Diarios de Sogenji – VIII (1 a 11 de Dezembro)

 
2006, Dezembro 1
 
     Dia da Restauracao da Independencia em Portugal, feriado nacional. Aqui tambem foi quase feriado em Sogenji e por isso fui a Okayama restaurar o acucar no sangue com uns biscoitinhos.
     Alguns homens do templo ficam doidos com as mulheres la fora. E eu que achava que tinha uma libido muito forte. Lol. A verdade e que as vezes e complicado nao ceder a "tentacao". As jovens japonesas, todas com as suas fardas colegiais, rostos bonitos e exoticos (nem todas claro!) e saias escandalosamente curtas (mesmo com um frio de rachar) sao, por vezes, provocantes. Ainda assim, tenho resistido a tentacao de "comer com os olhos". O mesmo nao posso dizer de alguns "colegas" de Sogenji.
     E por falar nos prazeres do mundo, hoje vi um carro que me deixou completamente apaixonado. Chama-se Nissan FairladiZ. Um nome comico, mas um desportivo que me cortou a respiracao e que "comi" com os olhos, sem remorsos! =) Ai, os prazeres do ego sao tao tentadores!!
     Hoje vi tambem uma senhora a fazer marcha a um ritmo muito acelerado. Lembrei-me da Dra. I___ e da Da. A___. E engracado como as pessoas sao todas iguais, mesmo quando separadas por mais de 10 mil quilometros e seculos de culturalizacao diferenciada.
 
2006, Dezembro 2
 
     A noite passada fiz a experiencia de tentar dormir sentado. Com um cachecol e umas pecas de roupa fiz duas "cordas" e com elas atei o meu corpo e a minha cabeca a um dos pilares do Zendo. Demorei muito tempo a adormecer e uma hora depois acordei completamente gelado! Desisti e deitei-me, mas so voltei a aquecer a meio da manha de hoje. Ha 2 sofas optimos para dormir sentado, mas nao sei se estarao disponiveis. Talvez com o cansaco do Rohatsu seja mais facil adormecer…
     Hoje recebi duas cartas maravilhosas! Uma da minha mae linda e outra do meu amor lindo, que trazia um livro e tudo – intitulado "Morte e nascimento de uma flor"; e bom, de certeza. A sensacao de reber uma carta, vinda de tao longe, e excelente. Traz muito quentinho ao coracao!!=) E num mes e pouco ja recebi 3! Muito obrigado! Nao mereco tantos miminhos (mas quero ainda mais!!).
 
2006, Dezembro 3
 
     Hoje a noite foi a sessao de abertura do Rohatsu, com um pequeno discurso do Roshi. Nos estamos de joelhos, nos nossos lugares, sentados nos calcanhares. Quando o mestre comeca a falar, colocamos a cabeca no chao, a frente dos joelhos, como se fosse uma venia. Eu estava bastante expectante em relacao ao discurso de abertura, mas quando dei por mim estava a levar uma cotovelada do meu vizinho do lado. Mesmo naquela posicao, consegui adormecer. So ouvi mesmo o inicio e o fim da traducao. Depois, o S___ veio-me perguntar quem e que estava a ressonar no Gaitan. "Pois, devo ter sido eu", respondi.
 
2006, Dezembro 5
 
     Hoje acordamos com a temperatura ligeirissimamente abaixo dos 0 graus. Que gelo brutal. Foi muito complicado. Agora apercebi-me que nos retiros o frio e um problema bem maior que nos dias normais, porque como estamos sempre em meditacao, nunca podemos usar gorros, meias e afins. Sinceramente, se a temperatura baixar para os -5 ou -10 graus como ja previram aqui, duvido que aguente, principalmente as maos e pes, com o frio parece que me estao a espetar facas pelas unhas a dentro! Todo eu tremia como varas verdes! Nao sou homem para isto! Mas como me disseram que depois do Rohatsu vao colocar 2 aquecedores no Zendo, e como ja temos meditado quase sempre de janelas fechadas, pode ser que no pico do Inverno eles autorizem luvas, cachecois, etc. Vamos aguardar.
     Esta noite foi a primeira do Rohatsu, como tal, foi a primeira em que dormi sentado (exceptuando a minha curta experiencia!). Nao correu mal. Nao dormi atado ao poste, mas sim encostado a uma esquina de uma parede com um armario. Com uma almofada e um colchao a servir de encosto, ate nao se passou mal.
 
2006, Dezembro 6
 
     No Sanzen, o Roshi disse: "Cud, cud". Tendo em conta que ele fala Ingles Niponico, traduzindo isso para Ingles Padrao, acredito que ele tenha dito "Good, good". Foi um bom feedback. E bom saber que a pratica esta a ir bem. Mais importante, ele disse isso enquanto pregava os seus olhos na minha barriga – no Tanden. Ele faz quase sempre isso. Deve estar a avaliar o meu nivel de Ki no Tanden. Pelos vistos esta a melhorar.
 
