A pessoa é a prisão


O equívoco mais comum em relação à libertação é que esta consiste em algo que um indivíduo pode obter. Mas a libertação é uma perda – a perda da noção de que alguma vez houve um indivíduo separado que pudesse escolher fazer algo para alcançar a libertação.

Muitos dos chamados mestres da não-dualidade sugerem que existe alguém que pode fazer algo para curar a sua noção de separação; por outras palavras, existe uma pessoa que consegue descobrir que não é uma pessoa. O carácter absurdo desta ideia é frrequentemente camufulado por teorias subtis e altamente complexas. Os ensinamentos sobre a não-dualidade frequentemente apresentam a ideia sedutora de que a libertação pode ser realizada através de um caminho espiritual evolutivo. Isto não tem qualquer ligação com a não-dualidade, mas pode oferecer-nos uma história convincente, ainda que sem qualquer fundamento, sobre ela.

Desta história surgem muitos caminhos, doutrinas, técnicas, gurus, mestres, vendedores de mantras, workshops e grupos que constituem o bazar espiritual. Qualquer tipo de busca poderá levar a pessoa a sentir-se mais confortável, mas nada mais do que isso. Alcança-se uma pessoa mais confortável na sua prisão. Se se estiver numa prisão, é muito melhor estar confortável, mas isso não tira a pessoa da prisão onde ela imagina estar.

Nada tirará a pessoa da sua prisão, porque a pessoa é a prisão. Quando a pessoa desaparece, é visto que nunca existiu uma prisão de todo.

Richard Sylvester

http://www.richardsylvester.com

Published in: on 30/11/2008 at 2:07  Deixe um Comentário  

Textos esquecidos…

 
     Encontrei uns papeis rabiscados enquanto reorganizava a minha biblioteca. Aqui ficam algumas das palavras redescobertas…
 


     O Zen é a transcendência do dogma, da estrutura, do previsível. É sempre fresco, novo, vivo.
     O Zen é a transcendência do Buda, do Dharma, da Sangha; dos mestres, das escrituras, dos discípulos.
     O verdadeiro Zen é a transcendência do próprio Zen. Ele não tem nome, forma ou conteúdo.
 
 
     Embora o Astro-Rei brilhe no coração de todos nós, procuramos no exterior o amor dos outros, frágil como a luz de uma vela.
     Através de sexo, amizades "coloridas" e relações amorosas, procuramos preencher interiormente um buraco de solidão e insegurança. Não que esse fosso de carência seja muito grande; pura e simplesmente não tem fundo. Além do mais, sendo um fenómeno interior, jamais poderá ser abastecido através do exterior. É como querer alimentar o estômago sem abrir a boca. Por mais que tentemos, esse vazio interior está destinado a ficar vazio. É encher de água um funil.
     A solução passa por aceder directamente a essa fonte interior de segurança e plenitude. A partir daí, as relações amorosas existirão como um fim em si, e não apenas como um meio de abastecimento emocional. Acedendo a essa fonte infinita de luz interior, qual a necessidade de continuar a buscar sedentamente fósforos no exterior, apenas criando mais sombras?
 
Dré

Published in: on 22/11/2008 at 2:30  Deixe um Comentário  

Perfumes…


Hoje caminhava pelo Rossio. Passei por uma perfumaria… Pensei, "uma perfumaria é, na verdade, uma casa de abate, um matadouro, bem-cheiroso!" Quantos animais sucumbem nessa indústria des-humana, cruel e insensível? Para que a nossa pele não sofra irritações ou alergias, quantos testes são feitos anualmente, mensalmente, diariamente, em dezenas, centenas e milhares de seres vivos?

Gritos, esgares e ganidos de raiva, dor e sofrimento são os companheiros de viagem dos suaves aromas que habitam as lojas modernas das cidades cosmopolitas. Eles estão lá; apenas se encontram nos bastidores… Esses gritos habitam as nossas peles, os nossos corpos, misturando-se com o nosso próprio cheiro e pessoa. Apenas estão disfarçados. Uma máscara esconde o verdadeiro rosto que habita o nosso pequeno frasco de perfume.

