde uma fonte artificial faz o som da água bailar no ar 24H por dia, são dias de puro néctar para a alma.


Dois quadros do Prasanna


O Prasanna e eu


     Dia três de Julho ele tem família a visitá-lo por uns dias, por isso não posso continuar em casa dele, ele diz-me que vou regressar a Santa Cruz, mas que sou sempre bem-vindo a casa dele, eu fico um pouco baralhado, porque estava a pensar ficar por Sonoma, regresso ao parque ainda indeciso, mas acabo por ficar mesmo por ali, não tenho nada para fazer em Santa Cruz, mais vale aproveitar e ficar ali a ler e a reflectir sobre algumas coisas, ele ofereceu-me o tal "Vasistha’s Yoga", um resumo em inglês do terceiro livro mais extenso do mundo, um resumo que ainda sim conta com mais de setecentas páginas, por ali fico, leio um bom bocado, assim passo sete noites a dormir no parque, sexta-feira, dia dez, regresso a casa para me despedir do Prasanna, ele recebe-me alegremente, diz-me que já estava a ficar preocupado, pois tinha ligado para Santa Cruz e eu não estava em casa, conversamos umas duas horas, ele lê-me um pouco de um outro texto impressionante da tradição Kashmir Shaivism, são tópicos que a mente comum jamais sonhará tocar, palavras escritas há centenas de anos atrás, dá-me vontade de rir da arrogância imatura da ciência moderna na sua busca pelas respostas às perguntas mais profundas sobre a vida e o universo. A conversa chega ao fim, eu agradeço do fundo do coração a profunda hospitalidade deste pequeno homem, pintor de máxima categoria, homem espiritual de compreensão absoluta, foi uma honra, ele diz-me que está bastante feliz com a minha situação, que percebe claramente onde está a minha última dúvida, que é apenas uma pequena impureza a flutuar numa consciência infinita, que vou continuar a combater por um pouco mais tempo, mas que ele tem a certeza absoluta que tudo estará terminado muito em breve, eu sorrio, de certa forma sinto o mesmo, dois abraços, palmas juntas no peito, um namasté silencioso, um gassho de gratidão, dentro de mim próprio prostro-me cem mil vezes diante deste homem, as práticas preliminares estão terminadas, "o que havia para ser feito já foi feito", disse-me ele, assim é.
     Hoje, quinze de Julho, sento-me à mesa de um restaurante no San Francisco International, durante os últimos dias estive a aproveitar os meus momentos finais na lindíssima Santa Cruz, ontem almocei com o John Wheeler uma última vez, uma conversa muito interessante, um abraço para o caminho e aqui cheguei com a boleia da Elizabeth, um amor de amiga que me acolheu durante estes seis meses, aqui estou no SFO, esta aventura chega ao fim, a "viagem para terminar todas as viagens" está a terminar, regresso à base, com serenidade suficiente, com paz que chegue, sinto que o fruto não foi plenamente colhido, mas a semente foi plantada, o meu trabalho está terminado, agora é o amadurecimento natural do reconhecimento interior, todas as coisas têm o seu timing, também este encontro comigo próprio tem o seu ritmo, sei que dei tudo o que tinha para dar, todas as células do meu corpo se moveram nesta busca, todos os músculos da alma se esforçaram intensamente por alcançar o topo da montanha de mim próprio, sinto-me agora como que a cair de um precipício, o salto que havia para dar foi já dado, agora é apenas esperar, a queda é inevitável.


O John Wheeler e eu



A partida de Santa Cruz, a 15 de Julho, com duas mochilas, um saco e uma guitarra


***


     A partilha do que me foi dado a conhecer aqui na República da Califórnia será sempre um esforço em vão, sinto-me como alguém que foi convidado, por um estranho, a subir ao sótão da sua própria casa, e lá foi levado até uma velha porta, uma porta familiar, muitas vezes tinha sido vista, outras tantas ignorada, o estranho pede para abrir a porta e ela é aberta, do lado de lá as palavras caem, os olhos não alcançam, o que é visto é o Paraíso para além de todos os paraísos, o Céu mais alto de todos os céus mais altos, o espaço é infinito, a luz é sem fim, o coração explode em mil direcções e em todas elas me encontro eu próprio, a mente fica em silêncio perante a vastidão imensa do que é sentido, perante o abismo que se abre diante dos seus pés, nenhum conceito se aplica, nenhum esforço do pensamento toca o Real, O Que É é para sempre além de tudo, quando os infinitos reflexos desaparecem e são esquecidos, apenas o que fica é real.
     A partilha de tal dádiva só poderá ser efectivada quando a Compreensão for profunda e conclusiva no meu coração, só aí poderei expressar o que foi, por enquanto, apenas visto. Nessa altura as palavras serão secundárias, pois dos próprios poros da pele transpirarão palavras sagradas, num simples olhar estará presente a Luz que é a mãe de todos os sóis, num mero sorriso será visível a eterna vastidão e infinita presença onde todas as estrelas brilham, onde todos os astros dançam, esse infinito Ser, essa eterna Luz, Eu Sou.
     Esta é a verdadeira partilha, esta é a única dádiva, mas já nem posso dizer ser esse o meu desejo mais profundo, porque, hoje em mim, não existe nenhum outro desejo, esta Compreensão perfeita e a sua partilha é o meu único sonho. A natureza de tal propósito, o tecido com que semelhante ambição se tece é de um carácter tão sagrado que qualquer palavra ou esforço para o expressar não será mais do que uma mancha de tinta no mais imaculado dos céus. O meu silêncio mais profundo e pleno da mais inacreditável gratidão é a única forma de honrar o que me foi dado a conhecer aqui na Califórnia.

***


     Fica o meu agradecimento a todos os que representaram os seus papéis nesta minha aventura Americana. De entre eles, à Elizabeth e ao Michael, ao John e ao Prasanna, o meu mais sincero obrigado.

Dré

Published in: on 24/07/2009 at 11:36  Deixe um Comentário  

The California Diaries VII

Bem, já há bastante
que não actualizo este diário, tenho andado com uma preguiça gigante,
nunca mais escrevi no caderno, por isso vou fazer aqui um apanhado
geral do que se passou desde que vim da viagem do norte em inícios de
Abril.

Pouco tempo depois foi-me dado um
passe de sete dias para um ginásio aqui em Santa Cruz, durante uma semana usufrui das
instalacoes abertas durante 24 horas na Soquel Ave, foi bastante
divertido, voltei a nadar, algo que não fazia há já vários anos, se
excluir os tropecoes dados na banheira de quando em vez, passeei-me
pela sauna e a sala de vapor (steaming room), tambem por uma espécie de jacuzzi
(digo espécie porque eles chamam-lhe whirlpool e não jacuzzi, não
sei se há alguma diferença), corri nos tapetes rolantes, coisa que
nunca tinha feito, se excluir também as aventuras nas escadas rolantes
dos centros comerciais, andei cinco minutos de bicicleta, sem sair do
lugar, claro, mas desisti logo, farto de andar de bicicleta estou eu,
experimentei uma outra maquina, enfim, foi a loucura.

Nessa altura também fiz algum jogging por aqui, mas a vontade passou-me depressa. Porém, foram dias interessantes.

Praia de Santa Cruz – ja comeca a parecer-se com isto!


Depois fui, com mais quatro
companheiros, visitar um cavalheiro que vive em Sonoma, uns quilómetros
razoáveis acima de São Francisco, eh um homem indiano, pintor de
elevadissimo talento e "mestre" espiritual de calibre incalculável, uma
dádiva em carne e osso, um Buda em plena Califórnia, das suas palavras
brota uma frescura, uma agua cristalina que provem certamente do calor
abrasador que emana do sol que tem no peito, uma pérola em forma
humana. Estivemos os cinco a conversa durante quatro horas, depois
fomos ver alguns dos quadros dele, pinturas de teor abstracto e
espiritual, mais parecem portais entre o manifesto e o
não-manifesto, entre o Vazio e a Forma, menos do que aquilo e seria uma
tela em branco, mais do que aquilo seria apenas mais um quadro.

Dia vinte e sete de Junho arranco para Sonoma, onde estarei com o Prasanna durante cerca de duas semanas.


Entretanto descobri um dos locais
mais bonitos e especiais para mim, chama-se Henry Cowell Redwoods State
Park, uma catrefada de hectares repletos de pequenas jóias da Terra
Mãe, locais repletos de densas florestas e árvores altíssimas, algumas
com mais de mil anos, outros locais mais arenosos, vegetação rasteira e
cenários quase desérticos, riachos a serpentear pelo meio das árvores,
trilhos sem fim para ser explorados. Tenho acampado por la varias
vezes, já la dormi nove noites, sem tenda, apenas eu, o saco-cama e cem
mil árvores!

