O “eu” e as aparências

 
     Pensamentos, sentimentos e experiências continuarão a rodopiar através da consciência enquanto houver um corpo presente e intacto. Da perspectiva da consciência não-conceptual (a tua natureza inata), a manifestação das aparências é inconsequente, tal como o céu mantém-se imperturbado pelas nuvens que passam por ele. As nuvens não conseguem aparecer sem o céu, nem conseguem colar-se a ele ou alterá-lo de alguma forma.
     Os pensamentos e sentimentos são inteiramente não pessoais. Habitualmente, a mente associa as aparências a um "eu", a uma pessoa que está presente para as possuir. Esta é a aparente prisão, que consiste em reportar as coisas a um "eu" separado. Mas na busca por este "eu", tu vês que não existe de todo semelhante presença. Então, existem apenas pensamentos, não os "meus" pensamentos; apenas sentimentos, não os "meus" sentimentos. É apenas o "eu" que sofre; mas isso apenas ocorre enquanto se assume o "eu" como estando presente.
     Sob observação, onde está esta entidade? Está em parte nenhuma. Nunca esteve presente, excepto como uma assunção. Não existe nenhum ser presente para sofrer as identificações e os problemas que a mente impingiu nesta entidade imaginária. Tudo o que existe é a consciência-presença radiante que ilumina todas as aparências e possibilidades. Essas aparências são somente expressões da consciência-presença una, não-conceptual, sempre fresca. Apenas isto existe, nada mais.
     Deixa os pensamentos e aparências surgir ou não surgir. Não faz nenhuma diferença para a tua verdadeira natureza. Aparências são apenas aparências da tua presença, tal como as nuvens são realmente manifestações do próprio céu. Nesta visão, tudo regressa ao uno. Esse uno dissolve-se em ti próprio, e tudo está completo. Nada poderá alguma vez abalar o que tu és inatamente. Isso é vazio e ausência puras, as quais estão sempre presentes e plenas com a luz do conhecimento não-conceptual que está para além da mente.
 
John Wheeler
 
 
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Published in: on 15/08/2008 at 20:00  Deixe um Comentário  

Conversa com John Wheeler II

 
     Olá, John. Acho que é melhor falar pessoalmente, mas há uma questão que me está a dar algum trabalho. Tu dizes no "You Were Never Born*", Olha para os teus pensamentos agora mesmo. Há um ‘Eu’ a criá-los? Ou eles simplesmente surgem espontaneamente?
     A minha resposta seria, "Sim, há um ‘Eu’ a criá-los". Eu estou a escrever este e-mail de uma forma algo organizada, porque "eu" estou lá a organizar os pensamentos que quero partilhar contigo. Eu não começo, de repente, a falar do tempo ou dos Jogos Olímpicos aqui, porque "eu" sei que isso não faz sentido. Esta sensação de que eu controlo uma boa parte dos meus pensamentos (ainda que não todos) está realmente a alimentar a noção de um "eu" separado. Porque quem é que está a alinhavar todas estas palavras? A consciência pura observa isso, mas alguém está a tomar as decisões, a fazer as escolhas…
     O mesmo acontece com a vida em geral. Tu dizes que não há ninguém a escolher ou decidir, mas eu posso decidir ir ter contigo em Novembro deste ano ou en Janeiro do próximo, por exemplo. Ou se vou jantar sopa ou arroz com vegetais. Quem é que raio é que está a decidir isto? Não parece de todo aleatório ou espontâneo…

André

 
     As decisões estão a acontecer, claro, tal como os pensamentos estão a surgir. Tudo isso está bem. Ver acontece; pensar acontece. Então a mente diz, "eu" estou a ver/pensar. Mas esse "eu" é apenas um conceito colado depois do facto. Esse conceito não consegue ver o que quer que seja. A consciência está a ver, a pensar, a sentir, etc. A noção de que alguém executa essas coisas é na verdade falsa, porque tu, de facto, não sabes qual será o próximo pensamento ou como qualquer acontecimento se vai desenrolar.
     Além disso, "tu" não estás definitivamente a criar os pensamentos. Mas isto não é realmente assim tão importante, e parece que está apenas a provocar pensamentos desnecessários. Eu sugiro largares toda a conceptualização! Tu és. Descobre isso. Isso é tudo o que interessa. Os pensamentos vêm e vão. Eles não são a essência onde resides. Então o que é que tu és? Tu não podes negar o teu ser. Se os indicadores contribuem para este ponto essencial, tudo bem. Se eles acabam por provocar mais pensamentos, larga-os. Todos os indicadores são falsos e imperfeitos. Eles são apenas encorajamentos para conheceres a tua verdadeira natureza. Larga tudo o resto e estabelece-te nisso.
     Se for possível, encontra alguém com quem falar pessoalmente. Não existe uma instrução em massa. Cada caso é diferente. Não interpretes nada dito nos livros como verdade absoluta.