Dré


Published in: on 22/11/2008 at 2:22  Deixe um Comentário  

Um encontro com uma não-dualista

Encontrei-me com uma senhora que está ligada à tradição espiritual da Não-Dualidade, também conhecida como Advaita. O seu nome é Mary McGovern, é americana, mas vive em Paris. Trocámos alguns e-mails para combinarmos um encontro e para falarmos um pouco das minhas dúvidas espirituais. Em resposta ao meu primeiro contacto, no qual referi o meu interesse na Não-Dualidade e em me encontrar com ela em Paris, ela respondeu:

Se estás interessado na Não-Dualidade, creio teres um exemplo muito claro no John Wheeler. Quero apenas dizer que é claro aqui que não precisas de estar na presença de alguém que partilhe Isto…Nem tens de falar com um "iluminado" (nem existe tal coisa, de qualquer forma). Porque aquilo do qual todos falamos é simplesmente o que tu és. Ninguém te pode "dar" ou "transmitir" nada. Falei com várias pessoas que comunicavam Isto e nada surgiu dessas conversas!

E ainda assim, discussões, encontros, conversas e e-mails parecem acontecer, o que é também maravilhoso. Tudo faz parte da esência do Ser, a ser (no original, "It’s all just the Beingness, Be-ing"). Assim, se te sentires inclinado a visitar alguém que fale sobre Isto, então excelente! Se não, excelente! Quero apenas sublinhar que tal não é necessário. "Eu"e "tu" não somos diferentes. Eu não sei nada que tu não saibas, nem o sabe o John Wheeler ou outra pessoa qualquer. Isso é apenas uma história a surgir Nisto que tu és!

Falar comigo não vai mudar nada – continuas a ser sempre o Ser, independentemente do que "tu" pensas ou de quem to indica a ti. Ainda assim, na história a partilha acontece(!), por isso se calhar estares em Paris, podemos encontrarmo-nos se quiseres (não tenho consultas regulares) ou podemos conversar por e-mail ou telefone. Quero apenas clarificar que nada é necessário, TU és ISSO agora mesmo, sempre. (E é ISSO 😉 ). O que conhece ISTO está para além do "André" ou da "Mary". É Aquilo onde "André" e "Mary" surgem. Esta Vida Vazia (no original, "Empty Aliveness") é tudo o que existe e não existe ninguém que aponte para isto, nem ninguém que compreenda isto… Apenas ISTO, aqui… sempre agora.

Acabámos por nos efectivamente encontrar, por duas vezes, em Paris. É uma mulher adorável, muito simpática, perspicaz e profunda. Deu para sentir – mais do que "perceber" – a essência daquilo para o qual a Não-Dualidade aponta. Estando na presença de alguém que esclareceu a sua verdadeira natureza, e ao contrário do que a Mary referiu no seu e-mail, algo começou de facto a acontecer. Mais subtil do que acontecer; florir ou desabrochar, talvez seja o termo. Um simples reconhecimento do carácter aparente da "realidade", bem como a presença de algo que não é meramente "aparente".

O fruto mais palpável do meu encontro com a Mary foi, na verdade, a certeza que surgiu de que tudo isto ("isto" significando toda a busca espiritual e a "essência" da vida em si…) é bem mais simples do que muitos livros nos fazem parecer, mas ao mesmo tempo mais profundo do que a mente poderá algum dia esboçar ou as palavras ensaiar.

Fica aqui um agradecimento sincero e sentido à Mary, por ter tido a gentileza de me emprestar algum do seu tempo e da sua presença, e pelo seu esforço honesto tentando despir-me de todas as camadas que me foram adicionadas e que parecem ocultar o que, na realidade, está sempre claramente presente.

Dré

Mary McGovern: http://graceisnow.blogspot.com

Published in: on 22/11/2008 at 1:37  Deixe um Comentário  

Feliz Natal!

Já várias vezes pensei na razão que levará um estado laico – como o é o estado Português – a celebrar uma data única e exclusivamente religiosa, como o é o Natal – que, para os mais distraídos, celebra o nascimento de Jesus Cristo, o mui aclamado Messias da religião Cristã. É tão somente isso – a celebração religiosa do nascimento de um ícone espiritual para muitos. Bem, era somente isso. Agora já não é, daí a intromissão estatal em tal celebração.