Henry Cowell



Henry Cowell



Mais tarde voltei a barra do
tribunal, a primeira audição foi dia 5 de Marco, a qual pendeu para o
meu lado, depois o outro cavalheiro apelou, voltamo-nos a encontrar dia
5 de Maio, mas uns encontrões logísticos no tribunal empurraram a
audição para nova data, dia 2 de Junho, la voltamos a confrontarmo-nos,
o juiz era outro e com ele veio menos paciência e vontade de aturar as
nossas argumentacoes, a decisão voltou a pender para o meu lado,
questão judicialmente encerrada, falta ver se ou quando vira o dinheiro
chegar as minhas mãos.

E, em termos muito gerais, tem sido isto!

Dre’

Published in: on 13/06/2009 at 3:31  Deixe um Comentário  

The California Diaries VI


     Março, 18, com hora e meia de atraso arranco para São Francisco, a
viagem evapora-se depressa, o pior esta ainda por vir, as 26 horas para
Vancouver, chego as 19H10 ao centro da cidade, caminho 24 quarteirões,
passo por ruas sujas, muitos sem-abrigo e indigentes, sul-americanos e
asiáticos, depois de uma longa caminhada, mochila as costas e mochila
ao peito, chego ao 2987 da Mission St, recebe-me uma jovem chamada
Sarah, no dia seguinte apercebo-me que tem ar de Irlandesa, pele muito
branca, olhos muito azuis, cabelo muito loiro, recebe-me com a natural
simpatia e timidez, instalo-me, conversamos, mais tarde chega a Sonia,
depois a Mara, são as três habitantes da casa.
     Quinta-feira, eu e a Sarah caminhamos durante algumas horas,
passamos varias ruas, subimos e descemos uma colina e entramos no
Golden Gate Park, um jardim bastante grande, com isto desembocamos na
Ocean Beach, uma praia extensa, aqui nos separamos, ela segue o seu
caminho, eu avanço junto a costa por uns trilhos engraçados, passo pela
Beverly Hills de São Francisco, o Presidio, é onde estão as grandes
mansões e respectivos veículos de luxo, chego à Golden Gate, desta
feita a ponte, caminho nela um pouco, volto a "terra", dirijo-me a
baixa de São Francisco, estou estafadissimo, as 17H chego à estacao do
BART do Embarcadero, espero pelo Ian, passados alguns minutos passamos
um pelo outro, continuamos, olhamos para trás, la nos reconhecemos,
sentamo-nos na esquina da Market com a Front, um chá verde e uns
biscoitos no Starbucks, ele está a pensar em ir ate Sogenji, o templo
no Japão onde estive, foi assim que nos conhecemos, através de um
comentário que deixei num vídeo no youtube, foi uma conversa bastante
agradável, a namorada dele vem-nos buscar e deixa-me na Fillmore com a
Geary, ando um bocado às aranhas, mas la descubro o Fillmore, compro o
bilhete para o dia seguinte, Angus & Julia Stone fazem a primeira
parte do concerto de Brett Dennen, compro uma pizza deliciosa e rumo a
casa, mais uma longa caminhada, colina acima, colina abaixo, hoje
caminhei mais de 25 km.


San Francisco


     Sexta-feira acordo um pouco mais tarde, deve ser o cansaço do dia
anterior, hoje arranco sozinho, vou ate à Church St para tirar uma foto
a uma rua particularmente inclinada, volto para trás, vou de BART ate
ao centro, trinco mais umas fatias da pizza do dia anterior sentado em
frente a uma igreja, as 12H15 começa a missa, assisto à cerimonia,
passeio mais um pouco junto à baía, passo pelo interessante Museu de
Ciência, Arte e Percepção Humana e rumo ao Fillmore. A primeira parte
do concerto é muito suave, são dois irmãos, tem os dois uma voz muito
doce, foi uma abertura muito boa, chega o Brett, começa o concerto como
é habitual terminar-se, com uma musica muito longa e intensa, musica
que no álbum é muito calma, "Ain’t gonna lose you", ao vivo ela é tocada
de forma completamente diferente, a intensidade de sentimento é
impressionante, num momento de clímax musical uma jovem a minha frente
parece ter um orgasmo de uma qualquer espécie, eu tenho o corpo a beira
das lágrimas, é um começo de 100 estrelas, depois prossegue, vai
descaindo para umas 4,5 estrelas, o Brett fala pelo meio sobre alguns
projectos sociais, fala de como São Francisco é a melhor cidade do
mundo, no meio falta a luz e ele põe o Fillmore a cantar o "Three
little birds" a cappela, serve de introdução para uma das suas musicas
mais bonitas, "Desert sunrise".


Brett Dennen


     
Sábado é arrumar tralhas e sair, entretem-se algum tempo na baixa, as
quatro arranca o Greyhound de São Francisco, deve ser a estacao mais
desagradável do mundo, cheia de personagens de rua, o destino é
Vancouver, as fracas condicoes destes autocarros vão ser as minhas
companheiras durante 25 horas, digo assim adeus ao sol da Califórnia,
em Oregon, Washington e British Columbia espera-me chuva e neve.
     Ate Portland vou ao lado de uma jovem a quem cedo o lugar que ela tanto
queria junto a janela, dezoito aninhos, conversamos sobre
existencialismo e busca espiritual, não nos entendemos muito bem
ideologicamente, ela pergunta-me se aos 26 anos, a viver com os pais e
com um curso universitário que não pratico, se sinto que estou a falhar
na vida, eu sorrio, "not at all", respondo, devia ter respondido "achas
que estas a falhar na vida quando com 18 anos fazes perguntas dessas?",
acabo por saltar para o banco de trás, temos mais espaço para dormir,
chegamos a Portland por volta das 8 da manha, por esta altura já um
homem apalpou um seio a uma rapariga e levou uma cuspidela da mesma,
vim a saber mais tarde através de um Canadiano que veio comigo desde
São Francisco ate ao Canada, horas mais tarde, ao longe, vêem-se já as
montanhas geladas que rodeiam Vancouver, esta um tempo frio, caminho
dezenas (literalmente) de quarteirões, tal como em Frisco, chego ao
6063 da Main St, la dentro não esta ninguém, aguardo um pouco, chega o
Kevin, o colega de quarto da Patty, a jovem com quem falei do
couchsurfing, conversamos, ele coloca o "Dogma" na televisão, um filme
bem cómico, jogamos um xadrez, ele ganha 2-1, depois põe-me a ver
aquela que se tornaria na minha serie de televisão preferida, os
hilariantes "Trailer Park Boys".


Science World, Vancouver


     Marco 23, parabéns a quem de direito, 9 da manha e estou junto ao
Science World, a Carlinha encontra-se comigo, passeamos pela baixa de
Vancouver, começa a chover, metemo-nos para dentro do Roundhouse
Community Center, mais tarde acabamos na universidade da Carla, faço
umas copias de uns cd’s e vou para casa, uma partidinha de matrecos,
alguém ganha 2-1 novamente, mas não me lembro quem.


Vancouver, com o Stanley Park a direita


     Segundo dia em Vancouver e vamos para um longo passeio junto a agua,
damos quase uma volta ao Stanley park e entramos pelas "traseiras" do
mesmo, saímos e damos um giro ate a Comercial Drive, muitas lojas e
afins.

Eu e a Carla, Stanley Park, Vancouver

     Terceiro dia, subimos (ou melhor, apanhamos o autocarro que sobe) ate a
Grouse Mountain, patinamos um pouco no gelo durante um bom bocado,
algumas quedas a mistura, umas mais agradáveis do que outras, passeamos
um pouco, neva um pouquinho e ala marujo que se faz tarde, deixo a
Carlinha no 135, adeus ate a próxima em Portugal, caminho ate a Cardero
com a Robson, são quase 19H, tenho um "encontro" com uma amiga de um
amigo Canadiano que conheci no Japão, chama-se Emily, embora o nome
Coreano seja de menos fácil pronunciação, um dos empregados diz "you
are beautiful", sim, tem cara de boneca, 2 horas de conversa e já é
noite, rumo a casa, entretenho-me com os últimos episódios dos Trailer
Park Boys, tinha que acabar de ver aquilo, nem que fizesse directa, são
2 da manha e conheço finalmente a Patty, chega agora do trabalho,
conversamos um pouco e ate amanha.

