Silêncio!

«O silêncio, cultivá-lo no relacionamento com os outros, para lá da sua experiência como embaraço, da sua utilização como reacção a um inaceitável e complexo estado de coisas e da sua alternativa perante o fracasso das palavras.
 


Há inúmeros modos de comunicar, mas aquele a que seguramente estamos mais habituados é o que acontece, todos os dias, pela palavra, escrita ou falada. O silêncio, ainda que constitua uma forma de comunicação, é geralmente utilizado como estratégia ou maneira de lidar com situações hostis, entendendo este interromper ou até negar uma comunicação em curso. Mas ao contrário do que esta atitude possa levar a intuir, o silêncio nunca foi ausência, muito menos negação de alguma coisa. Mesmo nas experiências mais apofáticas, ou na história que procura a origem das coisas, o Momento, apelidado tantas vezes de Primeiro, sempre foi testemunhado como o ribombar de uma relação entre um número infinito de vozes.
 
Há muito, porém, que o silêncio deixou de fazer parte da nossa cultura, apesar de existir tão ou mais repleto de sinais (signum), quanto os outros estilos de linguagem. O ser humano é geralmente educado para a sonorização da palavra, para as rádios e televisões, e não para a prática do silêncio, na relação com o mundo. Por isso ele é tão incómodo em casa, na escola, no trabalho, à mesa… acabando, quase sempre, por ser sinal de que algo não está bem, salvo os casos em que é revelador do amor, de uma amizade profunda ou de uma admiração emocional.
 
O silêncio não será certamente uma forma privilegiada de comunicação, mais próxima da verdade das coisas. Na verdade, de ouro será todo o comunicar que se adeque, da melhor forma possível, à interpretação de cada momento. Não deixa, no entanto, de fazer sentido, nos tempos que correm, pensar a cultura do silêncio em oposição à cultura do barulho.»
 
In  Revista Cais, N.º 97 (Abril 2005)
 

Published in: on 30/06/2005 at 18:28  Deixe um Comentário  

Magia ou Tecnologia..?

«…a magia opera na dimensão da inseparatividade enquanto que a tecnologia opera na separatividade. A magia opera a um nível causal subtil, a tecnologia opera a um nível causal grosseiro. A meditação budista procura superar ambos manifestando a libertação dos processos causais pelo repouso da mente na sua natureza e essência ilimitados.»
 
Lama Padma Samten
Published in: on 29/06/2005 at 10:05  Deixe um Comentário  

A prática como libertação, e não um meio para a alcançar.

«Na meditação tu próprio és o espelho que reflecte a solução dos teus problemas. O espírito humano tem liberdade absoluta no interior da sua verdadeira natureza. Podes atingir a liberdade intuitivamente. Não trabalhes para a liberdade, deixa que a prática seja ela mesma libertação.»

 

Dogen Zenji (Séc. XII), mestre Zen

Published in: on 29/06/2005 at 9:53  Deixe um Comentário  

O que é a Liberdade?

O que será a Liberdade?

Muitos de nós consideramos que ser livre é fazer sempre o que se quer e, desse modo, ser feliz e encontrar a paz absoluta na vida.

Porém, ser-se totalmente livre é os outros fazerem-nos o que eles quiserem e, ainda assim, sermos totalmente felizes e mantermos a nossa completa alegria e paz interior.

A Liberdade não advém propriamente de fazer o que se quer, mas sim não fazer o que não se quer! Aquele primeiro "tipo" de liberdade é muito mais fácil de alcançar do que o segundo. A primeira liberdade é a dos homens, mas a segunda pertence apenas aos Mestres que se ultrapassaram por completo.

 

..dré

Published in: on 24/06/2005 at 14:44  Deixe um Comentário  

Resumo da Doutrina Budista

Giovanni Kakugen

O texto abaixo foi desenvolvido por um discípulo leigo do mestre Zen Moriylama Roshi com o propósito de ser uma apresentação sistemática dos principais ensinamentos do Buda, para servir de base para conversas do Darma e posterior aperfeiçoamento por parte dos praticantes. Esperamos que o presente texto auxilie o leitor na compreensão e no estudo dos ensinamentos budistas.