Esta questão surgiu-me porque pensei, "o que leva um estado não-religioso a gastar tempo, dinheiro e recursos em tantas iluminações e decorações natalícias?" Qual poderá ser o interesse? Depois percebi que todas estas decorações são "publicidade" ao natal – não a Jesus, note-se. Em cada pequenina lâmpada, em cada singelo raminho e no brilho de cada cândida estrelinha estão escritas as palavrinhas, "É Natal. Não se esqueça de ir às compras!" Se olharem bem, hão-de reparar. As letrinhas estão lá. "Quem tiver olhos, que veja", diria Cristo. Quem?!, pergunta o estado laico…

Esta "publicidade" vergonhosamente implícita e implicitamente hipócrita, natureza intrínseca à própria publicidade, diga-se, tem basicamente o propósito de todo e qualquer spot comercial: lembrar-nos que o nosso dinheiro é muito bem-vindo aos bolsos dos senhores que sorriem por detrás do pano. Todo e qualquer anúncio tem meramente o objectivo de relembrar o potencial cliente que certa empresa existe e que, de alguma forma, o primeiro necessita da segunda – facto raríssimas vezes verdadeiro.


Muitas vezes, a publicidade tenta criar laços afectivos e emocionais entre indivíduo e empresa, como uma pequena pancadinha nas costas com uma mão. Obviamente, a outra mão estende-se à nossa frente, de palma para cima, pedindo um pouco de prata. Slogans como "I’m loving it", "We bring good things to life", "Porque eu mereço" e "No sítio do costume" tentam criar relações de "amizade" e de continuidade com alguém, como se todos fossemos… bem… enfim, amigos. Outros, como "Viva o momento", "Segue o que sentes" ou "A vida inspira-nos" tentam servir como veículos de uma mensagem elegante sobre a vida, quase como se funcionassem como portais para uma realidade mais profunda, quase espiritual. Basicamente, são formas diferentes de dizer, "Queremos o teu dinheiro". Esse é o único objectivo da publicidade. Uma empresa em grande crescimento e com lucros bombásticos raramente lança anúncios publicitários. Para quê? O objectivo é chupar o dinheiro dos consumidores. Se tal estiver assegurado, nenhuma acção mais é requerida.

Embora este possa parecer um ponto óbvio – que as empresas apenas querem o nosso dinheiro -, a verdade é que não o é. Se assim fosse, a publicidade dessas mesmas empresas seria muito diferente, se é que existiria de todo. A publicidade actual é uma "ilegalidade" tornada legal, uma mentira que todos conhecem, mas que engolem, por hábito, como verdade. O marketing refere-se sempre à pessoa, embora esta seja factor humilhantemente irrelevante na equação económica. O factor crucial é o dinheiro, não a pessoa. Todo o cliente é irrelevante para qualquer empresa, exceptuando no caso em que seja portador do cifrão.

Por exemplo, uma empresa de transportes rodoviários não tem qualquer interesse pelo cliente quando aumenta o conforto dos seus veículos, instala novas televisões ou melhora os seus horários. É apenas uma estratégia de fidelização de velhos clientes e atracção de novos. "Clientes", não "pessoas", note-se. Em última análise, essa empresa de transportes nem tem qualquer interesse sequer em transportar quem quer que seja, tal como uma farmacêutica não tem interesse em melhorar a saúde ou prolongar a vida de niguém. Uma empresa de telemóveis não tem qualquer interesse em melhorar as comunicações entre os indivíduos, nem um hospital privado em salvar ou tratar pessoas.

O próprio conceito de "pessoa" é estranho ao mundo empresarial. Existem clientes. Se estes clientes são pessoas, animais, árvores, pedras ou robots tem pouca ou nenhuma relevância para o caso. "São portadores de capital?" é a única questão relevante.

Fica a pergunta: Se eu chegar a uma loja e "seguir o que sinto" ou "viver o momento" enquanto parto a sua montra com uma pedra da calçada, será que os sorrisos natalícios se mantêm? E se eu levar um dos seus produtos sem pagar, será que me acenam simpaticamente? Não? Ah, mil perdões. É que julguei que estavam a sorrir para mim, e não apenas para o meu dinheiro.

Enfim, é esta a beleza do Natal. Saber que por dentro de cada manjedoura de cada presépio dorme um "amigo", por entre os ramos de cada pinheiro natalício espreita um "companheiro", que escondido no brilho de cada estrela está alguém pronto a "ajudar". Estes "amigos" e "companheiros" sempre prontos a "ajudar" são as empresas multinacionais e as instituições que nos acenam sorridentes com uma das mãos. A outra, sabemos já, está ocupada demais para nos poder acenar.