Grouse Mountain, Vancouver


Eu e a Emily, Vancouver


     
Ergo-me do sofá onde dormi quatro noites, são 10H20 e o Greyhound
desliza rumo a fronteira, o Canada deixa saudades em mim, 3 da tarde e
chego a terra dos Pearl Jam, Nirvana e Soundgarden, Alice in Chain,
Presidents of the United States of America e Jimmi Hendrix, a terra da
Boeing e do Starbucks Coffe, no centro de Seattle erguem-se os
arranha-céus do costume, na estacao aguarda-me a Kathy, vamos ate casa,
uma habitação pequena mas confortável (e limpa, para variar), compramos
uma pizza (que cozinhamos em casa) e aluga-se o "The boy with the
stripped pajama", xixi, cama.
     Sexta-feira, caminho ate a baixa da cidade, vejo a vista do 73 andar do
Columbia Center, vou ate ao aparentemente famoso Public Market na Pike
St, caminho ate ao Space Needle, engonho uma serie de horas, são 22H20
quando chego ao 2608 da S. Washington St.


Seattle, com o Space Needle em primeiro plano



Columbia Center, Seattle


     Sábado vou ate ao Experience Music Project e o Science Fiction Museum,
passo la varias horas, toco dez minutos de bateria, leio um bocado
sobre o Jimmi Hendrix e o Kurt Cobain, é um museu dedicado a musica, e
um outro dedicado a Ficção Cientifica, dali arranco para comer uma
pizza, volto ao mercado, há la uma loja de musica, entretenho-me com um
xilofone, fico maravilhado com o som, um casal ouve-me a tocar e
aplaude-me no fim, fiquei com vontade de comprar um brinquedo daqueles,
mais umas voltas e vou para casa, jantamos e vemos outro filme,
"Medecine Man".


Experience Music Project, Seattle


     Domingo acordo cedinho, vou com a Kathy ate ao trabalho dela, um café
simpático, tomo la o pequeno, encontro uma igreja grande e bonita,
sento-me la um pouco, mais tarde começa a missa e acabo por assistir,
são 14H15 quando embarco rumo a Portland, chego 3 horas depois, tal
como aconteceu em SF e em Vancouver, a casa onde vou ficar esta
praticamente na mesma rua da estacao, ainda que a mais de 20
quarteirões de distancia, são sempre gigantescas as avenidas nestas
cidades, caminho ate la, bato a porta, quem a abre é um jovem chamado
Ash, a casa esta bastante desarrumada e suja, em maior grau ainda que
as casas onde fiquei em SF e Vancouver, converso com o rapaz, há la
duas guitarras e 2 djembes, parece-me bem, mais tarde chega a Izzy, com
quem falei no couchsurfing, vem também o namorado, o Nate, fuma-se
muita erva naquela casa, em bongos, cachimbos e cigarros, mais tarde
vou com a Izzy e o Nate alugar um DVD e comprar 20 dólares de marijuana
a uma casa com 4 rapazes, uma casa também suja e desarrumada, fico com
uma sensação de degradação, de seres desperdiçados, lembro-me de uma
musica dos Smashing Pumpkins, "youth is wasted on the young", é um
mundo que se abre diante mim, uma geração de putos queimados e
agarrados, voltamos para casa, curiosamente alugou-se o "Alice no pais
das maravilhas", fica parado a meio quando nos vamos deitar.
     Segunda-feira saio com o Ash rumo a baixa, levamos guitarras e djembes,
encontramo-nos com o Nate e um outro amigo a meio caminho, vamos tocar
para a rua, junto a Pionner Square, mais tarde mudamos de sitio e
juntamo-nos a um outro "artista de rua" com muitas rastas e boa vibe,
são 2 ou 3 horas que nos rendem 15 dólares, paga-nos o jantar, tacos
com feijões e outros que tais, fuma-se mais umas coisas, joga-se um
"James Bond" a 4 jogadores, au revoir, a demain.


Portland


    Terça-feira vou dar um giro a cidade, preciso de espairecer do ambiente da
casa e já agora conhecer um pouco de Portland, caminho junto ao rio, a
chuva cai, ouvi dizer que usar chapéu-de-chuva em Portland é só para
velhotes e totos, realmente não se vêem muitos, vou a Powell Bookstore,
uma livraria que ocupa um quarteirão inteiro, mas não tem o livro que
procuro, caminho ate ao Washington Park, pelo caminho compro uma pizza
vegan, só depois me lembro que uma pizza vegan não tem queijo,
paciência, mas esta saborosa, chego ao Rose Garden, vejo também o
Japanese Garden, supostamente o maior fora do Japão, é bonito, mas
sensivelmente do tamanho da Estufa Fria em Lisboa, regresso lentamente
a casa, uso o pc, vejo tv, estico-me no sofá, pés de fora, não que eu
seja muito grande, é o sofá que é pequeno.


Japanese Garden, Portland


Dr
é

Published in: on 27/04/2009 at 14:12  Comments (1)  

The California Diaries V


     Vinte e cinco marca do segundo mês, passa pouco das 13, na Metro
Station de Santa Cruz encontro-me com o Amaro, regressamos a casa, umas
fotos pelo caminho, arrumamos as malas nos respectivos aposentos,
pegamos nas bicicletas e damos um giro pela west cliff drive,
uma espécie de passadiço onde as pessoas andam de bicicleta, correm,
passeiam e vêem os surfistas nas suas manobras, o tempo está um pouco
nublado, hoje encontram-se menos pessoas na rua, passamos pelo Farmers’
Market, damos uma volta, compramos umas chamuças um tanto ao quanto
diferentes das que temos em Portugal, passeamos um pouco pela "baixa"
de Santa Cruz (basicamente a Pacific Ave) e acabamos a virar uma pizza
na Engfer. No dia seguinte arrancamos rumo ao Henry Cowel Redwoods
State Park, caminhamos por entre árvores mil, umas muito altas, é um
local muito bonito, vemos uma "tira" de um tronco de uma árvore que,
quando Jesus nasceu, já tinha quase 200 anos, acabando por cair em
1934. De volta a Santa Cruz, deixo o Amaro no Wharf a tirar umas fotos
e vou ao encontro com o John, onde ele estreia uma canção nova
intitulada "Who Are You?"

Dois macacos em Santa Cruz


O "activismo" de Santa Cruz

Um jardinzito em Santa Cruz

     Sexta-feira, com muita pressa à mistura, tropecoes e um pequeno-almoço
engolido num trago no caso do Amaro, chegamos à estacão de autocarro,
passa pouco das 9h30 quando a viatura desliza rumo a Los Angeles, faz
paragem em Watsonville e Salinas, em Santa Maria e Santa Barbara, em
Hollywood e em Los Angeles, é aqui que tento, sem sucesso, telefonar ao
Ben, não vejo a jovem que nos vem buscar, esperamos um pouco à saída da
estacão da Greyhound e é assim que vemos um carro escuro encostar num
lugar vazio, à pendura vem uma menina loira chamada Megan, ao volante
uma menina negra chamada Amber, foi com esta última que comuniquei por
mail, recebem-nos com muita simpatia e com dois beijinhos cada uma,
coisa nem sempre habitual por cá, são duas das quatro habitantes da
casa onde vamos ficar, duas loiras, duas morenas, todas estudantes
universitárias, 21 anos cada uma, e assim nos instalamos na Anaheim,
Long Beach. Passado pouco tempo rumamos adiante e acabamos por passar
por dois bares, bebemos umas coisas, eu ainda consigo meter Smashing
Pumpkins na jukebox e pôr o Redroom a ouvir a Tonight, Tonight, dali
seguimos para casa com a Amber e a Berkeley, a Megan ficou no segundo
bar com a outra menina cujo nome desconheço.

