Diarios de Sogenji – XIV (26 de Fevereiro a 26 de Marco)

 
2007, Fevereiro 26
 
     Recebi mais uma cartinha, desta feita da mae mais bonita do mundo. Realmente estou rodeado das pessoas mais maravilhosas. Obrigado!!
 
2007, Marco 2
 
     No Sanzen o Roshi disse algo do genero: "Estar sentado ai nessa auto-satisfacao (por acaso nao estava a correr mal a meditacao) nao serve para nada. Sentado no teu proprio egoismo, que mais valia trazes tu ao mundo?Que ajuda podes levar aos outros? Se te sentares com uma motivacao verdadeira e pura, a energia flui de dentro de ti para o exterior naturalmente. E isso que vejo em ti, essa energia, mas esta coberta por uma camada espessa de pensamentos dualistas".
     Acho que o meu Zazen (havera algo a que possa chamar de "meu" Zazen?) esta a melhorar, o que e bom para tentar aproveitar ao maximo o Osesshin que comeca ja dia 7, precisamente no aniversario da minha mana mais linda!
     As palavras do Roshi desanimaram-me um pouco, porque estava a correr bem o Zazen. Mas depois pensei "Quem e que esta aborrecido? Quem e que ficou frustrado? Fora com as ideias dualistas". Voltei logo a pergunta com a qual tenho estado a trabalhar: "Quem sou eu?"
 
2007, Marco 6
 
     No Sanzen nao percebi muito bem o inicio da traducao: "You’re (not?) being able of letting go (of ideas, thoughts). When walking just walk, when sitting just sit. No duality. If you allow duality, that’s a life of suffering. Just allow the life energy to manifest. There is only this!" Tocou a sineta e fiz a prostracao para sair. Quando ia a fazer a venia que se segue, ele acrescentou algo. Esperei pela traducao: "Don’t let go of it (this life energy)". Fiz a venia e ia para a segunda prostracao, ja quase fora da sala, quando acrescentou ainda "Even a child can do it, if she let go of the adult state of mind".
     Amanha comeca mais um Osesshin. Hoje foi a habitual cerimonia de abertura, chamada Osesshin Kokuho. Vendo o meu diario, no ultimo Osesshin, ha precisamente 31 dias atras, escrevi: "Mais 7 dias de meditacao intensiva, mas e a miha mente pergunta ‘Para que?’". Hoje o espirito e bem diferente e a minha mente pergunta "Quem sou eu?" .
     A tarde disse ao F___, entusiasmado: "Amanha a S___ faz anos. Vou-lhe ligar. Estou ansioso". Ele disse: "Amanha? Em Osesshin? Nao podes!" Eu resmungei e contra-argumentei um pouco; ele abafou-me dizendo: "Osesshin e para mandar tudo fora!"
     Decidi fazer isso e mandar "fora" varias coisas que iria fazer durante o Osesshin. Perdoa-me, S___. Vou-te buscar a reciclagem depois e ligo-te quando o retiro acabar.
     Antes do Kokuho fui ao atelier do Dairin. Depois, na despedida, ele desejou-me um bom sesshin e disse "Vemo-nos no outro lado, na outra margem". Ha 31 dias tambem escrevi algo sobre esta outra margem.
     Depois fui por um croissant com chocolate no cantinho do F___, pensando que ele nao estaria la. Apareci la e dei de caras com ele sentado sob a luz de uma pequena vela. Estava a preparar-se/mentalizar-se para o retiro. Trocamos umas palavras amigas, eu disse-lhe que ia mandar tudo fora como ele ‘exigiu’ e que ia comecar por ir a retrete. Depois sai.
     Senti e estou a sentir um clima muito diferente para este retiro. Parece que esta tudo um pouco em estagio. Antes do Kokuho senti-me nervoso, como que antes de uma importante actuacao (como se tivesse tido alguma). Arrumei a minha secretaria, pus as "imagens de sofrimento" bem a vista e preparei-me para o confronto. Espelho meu, espelho meu, diz-me, por favor, "Quem sou eu?"
    
2007, Marco 7    
 
     Parabens, mana princesa! Realmente, mesmo que hoje quisesse ligar-te nao devia dar. Estes Osesshins partem-me a cabeca toda – e os joelhos tambem!
     Mas espero que estejas a ter um dia feliz, que nao julgues que me esqueci de ti – isso seria esquecer uma das partes mais importantes de mim proprio. Fica um beijo grande. Adoro-te! Nao sei o que dizer mais… queimei os neuronios todos no Zazen.
 