Dré

Published in: on 21/11/2008 at 22:58  Deixe um Comentário  

Conversas com John Wheeler IV


Olá, John.

Apenas para te agradecer de novo pela tua claridade e precisão supremas no apontar em direcção à nossa verdadeira natureza. Ainda estou a ler os teus livros (no livro 3, neste momento) e tudo está a assimilar-se bastante bem. Devagar, mas bem. Assimilar-se onde e em quem? Bem, sabes qual é a resposta.

Isto é apenas um e-mail de agradecimento. Não precisas de responder, a sério. Deves ter dezenas de e-mails aos quais responder.

Obrigado.

André


Olá, André.

Obrigado pela nota. Não há muito a dizer! Antes do aparecimento do próximo pensamento, tu já és o que és. É apenas uma questão de abandonar todos os conceitos e ter uma noção clara do que, naturalmente, está já presente. Isso não requer muito tempo ou esforço para se revelar, porque está a brilhar à vista desarmada.

Se existirem quaisquer dúvidas ou questões, elas podem ser geridas ao vê-las como conceitos presentemente a surgir na presença sempre clara que tu és. Todas elas estão enraizadas na noção de se ser um indivíduo separado da realidade mais profunda. Um pouco de observação demonstra que esta suposição básica é falsa, na medida em que não existe realmente nenhum ser limitado presente sob observação directa. Isto desactiva a base da crença na suposição base que conduz toda a busca, sofrimento e dúvida. És apenas tu, como isto, o ser/saber puro que sempre foste e nunca abandonaste.

Tudo o que surge é apenas uma exposição ou manifestação deste princípio básico, a tua própria presença consciente. Até a própria consciência comum é uma aparência no que tu és. Então, tu és aquilo que buscavas e tudo o que aparece é apenas isso também. Assim sendo – não-dualidade. A neblina de confusão dissipa-se perante o sol do claro auto-conhecimento. Tudo está bem. Não existe mais nada de errado.

John Wheeler

Published in: on 21/11/2008 at 14:58  Deixe um Comentário  

Conversas com John Wheeler III


No teu quarto livro (You Were Never Born) dizes, "Leva a atenção para fora da mente", e também, "Instala-te no reconhecimento da tua verdadeira natureza… Dispõe-te a estar com essa subtileza. Encontrarás imensa profundidade nela".

O que é que isso significa? Deverei eu focar-me na presença-consciência em vez de na aparência? Tudo isto soa imensamente dualista, mas não é fácil escapar a ela na linguagem. Isto começa a assemelhar-se a uma técnica, a algo que devo fazer… Sei perfeitamente que a consciência está sempre lá, caso contrário, nada mais estaria – pelo menos para mim! Mas eu tendo a distrair-me profundamente com a aparência. Deverei voltar a focar-me na presença-consciência e "assumir o meu posto" aí, como tu dizes? Algo como estar consciente da consciência, apesar de dizeres que tal não é possível.

Isto colocar-me-á numa posição onde estarei atento e desatento, por vezes consciente do espaço onde as coisas surgem e desaparecem e, por vezes, completamente emaranhado naquilo que surge e desaparece. Isto parece estar a anos-luz do "reconhecimento directo não-conceptual" da minha verdadeira natureza. O que é que achas?

André

Tu já estás despachado dessas questões espirituais. Não voltes à mente em busca de mais coisas para fazer, etc. Tu dizes, "Deverei eu focar-me na presença-consciência em vez de na aparência?" De que ‘eu’ é que estás a falar? A consciência é, tu és isso. Ponto final. A espiritualidade termina nesse ponto final. Todas as questões que levantas surgem ao abandonares esse ponto final e regressares aos conceitos. Deixa-os em paz. Tu és aquilo que procuras. A própria espiritualidade pressupõe um ego que se envolva nela. Quando tu és a realidade, porque procuras técnicas!? Tu és a realidade suprema. Descarta-te apenas de todo o interesse nos conceitos e sê o que tu já és!

John Wheeler


Published in: on 21/11/2008 at 13:56  Deixe um Comentário