 

As Quatro Nobres Verdades

  1. Existe o Sofrimento. Sofrimento é: nascimento, velhice, doença, morte, estar na presença do que se detesta, estar longe do que se gosta, não obter o que se deseja, perder o que se deseja. "Sofrimento" significa a natureza insatisfatória de todas as experiências que vivemos.

  2. Causas do Sofrimento
  3. . Os três venenos da mente são a causa de todo sofrimento: ignorância, desejo e aversão (alguns autores incluem também a indiferença).

  4. A Cessação do Sofrimento. Cessando os três venenos.

  5. O Caminho para Cessação do Sofrimento.
  6. É o Nobre Caminho Óctuplo.

O Nobre Caminho Óctuplo

  1. Compreensão Correcta.

    Saber distinguir os nutrientes saudáveis dos não saudáveis, o pensamento erróneo do correcto, a fala errónea da correcta, etc. Compreender as Quatro Nobres Verdades, o karma, a impermanência e o não-eu. É também uma profunda confiança no Caminho, e uma visão adequada da realidade.

  2. Pensamento Correcto. É o pensamento que está de acordo com a compreensão correcta. Reflecte a realidade das coisas, sem distorções subjectivas. É o pensamento que não provém e nem alimenta os três venenos da mente: ignorância, desejo, aversão. É cultivar uma mente de altruísmo, uma mente que busca o Caminho Iluminado.

  3. Fala Correcta.
  4. Falar de forma calma e amorosa e ouvir com atenção e compaixão. Não mentir, caluniar, distorcer os fatos ou exagerar. Não ferir nenhum ser através das nossas palavras. Não falar inutilmente. Não semear a discórdia. Não falar mal dos outros. As nossas palavras devem estar sempre de acordo com o Caminho, devem sempre ser benéficas.

  5. Acção Correcta.
  6. Não cometer actos violentos; não roubar; não ter má conduta sexual; comer, beber e consumir apropriadamente.

  7. Modo de Vida Correcto. Encontrar uma forma de viver que não o obrigue a matar, cometer fraude, mentir, vender armas, drogas, bebidas ou escravos; não tirar a sorte.

  8. Esforço Correcto.
  9. É diligência, a perseverança no Caminho. Há quatro práticas ligadas ao esforço correcto: não alimentar sementes não-sadias na nossa consciência; abandonar as sementes não-sadias já manifestas; alimentar as sementes sadias; manter as sementes sadias já manifestas. Esforço correcto é abandonar a visão errónea e adoptar a visão correcta; abandonar o pensamento, a fala e a acção errónea e adoptar o pensamento, a fala e a acção correcta. Esforço correcto, acima de tudo, é domar a nossa mente.

  10. Atenção Plena Correcta. Atenção plena significa estar em pleno contacto com o nosso corpo, sensações, emoções, pensamentos, formações mentais e estados de consciência. É a prática de observar e cuidar de tudo o que aparece em nós, seja positivo ou negativo.

  11. Concentração Correcta.
  12. É a prática da meditação, zazen. É permanecer profundamente absorto aqui-e-agora, onde toda a dualidade desaparece. A concentração correcta é o resultado natural da prática dos outros pontos do Caminho. Cada um dos aspectos do Caminho contém os outros sete.

Os itens 1 e 2 correspondem à Sabedoria; os itens 3, 4, 5 à Ética; e os itens 6, 7, 8 à Meditação.

 

Elementos Básicos do Budismo

  • Impermanência.
  • Todas as coisas são impermanentes. Tudo muda constantemente sem parar. Nada é igual nem por um momento. Nada é estável. Um minuto atrás, nós éramos diferentes tanto física quanto mentalmente. O que nos faz sofrer não é a impermanência em si, mas o nosso desejo de que as coisas sejam permanentes, quando elas não o são. Impermanência é movimento, é vida. As coisas só existem na sua forma e cor presentes.