2006, Dezembro 8
 
     Dia da Iluminacao do Buda. No Sanzen, o mestre voltou a dar um bom feedback: "Don’t stop. Good!" Num outro Sanzen, estava tao entusiasmado e cheio de energia que estava decidido a ser o primeiro a chegar a sala de espera. Soaram os 4 toques da sineta e voamos todos para fora das almofadas de meditacao. Peguei nos chinelos e corri descalco, sempre a abrir! Estava em primeirissimo lugar quando comecei a sentir o corpo a deslizar para a frente. Ja quase na "meta" espalhei-me ao comprido no meio do chao de terra molhada. Durante um segundo pensei "Que chatice, la se foi tudo". Depois acordei e levantei-me de rompante e acabei a "corrida" em 5 lugar – com os pes e maos ligeiramente raspados e as calcas enlameadas nos joelhos.
     Ja na sala de espera, aguardei de pe a minha vez. Quando estava quase a chegar a minha vez, um dos monges principais fez-me uma venia – significando que ia passar a minha frente – e eu respondi com outra venia, ambos de pe. Segundos depois, senti o Keisaku veementemente no meu ombro e o responsavel por isso disse: "Tu respondes as venias que te fazem sempre de joelhos, nunca de pe". Percebi entao que o outro monge tinha feito a venia de pe porque eu estava tambem de pe. Mas nao gostei nada da maneira como ele falou comigo – ainda por cima nunca ninguem me tinha dito nada sobre isto. Adicionando esta situacao ao facto de ter caido alguns minutos antes, o que criou algum stresse emocional, fiquei bastante irritado com a situacao. Enquanto esperava a minha vez para o Sanzen, algumas lagrimas percorreram-me as faces.
 
2006, Dezembro 9
 
     Uma dor no lado direito das costas tem vindo a acentuar-se ha ja varios dias. Depois de 6 dias de Rohatsu, aquela tornou-se verdadeiramente insuportavel. Nao aguentei mais. Tentei penetrar a dor com a minha mente, concentrar-me nela e transcende-la, compreendendo que a dor fisica e apenas uma "interpretacao" da mente (por exemplo, se estiver distraido, nem me lembro que me doem as costas, pois a mente nao esta la mais, esta entretida com o factor de distracao). Tentei tudo, mas a dor continuava la. Desisti. Na pausa seguinte decidi falar com alguem responsavel sobre a possibilidade de meditar de pe. Nessa pausa, a R___ perguntou-me "Estas a sentir-te bem?". Perguntou isto porque tinha-me visto a contorcer-me nas posicoes mais esquisitas a tentar fugir da dor. Eu respondi que nao estava bem. Ela disse que podia meditar de pe e para pelo menos tentar aguentar ate ao fim do retiro (faltam cerca de 2 dias).
     Voltei para o meu lugar, desta feita fiquei de pe. A dor passou bastante nesse posicao, embora gradualmente tenha feito sentir-se gradualmente mais. Era uma dor estranha: Parecia mais energetica do que fisica. Bastava colocar a mao sobre a zona dorida para a dor desaparecer totalmente, sem massajar, sem nada.
     De pe, passado algum tempo, as pernas comecaram a tremer ligeiramente, depois mais e mais. Depois o tronco e o corpo todo em geral comecaram a tremer. Comecei a estranhar a situacao. Comecei a sentir uma energia estranha em mim. Fechei os olhos, concentrei-me nas sensacoes. A mente comecou a ficar num turbilhao, o corpo em convulsao. Pensei que talvez fosse algum tipo de experiencia de "break through", pensei que a mente talvez fose quebrar, ter algum insight. Comecei a tentar encurrala-la. Perguntei-me repetidas vezes "Quem es tu?", outras vezes "Quem sou eu?", a ritmos lentos, normais e vertiginosamente acelerados. Queria romper pela mente iludida adentro. Por vezes, silenciava o questionamento e ficava apenas com o tremer do corpo e a energia aos saltos dentro dele.
     Senti que estava quase "la" (talvez), mas nao consegui. Entretanto soou a sineta e partiram todos para o Sanzen, com excepcao de 3 ou 4 pessoas. Antes de ir para o Sanzen, a R___ veio ao meu lugar perguntar-me se eu me sentia bem, que nao parecia nada bem. Eu disse para ela me deixar estar. Mas perdeu-se o feeling e parei. Tentei sentar-me, mas tinha os joelhos bloqueados na posicao erecta e tinha medo de os dobrar para me sentar. Pedi ao Ab___ para me ajudar a sentar. Sentei-me, a tentar retirar algum sentido de toda a situacao, mas sem pensar intelectualmente nela, apenas estando. Alguns segundos mais tarde, comecei a sentir uma energia a surgir dentro de mim, mais forte e mais forte. Rebentei num choro compulsivo, espontaneamente. Sem razao nenhuma chorava. Estive assim alguns minutos. Uma das praticantes mais antigas veio ter comigo e disse para eu limitar-me a respirar. O choro acalmou por fim, passado algum tempo. Sai do Zendo, tentando perceber que raio tinha sido aquilo. Ainda tive a esperanca que o insight pudesse surgir a qualquer momento, mas havia muita mente em toda a experiencia. Raras vezes consegui ser a experiencia, e nao alguem que vive uma experiencia. Mas mesmo assim procurei a C___. Podia ser que ela sentisse alguma coisa em mim ou me ajudasse a perceber o que se tinha passado. Ainda pensei ir ter com o Roshi, mas nao o fiz.
     Mais tarde, a R___ disse-me que tinha falado com a C___ e que ela tinha dito que era bom sinal, sinal que me estava a esforcar. Que era normal coisas estranhas ou dores invulgares surgirem durante o Zazen.
 