Amber, Berkeley e um dos macacos de Santa Cruz


     No dia seguinte passeamos por Long Beach, caminhamos muito pela praia e
depois pela baixa da cidade, metemo-nos no metro em direcção a Los
Angeles, supostamente vamos para Hollywood, mas ao trocarmos de linha
ficamos mesmo por ali, estamos na baixa de LA e damos por ali umas
voltas, passeios por entre os arranha-céus, muitas fotos, depois
regressamos a Long Beach, caminhamos imenso de volta a casa e
encontramos por acaso a Megan e uma outra pequena no Ralphs (um
supermercado), é com elas que regressamos a casa.
Hoje encontramo-nos com o meu amigo Ben, já não o via há quase três
anos, ele leva-nos ao Getty Center, uma espécie de museu com muitos
quadros e esculturas dos séculos XV a XVIII, com quadros de Renoir e
Rembrandt, Van Gogh e Monet, também tem um jardim muito bonito e uma
vista espectacular sobre LA, ali passamos umas horas, arrancamos
posteriormente ao longo de uma auto-estrada com cinco faixas para cada
lado, quase apinhada num domingo à tarde, em direcção a Santa Monica.
Estacionamos o carro no quinto andar de um parque de estacionamento,
seguimos pela 3rd Street Promenade, é uma zona pedonal, muita gente na
rua, está um sol forte neste primeiro de Março, uma jovem canta na rua
e promove o seu EP, tem uma voz encantadora, acabo por largar $5 e
compro o álbum dela, na capa lê-se Chelsea Williams, Decoration Aisle,
e dali avançamos para a praia, um maralhal no pontão, muitas atraccoes
e personagens pela rua, parecem as Ramblas catalãs, depois caminhamos
durante bastante tempo ate chegarmos à zona hippie de Venice beach,
muitas tendas e barracas e lojas em todo o lado, dali regressamos para
o carro, não sem antes pararmos num pequeno "coffeeshop". Voltamos a
casa, arrumamos as tralhas, despedidas feitas e vamos para a casa de
outra "couchsurfer", uma mulher com muitas rastas chamada Sheila, a
casa é consideravelmente mais pequena, ali ficamos e ali cai a noite
sobre nós, na companhia de três gatos miadores.

Eu e o gigante Ben no Getty Center


O jardim do Getty Center


Venice Beach


     No dia seguinte, segunda-feira, vamos à Universal City, uma espécie de
parque de diversões dedicado ao cinema e aos filmes da Universal
Studios, é um dia giro, vamos numa montanha russa virtual com os
Simpsons, numa espécie de comboio-jangada no Parque Jurássico,
alinhamos também numa montanha russa às escuras na Múmia e assistimos a
um pequeno filme do Shrek a quatro dimensões, entre outras coisas.
Acabamos o dia a jantar em casa do Ben, com a El, a Marla e a Lily, um
serão sereno e agradável, dois amigos deles juntam-se a nós mais tarde,
eu dou um toquezinho na guitarra, mato um pouco a saudade…

Prontissimos para ver o Shrek 4!


     Terça arrancamos para Hollywodd, caminhamos pisando vagarosamente as
estrelas com os nomes dos famosos, bastante gente na rua, alguns
mascarados de Elvis e Marylin e Batman e afins, não há nada de
particularmente interessante numa das zonas mais famosas do mundo, la
nos convencem a largar $20 para um tour por Beverly Hills e Hollywood,
passamos pelas casas de vários famosos, a da menina Aguilera, a do
Keanu Reeves que fica ao lado da do DiCaprio, dizemos adeus à mansao da
Playboy, enfim, vale a pena pelas voltas que damos pela zona, não pelo
fascínio de papparazzi em mirar garagens e portões fechados que nos é
incutido pelo guia da viagem. Ainda passamos pela Universal City
novamente, compramos uma coisas e zarpamos para casa, e é aqui que o
Amaro despacha uma pizza, eu emborco uns cereais com leite e estou
despachado, caminho quarenta e cinco minutos pelas ruas tranquilas de
Long Beach, chego à Loma e devolvo o mapa que a Amber nos havia
emprestado, regresso a casa, mais quarenta e cinco minutos e estou de
volta à 4th.

Long Beach


A mirar as babes em Long Beach


     
Dia 4, aniversario do Ben, às 6h30 encontramo-nos à frente do Red Room,
ele leva o Amaro ao LAX (o aeroporto), ali nos despedimos, arrancamos
para o centro de Los Angeles, não chego a tempo do meu autocarro, mas
parece que a viagem foi adiada cinco horas, acabo por regressar ao
centro envidraçado de LA e passeio por la um pouco, no regresso
atravesso algumas ruas menos turísticas, numa esquina esta um homem a
dormir no chão, está numa posição ligeiramente peculiar, nem tem
aspecto de sem abrigo, está mais vestido à "rapper", um indigente que
caminha atrás de mim chega-se a ele e toca-lhe no corpo, vira-se depois
para um outro que ali passa e diz-lhe algo, o outro responde com um
gesto de mão, com alguma apreensão apercebo-me que o homem deitado no
chão não está a dormir… Na Cidade dos Anjos nem todas as ruas vão dar
ao Paraíso.

A baixa de Los Angeles


     Enfio-me no autocarro por volta das 13h, desembarco trinta minutos
antes das 23h, a viagem passou-se mais depressa, vou dormitando pelo
caminho, oiço Michael Franti e penso algo que ficou em Los Angeles, é
bom ouvir o motorista dizer que chegámos a Santa Cruz, viver aqui é uma
dádiva e cinco dias em LA ajuda a perceber melhor isso mesmo, ainda
antes de dormir tenho que ir dar o ultimo retoque no que vou dizer
amanha no tribunal, é amanha o dia em que me vou "defrontar" com o
Rusty e saber qual o preferido da lei californiana e a quem pertencem
os $600 com que ele ficou desde o meu primeiro dia por estas bandas.
Deito-me relativamente tarde, acordo relativamente cedo, dirijo-me com
a Elizabeth, entramos numa sala onde estão todas as pessoas que vão a
tribunal naquele dia, são nos explicados alguns pormenores, falam-nos
da mediação, uma forma de evitar ir a tribunal e resolver as coisas a
bem, quando chega a minha vez com o mediador digo que estou disposto a
tentar a mediação, embora considere que o dinheiro pertença apenas a um
de nós – não há muito a negociar. O Rusty por sua vez demonstra-se
desinteressado na mediação e quer ir a tribunal, eu fico contente, por
um lado, pois também eu prefiro resolver as coisas com uma só
machadada, por outro lado, sinto que ele deve estar bastante confiante
em relação ao seu caso. Seguimos para a sala do "julgamento", a juíza
pergunta-me se eu sou fulano tal, eu respondo "yeah", ela olha-me com
um ar interrogativo, eu corrijo para "yes", ela olha mais um pouco,
esperando certamente um "yes, your honour", leio o meu texto com a
minha versão dos factos, ele responde com a dele e com algumas leis e
alíneas, eu volto a intervir, ele faz o mesmo, a juíza dá o veredicto e
diz que os $600 pertencem ao "Mr. País", o Rusty não gosta muito do
desfecho do caso, tenta argumentar ainda com a juíza, ela acaba por
virar costas e sair da sala, eu faço o mesmo, juntamente com a
Elizabeth.

Santa Cruz by night


     Volto a casa e, depois de uma longa conversa com a mãe e o mano, saio
para o Pacific Cultural Center para ouvir mais umas coisinhas sobre
não-dualidade. Depois do encontro, eu e o John vamos dar uma volta a
pé, temos uma conversa muito interessante, não se fala de
espiritualidade ou Advaita, fala-se apenas de musica, de composição, de
técnicas vocais, de programas de gravação, microfones, percussão,
compassos irregulares e dos Beatles,no fim dou-lhe uma pancadinha nas
costas, como quem diz "és o maior", e vou para casa que o sono já se
faz sentir.

Dré

Published in: on 16/03/2009 at 15:09  Comments (3)  

The California Diaries IV

     Entretanto tenho estado mais afastado do meu diário, a vida por aqui
assenta um pouco, assenta sobre uma nuvem, com certeza, pois uma serie
de coisas continua no ar, continuo à procura de casa, embora vá ficando
por aqui, estou a pagar $50 por semana, depois vou para o tal espaço no
armazém, se tiver que sair daqui. Em relação ao tribunal, os anjos
ajudam-me um pouco, tinha a audição marcada para 2 de Abril, altura em
que penso andar pelo norte (Vancouver – Seattle – Portland), com um
choradinho e com o meu bilhete de regresso marcado para 15 do mesmo mês
consigo que antecipem a audição para 5 de Março.

     Noutro dia vou com o John e o Michael passear ao tal convento de St.
Joseph e a um templo budista tibetano, ambos numa zona lindíssima, no dia
seguinte vou almoçar com o John, como um hamburger de cogumelo gigante,
portabella mushroom, uma coisa um bocado esquisita, dá alguns
trambulhoes no estômago, a conversa é excelente, agora é a alma que dá
uns trambulhoes dentro do invólucro corporal, tenho pena de não ter
gravado a conversa, algo que estou a pensar fazer com o meu mp3, dois
dias depois vou jantar com ele a uma pizzaria, até foi ele que ligou a
combinar, é um querido, a pizza está divinal, a conversa volta a querer
derrubar paredes, levo o mp3 mas não gravo, sinto-me pendurado por um
fio, apenas isso me impede de cair profundamente em mim próprio, ilusão
de separação que teima em durar.