  • Não-eu. Nada do que existe tem existência em si mesmo, separada e independente. Cada coisa precisa de estar ligada com todo o universo para poder existir. Cada coisa é uma junção de elementos que não são ela mesma. Não existe nada que seja separado do resto, que possa existir de forma independente e definitiva.
  • Interdependência. Vazio. Nada pode existir por si só. Tudo é criado por várias condições, e todos os fenómenos estão inter-relacionados. É a Unicidade. Quem compreende profundamente esta verdade pratica a compaixão, pois vê que é um com tudo o que existe. Tal pessoa compreende um segredo da vida: que a felicidade só pode ser encontrada na compaixão e no altruísmo, e que seguir os nossos desejos egoístas só nos traz sofrimento e perturbação. A interdependência pode ser resumida no seguinte ensinamento do Buda: "Ensinar-vos-ei o Darma: se isto existe, aquilo vem à existência; do surgir disto, surge aquilo; se isto não existe, aquilo não vem à existência; da cessação disto, aquilo cessa". Todas as ondas (fenómenos) pertencem ao mesmo oceano (unidade, totalidade, verdade) da Vida.
  • Karma. É a lei de causa e efeito. Construímos karma através das nossas acções do corpo, da fala e da mente. As acções virtuosas geram bons resultados e felicidade; as acções não-virtuosas geram más condições e sofrimento. A retribuição kármica dá-se em três etapas do tempo: nesta mesma vida, na próxima vida ou em vidas posteriores. Momento após momento nós geramos karma e criamos a nossa realidade.
  • Samsara.
  • Todos os seres estão sujeitos à roda do nascimento e da morte sucessivos. O Budismo acredita que as energias kármicas emanadas das nossas acções boas e más geram um novo corpo e uma nova mente de acordo com a natureza dos impulsos kármicos. Samsara em sânscrito significa "perambulação" (vaguear, divagar).

  • Nirvana. Nirvana é a Liberdade Incondicionada. É a libertação total do sofrimento, um estado de paz inabalável e de indescritível felicidade. É um estado para além de todos os conceitos.
  • As Três Práticas: Ética; Meditação; Sabedoria.
  • Os Cinco Desejos Básicos: comida/bebida; sono; sexo; riqueza; fama.
    Os Três Tesouros: Buda: O ser iluminado, ou o Absoluto; Darma: os ensinamentos, o Caminho; Sanga: a comunidade de praticantes.
  • Os Cinco Preceitos: 1. Não matar; 2. Não roubar; 3. Não mentir; 4. Não ter conduta sexual imprópria; 5. Não lidar com intoxicantes. Não seguir estes preceitos não é "pecado", é, simplesmente, ignorância. "Enquanto a má acção está verde, o perverso nela se satisfaz; mas, uma vez amadurecida, ela lhe traz frutos amargos." – Dhammapada, 119.
  • As Duas Verdades:
  • É a verdade absoluta e a relativa. Em termos relativos, é preciso praticar para extinguir o sofrimento; em termos absolutos, não há sofrimento, nem caminho, nem realização — a onda já é a água. Absoluto e relativo encaixam-se perfeitamente e as duas verdades complementam-se. Devemos viver em contacto tanto com o absoluto como com o relativo.

As Três Qualidades do Darma

  1. Impermanência.
  2. Todas as coisas são impermanentes. Tudo muda constantemente sem parar. Nada é igual nem por um momento. Nada é estável. Um minuto atrás, nós éramos diferentes tanto física quanto mentalmente. O que nos faz sofrer não é a impermanência em si, mas o nosso desejo de que as coisas sejam permanentes, quando elas não o são. Impermanência é movimento, é vida. As coisas só existem na sua forma e cor presentes.

  3. Não-eu, ou Vazio:
  4. Nada que existe tem existência em si mesmo, separada e independente. Cada coisa precisa estar ligada com todo o resto para poder existir. Cada coisa é uma junção de elementos que não são ela mesma. Nada possui uma essência estável e permanente, por isso as coisas só existem assim como elas são agora. As ondas (todas as existências particulares) são manifestações passageiras do mar (o Todo, o conjunto e a fonte de todas as condições).

  5. Nirvana: Nirvana é o estado de absoluta liberdade e de completo silêncio do coração, para além de todos os conceitos. Literalmente, nirvana significa "extinção": extinção das nossas ilusões, desejos, e outros estados mentais negativos. O nirvana já é a base da nossa existência, a natureza búdica sempre foi o nosso verdadeiro ser. O que precisamos é de nos esforçarmos para compreender e manifestar a nossa natureza mais profunda.

As Três Portas da Libertação

  1. Vazio (Sunyata):

    O vazio é o Caminho do Meio entre a existência e a não-existência. Vazio significa que nada possui um eu. Quando as nossas acções emanam da consciência da natureza vazia da realidade, são acções iluminadas.