2006, Dezembro 10
 
     Tenho os pes doridos, um deles inchado e um pouco esfolado, uma costela deslocada devido as noites de sono passadas numa posicao sentada provavelmente incorrecta e que tera sido a causa das minhas dores alucinantes nas costas, um joelho dorido, faces rosadissimas e escaldantes com uma ligeira febre, perdas de equilibrio quando de pe… Estara o meu corpo a passar por alguma fase de purgacao devido a meditacao, ou sou eu que sou louco por me sujeitar a isto?!
 
2006, Dezembro 11
 
     Fui a acupunctura de manha para tentar resolver a dor nas minhas costas. Como estava com a directa da ultima noite do Rohatsu em cima, naturalmente adormeci durante a sessao. Sai de la completamente derreado! Mal conseguia andar de bicicleta, rumo a biblioteca. Depois, enquanto estava a enviar uns e-mails, o meu estado fisico foi piorando. Quando dei por mim, estava completamente torto na cadeira, torcendo-me com dores nas costas, sentindo-me sem energia e com o rosto a ferver, talvez com febre. Passei as passas do Algarve em frente ao computador. Depois foi passando e quando regressei ao templo estava a sentir-me alegre e bem disposto fisica e mentalmente. O S___ avisou-me que a acupunctura funciona assim. Faz descer a energia para depois a fazer subir novamente ao seu nivel normal.
 
..Dre
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Published in: on 23/12/2006 at 5:54  Deixe um Comentário  

Diarios de Sogenji – VII (22 a 29 de Novembro)

 
2006, Novembro 22
 
     Hoje foi um dia livre, terminado o Osesshin. Aproveitei para ir a uma sessao de acupunctura. Mil yenes (6 euros) por meia hora e ainda direito a uns biscoitos no fim. O dinheiro e mesmo so para pagar as agulhas. Foi estranho. No inicio tive uma especie de ligeiro ataque de panico, por causa das agulhas. O coracao comecou a bater mais depressa… Mas mal se sentem as picadas, nao doi nada; depois e so relaxar, sentir o calor emanado da marquesa e de uma luz vermelha apontada para o corpo.
 
2006, Novembro 23
 
     Hoje foi uma manha de trabalho arduo! Carregar troncos e ramos pesados, ravina acima, ravina abaixo. Foi "puxadote". Mas quando ia levar os troncos para o local onde iam ser cortados, vi varias vezes uma pomba a esvoacar graciosamente, embora apressada, com um raminhos no bico. Afinal nao era so eu que estava a trabalhar forte e feio. A pequena pomba tambem. Toda a natureza estaria a trabalhar. Sempre em movimento… As arvores a esforcarem-se para deixar cair as folhas todas antes do inverno chegar, as chuvas a dar os primeiros sinais de agua… Sempre a natureza a mudar, a girar. Arvores despem-se para se voltarem a vestir de verde; os cumes brancos das montanhas perdem o seu branco para voltar a recupera-lo no ano seguinte. O movimento perpetuo, o ciclo da vida. Mas porque este movimento? Porque este processo continuo, eterno? Porque nao apenas o silencio e o vazio?
 
     Hoje foi tambem dia de raspanete a valer, depois de almoco. Ha umas semanas, foi dado a mim e ao S___ 3 papeis escritos em Japones, por causa do nosso visto cultural – para podermos ficar 1 ano no Japao. Nenhum de nos se recorda de quem nos deu os papeis. Eu pensava que ele mos tinha dado; ele pensava que eu lhos tinha dado. Na altura, achamos por bem guardar os papeis num sitio seguro e aguardar instrucoes.
     De manha, a C___ puxou as orelhas ao S___. No almoco ele avisou-me que estavamos tramados. Ja estava preparado. Depois ela veio ter comigo e disse: "Andre, consegues-me explicar como e que papeis guardados numa gaveta se transformam num visto? Diz-me, porque nao consigo perceber. Tu nao tens 12 anos, es um rapaz crescido, tu e o S___, como foram capazes de fazer isto? Estavas tao preocupado com as tuas financas, mas agora corres o risco de ter de ir a Coreia! Nao es atrasado mental, funcionas bem, nao pensaste que devias ter feito alguma coisa com os papeis? Nao podias ter perguntado a alguem? O Roshi esforca-se por vos dar o visto e e assim que agradecem? A vida nao e assim, meu querido".
     E pronto. Toda a minha vida nunca soube como lidar com raspanetes. Ficava sempre "de trombas", amuado. Mas talvez por estar a espera, este nao me afectou muito. Mas ela foi mesmo dura. Acho que deve ter exagerado um bocado, para incluir isso no meu treino!
 
     Depois de jantar, fui dar uma voltinha por um dos cemiterios do templo – onde alguns mestres do passado estao sepultados. Procurava um lugar solitario onde meditar 1 dia destes. O sol estava a por-se e a penumbra invadia o local. Estava sozinho; o silencio reinava, abrindo excepcao apenas aos sons vindos da floresta. De repente, ouvi uma voz estranha, um misto de murmurio e exclamacao. Dei um salto! Um arrepio de medo correu-me por todo o corpo. Fiquei gelado. Olhei para todos os lados: ninguem! Tive a certeza que um espirito tinha soltado semelhante som. Olhei de novo em redor e vi os joelhos de alguem a espreitar por detras de um portao. Vi tambem a ponta de um livro, 2 palmos mais acima., Alguem sentado junto a uma sepultura recitava sutras, acentuando certas palavras. Uma delas pregou-me um susto de morte. Pisguei-me rapidamente! Ufa!
 