O local onde almocei o Portabella mushroom


     Numa outra altura vou tratar de umas coisas à biblioteca, penso em ficar por lá a
ler, depois penso em ir à internet, está frio na rua, não me apetece
sair, talvez seja então o destino quem me impele a ir até à praia,
sento-me olhar o mar, não sei se pareço triste, melancólico ou só, mas
a verdade é que vejo uma silhueta a deslizar canto do olho adentro, é uma
jovem que vem ter comigo e oferece-me uma flor, uma espécie de
bem-me-quer lilás, provavelmente uma flor de chorão, diz apenas It has a lot of [algo que não percebo], but I didn’t think you’d mind, eu digo apenas Thanks,
acho que ela não chega a perceber como aquele gesto simples faz abrir
uma flor no meu peito, o quentinho natural de um mimo recebido em terra
estrangeira, lugar  longínquo onde a minha alma emigrante se sente fora
da pátria do ser.

Mooji, um maravilhoso ajudante espiritual


     Hoje, Quinta 12, vou a mais um encontro com o Sr. Wheeler, o
primeiro que gravo, ainda que de um pouco ao longe, depois caminhamos com
o Michael e o Scott até à praia para depois regressarmos ao Pacific
Cultural Center, o John dedica-me algumas palavras importantes, tenta
de alguma forma puxar por mim, não sei se é isso, talvez seja o DVD do
Mooji que vejo à noite (mooji.org), talvez seja uma busca de oito anos
ou uma vida de vinte e seis, mas mais tarde dou por mim a pensar, "Na minha
experiência directa, onde está o ‘eu’?", curiosamente a
resposta é uma natural negativa, penso "como seria viver se não
existisse aqui uma pessoa?", e, como um murro no estômago, constato,
para alem de qualquer ideia ou conceito, que não existe nenhum "eu", o
"André" é uma ficção do pensamento, o corpo é um organismo como o é uma
árvore, não existe nele (corpo) ou nela (mente) nada de pessoal ou
individual, uma onda de felicidade pura, um êxtase suave, percorre-me o
corpo, doce aroma a casa, a ternura do verdadeiro ser, há um desejo
espontâneo e inevitável de querer segurar o mundo num abraço e adormecê-lo
num
profundo amor. O "eu" volta de mansinho, a percepção regressa ao
normal, mas sei que as paredes estão a oscilar, como que erguidas sobre
as areias movediças da minha fé e determinação, o caminho chega
finalmente ao fim, é essa a minha sincera esperança, sinto o meu
coração repetidamente a querer soltar lágrimas de reconhecimento,
gratidão pela paz profunda, pelo fardo que cai dos ombros da alma,
sinto uma luz eterna que parece querer beijar-me num rasgar interior,
que Deus me acompanhe nesta busca e me livre de regressar à casa de
Portugal sem antes regressar à Casa do meu ser, seria séria tristeza e
desilusão, e é neste momento que fecho o diário, são as lágrimas que me
invadem o olhar, um cheiro a infinito que me inebria os sentidos,
anseio ardente de cura eterna, chaga que se fecha dentro do peito, quem
me dera abrir o coração e guardar lá dentro o mundo todo.

Dré

Published in: on 16/02/2009 at 3:12  Deixe um Comentário  

The California Diaries III

     Passaram já alguns dias, a situação com o senhorio vai passar para
tribunal, estou tranquilo, "o juiz decide", segunda-feira surge no
calendário e eu vou a um convento católico em Aptos, convento de St
Joseph (www.poorclaresofaptos.org), estou uns minutos sentado na
capela, depois vou dar uma volta pelas redondezas, o Tim e o Michael
ficam lá dentro, caminho por uma floresta muito bonita, é uma zona
lindíssima, vejo uns gatos selvagens e muitos pássaros, árvores altas.
A praia de Santa Cruz também é um local interessante, descobri que os
barulhos que oiço frequentemente são, como imaginava, leões marinhos,
golfinhos também os há, mas não os vi ainda, bem como bandos de
pelicanos e outras aves, cenário invulgar, fauna variada para uma praia
aparentemente igual a tantas outras. Deixo a linha do oceano e caminho
para o interior e deixo-me atracar na marina da cidade (o Yacht Harbor)
é um lugar calmo, ouvem-se aves perdidas na distancia, os carros passam
silenciosamente ao longe, perto oiço o ranger das cordas das
embarcações que balançam graciosamente na suave ondulação presas ao
cais, regresso a casa, vou até ao referido convento e volto para mais
uma conversa de três horas com o John, desta feita num restaurante
Tailandês, sinto que não estou a conseguir expressar claramente as
minhas dúvidas, ele assegura-me que já estou para além delas, que já
não preciso de me agarrar às coisas que ele diz nos livros, de quando
em vez sinto um rachar interior, uma parede que parece querer abrir-se
num sorriso de cacos desfeitos em pó deixando a luz chegar ate mim. A
clareza de discurso do John é irrepreensível e incontestável, mas a
minha resposta prática continua um tanto ao quanto coxa, é difícil às
vezes ver com os olhos aquilo que o coração já tão facilmente
reconheceu, mas o John tem sido sob todos os sentidos impecável, ele
reconhece a seriedade e honestidade da minha busca, talvez se reveja um
pouco nela, ele próprio andou pela Índia à procura de si mesmo, só na
Austrália se encontrou, I want you to go back to Portugal free and without those doubts, leave ‘em to me, I can keep ‘em, disse-me hoje sorrindo.

Drum circle @ Farmer’s Market

     Quarta-feira acordo tarde, tenho-me deitado sempre um pouco já a fugir para a madrugada, aqui nesta casa somos todos night-owls, embora esteja a tentar ser um pouco mais early-bird, como se diz por aqui, pouco depois de acordar vou ao Farmer’s Market,
uma salgalhada de tendas, bancas e barraquinhas, umas a vender comida
já preparada, outros a comercializar produtos acabados de sair do chão
da Terra, um maralhal de pessoas diferentes, algum pessoal da rua e uma
série de personagens entusiasma-se numa jam session, sessão
geleia, diria Gonçalo Pereira, essencialmente percussão, mas também uma
ou duas guitarras e um trompete ou algum primo ou irmão da mesma
família de sopros, ainda fico um bocado especado a ver se alguém me
oferece um jambé para tocar, mas ninguém se comove ou deixa
impressionar com a minha pressão psicológica. Dali sigo para o Trader Joe’s,
um supermercado com uns empregados muito simpáticos, norma da região,
parece, avanço para uma muito tranquila aula de Chi Kung e depois vou a
uma palestra da Judith Cornell sobre mandalas e outras afinidades
"new-ageianas", é isto na Gateways, uma livraria espiritual na
Soquel Avenue, ainda dou um olhinho ao livro que "casualmente" me
empurrou para dentro da Não-Dualidade, o Perfect Brilliant Stillness,
do David Carse, e dou também uma palavrinha àquele que foi o primeiro
livro de Advaita que tive nas mãos, na já longínqua Primavera de 2006
na Plum Village, mas na altura a Não-Dualidade era ainda uma perfeita
desconhecida para mim, e, sem saber, naquela camarata peculiar no sul
de França tive entre dedos a "bíblia" da Advaita, quem ma passou foi um
Israelita, não sem antes me avisar, no seu sotaque engraçado, olhos
esbugalhados, parecia o próprio autor, That’s only about the absolute, I don’t know if you’re ready,
e não estaria talvez, mesmo hoje, um fundamentalista da Não-Dualidade,
pouco mais li do que as relativamente escassas paginas que folheei em
Sogenji, no Japão, curiosamente é um livro que me tem vindo a
acompanhar na minha caminhada recente, como uma espécie de sol que
brilha por entre o nevoeiro, uma inspiração que me bafeja ao longe,
suavemente mas com uma profundidade que me surpreende cada vez que a
olho, é uma vela que se estica e alonga quando a visão se suaviza e
subjectiva, logo na capa do livro sou esmurrado pelo poder que ali se
parece esconder, uma frase que me corroi por dentro, The real does not die, the unreal never lived, o livro é amarelo com a força luminosa de um astro no negro do cosmos, o titulo diz-nos que I Am That (www.amazon.com/Am-That-Talks-Nisargadatta-Maharaj/dp/8185300534/ref=pd_bbs_sr_1?ie=UTF8&s=books&qid=1233812124&sr=8-1),
e assim é a essência de Sri Nisargadatta Maharaj.