  2. Ausência de Imagens (Animitta):
  3. Imagem é qualquer sinal que está na nossa consciência (sinal provindo de um dos seis sentidos). A realidade encontra-se além dos sinais. Tudo se manifesta através de imagens, mas as imagens enganam-nos.

  4. Ausência de Objectivo (Apranihita):

    Nada existe a ser feito ou realizado. A verdade mais profunda da existência é que nós já somos o todo, já somos a natureza de Buda. Nesse sentido absoluto, nada nos falta. A ausência de objectivos é o que permite viver o momento, e ser felizes aqui e agora.

As Quatro Meditações Ilimitadas 

  1. Amor:
  2. é o desejo de que os outros seres sejam felizes, e a acção nesse sentido. É um sentimento incondicional, que nasce da compreensão da unidade fundamental de todas as coisas.

  3. Compaixão:
  4. é o desejo de que os outros não sofram e a acção para aliviar a dor alheia. Quando entramos em contacto com o sofrimento do outro, a compaixão brota no nosso coração. Para isso precisamos de atenção plena.

  5. Alegria: a alegria provém naturalmente de um coração que reconhece a preciosidade que é ter nascido como um ser humano e poder praticar o Darma.

  6. Equanimidade:
  7. é o desapego aos opostos, olhá-los de forma igual. Equanimidade significa imparcialidade, não discriminação, equilíbrio mental. É não discriminar "eu" e "outros". É permanecer imóvel ao sofrer palavras e acções injustas, e ao ouvir elogios. É não permitir que surja a irritação, a amargura, o desânimo. É experimentar todas as sensações sem deixar surgir desejo ou aversão.

Os Cinco Agregados

  1. Forma (rupa):
  2. é o nosso corpo físico.

  3. Sensação (vedana):

    elas podem ser agradáveis, desagradáveis ou neutras. Todas as sensações são impermanentes e sem substância (como todos os outros quatro Agregados)

  4. Percepções (samja):
  5. nossas percepções são sempre distorcidas pelas nossas aflições mentais já presentes: o medo, o desejo, a raiva.

  6. Formações Mentais (samskara): existem 51 tipos de formações mentais, e duas delas são as sensações e as percepções. Este Quarto Agregado é composto por todas as outras 49 formações mentais. Tudo que é feito de um outro elemento é uma "formação".

  7. Consciência (vijnana): é o alicerce sobre o qual erigimos nossas formações mentais.

Os Cinco Agregados não são sofrimento em si, mas produzem sofrimento ao nos apegarmos a eles.

 

As Seis Perfeições

  1. Dana
  2. (Generosidade): é o doar, a caridade, a abertura do coração. É dar sem apego. Podemos dar coisas materiais, ensinamentos, ou a nossa presença, estabilidade e paz. Fazer algo com a consciência do seu valor absoluto também é dar.

  3. Sila
  4. (Ética): é viver de acordo com os preceitos budistas.

  5. Kshanti

    (Paciência): é a capacidade de aceitar tudo e de perdoar, sem rancor, as injustiças que nos foram cometidas. É alargar o nosso coração para que um punhado de sal não deixe a nossa água salgada. É ser como a terra, que tudo acolhe sem reclamar ou discriminar. É absorver tudo o que nos acontece na vida. É semelhante à equanimidade.

  6. Virya
  7. (Esforço): determinação, energia, perseverança. É não desanimar ou desistir. Não vacilar. Avançar sem recuar, decididamente. O nosso esforço deve ser correcto, e não devemos apegar-nos aos resultados.

  8. Dhyana
  9. (Meditação): é a prática do zazen, a prática da atenção plena. É clarear e libertar a mente. É consumir-se por completo naquilo que se está a fazer, estando totalmente presente e consciente.

  10. Prajna (Sabedoria): é a sabedoria da não-discriminação. É a capacidade de ver as coisas como elas são. Prajna Paramita é a mãe de todas as paramitas e a base de seu desenvolvimento. Prajna é a compreensão do vazio.

As seis perfeições, ou paramitas são, em última análise, uma só.