2006, Novembro 24
 
     Um dos praticantes mais antigos aqui do templo (20 anos aqui passados) foi expulso. Parece que o tal episodio de violencia passou-se com ele. Ja nao tinha sido o primeiro incidente com ele. Agora tomaram medidas drasticas.
 
2006, Novembro 25
 
     O meu sentimento por ti continua forte como uma montanha, estavel como uma montanha, grande como uma montanha. As vezes e dificil percorrer este caminho com uma montanha tao grande as costas!
     Tambem da familia e amigos continuo a ter muitas saudades; continuo dividido. Tenho um pe de cada lado do mundo; o coracao pendurado no meio! A minha pratica vai muito irregular, mas o saldo acredito ser negativo. Estou sem forca, sem determinacao. A mente vence-me em cada batalha. Conseguirei eu vencer esta guerra? As vezes penso que nao tenho nem a forca nem sequer a vontade para percorrer este Caminho. Apetece-me voltar para casa, abracar as pessoas que amo, divertir-me com aqueles que mais adoro, comer bolachinhas molhadas no leite quente nas noites frias de Inverno. Quero a minha cama, a minha musica, a minha paz… Quero o meu mundo, quero a minha seguranca. Tenho medo. Medo do presente, muito medo do futuro. As vezes sinto-me completamente a deriva, um farrapo espiritual ao vento da vida – esse jogo cosmico cujas regras continuo a desconhecer por completo.
     Choro ao ver a minha propria tristeza derramada nestas paginas. Sinto-me um falhado. Sinto-me a vergonha do mundo.
 
     Hoje a Mafalda Veiga destronou a Margarida Pinto no radio que toca quase constantemente na minha cabeca. Dizia-me ela:

 
Em qualquer lado
Onde quer que eu vá
Levo no corpo o desejo
De te abraçar

Em toda a parte

Onde quer que o sonho me leve

Hei-de lembrar-me de ti
 
     Tudo por causa de ti, crianca azul.
     Vesti finalmente as tuas meias ha uns dias atras. Ainda tinham o teu cheiro. Agora ja nao! Agora ja so cheiram ao meu chule!
 
2006, Novembro 26
 
     "Parabens a voce, nesta data querida…" Parabens a mim – faz hoje 1 mes que para Sogenji vim!
 
     Sanzen de hoje: "Sem pausas, sem quebras, sem espacos. Se permitires espacos (na tua concentracao na respiracao) e ai que os pensamentos inuteis surgem". Ontem disse-me: "Continua a expirar completamente, a expirar completamente. Obviamente, a questao nao e a expiracao, mas sim o cortar com a mente conversadora".
     Agora mesmo, hoje a noite, baldei-me ao Yaza e fui antes a "7 Eleven" comprar um pacote de chocolates. Virei 12 bombons em 90 segundos. Estava a precisar da minha dose. Foi para comemorar o 1o mes!
     Amanha comeco o Takuatsu.
 
2006, Novembro 27 
 
     E la fomos nos em Takuatsu – a mendicidade religiosa. Vestimos umas roupagens especiais, colocamos uns chapeus tipo "tigela invertida" na cabeca, uma corda grossa emrolada aos nos a volta da cintura e umas sandalias feitas de cordel. Partimos em fila indiana, embora em ruas japonesas, pedindo esmola a porta das casas e das lojas que encontramos pelo caminho. O Takuatsu comecou muito mal para mim. Vestimo-nos muito a pressa – como tantas coisas feitas aqui em Sogenji – e eu nao apertei bem as minhas sandalias; nao atei bem o cordel em redor do tornozelo. Resultado? Quando estavamos a ir para a paragem do autocarro, a sandalia esquerda comecou a soltar-se! Que stresse! O grupo a afastar-se e eu a ficar para tras – o que nao e nada bom, quando algo e tao ritualizado e formal. Felizmente, o universo esteve do meu lado, como sempre (mesmo que por vezes nao o sinta), e um dos "colegas" deu-me uma ajuda preciosa. Pedi ao meu Eu Superior para me ajudar tambem e a partir dai  foi sempre a andar. Caminhamos a bom ritmo, entoando um continuo "ooohhh!", fazemos uma venia a porta das lojas ou das casas, ficamos ali alguns segundos, entoando o mesmo "mantra" e, se ninguem aparecer, fazemos outra venia e seguimos caminho. Se aparecer, fazemos outra venia, estendemos o saco das oferendas e entoamos um sutra, como forma de agradecimento. Com uma venia final retomamos a marcha.
     Foi giro "passear" pelas ruas de Okayama, com mais 15 manos, todos a entoar o mesmo "ooohhh". Foi engracado pedir esmola junto de lojas como a Gucci, Prada ou a Channel.
 
2006, Novembro 28
 
     No Sanzen de hoje de manha o Roshi disse: "De pe, a andar ou a fazer Zazen… A recitar sutras, a comer a refeicao… Continua. Continua. CONTINUA!"Hoje fui o segundo a chegar a "sala de espera" do Sanzen. E nem precisei de correr sem chinelos – o que e mais doloroso, mas mais rapido.
     Ontem a noite o Roshi disse: " Facas o que fizeres, nunca percas este momento de mente ("mind moment"). Tudo o que existe e este momento de mente. Nao o facas com a cabeca, fa-lo com o Tanden", exclamou ele, batendo na sua propria barriga!
     "Parabens a voce, nesta data querida…" Desta vez os meus parabens vao para o meu grande amigo D___, um grande fan do Japao! Depois de amanha envio-te um e-mail, tenho um dia livre. Hoje fica anotado aqui – e no meu coracao! =) Que tenhas um dia muito feliz.
 