2007, Marco 8
 
     A temperatura, que ja estava a ficar bem amena, caiu 10 graus ontem – e tem-se mantido assim. E para fazer lembrar o mes de Dezembro. Foste tu, mana, zangada por nao ter ligado?=P
 
2007, Marco 10
 
     Aiii… Senti a "outra margem" quase deste lado. No Zazen, fechei os olhos – contrariando as instrucoes do Roshi – e perscrutei, segundo a segundo, a minha mente. Os pensamentos surgiam e eu cortava-os logo, sem contemplacoes, com a espada do bodisatva Manjusri. Nenhum pensamento – apenas o olho da mente cravado na propria mente.
     Senti uma energia a surgir dentro de mim, principalmente na cabeca. Senti que estava quase "la". Com a mente completamente vazia (pelo menos assim eu achei), perfeitamente atenta a ela propria, que obstaculos poderia haver que a impedissem de constatar a sua verdadeira natureza? O medo surgiu.Algo em mim assustou-se. De cada vez que eu fincava a atencao na minha mente, algo parecia dizer "Deixa la isso. Isso e perigoso!" Tentei ignorar isto, mas acabei por perder a concentracao ao fim de algum tempo.
     Mas senti, de uma forma exttremamente forte, aquilo que sinto esporadicamente com menos intensidade: que algo dentro de mim esta quase a compreender alguma coisa, prestes a explodir num "Eureka" cosmico!
     No Sanzen seguinte relatei a minha experiencia ao Roshi. Ele focou-se essencialmente no medo que surgiu e, entre outras coisas, disse que "as pessoas focam-se no seu medo e nos problemas do mundo como se eles fossem a coisa real. O importante e manterem-se com ‘isto’." Afirmou, expirando lenta e profundamente.
 
2007, Marco 11 
 
     Parabens, S___ M___!! Tenho saudades tuas e da A___! Que pena termo-nos afastado… Tem um dias maravilhoso! Saudades de nos no Iscte…
     Hoje lembrei-me de uma musica dos Tool (que saudades tambem!) que tem uma letra bastante espiritual (que raio quer isto dizer?!). Chama-se "Reflection":

So crucify the ego, before it’s far too late
To leave behind this place so negative and blind and cynical,
And you will come to find that we are all one mind
Capable of all that’s imagined and all conceivable.
Just let the light touch you
And let the words spill through
And let them pass right through
Bringing out our hope and reason …
Before we pine away.

 
     Estava tambem preocupado com o que ia cozinhar no ultimo dia do Osesshin, embora nao tenha pensado tanto nisso como no dia anterior. E um dos pontos de referencia da minha pratica: o quanto me consigo desprender da tendencia para me preocupar com os meus dias como cozinheiro, que nao envolvem apenas cozinhar, mas tambem atender o telefone – em Japones (Moshi, moshi! Sogenji desu!) – e receber as pessoas que vem oferecer ou entregar coisas ao templo – tambem em Japones, o que por vezes e complicado de gerir. Mas em relacao a isso, a minha pratica e "Que se f#&$!!". Anyway, estava a pensar no que cozinhar, quando a C___ me perguntou o que queria eu para o meu dia de Tenzo, que ela comprava (por ser o ultimo dia do retiro). Eu disse, feliz: "Batatas!" Alem disso, tivemos uns pudins gostosoes! Da vontade de dizer: "Abre as maos e relaxa – a vida oferece".
 