Nisargadatta Maharaj (1897-1981)

     Quinta-feira
lança-se nos meus braços, ilumina-me como um sol que me chama gritante
e arranco como uma bala, o meu destino vai percorrer varias capelas,
começo pelo tribunal, de lá arranco sabendo que o que ia ali fazer
posso e vou fazer através internet, sigo de peito aberto para a quinta
onde poderei ficar como voluntário do Wwoofing (World Wide
Opportunities in Organic Farming), ninguém me responde do lado de lá da
cerca, volto para trás e arranco em direcção à University of California
Santa Cruz (UCSC), uma subida que parece rir baixinho do calor que
sinto nos músculos das pernas, do suor que me molha as costas, lá chego
à universidade, por entre dezenas de esquilos pululantes e quase
domesticados, olhinhos de vidro escuro e curioso que me miram, por
entre as suas tocas chego à UCSC Natural Reserve, encosto a bicicleta e sigo em caminhada, passo por muitos ciclistas e adeptos do jogging, atravesso o habitat do mountain lion e culmino no Wilder Ranch State Park. Volto para trás e paro na Longs Drugs,
compro uma maquina descartavel e umas bolachas que serão o meu almoço e
lanche, vou atirá-las para dentro junto ao mar, num banquinho
amistosamente sentado perto das modestas arribas, desloco-me na
bicicleta junto à costa ao longo de uma espécie de "marginal" de Santa
Cruz, tenho a sensação de ter encontrado a cidade perfeita, um
equilíbrio delicioso entre mar, floresta e tecido urbano, uma mescla de
fanáticos do new-age e da iluminação espiritual com manos de
skate, patins em linha e prancha de surf, Santa Cruz, aquela que me
disseram ser a Meca norte-americana da espiritualidade e uma das
capitais mundiais da rasta, "Santa Cruz", aquela onde Cristo morreu
como homem e voltou a nascer para se sentar à direita do Pai. Largo a
costa, pouco depois de passar a feira popular cá da zona (o boardwalk),
e vou de novo à quinta, lá consigo entrar em contacto com os
respectivos habitantes, não de forma impeculiar, contudo, ninguém
responde e eu entro propriedade adentro, trinta segundos depois
estaciona um carro à porta, é a dona que chega com os dois filhos, ela
chama por um Jason, interrompe a palavra a meio ao ver-me, os
donos do lado de fora, eu do lado de dentro, o cão que reconhece o
barulho da viatura e corre a recebê-los, mas eis que olha para trás e vê-me
cá dentro, agora ladra para mim, ligeiramente tolhido por uma qualquer
falta de convicção, afinal a dona já vem ali, mas quem
é este aqui, "este aqui" procura um buraco em si para saltar lá para dentro, o insólito do timing da situação deixa-me baralhado, acabo por sair pelo portão, a mulher que chegou descontraidamente diz Let’s start again,
e assim começamos, é uma mulher madura, atraente e muito informal, os
dois pequenotes são giros e loirinhos, são quatro com o pai das
crianças, um homem de meia-idade com ar de quem não sabe se quer ser hippie
ou meramente agricultor, acaba por ser uma linha ténue entre ambos,
está deprimido, não tem querido receber pessoas para ali trabalhar,
entretanto a conversa vai mudando para um aparente e indeciso "sim", eu
estou um tanto ao quanto distraído com a pequena cobra Piton que o mais
velho dos loirinhos me colocou nas mãos, é um bicho pachorrento,
escorregadio e de língua serena, só de vez em quando a faz dançar entre
dentes e toca-me a pele, deixou saudades o pequeno Smuggle, se
bem me recordo do nome, saio da quinta com a desilusão de ter entrado à
procura de um sim e ter encontrado um não e com a peculiar indecisão de
lá ter saído com um sim mas com vontade de dizer não, a mulher e os
dois filhos estão de abalada, o casal deve estar separado, promete
visitas a patroa, mas não sei se um cinquentão deprimido é o que quero
como companhia nesta minha busca por terras californianas. Regresso à
pressa, a velha bicicleta já não se imaginava certamente convocada a
tão prementes velocidades, ainda por cima em circuito nocturno, vou com
a urgência de um baixo ventre apertado há varias horas, sento-me na
latrina com a cabeça um pouco zonza e dorida, pouco depois arranco para
uma caminhada suave até ao Pacific Cultural Center para mais um encontro colectivo com o John.
    
Sábado, 31 de Janeiro, poucas vezes pensei apanhar banhos de sol em
pleno Inverno, a praia conta já com alguns banhistas, em Portugal diz
que chove, aqui também em breve a chuva irá regressar, assim apontam as
previsões.
     Segunda-feira fui a São Francisco ao encontro do Jon
Bernie (www.sf-satsang.org), é muito diferente do Wheeler, trabalha
mais com emoções, é uma espécie de conselheiro pessoal, gostei de ir a
‘Cisco, a auto-estrada serpenteia pelo meio da floresta e das colinas,
é uma viagem bonita, foi interessante chegar e ver ao longe os
arranha-céus, polvilhados de luzes, erguendo-se na escura cortina da
noite como fantasmas no firmamento, a Bay Bridge ilumina com as suas varias meias-luas o Este da cidade, como que chamando por Oakland
do lado de lá, gostei de ali estar, mas é muito diferente de Santa
Cruz, a primeira é uma cidade grande, a segunda é uma espécie de bairro
em zoom in, um Restelo estendido aos pés do Pacífico, onde os
esquilos e as doninhas passeiam calmamente durante as horas escuras do
dia, onde só as estrelas miram os seus movimentos curiosos. Regressei a
Santa Cruz por volta das 22H30, ainda dei um saltinho à praia, ao farol
e ao Yacht Harbor, onde há noite com um toque de susto, um
ambiente habitado por sons subliminarmente intrusivos, o ranger das
cordas, o chiar dos barcos, um cenário onírico, deserto humano
esvaziado das pessoas que ali não se encontram.

The Yacht Harbor, Santa Cruz

     Na terça a conversa com o Michael estende-se por várias horas, como tem sido habitual, eu represento, palavras dele, the Advaita radical approach, ele o traditional Buddhist path,
às quatro e tal da madrugada ainda vamos petiscar um pãozinho com
queijo à pequena cozinha, por volta das cinco, depois de me atestar de
mais alguns acessórios de Inverno, arranco para a praia, levo comigo o
Brett Dennen, o John Mayer e os Dave Matthews Band, uma multidão de
gente a tocar-me nos ouvidos por dentro, canto e danço na sombra junto
ao mar, chego ao já farol amigo, ao longe, bem espetado a Este, o sol
não se vê ainda mas já se faz sentir, são os laranjas e os rosas que
dali emanam que me dizem que o dia já nasce da noite, cresce de
mansinho, vem do ontem de há bocado até ao hoje de agora, algumas
pessoas fazem-me uma companhia distante pelas areias quase desertas da Seabright,
traços de avião esticam-se num céu de azul cada vez mais brilhante, foi
um parto de luz muito bonito, a claridade que invade suavemente, sem se
fazer notar, o silêncio que se inebria com os sons matutinos, traz quase o desejo que toda a vida seja um nascer do sol.