2006, Novembro 29
 
     Sanzen: O mestre perguntou-me: "Como e que esta a ir (a pratica)?" Nao estava nada a espera da pergunta, mais uma vez. Meio a toa respondi: "Bem. Acho que esta a ficar mais forte, o Tanden, embora devagar". Ele soltou um "hhmmm…", mais rosnado que murmurado, como que pensando "Devagar? Muiitoo devagar!!" e disse: Tens que te tornar nessa respiracao completamente. Concentra-te totalmente numa respiracao, depois na outra a seguir. Entre as respiracoes nao cries buracos, nao deixes espacos, senao nunca conseguiras atingir o samadhi".
     Voltei para o meu lugar determinado a tornar-me na respiracao, tanto na tentativa de alcancar esse tal fulano chamado Samadhi, como para ver se nao desiludo o Roshi – aquele "hhmm" parecia um suspiro de quem dizia "Estou aqui a perder tempo com este badameco!" De volta ao meu assento, pronto a acelerar rumo ao Samadhi, a meditacao estava a correr bem quando se ouviu o "ting, tac, tac!" da sineta e dos "clappers" utilizados na meditacao. De seguida, o Roshi disse: "Sarei!" Sarei e o chazinho e o docinho de final de dia durante os retiros. E pronto. Eu estava gelado e esfomeado; com um cha quente e um bolinho delicioso la se foi a meditacao. A partir dai qual respiracao qual que! So pensava em comer! Resultado? Terminado o curto Zazen pos-sarei, la fui eu sorrateiramente a "7 Eleven" (onde encontrei outros 2 malandros de Sogenji) comprar chocolates. Mamei uma tabelete e cerca de 8 ou 9 palitos" de chocolate num quarto de hora. Sinto-me um "drogado". Estou realmente a querer compensar alguma coisa. So espero nao me tornar num frequentador assiduo da "7 Eleven" em horario "pos-laboral". Aquilo pode tornar-se no meu "casal ventoso", mas em vez de heroina, "injecto" acucar no meu corpo!
 
..Dre
Published in: on 22/12/2006 at 6:16  Deixe um Comentário  

Diarios de Sogenji – VI (Horarios nos diferentes retiros)

 
Dias normais:
 
3H40 – Acordar
4H – Choka
5H – Zazen (com Sanzen)
7H – Pequeno-almoco
7H30 – Trabalho
13H – Almoco
14H – Tempo livre
17H – Jantar (opcional)
18H30 – Zazen
 
Kosesshin (pequeno retiro):
 
3H40 – Acordar
4H – Choka
5H – Zazen (com Sanzen)
7H – Pequeno-almoco
7H30 – Trabalho
13H – Almoco
14H – Tempo livre
16H – Jantar (opcional)
17H – Zazen (com Sanzen)
21H – Yaza (opconal)
 
Osesshin (grande retiro):
 
3H40 – Acordar
4H – Choka
5H – Zazen (com Sanzen)
7H – Pequeno-almoco
7H30 – Trabalho
8H – Pausa
8H30 – Zazen
9H – Teisho
10H30 – Zazen
13H – Almoco (seguido de curto Zazen)
13H50 – Tempo livre
15H – Zazen (com Sanzen)
16H30 – Jantar (opcional)
17H – Zazen (com longo Kinhin e Sanzen)
21H – Yaza
 
Rohatsu Osesshin (retiro de Dezembro celebrando o Despertar do Buda):
 
Em tudo igual a um Osesshin normal, com as seguintes excepcoes:
– Cinco Sanzen por dia e 4 sarei (ao inves dos 3 habituais em Osesshins);
– Uma hora extra de meditacao antes do Yaza (o Yaza passa assim para as 22H);
– Na ultima noite do retiro faz-se uma "directa" ate as 8H da manha do dia seguinte;
– Nao existe pausa para jantar, nem pausa matinal.
 
..Dre
Published in: on 22/12/2006 at 4:37  Comments (1)  

Diarios de Sogenji – V (16 a 21 de Novembro)

 
2006, Novembro 16
 
     Depois de um dia e meio de Osesshin veio-me a musica dos Guano Apes a cabeca: "Trapped in yourself, break out instead. Beat that machine that works in your head!" Argh!, maldita maquina que "tic-ataca" na minha cabeca. Apenas um dia e meio e ja estou a ficardoido! Parece um tacho a estalar pipocas. Salta tudo, a todo o momento: imagens bizarras, ridiculas, musicas do "arco da velha" e todo o tipo de coisas sem sentido. Este meu subconsciente parece um sotao cheio de lixo e passado, inabitado ha mais de 10 mil anos!
     No primeiro dia estava cheio de energia, a concentracao estava forte. Ao final do dia comecou a fraquejar. Hoje a minha mente parece uma folha de uma arvore num dia ventoso de Outono. Nao consigo respirar sem a interferencia da minha mente por mais de 30 segundos. Irra, apetece-me dar-me chapadas, bater com a cabeca nas paredes. Maldito "eu" que habita em mim. Maldita nocao individualista de existencia. Tu nao es real, Ego! Desaparece e deixa-me afundar na minha Mente Original, no meu "Eu" Universal.
 