2007, Marco 12
 
     Um destes dias lembrei-me do album dos Live que recebi no Natal de 1996 – o primeiro ano em que recebi cd’s. Para referencia, este e para mim tambem um dos melhores albuns de rock que conheco (Live – Throwing Copper). Lembrei-me disto, em pleno zazen, porque o album seguinte dos mesmos meninos (que nao e tao bom, na minha opiniao) chama-se "Secret Samadhi" – sendo este "samadhi" uma palavra varias vezes ouvida aqui no templo. E pronto, fiquei nostalgico, a ter pensamentos dignos de um velho: "Xii, 1996, ha mais de 10 anos. Deixa ver, tinha os meus 13/14 anos, estava ainda na (4a classe!) secundaria da Povoa, cheio de sonhos e esperanca, cheio de vontade de ser vocalista de uma banda (adoro cantar, embora acerte sempre nos tons errados – mas cheguei a ter um album completo composto na minha cabeca). Enfim, um jovem cheio de vida e forca para viver". Quando olho para o panorama da minha vida nos ultimos meses (serao ja anos?) nao posso deixar de me perguntar "onde foi parar essa esperanca e vontade de sonhar?". As vezes penso que esta pratica Zen esta a deixar-me deprimido. Bem, nao penso, tenho a certeza, pois tem sido essa a minha experiencia nos ultimos 5 meses. Pela primeira vez, acho que estou a sofrer daquilo que tantas almas sofrem nestes "gloriosos" tempos modernos: depressao.
     Nao sei se perder a esperanca nao sera bom. Pelo menos no "Clube de Combate", esse filme tao Zen (muitos nao sonhariam), diz-se "Loosing all hope was freedom". Em ultima analise, a esperanca e apenas uma manifestacao cor-de-rosa da sempre negra tendencia do ego para se focar no futuro. Se nao me engano, a palavra "esperanca" deve derivar da palavra "espera" e, como diz "O Pensador", "Quem espera nunca alcanca", pois quem espera nao esta vivo, ja que esta a espera que a vida assuma uma determinada forma no futuro – "Estou a espera. Estou na fila para a felicidade". O proprio Eckhart Tolle disse para eliminarmos a espera enquanto postura mental ou atitude perante a vida.
     Mas acho que esta minha perda de esperanca nao e assim tao positiva. O futuro na minha cabeca assume sempre formas assustadoras e acho que a palavra "sonhar" desapareceu do meu coracao… Um dia escrevi "Quem sonha voa alto; quem nao sonha perdeu as asas". Onde se meteram essas asas? Acho que atei as minhas asas de sonhar com correntes de medo.
     Ate me envergonho ao pensar em todos os livros espirituais que ja li, nos proprios textos que escrevi, esperancosos e luminosos, nos workshops que frequentei e nos anos razoaveis  a que ja me dedico com algm afinco a esta jornada interior. Pensar nisso e ver onde me encontro agora, psicologica e emocionalmente, e como ver um doutorado em Matematica incapaz de contar feijoes dentro de uma sacola. Da vontade de dizer "Conta pelos dedos, man!"
     Da-me vontade de gritar, como nos filmes, "Liberdade ou morte". Quero ser livre, mas nao consigo e as vezes sonho com uma bala no centro do cranio. Estou tao cansado de ser eu proprio, sempre comigo as costas… Morre, por favor, (fantasma psicologico chamado) "Andre"!
     Este passado e este futuro, que nao existem, pesam como montanhas de chumbo. Arrastando estes pensamentos e emocoes diariamente, sinto-me como uma crianca de colo a gatinhar atada com uma corda a um Boing 747 (e nao, nao e o concurso "Homem de Ferro"). Se este aviao nao levantar voo, ao menos que se lance no fundo do mar.
     Escrevo estas palavras enquanto oico os DAD (quem mais?) a cantar "Here’s my heart, my hope is drowning". Bem, foi so um desabafo. Mas que estas palavras sirvam para quem as ler apagar da memoria que eu sei alguma coisa sobre espiritualidade. Sou como uma flor de lotus, maravilhosa vista de fora. Se olharmos a fundo, vemos que esta enterrada no lodo! Ouviste, S___?
 
2007, Marco 13 
 
     No cha que os Tenzo tem com o Roshi no dia em que estao de "servico", ele despediu-se de mim com um bem pronunciado "obrigado". Foi engracado e ate tocante. No final do dia, enquanto esperava por ele para irmos para o Zendo, ele agradeceu-me "thank you", ao que eu respondi, com uma venia e um gassho, "you’re welcome". Depois ele disse "obrigado", mais uma vez. Eu ri-me. Passados alguns segundos respondi "de nada". Passados alguns segundos ele riu-se tambem. Gosto de ti assim, Harada Roshi!
 
2007, Marco 17 
 
     Hoje lembrei-me de uma das minhas musicas preferidas de Pearl Jam – "Present Tense" -, que fala precisamente sobre algo que eu nao consigo fazer e que e a razao da minha vinda para o Japao:
 
You can spend your time alone redigesting past regrets.
Or you can come to terms and realize
you’re the only one who cannot forgive yourself.
Makes much more sense to live in the present tense.
    
     E precisamente o que nao tenho conseguido fazer – sempre assombrado pelos fastasmas do passado e, principalmente, do futuro (do condicional, ainda por cima).
     Logo a seguir cheguei a uma "triste" conclusao: o nome do meu blog, onde transcrevo este diario, tambem ele me recorda cabalmente esta minha incapacidade de viver plenamente cada "Encontro no Aqui-Agora". Devia mudar o nome para "Desencontro no Aqui-Agora" ou mesmo "Encontrao ao Aqui-Agora" (chega para la, nao quero nada contigo!).
 