 

Os Sete Factores do Despertar

  1. Atenção Plena
  2. A investigação dos fenómenos
  3. Esforço
  4. Serenidade
  5. Alegria
  6. Concentração
  7. Equanimidade

Buda disse que, praticando a Atenção Plena, os Sete Factores do Despertar fazem-se presentes.

 

As Cinco Lembranças

  1. Eu tenho a natureza daquilo que envelhece. Não há como escapar à velhice.
  2. Eu tenho a natureza daquilo que adoece. Não há como escapar à doença.
  3. Eu tenho a natureza daquilo que morre. Não há como escapar à morte.
  4. Tudo o que me é caro e todas as pessoas que amo tem a natureza daquilo que muda. Não há como não me separar deles.
  5. As minhas acções do corpo, fala e mente são os meus únicos pertences verdadeiros. Não há como escapar da consequência das minhas acções. Elas são o chão que eu piso.

Outros

  • Os Três Mundos: passado, presente, futuro.

  • Os Três Reinos:
  • o reino dos desejos, o reino da forma, o reino da não-forma.

  • Os Três Tipos de Orgulho:
  • achar-se superior aos outros; achar-se inferior aos outros; achar-se tão bom quanto qualquer um.

  • Os Quatro Tipos de Apego:

    apego aos prazeres dos sentidos, apego às opiniões, apego às regras e ritos, apego à noção de um "eu".

  • Os Cinco Poderes: fé, esforço, atenção, concentração, sabedoria.

  • Os Seis Sentidos:
  • visão, audição, olfacto, paladar, tacto e mente.

  • Os Seis Grandes Elementos: terra, água, ar, fogo, espaço (akasha) e consciência.

  • As Oito Consciências:
  • As cinco primeiras consciências (os cinco sentidos); manovijnana (consciência mental); manas (intelecto, consciência discriminativa); alayavijnana (consciência armazenadora, mente inconsciente).

  • Os Oito Aspectos da Iluminação:
  • livre da ganância, capacidade de satisfazer-se; quietude; esforço diligente; memória correcta; concentração; sabedoria; evitar discussões inúteis.

  • Os Doze Elos da Origem Interdependente: ignorância (avidya); acção intencional (samskara); consciência (vijnana); nome e forma (nama rupa); os seis sentidos; contacto; sensação; desejo; apego, vir-a-ser; nascimento; velhice e morte.

 

Referências Bibliográficas:

"A Essência dos Ensinamentos de Buda" (Thich Nhât Hanh);

"Textos budistas e Zen-budistas" (Ricardo Mário Gonçalves).

 

Retirado (com pequenas adaptações) do site: http://www.dharmanet.com.br/zen/resumo.htm

Published in: on 23/06/2005 at 8:26  Comments (18)  

Precisamos realmente de algo mais?

«Quanto mais nos sentamos[1], mais aprofundamos o nosso estado meditativo e quanto mais atingirmos um estado de paz, mais podemos fazer pelo sofrimento dos nossos irmãos e irmãs por este mundo fora. Se tal função não se manifestar em nós, o nosso zazen não é o verdadeiro, apenas uma estátua de pedra.

Meditar correctamente abre os nossos olhos nas dez-direcções e permite-nos ver a realidade como ela é. Não é um estado cego e confortável de satisfeita contemplação de si mesmo. Se realmente praticamos zazen devemos perceber a realidade do mundo, devemos claramente ver o sofrimento que nós temos – não eles, lá fora, mas nós mesmos. Nesta posição sentada, podemos ouvir as vozes que gritam neste mundo, porque todas elas estão dentro de nós, não fora.

Enquanto nos agarrarmos aos nossos modos intencionais, nunca podemos ser activamente livres e compassivos. Portanto, ser nada, ser vazio, é ver todas as realidades como são, e isto é ser compassivo da mesma maneira que todos os Bodisatvas. A nuvem branca está no céu, o mar incessantemente lava-nos dia e noite, os pássaros estão a cantar e as estações têm inúmeras flores e árvores. Precisamos realmente de algo mais?

Se queremos (ou precisamos) de algo mais, as guerras não cessarão e os monstros insaciáveis continuarão, dia e noite, a combater em nós!»

 

Hôgen Yamahata, em "Folhas caem, um novo rebento."

 

[1] – Sentar, neste contexto, remete para a meditação zazen, a base da prática no Budismo Zen.

Published in: on 21/06/2005 at 8:20  Comments (2)  

A Mente mente!