     O Sanzen tem sido uma ajuda, apesar de tudo. Fui duas vezes sem traducao. O Roshi limitou-se a respirar sonoramente, a rosnar algo em japones e a apontar veementemente para o seu proprio Tanden. Quando fui com traducao, a ideia foi a mesma: "No gaps, no interruption on your counting… The Tanden is like a fire… You can die, but your breathing can’t. When your Tanden is full of energy, it will overflow to the outside, on everything you do. But now, you have to go from the inside…"
     O Teisho tambem tem sido inspirador, embora a minha energia esteja nas lonas. O Roshi tenta puxar por nos, mas acho que muitos poucos tem a forca para se deixar ir… Vamos ver.
     O meu joelho esquerdo esquerdo esta quase pronto para o caixote de lixo. Se nao melhorar, vou ter que me sentar a velhote: estilo cadeira!=/ Let us see.
     No Sanzen da tarde, sem traducao, o Roshi voltou a rosnar algo em japones, enquanto respirava muito lentamente, deixando fugir um suspiro continuo dos seus labios. Depois percebi, mais uma vez, que talvez nao fosse japones. Ele tinha dito "slow!" Estava a mostrar-me como devia respirar (principalmente a expiracao, longa e lenta). Resolvi experimentar essa forma de respirar. E nao e que "resulta"? Traz-me calma, desperta e fortalece o meu Tanden.
     Durante um dos periodos de Zazen tive uma especie de mini experiencia "mistica". Estava com uma dor desgracada nas costas. Uma dor alucinante. Decidi concentrar-me na dor a 100% – e doeu imenso. Entretanto, e creio nao ter tido nada a ver com essa concentracao da minha parte, a dor desapareceu por completo. Nem um vestigio dela. Senti-me super leve e a mente ficou tambem num estado de extrema suavidade e silencio. Porem, durou 2 ou 3 segundos. Depois voltou tudo! Mas esses segundos bastaram para me tocar la bem no fundo. Se durante 2 segundos me senti leve e livre, sei que posso tornar esse estado permanente.
 
2006, Novembro 17
 
     Hoje, no Teisho, o Roshi dise uma coisa que me marcou muito. Disse que se um aluno nao superar o seu mestre, os ensinamentos deste estao destinados a decair. Dise que, se assim for, o Dharma esta destinado a extinguir-se! Que sera entao dos nossos descendentes? Como sera a vida das futuras geracoes, sem um caminho de Libertacao? Ele diz que as escrituras nao sao suficientes. E preciso um Dharma vivo. Um mestre vivo, para passar o ensinamento de "alma a alma". Questionou-os se e na preservacao da Verdade e do caminho que leva ate ela que pensamos quando nos sentamos em meditacao, ou se e apenas um sentar baseado nas ideias do nosso pequeno "eu". Pensamos nas geracoes que nos seguirao, ou e um sentar vazio e inutil?
     Isto tocou-me imenso. No Zazen seguinte varias coisas aconteceram. Levei com o Keisaku e deixei as palavras do Roshi tocar no meu fundo. Senti o sofrimento das geracoes que sofreram antes de mim e daqueles que poderao sofrer no futuro, principalmente sem um caminho espiritual a seguir. As lagrimas cairam-me pelo rosto abaixo. Tive que segurar as emocoes para nao solucar numa sala com mais 30 pessoas. Que faco eu sentado no meu banquinho de meditacao? Sera que e nas geracoes futuras que penso quando desperdico o meu Zazen com pensamentos inuteis e nefastos? Estarei MESMO a tentar alcancar a minha Mente Original e preservar o ensinamento do Buda, o Desperto? Se morrer sem encontrar a minha verdadeira natureza, que terei para oferecer aos meus filhos e netos e a todos os que vierem depois de mim?
     Consequencia desta realizacao ou nao, as sessoes de Zazen seguintes foram brutais… Tomei em consideracao as instrucoes do mestre em relacao a expiracao. Respirei lenta, mas muito profundamente. Contei cada respiracao atentamente, nao criei espacos na minha mente para pensamentos inuteis. Expirei repetidamente e de forma veemente para o meu Tanden. Este comecou a encher-se de energia. A energia subiu e subiu e continuou a subir. Estava a "rebentar pelas costuras". Sentia-me vivo e cheio de poder. Sentia-me cheio de forca. Apetecia-me deitar paredes abaixo, sentia-me "com a forca de mil homens"! Sentia que se gritasse com garra, o chao tremeria. Mas havia ego nesta forca, nesta excitacao criada por tanta energia. No Kinhin apetecia-me correr mais que os outros, atropelar toda a gente. Era como o nascer do sol: a Luz espreita, mas as Trevas ainda reinam no mundo. A mente ficou mais estavel, menos pensamentos brotaram, mas ela continuava la, a tentar enfiar-se na minha cabeca, controlar-me.
     Agora tudo passou. Voltei a ser um mero "humano". Mas a procissao ainda vai no adro. Vamos aguardar!
 
     Aguardei mas a energia desapareceu por completo. A mente voltou a tomar conta da situacao. Acabei o dia deprimido.
     No Sanzen o Roshi dise: "Kill it, kill it, kill it! Kill the small self. Zazen is not a practice to learn how to do anything. It’s a practice to kill yourself completely. We hang around with our small selves, creating confusion, conflicts and problems… Susokkan is a practice to do 24 hours a day. Kill yourself completely!"
     Numa outra ocasiao a C___ perguntou: "How’s your breathing?". "Uh, I don’t know", gaguejei eu. Ela continuou: "Are you exhalng completely?". "Yes", respondi. "From the Tanden?". "Yes". "Perfect!", fechou ela. Acho que isto resume muito bem a pratica aqui em Sogenji.
 