2007, Marco 19
 
     Feliz dia, paizinho! Aqui o filhote hoje foi Tenzo. Mais um dia super cansativo, mas correu tudo bem!
     Agora ando a ouvir Damien Rice no Ipod do Frank. Tenho que aproveitar, porque ele esta quase a ir embora! =(  Mas realmente em Portugal nao me tinha apercebido da beleza (triste) das musicas do Damien. E um album mesmo bom. Deixa-me com os sentidos a flor da pele – cheio de alma, com tudo o que ela traz de bom e de mau. E uma mudanca radical – de DAD (este album) para Damien Rice -, mas uma boa mudanca. Por favor, oicam este album!=)  "And I look to my eskimo friend when I’m doooooowwn!" Sem palavras! Apenas um arrepio na espinha de cada vez que oico o final desta musica ("Eskimo").
 
2007, Marco 21
 
     Bem-vinda, Primavera! O teu sol sabe bem, depois de um Inverno gelado (nao tanto como o habitual, disseram-me), embora as pontas do dia ainda sejam frias.
     O mesmo passa-se dentro de mim. O sol parece querer surgir, mas, muitas vezes, sou ainda apanhado nas chuvas frias de Inverno. Todos os "guarda-chuvas" que tenho utilizado tem-se revelado pouco eficazes. So me resta aprender a viver encharcado ate aos ossos…
 
2007, Marco 23
 
     Hoje, durante o Niten Soji (limpezas matinais), quando varria um dos caminhos de Sogenji, o Roshi, que estava a meia duzia de metros, chamou "Andre". Eu olhei para ele; ele bateu com a mao dele na sua barriga, como quem diz "Tanden, nao te esquecas.
 
2007, Marco 24
 
     No cha com o Roshi ele perguntou-me "Como estao os teus pais?" "Estao bem", respondi. "Pelo menos na ultima vez que falei com eles". "Quando foi isso?" "Ha 3 semanas, talvez." "Eles vivem numa cidade grande?" "Sim, em Lisboa." Depois disse "Ah, porque tu es tao honesto", como se fosse uma especie de honestidade rural – contrastando com a esperteza citadina, talvez. Ja varias vezes ele me disse isso no Sanzen. Uma vez disse "Es uma pessoa honesta. E por isso que nao quero que percas o momento (presente)".
     Durante o cha tambem disse que eu, o R___ e o St___ formamos uma boa "equipa" – de espirito jovial. Depois, ao sair da sala do cha (Osetsuma), o Roshi despediu-me com um sorriso um pouco estranho. Parecia emanar um profundo amor – quase paternal -, mas ao mesmo tempo triste, como se soubesse que eu ja tinha tomado a decisao de abandonar Sogenji num futuro proximo. De qualquer forma, sai da sala com um sentimento de profundo amor e respeito pelo mestre. Tanto amor e respeito que, em conjugacao com uma conversa que tive com o F___ mais tarde nessa noite, decidi repensar a minha opcao. Vamos aguardar.
 
2007, Marco 26
 
      Hoje, dois dos meus melhores amigos foram embora – o J___ deve regressar dentro de 2 meses – vindo da Coreia -, mas o F___ so pensa regressar em Novembro – nessa altura ja devo estar por terras lusas.
     ONtem a C___ pos um gravador de cassetes no meu quarto (estou a pensar gravar os Sanzens – e quem sabe os Teishos). Juntamente deixou um pequeno papel com umas palavras atribuidas e utilizadas a Nelson Mandela, mas escritas por Marianne Williamson:
 
O nosso pior medo nao e sermos inadequados. O nosso medo mais profundo e sermos incomensuravelmente poderosos. E a nossa luz, nao as nossas trevas, que mais nos assusta. Perguntamo-nos a nos proprios "Quem sou eu para ser talentoso ou fabuloso?" Na verdade, quem e que tu nao es para o ser? Tu es um filho de Deus; fingires-te de pequeno nao serve o mundo. Nao ha nada de iluminado no acto de te encolheres de modo a que os outros nao se sintam seguros ao pe de ti. Nos nascemos para tornar manifesta a gloria de Deus dentro de nos. Nao esta apenas dentro de alguns de nos; esta em toda a gente. E ao deixarmos a nossa luz brilhar, inconscientemente damos permissao aos outros para fazer o mesmo. Ao sermos libertados do nosso proprio medo, a nossa presenca automaticamente liberta os outros".
 
     Desconfio que ela me deu os gravadores porque o F___ falou com ela – eu tinha lhe dito a ele na vespera precisamente que queria comprar um gravador. O papel com as bonitas palavras deve ter sido porque ele tambem lhe disse que eu estava "vai, nao vai…" para me pirar de Sogenji.
 
Dre
Published in: on 11/04/2007 at 8:28  Deixe um Comentário