Dré

Published in: on 05/02/2009 at 7:38  Deixe um Comentário  

The California Diaries II

A praia de Santa Cruz e o Wharf a penetrar o mar


     Chego a Santa Cruz por volta das doze,
ligo ao Rusty e combinamos encontrarmo-nos em Felton Fair, desligo e
vou passear um pouco, quero ver o mar, pergunto a uma jovem onde fica o
oceano e é junto a ele que me encontro minutos depois, e vou passeando
por Santa Cruz, passam algumas horas e apanho o 35, alguns minutos
depois chego a Felton Fair, ligo ao Rusty novamente e ele manda alguém
buscar-me. Quem chega é o Bo, um rapaz mediamente alto, com óculos e
gordo, é de poucas conversas, mas diz-me que esteve em Portugal quando
tinha doze anos e fala-me do local onde vou ficar, que é mais um local
de retiros do que propriamente uma quinta e que vivem lá algumas
pessoas agora a tentar reconstruir o sitio, percorremos seis
quilómetros numa densa floresta, a neblina esconde as árvores por
detrás da sua presença subtil, o local é bonito e chegamos finalmente à
quinta. Encontro Rusty, mas ele está a fazer qualquer coisa com um
outro homem e mal me cumprimenta, you can sit over there in the porch, I’ll be with you in a minute,
dou uma vista de olhos em redor, pouso as minhas mochilas e aguardo,
ele vem la e, passado um minuto estende-me a mão, conversamos um pouco
sobre nada em particular, entramos na casa, a sala de estar é muito
bonita, tem duas gaiolas com vários pássaros, dois aquários com vários
peixes, uma cadelinha embirrenta mas facilmente conquistável, ele
senta-se num sofa, eu fico no chão sentado sobre os calcanhares, em seiza,
parece que estou no Japão novamente, falamos sobre a Advaita e o que me
traz aos EUA, o John Wheeler, ele não percebe muito bem do que falo,
embora esteja por dentro das questões espirituais, eu não me esforço
muito por ser percebido, digo-lhe, O melhor é leres o livro dele ou
ires aos encontros, é melhor do que estares aqui a falar comigo sobre
isso. Arranco para o meu quarto, uma cabaninha ao lado da casa, um
cubículo de três metros por três metros, bastante sujo, a luz é
fraquissima, depois apaga-se, depois eu dou-lhe um toque e acende-se
novamente, enfim, saio para um duche, volto à cubata, lá entretenho
algum tempo e às sete da tarde ha uma reunião com os outros habitantes
da casa, lá estou eu, somos seis à volta da mesa da cozinha, o pessoal
tem uns blocos de apontamentos na mão, o Rusty assume-se como guru,
líder e ditador da situação, manda-nos fechar os olhos, entretemos
cinco minutos numa espécie de meditação, depois é-nos pedido que
expressemos gratidão por alguma coisa, ele atribui ao longo do encontro
trabalhos de casa para a próxima semana, começo a aperceber-me que não
é aqui que quero ficar, pensava vir para uma quinta, afinal cai numa
espécie de casa de retiros alinhada com Um Curso Em Milagres (http://www.acim.org),
que eu respeito plenamente, mas parece este local de purificação e
transformação, sinto-me como num circulo dos Alcoólicos Anónimos, as
pessoas ali estao claramente numa frequência diferente da minha, ate o
Rusty, que obviamente parece estar numa frequência onde mais ninguém
ali está, só há espaço para um guru-wannabe, e esse lugar está
já ocupado por ele, o Bo, que me foi buscar a Felton, teve problemas
mentais, está sob medicação e quer pôr a sua vida nos eixos, o Will
está obviamente com dificuldades na sua vida, alguém despejou-o ali há
duas semanas e ali ficou, está visivelmente revoltado, não aceita a
situação, o Russel tem problemas mentais óbvios, algum atraso cognitivo
por ele mesmo admitido, à minha direita directa está o Nathan, parece
um rapaz calmo e equilibrado, não sei porque se encontra ali, nem eu
sei porque raio acabei eu num sitio destes, parece um asilo ou uma casa
de recuperação para pessoas com problemas com álcool, drogas, problemas
pessoas e emocionais, não é o meu caso, peço, no final da reunião, para
falar a sós com o Rusty, entro num dos quartos mais desarrumados que já
vi, ultrapassando mesmo o de uma ex-namorada minha, pelo caminho pouso
os olhos numa revista da Maxmen caída no chão, a mulher portuguesa em
nada fica atras, so de passagem, digo-lhe directamente, não à revista,
nao à menina nela desenhada, mas sim ao Rusty, I’m not gonna stay in this place, this is not a place for me, a conversa segue, roça tópicos interessantes como love, truth, Jesus Christ, ele faz-me a proposta de lá ficar e share my insights and knowledge on social psychology, eu digo-lhe que ele nao está interessado nos meus insights, vai tentando argumentar comigo, mas entramos numa espécie de defesa-ataque, ele acaba por dizer que eu sou as neurotic as anyone else on that meeting, arruma-se a questao comigo a dizer tonight will be first and last night here.
Volto à minha barraca, não sem antes ter falado com o Will e com o
Nathan, durmo dez horas, arrumo as minhas coisas, o Rusty dá-me boleia
para Santa Cruz, saímos do carro para tirar as minhas coisas da
bagageira, before we take my things off the car, I think you should give me back my deposit, este deposit
é a caução de seiscentos dólares que paguei ontem, ele vem com uma
conversa qualquer de ter de falar com o gestor financeiro dele para
saber se pode ou não pagar-me já, ou se pode fazê-lo em
dinheiro ou não, eu não engulo a historia, digo-lhe que gostava de
falar com o policia que se encontra do outro lado da rua, mas não estou
plenamente convicto do que digo, enfim, como é que o policia me poderia
ajudar, o Rusty não cede, diz-me para eu lhe ligar às 15H30, que a essa
hora já saberá como e quando me poderá devolver o dinheiro e é assim
que fazemos. Eu sigo tralha às costas em direcção à biblioteca,
consulto a internet, envio vinte urgent couch request, ou seja, pedidos de "asilo" para a comunidade de viajantes do couchsurfing.com, mando
mail à Anya a explicar a minha situação, dirijo-me à praia, lá me sento
e actualizo o meu diário na companhia de centenas de gaivotas. São
15H30, ligo ao Rusty, como combinado, ele inventa uma desculpa
qualquer, talvez não seja uma desculpa, talvez seja verdade que o tal
gestor financeiro dele foi à inauguration do Obama, que só voltará na terça-feita (hoje é quinta), call me tuesday in the evening, eu ainda quero perguntar be honest with me, are you trying to steal my money?,
mas ele desliga e deixa-me sozinho com um silencio qualquer do outro
lado da linha. Regresso à praia e vou ver de uns cacifos para
bicicletas junto ao casino e ao Coconut Groove, é lá que deixarei a mochila se não encontrar sitio onde dormir.
     Arranco para a biblioteca, leio um pouco do Awakening to the Natural State
(http://www.amazon.com/Awakening-Natural-State-John-Wheeler/dp/0954779231/ref=cm_cr_pr_product_top)
do John Wheeler, depois vou ver se tive alguma resposta positiva do
couchsurfing, nem por isso, uns quantos "não", um ou outro "talvez",
são seis da tarde, às sete é o encontro com o John, dirijo-me à Seabright Avenue,
não é fácil lá chegar, pelo caminho ainda pergunto a uma prostituta e a
três sul-americanos, ninguém percebe muito do assunto, acabo por chegar
mesmo às sete ao local pretendido, o John tem uma guitarra ao colo,
conversa casualmente com alguém, poucos minutos depois começa-se
oficialmente o encontro, o John toca a Shankara, é uma óptima
forma de iniciar, vai-se conversando tranquilamente, no final ele toca
mais umas musicas, incluindo um pedido que lhe faço, Can you play "In This Moment",
a musica é linda, há uma senhora à minha esquerda que chora, é uma
imagem profundamente bonita e apaziguadora, são lágrimas de quem parece
ter voltado a casa depois de mil anos perdida no deserto, as lágrimas
dela puxam as minhas, e, embora não me molhem a face, encharcam o meu
coração, lembro-me de como aquele homem tem vindo a acompanhar-me há já
algum tempo, lembro-me de ter a sua presença através de livros dele e
pensamentos meus no Andanças e na Zambujeira em Agosto, esteve comigo
também em Franca, lá li muitas das suas palavras, la traduzi inúmeras
paginas, entre macieiras e árvores de kiwi trauteei inúmeras canções
dele centenas de vezes, nelas senti a paz que é minha por direito
próprio de ser humano que sou, em Castelssarassin tentei tirar os
acordes da musica que ele tão tranquilamente toca agora, uma musica com
uma letra muito importante para mim,

The true peace you long for
is so very near
Without even seeking
It’s already here

The true peace you long for
is so very near
FULL STOP… in this moment
It’s already here.

O encontro chega ao fim, passado algum tempo consigo falar com ele, ele
não se recorda muito bem do meu caso, mas gradualmente os nossos
e-mails vão emergindo do seu esquecimento, algumas pessoas ficam
admiradas com os nove mil quilómetros percorridos por mim apenas para
estar ali com o John, entretanto marcamos um jantar para o dia seguinte
às 17H30, uma senhora oferece-se para me dar abrigo em sua casa esta
noite, é lá que fico, um apartamento de quatro andares, uma vivenda
construída em altura, muito confortável.


     No dia seguinte vou buscar a bicicleta que o Michael me vai
emprestar durante uns tempos, depois vou ter com um amigo dele, o Rich,
que está a construir um quarto no seu armazém, é uma das possibilidades
que tenho para ficar a viver, depois regresso a casa da Elizabeth e vou
para o encontro com o John. São três horas e meia de conversa amena,
num restaurante de fast food oriental, o Charlie Hong Kong, numa caminhada ate ao Toyota do John e depois junto à praia, à entrada da minha rua, a Alhambra Avenue (que os americanos chamam de Al Hambra).