     Uma outra musica "Zen" que me veio a cabeca, mesmo antes de comecar mais uma sessao de Zazen. O Jamiroquai disse uma vez: "Future’s made of virtual insanity… Virtual insanity that we’re living in." Grande verdade. Para que o futuro? Porque nao viver agora? Por vezes e dificil…
 
2006, Novembro 18
 
     Mais um grande Teisho hoje! O Roshi puxa mesmo por nos: "o Zen nao e para brincar, o Zazen nao e um passatempo. Se nos sentamos no Zendo de animo leve, sem determinacao, isso e um problema!"
     Hoje no Sanzen o Roshi olhou-me nos olhos pela @rimeira vez. Foi estranho! Nao desviou o olhar por um segundo. Eu olhava apenas intermitentemente. Ele tem uma personalidade muito forte. Disse-me: "Never do Zazen with your eyes closed. People who do Zazen with their eyes closed are useless to the world. Have you ever seen a Daruma Daichi (Bodai Daruma "Daichi", o fundador historico do Zen que viveu no seculo VI d.C.) with his eyes closed? Zen masters always have their eyes wide open. Do Zazen like that. Zen is about being fully in the real world, with eyes fully open. People who close their eyes live in two different worlds."
     A minha pratica aqui e mesmo irregular. Tao depressa penso "Que estou eu aqui a fazer? Nunca hei-de chegar a lado nenhum", como penso "Isto esta a correr muito bem agora! Sinto-me nas nuvens! Vou ficar aqui para sempre!"
     A espera para o Sanzen da noite, estive a aguardar a minha vez durante talvez 1H30. Sempre de pe, uma grande parte do tempo totalmente imovel. Foi bom, mas quando teitei mexer as pernas e os pes, pois estava quase na minha vez, eles estavam completamente paralizados. Tinha criado raizes e encontrava-me "enterrado" pelo chao abaixo. Ser arvore nao e facil, mas foi bom.
     E uma espera tao longa para que? Para ouvir uma so palavra do Roshi, embora dita 2 vezes. Enquanto esperava, tinha colocado uma pergunta na minha mente, na certeza de que o mestre a ouviria telepaticamente. Ajoelhei-me de frente para o Roshi e respirei o melhor que sabia, lenta, consciente e profundamente. Depois lembrei-me a questao novamente, na minha cabeca: "How should I breathe?". Passados poucos segundos ele disse: "Continue… Continue."
     E pimba! Uma hora e meia de "arvorificacao" lenta para ouvir isto. Sera que valeu a pena? Valeu, sem sombra de duvidas! Aquelas palavras bateram-me forte e fundo! Fiquei muito contente. De certa forma, senti que ele estava a dizer para continuar o que tenho feito, senti que algum efeito a minha fraca pratica estaria a ter. A minha pergunta foi respondida. Como devo respirar? Como o tenho feito, e o que sinto. Mesmo que nao esteja a faze-lo ainda bem, como disse a C___, "o Zendo e um laboratorio. Deixa que o teu Zazen te mostre o caminho a seguir". E sei que e isso que esta a acontecer.
 
     A cada dia que passa admiro e confio cada vez mais neste mestre chamado Shodo Harada Roshi. Nao ha duvidas, ele e um Buda (alguem que "despertou" totalmente), um Bodhisattva, um verdadeiro mestre realizado. Ele sabe tudo. Aquela respiracao sonora no Sanzen, os olhos semi-cerrados, aquele ambiente repleto de penumbras misteriosas, navegado por odores de incenso perfumado… Ele sabe!
 
     Hoje tomei finalmente o tradicional banho japones. Ou seja, 4 homens peludos e feiosos dentro da mesma banheira ( e nao, a banheira nao e assim tao grande)! Mas calma, pois quando saltamos para o banho colectivo ja tomamos o banho ca fora, com duches normais ou com alguidares de agua quente retirada da dita banheira. Numa agua a 44 graus C., e quase impossivel, pelo menos para mim, entrar. Mas que relxante, estupendo. Num Japao tao frio, um banho destes vem mesmo a calhar!
 
2006, Novembro 19
 
     Hoje ao almoco passou-se algo de estranho (sem contar com o facto de termos tido direito a uma especie de Donuts divinais!)… A C___, depois de terminada a refeicao, disse: "Qualquer tipo de violencia fisica nao sera tolerada em Sogenji. Isso demonstra um desrespeito total pelo Roshi e pelos ensinamentos do Buda. Quem entrar nesse tipo de comportamentos, seja qual for a razao, sera de imediato levado ao Roshi e a possibilidade de expulsao do templo sera seriamente considerada. Aproximam-se 3 importantes retiros, isto e um local de treino…" Parece que ja houve molho!
     Apesar de duras, estas palavras acalmaram uma parte de mim que estranhava certos acontecimentos passados em Sogenji. Contaram-me que ja por varias vezes as pessoas passaram a "vias de facto" e que um dos praticantes mais antigos do templo (note-se bem, sao 20 anos de treino!) agrediu por 3 vezes uma outra praticante. Alem disso, a cena de quase agressao a que eu proprio assisti ha dias comprova que algumas pessoas andam com os nervos a "flor da pele".
     Pelo menos agora fiquei a saber que os responsaveis pelo mosteiro nao compactuam nem fecham os olhos perante este tipo de ocorrencias.
 
