Porque parto eu..?

 

Porque parto eu? Que espero encontrar no local para onde vou? Que falta em mim que precise de encontrar para me sentir bem..?

        Porque parto eu..? Parto porque sinto um desejo profundo e esmagador de ultrapassar este próprio desejo de partir para onde quer que seja. Quero encontrar a fonte de onde brota a água que dissipa todos os desejos, todas as buscas loucas, toda a procura de algo que traga satisfação ou paz. Quero ser a Paz, não a luta para a alcançar.

        A semelhante estado há quem lhe chame Deus… Eu também lhe chamo, mas tento ter cuidado com esta palavra. Este conceito está por demais gasto, sobre-utilizado, suado, consumido, entupido com percepções extraviadas sobre uma realidade desconhecida e, acima de tudo, totalmente inconcebível para mente humana. Deus é a essência de tudo quanto existe, mas está tão sujo e manchado pelas concepções mundanas que já dificilmente se percebe a realidade para a qual a palavra aponta. A grandeza e incomensurabilidade de Deus estão reduzidas a algo tão minúsculo e insignificante que deixa de fazer qualquer sentido utilizar de todo esse conceito.

        Desse modo, prefiro chamar-lhe outras coisas, embora, em última análise, prefira não lhe chamar coisa alguma. Ainda assim, conceitos como Verdade, Ser, Liberdade, Absoluto ou Não-Manifesto talvez não estejam ainda tão massacrados pelas conjecturas humanas, e assim descrevam um pouco melhor aquilo que procuro.

        Procuro o “esvaziamento do eu”, de modo a poder ir de encontro ao mundo com uma mente em branco, com uma mente que permita ao outro entrar nela e encontrar abrigo num espaço puro e cristalino. Uma cabeça cheia de sonhos, projectos, ideias, buscas, medos e apegos está tão atafulhada que não tolera mais nada dentro de si. É como um estômago esmagado por uma refeição abusiva que, instintiva e naturalmente, recusa ingerir o que quer que seja mais, criando mecanismos extremos de defesa e auto-preservação, vomitando tudo o que tenha dentro.

        Procuro, confesso, um estado de Paz e Felicidade absolutas. Pode ser uma motivação egoísta, uma mera procura de satisfação pessoal, mas creio que nesse estado de Paz será também mais fácil levar esse mesmo sentimento aos que me rodeiam, de perto ou de longe. Creio que o altruísmo está em relação proporcional directa com a nossa paz, a nossa felicidade. Alguém que esteja mergulhado num sofrimento atroz dificilmente terá disponibilidade psicológica e emocional para olhar sequer para os outros, quanto mais tentar ajudá-los. Por outro lado, quando temos as nossas necessidades básicas satisfeitas, mais facilmente procuramos o outro e tentamos preencher as suas carências. Só a felicidade pode levar felicidade aos outros; só um homem livre pode libertar outro homem; um coração que não tenha encontrado ainda a serenidade absoluta encontrará inúmeras barreiras auto-criadas ao tentar levar serenidade a outros corações. Não estando em paz, se conseguíssemos ainda assim dar paz a outrem, o passo seguinte seria roubar essa mesma paz, pois teríamos ainda em nós a carência que tínhamos acabado de curar no outro. Assim, dar e tirar não traz felicidade nem a nós, nem aos que tentamos ajudar.

        No entanto, sei que a minha busca pela Verdade não é incompatível com uma ajuda prática e imediata. Creio que a meditação e a procura interior deverão ser conciliadas com a compaixão e a ajuda concreta aos outros seres humanos. Porém, a clareza mental tem de ser mantida sempre como primeira prioridade. No máximo, poderão estar ao mesmo nível, mas nada pode estar, na minha opinião, à frente do nosso próprio processo de esclarecimento espiritual. O meu Despertar é a minha principal prioridade, pois não acredito ser capaz de levar Luz aos meus irmãos e irmãs se as sombras ainda habitarem o meu coração.

        Desse modo, faço votos de encontrar a Verdade Última. A minha meta é o segredo “por detrás” do Universo. Quero o domínio total deste jogo chamado Existência. Não um domínio no sentido subjugador, separatista ou agressivo do termo, mas um domínio no sentido de Compaixão Infinita por todos os seres do cosmos e de Compreensão Perfeita sobre a realidade das coisas. Com estas duas armas (Compaixão e Compreensão Absolutas) vencerei e ultrapassarei o mundo e, então, estarei pronto para o amar e curar como um todo, imparcialmente, dentro das minhas possibilidades como ser humano. Com estas duas asas infinitas, colocarei toda a Humanidade sobre elas e voaremos para longe da ignorância e inconsciência que nos têm mantido prisioneiros dentro de nós próprios.

        Pretendo a Paz de quem cessou toda a procura, todo o desejo. Quem procura está sob a acção do desejo, da expectativa e do subsequente sofrimento. Quem procura não destruiu ainda o ego nem renasceu das suas cinzas; quem procura está num estado de separação visceral, estado onde empunha uma arma para aqueles que não sejam ele, para tudo o que se mova no exterior e que possa, eventualmente, interferir na sua busca. Quem procura é ainda um simples mortal, alguém que pode ser eliminado a qualquer momento. Por outro lado, quem cessou todo o desejo de obtenção do que quer que seja, toda a busca, alcançou a imortalidade. Num estado desperto estamos livres de todo e qualquer apego ou necessidade, incluindo o de preservar a própria vida. Isto é a imortalidade da Consciência incarnada na impermanência da Forma.

        Aquilo que busco não é passível de ser descrito ou conceptualizado. Não é possível reduzir a Liberdade Última a um conjunto de palavras ou conceitos. Isso seria como descrever e apontar para o gigantesco céu estrelado através das grades grossas de uma prisão. É paradoxal. É possível sentir esse estado Liberto dentro de nós; é possível fazer uma aproximação conceptual global a esse estado com as nossas mentes; é impossível descrevê-lo com palavras! Usar palavras para descrever o Infinito seria usar tacos de beisebol para tecer um vestido de seda. Não é exequível.

        Com este desejo de libertação total e incondicional de todos os condicionamentos humanos, estarei a pedir em demasia? Desejar “saltar fora” da Matriz, do Samsara, será pedir o impossível? Estarei a sonhar alto de mais? Haverão tectos para os sonhos que vivem nos nossos corações? Haverão limites? Sei que não. Sei que aquilo que “procuro” é, não um estado idílico ou utópico, mas sim a minha verdadeira natureza. Não procuro algo inalcançável; procuro algo inevitável. Não posso fugir eternamente de quem eu realmente sou.

Como disse Alberto Caeiro, esse poeta Zen português..:

"Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu…”

Dré


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Published in: on 26/09/2005 at 1:01  Deixe um Comentário  

Estaremos nós a morrer lentamente..?

 

Morre lentamente quem não viaja,
Quem não lê,
Quem não ouve musica,
Quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio,
Quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
Repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
Quem não muda de marca,
Não se arrisca a vestir uma nova cor,
Ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
Quem prefere o negro sobre o branco,
E os pontos sobre os iss em detrimento de um redemoinho de emoções,
Justamente as que resgatam o brilho nos olhos,
Sorrisos dos bocejos,
Corações aos tropeços e sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
Quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
Quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva que cai incessante
Morre lentamente quem abandona um projecto antes de iniciá-lo,
Não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não respondem quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar.
Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio esplêndido de felicidade.

Pablo Neruda 

 

Published in: on 05/09/2005 at 16:44  Deixe um Comentário