At Charlie Hong Kong’s


     São vinte e uma horas quando regresso a casa, o John é muito coeso, solido, impenetrável na sua certeza, other
people can tell you "no, what you’re saying doesn’t make sense", but
you just tell ‘em "bulshit", because it’s your direct personal
experience
, e é isso que ele tem, uma experiencia directa da sua
verdadeira natureza, o John Wheeler é o ser humano mais comum e o
"mestre" espiritual mais extraordinário, acessível como qualquer um,
profundo como ninguém.
    


A Seabright Beach com o farol ao fundo

     Entretanto tenho estado a reunir alguns aliados que vão telefonar
ao Rusty, o senhorio que ficou com o meu pilim, para o pressionar a
devolvê-lo. Neste momento actualizo o meu diário junto ao farol de Santa Cruz, uma gaivota faz-me companhia em cima de um tetrápode,
alguns pescadores e curiosos também, algumas pessoas estão em t-shirt,
eu tenho dois pares de calcas (incluindo já as minhas famosas
ceroulas), duas camisolas de la, um cachecol e um capuz enfiado na
cabeça, estou aqui porque reflectir no que o John me disse ontem, ele
foi claro, a única resposta verdadeira
é o meu ser, e este não
vem em livros, tenho que investigar clara e inequivocamente e por mim
próprio, as respostas sobre quem eu sou não podem vir emprestadas, ou
são as minhas respostas ou serão apenas mais perguntas vindas de
outros, mas tenho medo de procurar em mim a verdade pela qual anseio
diariamente, tenho medo de não ser capaz de a encontrar, de não ter a
força, a perspicacia e a inteligencia suficientes para saber quem sou.

Dré

Published in: on 02/02/2009 at 7:50  Comments (1)  

The California Diaries I


Cinco mil e qualquer coisa quilómetros capitularam perante a
imposição majestosa do voo C065 da Continental Airlines, que se encosta
no Newark Liberty International Airport passa pouco das 14 horas locais, ainda passa pouco das catorze quando me dirijo aos Serviços de Imigração, à
minha esquerda o horizonte estende-se nos recortes dos arranha-céus de
Manhattan que se elevam no ar, chego aos balcões de controlo da
imigração, espero um bom bocado, começo a ficar impaciente, entretanto
chega a minha vez, passaporte para a frente, acompanhado por um papel
que tive de preencher no avião vindo de Lisboa, a conversa parece
encalhar algures, perguntam-me onde vou ficar, falo de uma quinta e de
lá trabalhar para pagar a renda, ingenuidade a minha, o agente à minha
frente diz
let’s go for a walk, sir, let’s go talk about this in another place.


Aeroporto da Portela – 20 Jan


Este outro lado tem muitas cadeiras, espero sentado numa qualquer, olho
para o relógio e fico sobressaltado, são quinze e qualquer coisa, o meu
voo de ligação é às dezasseis e dez e ainda tenho de ir buscar a
mochila que não foi directamente para São Francisco, agora começo a
ficar nervoso, lembro-me do episódio no Kansai, em Osaka, onde
ninguém na Imigração parecia querer acreditar na minha ida para um
templo Zen, mas aí não tinha outros voos para apanhar, a ideia de ficar
preso numa Newark que me recebe com 5 graus negativos e
muita neve empurrada para fora das pistas do aeroporto não me agrada,
levanto-me e dirijo-me a um agente, com precisamente um relógio
comprado no Japão estendido na mão,
Excuse me, it’s three twenty, I have a connection flight at four ten, ele responde com arrogancia, Until the Imigration Office releases you, you have no connection flight,
eu engulo em seco, olho-o com essa secura presa no estômago e volto a
sentar-me, volto a mirar as horas repetidamente, já se toca nas quinze
e trinta e eu ali especado, há uma outra senhora que não está contente
com a situação dela, eu continuo pregado a uma cadeira sem saber bem o
que fazer, o que me acontece se perder o avião, colocar-me-ão noutro ou
nem por isso,
Andre, soa o meu nome pintado com uma pronúncia yankee, levanto-me e dirijo-me ao balcão, do outro lado estão dois rapazolas a fingir de gente graúda, e isso porque têm um cacetete à cintura e um revolver na culatra, momentos antes, no primeiro controle, respondi tourism
quando questionado sobre os motivos da minha visita aos EUA, agora
atiro, com a arrogância e indiferença com que me olham os rapazolas da
farda,
spiritual matters, perguntam-me onde vou ficar, parece
que quero fazer carreira profissional nos EUA, é isso que me dizem
eles, respondo que é só trabalhar numa quinta para pagar a renda, um
dos agentes pergunta-me que questões espirituais sao aquelas, eu falo
do John Wheeler, das palestras, eles perguntam em que consistem as
spiritual matters, eu impaciente falo da Advaita, um deles pergunta-me o que é, It’s too deep to talk about it here over a counter, eles vêem o site do John (www.thenaturalstate.org), fazem umas perguntas, eu digo-lhes do meu voo de ligacao às four ten, eles respondem You’ll be alright,
parece que estou terminado por ali, vou buscar a minha mochila, passo
mais uns controles, uma laranja, duas bananas e tres macãs ficam
retidas,
You can keep the food, I have a flight to get into at four ten, digo-lhes eu, depois de abrir uma das quatro sandes que trouxe sou autorizado a prosseguir, At four ten, pergunta um agente, You won’t make it, you eed at least half an hour to check-in, faltam vinte minutos agora para o voo, They’ll put you in another flight,
termina ele. Sigo para o proximo checkpoint, largo lá a mochila e largo
de lá para a porta C94, que fica a quinze minutos de corrida do outro
lado do terminal, chego quase a suar à referida porta, o voo está
marcado para as
four ten, sao four o five, a senhora do outro lado do balcao diz-me It’s delayed,
o voo está atrasado, pelos vistos eu nem por isso. Sento-me numa
cadeira, na televisao ouvem-se gritos histericos, é o Obama que acena
num canal de noticias, à minha frente um homem tira fotografias à
televisao, ao seu lado uma mulher da-lhe um cartão com o seu endereço
de e-mail para ele lhe enviar as fotos, se não se importar, eu continuo
um bocado irritado, apetece-me dizer àquelas pessoas que pasmam em
frente ao ecrã,
What’s going on, is he God or what??


     Embarco rumo a São Francisco e acabo a conversar com o Juan
Manuel, um jovem de quinze anos da Colômbia e cinco ou seis horas
depois estou a aterrar na
city by the bay,
procurando, perguntando e tropeçando acabo por chegar ao cruzamento da
23rd com a Alabama, sento-me num canto escuro, mando uma sandes para o
estômago e espero ate que uma voz, atirada de uma silhueta que se
desenhava no escuro da rua, me diz
You must be Andre, Anya,
pergunto eu, cumprimenta-me com um aperto de mão, olhos de um azul
curioso, figura esguia, cabelo curto com muita simpatia mostra-me a
casa. Acabamos num barzinho a celebrar a
inauguration do Obama, ainda tenho tempo para brilhar num jogo de pool
onde enfio duas bolas nem sei bem como, uma tabela genial para matar o
jogo, atiro-me para cima de um sofá na sala-cozinha e ate amanha.



     Acordo pelas oito, varias habitantes da casa passam pela sala onde
durmo, creio haver um casal de lésbicas, tres visitantes estão também
por la, uma outra que nunca tinha visto antes, a ultima a surgir é a
Anya, oferece-me cafe, eu bebo um cha, partimos em direccao ao BART (
Bay Area Railway Transit, o metro da zona de Sao Francisco e Oakland), eu saio no Embarcadero,
ela segue rumo ao seu emprego, emerjo dos subterrâneos ate as ruas
salpicadas por edifícios espelhados tocando as nuvens, algumas
perguntas depois chego a
Greyhound Station, o que me faz pensar na letra do Soul meets body dos Death Cab for Cutie,


‘Cause in my head there’s a Greyhound station,
Where I send my thoughts to far-off destinations.
So they may have a chance of finding a place where,
They’re far more suited than here.


(Curiosamente, é precisamente esta estrofe que oiço no preciso momento em que escrevia as palavras Greyhound Station. Juro que não foi propositado!)



compro o bilhete para Santa Cruz, troco umas palavras com uma
menina que ia para Santa Barbara e que estava a ler um livro sobre a
Cabala, viajo ao som da voz doce e quente da Mariza, trazendo-me do
coração uma vontade de chorar de mansinho,




No deserto
oiço o fundo da alma
E quando a areia está calma
O bater do coração

É que tanto deserto
Tao de repente
Faz-me pensar
Que o deserto sou eu
Se não me vieres buscar



viajo também com as palavras profundas mas simples do John Wheeler, dando vontade de ser livre e infinito.

Dré

Published in: on 01/02/2009 at 6:51  Comments (1)