     Veio-me um poema a cabeca no inicio de um periodo de Zazen. Faco tudo menos meditar!! "Portas em todas as janelas, ja nem sei por onde entrar. Sai pela entrada, espero nunca mais voltar. Olhos bem abertos no escuro, olhos fechados na luminosidade estranha desta noite fria onde o sol brilha a direito sobre mim". Palavras estranhas, nascidas ao "som" de uma musica de Margarida Pinto.
 
     No Sanzen o Roshi dedicou-me apenas 2 palavras: "Don’t stop!" Vieram mesmo a calhar, porque a dois dias do fim do Osesshin ja estava a querer baixar os bracos; a minha concentracao/mente esta um bocado esgotada. Mas vamos tentar aproveitar o tempo que resta.
 
2006, Novembro 20
    
     O Yaza e uma parte interessante do Osesshin. Meditar na rua e a noite e muito bonito e inspirador. E como podemos agasalharmo-nos a vontade, o frio nao incomoda. E giro ver toda a gente a vir com os seus tapetes de "tatami", os seus cobertores, os seus gorros e cachecois, etc. Sentamo-nos em redor do Hondo ou do Kyoso – um edificio com algumas reliquias la dentro, incluindo pecas protegidas pela Unesco e textos de sutras com mais de 100 anos.
     Porem, uma das partes mais interessantes do Yaza e o seu final. O Roshi passa por nos, para confirmar que ninguem se baldou! Vem com os seus passos decididos, mas serenos, com o seu caminhar "sui generis" e com um pauzinho de incenso a fumegar na mao. No meio da escuridao da noite, a pequena "luz" vermelha do incenso avistada ao longe, acompanhada pelo som de passos, e sinal que o mestre vem a caminho. Por vezes sente-se o cheiro do incenso no ar. E bom! =)  A partir daqui, cabe a cada um decidir se quer continuar a meditar (ou dormitar) debaixo de um tapete de estrelas brilhantes ou se prefere ir dormir para os lencois.
 
2006, Novembro 21
 
     O ultimo dia do Osesshin! Yuppi!! Sabe bem ver a luz ao fundo do tunel a brilhar cada vez mais forte. Claro que este tipo de retiros nao e suposto ser uma tortura, mas sim uma oportunidade optima de crescimento. Porem, e bom saber que vamos ter quase duas semanas para abrandar o ritmo antes de comecar o para ja assustador Rohatsu Osesshin.
     Nao me sinto muito diferente, apesar destes 7 dias intensivos de meditacao. Tambem estou quase a completar o meu primeiro mes, e nao acho que a minha pratica tenha evoluido muito. Ainda assim, o meu Zazen tem me levado, gradual e lentamente, a locais cada vez mais profundos dentro de mim. Pelo menos e a minha precepcao. Mas a mente e matreira e para ja a minha meditacao anda muito irregular: optimo Zazen, pessimo Zazen.
     Mas uma coisa e certa: quando vejo o Roshi, quando oico as suas palavras e quando o Zazen "vale a pena", ai sinto que "a alma nao e pequena", e que este e um dos melhores caminhos para a tornar cada vez maior! Claro que apesar de reflectir a luz mais pura, a te a lua tem o seu lado negro. Vamos ver como vai "evoluir" o meu!
 
     E pronto! Acabou o Osesshin! Bolos no final, paparoca, a malta toda feliz e contente, recebi dois abracos e tudo! Mas mais importante foi a mensagem do Roshi. Este foi o Osesshin de preparacao para o Rohatsu! Para esse retiro o mestre pede que estejamos prontos para morrer pela Realizacao, se for preciso. Este e o retiro que festeja e marca a data do despertar do Buda (8 de Dezembro). Mas se nao tivermos como objectivo obter a mesma realizacao fundamental que o Buda alcancou, este retiro nao tera qualquer significado. Sera desprovido de sabor ou essencia, como "uma cerveja bebida 2 horas depois de ter sido tirada" – palavras do Roshi.
     Como ja estava a espera, e nos pedido que nao nos deitemos para dormir, para dormirmos na posicao sentada. Ja estive a estudar a situacao. Basta encostar-me a um poste, atar a cabeca ao mesmo para ela nao cair ao adormecer e nao magoar as costas, e esta feito. Enlightenment, here I come!! Bodhi svaha!!
     No Sanzen, o Roshi perguntou-me: What’s your state of mind?" Nao estava a espera da pergunta. Pensei um pouco. Respondi: "Confused…." A C___, a tradutora, perguntou: "Confused?. Acrescentei: "Confused… Up and down in the practice". O Roshi responde: "We all go through tha. There are always things outside of us that we don’t like and we are always trying to change it outside. Nevertheless, is nside that we must change and it’s on that we must work creatively".
 
     Os meus pensamentos ainda foge para a I___ varias vezes, sinto nostalgia pelo que deixei em Portugal. Penso no futuro, penso no pssado, penso muito, sinto muito. Tambem penso na A___ e em toda  situacao envolvente.
     Penso muito no futuro, que sera da minha vida quando sair de Sogenji, que sera de mim e da I__, de mim e da A___, de mim e do meu futuro "profissional", bla, bla, bla…
 
Dre
Published in: on 01/12/2006 at 5:47  Deixe um Comentário