Quando medito, sinto o mundo como se o fizesse pela primeira vez. Experiencio o mundo tal como ele é. Normalmente, existem três premissas na equação da minha experiência diária: eu, a realidade e a mente. Eu sou o receptor de tudo o que se passa à minha volta, de todos os estímulos sensoriais presentes no mundo que me envolve; a realidade é o emissor desses estímulos, o próprio mundo em si; por fim, a mente é a intérprete da informação que está a viajar entre o emissor e o receptor, entre mim e o mundo. Este é o meu estado normal de funcionamento. O que acontece é que, destas três premissas, apenas duas têm uma existência real. Eu sou real e objectivo, bem como o mundo. Eu sou como sou, e o mundo é precisamente como é. Tudo é inexoravelmente objectivo. Porém, a mente, a terceira premissa da equação, não tem existência real; ela não é objectiva, não é concreta. Cem mentes diferentes criam cem interpretações diferentes. Por outro lado, cem pedras diferentes resultam em cem "interpretações" precisamente iguais, isto porque o que é real – neste caso a pedra, – não interpreta o que quer que seja; a pedra não é subjectiva.

Até a mesma mente muda de interpretação ao longo do tempo; o que é certo agora, não o é daqui a uns tempos. Uma pedra, uma árvore, um rio não faz isso. Nem um ser humano o faz, se não estiver a utilizar a mente.

Por isso acredito que o eu físico (e não a identificação mental com o mesmo) é real e objectivo; acredito que o mundo é real e objectivo; acredito, porém, que a mente é ilusória e subjectiva. Todavia, aquele é o meu modo de funcionamento habitual: receptor, emissor e mente.

Quando estou a meditar, o que acontece é que a intérprete da informação desaparece. Assim, o que eu recebo do mundo vem directamente do mundo em si, e não do mundo com a mente, com as suas interpretações e com as suas interferências. Recebo a informação tal e qual ela é. Deste modo, percepciono o mundo verdadeiramente. Viver "verdadeiramente" é viver através da "verdadeira mente" (a não-mente). Nesta experiência directa da realidade, sou apenas eu e o mundo, sem ruído a interferir.

Quando não estou a meditar, o que acontece é que a mente coloca-se no meio desta experiência maravilhosa, minando-a por completo, interpretando uma realidade que é demasiado bela para ser alvo de interpretações.

Tudo é espectacularmente maravilhoso. Quem disse que o mundo é perfeito não estava mentalmente ‘activo’. Se observares o mundo sem a interpretação da mente, verás como tudo é lindo, uno. Mas se olhares através da mente, o mundo só pode ser uma de duas coisas: bom ou mau. Acontece deste modo, pois a mente só funciona dentro da dualidade; isto ou aquilo, desta ou daquela maneira. Se ela encontrar o ponto neutro, o ponto central, é porque a questão não é relevante e a mente optou por não interpretar a situação. O problema surge quando a mente julga um determinado aspecto como sendo bom ou mau, como o faz quase sempre, pois nesse caso a tua mente fornece-te apenas uma possibilidade de escolha; e é esta (ausência de) liberdade que limita a tua compreensão da realidade. A mente dá-te a oportunidade de escolher entre o bom e o mau. O grande problema é: e se não for nenhuma dessas opções? E se não for bom nem mau? Isto é o que acontece quando retiras a mente da equação existencial: desaparece a escolha. Fica apenas a simples realidade; nem boa nem má. A simples realidade: incontornável, inquestionável, insondável e, inevitavelmente, perfeita.

Desta perspectiva de ausência de mente, tudo se torna simplesmente admirável, isto porque tudo se torna admiravelmente simples. De um estado de consciência isento de interferências mentais (podia muito bem chamar-lhe perturbações mentais, e deste modo todos nós seríamos considerados loucos), observar um ser humano a cometer um qualquer acto vil, – algo "mentalmente" visto como horrível, – torna-se extremamente natural. Não devido um qualquer devaneio sádico, mas porque tudo é deleitoso quando não existem interpretações, quando não existe mente. Este é o preço da "eliminação" da mente e da consequente iluminação da consciência: a constatação imediata da perfeição inerente a todas as coisas.

 

..dré

Published in: on 19/06/2005 at 23:19  Comments (1)  

Grupos separatistas: Eles ou nós também..?