John Wheeler

* http://www.thenaturalstate.org/books.html

John Wheeler: http://www.thenaturalstate.org

 

Published in: on 15/08/2008 at 18:46  Deixe um Comentário  

Conversas com John Wheeler I

 
     Caro John, estava a analisar a existência de um "eu" separado. Compreendo que não sou o corpo, nem a mente. Depois desses, o mais real que obtenho é aquela noção profunda de existência, aquele "Eu sou", e isso não consegui refutar. Mas não consegui perceber por que razão esse "Eu sou" não é individual, nem se é eterno ou mortal. Podes explicar isto um pouco?

André

 
    Obrigado por entrares em contacto. É um ponto interessante esse que levantas. Lembra-te que os pensamentos "individual", "eterno", "mortal", etc., são noções que aparecem na inegável sensação do "Eu sou". Para fins de discussão, vamos assumir esta sensação de "Eu sou" como sendo o que tu és (no final, verás que mesmo esta "sensação" não é o teu ser essencial). Quaisquer noções claramente não são o que tu és. Elas apenas aparecem ao nível mental como pensamentos, que surgem e desaparecem NO que tu és. Nota que a tua presença não é um conceito, mas espaço onde os conceitos aparecem. O "truque" com isto é ver a diferença entre um conceito e a tua própria presença.
     O auto-conhecimento tem a ver com o reconhecimento não-conceptual da tua própria natureza, não com uma conceptualização. Repara na diferença entre reconhecer o que tu és e o pensar sobre questões filosóficas. Uma leva de volta à tua presença não-conceptual, a qual não é especulativa; a outra leva-te de volta para a mente, na qual estás a lidar com conceitos, suposições, dúvidas, etc. Tendo em conta os fins para os quais aponto, quaisquer perguntas ou respostas que se foquem numa análise dos conceitos de "individual", "eterno", "mortal", etc., vão apenas ter o efeito de enfatizar a mente e levar à dúvida, em vez de um claro reconhecimento daquilo que tu efectivamente és. Por isso, eu aconselharia a não entrar nesse beco sem saída e deixá-lo para os filósofos.
     Pára por momentos a categorização e análise da mente e olha directamente para aquilo que tu és. Tu não podes negar-te. O teu ser é um facto, não um conceito. Então sabemos que estamos a lidar com algo real, não especulativo. O fruto está aí pronto a ser colhido, por assim dizer. Conhece este ser inegável que tu és. Isso é não-conceptual, experiência directa. Os indicadores de "não-pessoa", "eterno", etc, são apenas indicadores para nos encorajar a olhar para isto, não como uma razão para saltar de novo para a mente!
     Na verdade, pessoa/não-pessoa, eterno/mortal, etc., são tudo conceitos puramente limitados e não são efectivamente aplicáveis ao que tu és. Despe-te dos rótulos e vê o que tu és. Estando isso claro, podes usar quaisquer rótulos para apontar para isso, sabendo na perfeição que todos eles são limitados. Esses são os limites dos conceitos, quando a lidar com a tua natureza não-conceptual.

John Wheeler

 
 

Published in: on 15/08/2008 at 17:27  Deixe um Comentário  

Natureza presa em varandas…

 
    Hoje, quando vinha no autocarro, passei por um prédio de apartamentos que tinha algumas varandas repletas de vasos com plantas e flores. Pensei, "Que engraçado. As pessoas fecham-se em enormes blocos de cimento e depois decoram-nos com alguns vasos para não se esquecerem que, algures, existe uma coisa chamada natureza…"
 
Dré

Published in: on 11/08/2008 at 21:17  Deixe um Comentário