Todos nós, regra geral, criticamos e apontamos o dedo aos terroristas e separatistas que promovem acções violentas contra estados e nações para obter a liberdade ou a independência que desejam. De certa forma, eles procuram afastar-se do todo do qual fazem parte.

No entanto, nós que os criticamos, fazemos precisamente o mesmo, embora a outros níveis. Nós olhamos para a realidade e vemos tudo como separado, criando uma barreira entre o "Eu" e o "Outro", entre o "Bom" e o "Mau", entre "Isto" e "Aquilo". Esquecemos a perfeita unicidade do Espírito e do Cosmos e apenas vemos "ilhas" separadas umas das outras. Se olhássemos a fundo, veríamos que, por debaixo dos oceanos, essas "ilhas" se encontram interligadas pela mesma extensão de terra.

A nossa mente funciona assim quase como uma arma terrorista que esfaqueia e trucida a realidade, esfarrapando-a em fragmentos, como se de uma carcaça se tratasse. Nós somos os terroristas do espírito, os separatistas do Todo. Empunhamos uma arma de guerra contra os outros e contra nós mesmos.

 

..dré

Published in: on 17/06/2005 at 16:26  Deixe um Comentário  

Mergulha no Agora…

 

Mergulha no Agora com um sorriso.

Mergulha no Agora em silêncio…

O Agora é a Vida Única, sem sombra de dúvida, o único "objecto" real da existência. Tudo o que existe, existiu ou existirá, fá-lo, fê-lo ou fá-lo-á no Agora que lhe corresponde.

Quanto ao sorriso, este traz directamente até nós a Felicidade Serena que circula naturalmente pelo universo, pois os átomos e moléculas que o constituem são precisamente feitos dessa matéria.

Finalmente, o silêncio leva-nos até à dimensão da não-existência, do não-ser e do não-manifesto, que são, no fundo, os nossos verdadeiros modos de existir, de ser e de nos manifestarmos.

..dré

 

Published in: on 17/06/2005 at 8:49  Deixe um Comentário  

Tibete – Um país em extinção?



A invasão do Tibete e a progressiva dizimação de uma cultural milenar

Por Patrícia Sá

 

BREVE DESCRIÇÃO DA INVASÃO

Em 1950, quando Mao pede à China para dar o "grande salto em frente", o Exército de Libertação Chinês ocupa Lassa, a capital do Tibete. Perante o silêncio internacional, os chineses iniciaram um "programa" de dizimação da cultura e sociedade tibetanas, sob o pretexto de ajudar os tibetanos a regressarem à pátria-mãe chinesa e de os libertar do "jugo do feudalismo". Com o início dos confrontos armados em 1959, o Dalai-Lama foi obrigado a deixar o seu país e exilar-se na Índia, em Dharmsala. Actualmente Dharmsala é a sede do governo tibetano no exílio que, liderado pelo Dalai-Lama, se dedica à causa da libertação do Tibete, através da não-violência . Juntamente com seis milhões de Tibetanos espera que a comunidade internacional reaja à situação do seu país.

Em Maio de 1951 foi imposto ao governo tibetano o "Acordo dos 17 pontos para a libertação pacifica do Tibete", que entre outras coisas, dava soberania à China sobre o Tibete, mas reconhecendo a autonomia do governo tibetano no que respeitava aos assuntos internos. A China comprometia-se a não alterar o sistema político existente, a não interferir com o estatuto do Dalai Lama e do Panchen Lama e a respeitar a autonomia , religião e costumes dos Tibetanos – clausulas nunca cumpridas pela China.

Em 1959 o não cumprimento pela China da clausula da autonomia induz a um levantamento nacional, que culmina com o exílio do Dalai Lama na Índia. A sua partida desencadeou uma repressão muito dura e a artilharia chinesa acabou facilmente com a resistência tibetana. Depois disso, 85.000 tibetanos fugiram do seu pais.

A destruição da cultura do Tibete e a opressão do seu povo foi brutal nos anos seguintes ao levantamento nacional resultando na morte de 1.2 milhões de Tibetanos, ou seja, um quinto da população. Muitos outros foram presos ou deslocados para campos de trabalho. Foi levado a cabo um processo de destruição de mais de 6000 mosteiros, templos e outros edifícios históricos.

Em 1965, a China conferiu ao Tibete o estatuto de região autónoma. Tentou demonstrar à comunidade internacional os benefícios da ocupação chinesa através da construção de hospitais, centrais eléctricas, estradas e escolas. No entanto, este progresso material em nada beneficiou os tibetanos (que são já uma minoria no seu próprio país), antes pelo contrário, somente aproveitou ao crescente número de emigrantes chineses que, encorajados pelo governo, continuam a usurpar todos os sectores político – económicos do Tibete.

 

RECUPERAR A AUTONOMIA PELA NÃO VIOLÊNCIA

Apesar do estatuto de região autónoma, o Tibete enfrenta todas estas situações que, na realidade, o reduzem a um território não autónomo. O capítulo XI da Carta das Nações Unidas designado "Declaração relativa aos territórios não autónomos" dispõe nos termos do seu artigo 73º que os membros das N. U. se comprometem a assegurar, nesses territórios, o respeito pela cultura, a sua protecção contra abusos, a capacidade de governo próprio, o desenvolvimento científico e económico, a construção da paz. Numa palavra, promover a sua autonomia. No entanto esse dispositivo faz escassas referências à fiscalização efectiva, pelos órgãos das Nações Unidas. Por isso, e apesar das condenações das organizações humanitárias, no Tibete os activistas pró – independência foram alvo de prisões arbitrárias e muitos foram torturados. Detidos por empunharem a bandeira tibetana, por distribuir panfletos ou por possuir material sobre o Dalai-Lama. De acordo com os relatórios da Amnistia Internacional, entre 1987 e 1989, centenas de manifestantes tibetanos foram vítimas do abuso de poder das autoridades chinesas. A tortura ainda é largamente utilizada como método de interrogatório e castigo, sobretudo nos prisioneiros políticos.

O décimo quarto Dalai-Lama recebeu em 1989 o prémio Nobel da Paz em reconhecimento pela sua dedicação à causa da libertação do seu país por meios não violentos. O líder espiritual fala, com tristeza, da devastação dos mosteiros, da destruição das obras de arte, do desrespeito pela religião e pelo modo de vida pacífico dos tibetanos. Não procura culpar ninguém da situação no seu país e percebe a complexa teia política que impede a comunidade internacional de tomar uma posição mais dura face a um país como a China. O que impede então a comunidade internacional de actuar de forma veemente à luz dos seus valores face à violação chinesa dos Direitos Humanos ? Não há diálogo entre a República Popular da China e as organizações internacionais dos Direitos Humanos oficiais e não oficiais. O governo chinês e os seus líderes recusam-se sistematicamente a reunir com a Amnistia Internacional para debater assuntos relacionados com os Direitos Humanos. As autoridades chinesas consideram estas reuniões uma intromissão nos assuntos internos do seu país.

Os Tibetanos mantêm intacto o orgulho que sentem pela sua cultura e continuam a lutar pacificamente pela sua autodeterminação, seguindo o seu líder, Tenzin Gyatso (Dalai-Lama). Apesar da inflexibilidade chinesa em abandonar o território, apesar da repressão de que são alvo, o povo do Himalaia vai continuar a difundir a sua mensagem de amor e harmonia entre as nações, que só poderá concretizar-se com muito esforço e perseverança!

Published in: on 17/06/2005 at 8:32  Comments (1)  

Bem vindos ao Aqui e Agora

 

Sejam bem vindos a este espaço completamente vazio de significado!

Entrem, acomodem-se, deixem-se estar à vontade, este espaço é vosso, nosso… de quem quiser aparecer.

Este é um espaço inútil, pois não tem qualquer utilidade inerente. Será útil apenas na medida em que vocês o quiserem. Façam o que bem entenderem aqui…

Neste Aqui e Agora vamos estar só concentrados nisso mesmo.. No Aqui e Agora. Seja o que for que apareça, será Aqui e Agora, livre de pré-conceitos e rotulações mentais.

 

Deixem os vossos julgamentos e visões sobre "Aquilo Que É" lá fora.

No Aqui e Agora, "Aquilo Que É" simplesmente… é !!

 

Esvaziem as vossas chávenas… Sejam apenas!

..dré

Published in: on 16/06/2005 at 13:42  Comments (2)