Lágrimas?

 

Os sonhos caem do céu

Como lágrimas de uma criança.

Vêm quentes e macios, brilhantes

E adormecem nos braços de alguém.

Quando os teus sonhos vierem…

Quando as lágrimas caírem do céu

E te tocarem o rosto

Irás deixá-las cair no chão?

 

Dré

Anúncios
Published in: on 24/01/2006 at 0:32  Deixe um Comentário  

Esse menino.

 

Quero caminhar

Para onde dizem não haver destino.

Na névoa o caminho perde-se no ar

Por entre medos e sonhos mal entendidos.

Quero voar no céu que queima asas

Por entre as nuvens que escondem

Labirintos sem fim.

 

E, escondido em mim

A imagem de um menino

Sentado a olhar a própria sombra

Sem medo de ver o sol fugir

Sem medo de ver a luz abandonar

O seu colo.

Sabe que não é a sombra que descai

e escorrega pelo chão.

Quando a penumbra chegar

Sente que algo ficará sempre presente.


Quero ser como esse menino

Sem olhar o sol que perde o brilho.

Sei que estarei sempre no caminho

Sem temer a sombra que desvanece…

   

Dré


Published in: on 23/01/2006 at 23:55  Deixe um Comentário  

Um mergulho na luz

Fechei os olhos e adormeci…

Morri num mundo de luz – nasci num de escuridão

A minha realidade física desvaneceu-se por entre brumas confusas

Nevoeiros de sonhos e desejos

Dunas de amores e medos

O negro assusta-me e desejo voltar a mim…

Voltar à luz que eu sou e ao controlo das coisas do mundo

Sinto-me recordar o mundo meu e, ao tentar alcançá-lo,

Vejo que estão mais perto do que nunca

as sombras do mundo da escuridão…

Tenho medo!

Mas sinto que é um medo vão.

Porquê lutar contra o negro e contra o confuso..?

Porquê lutar contra o que desconheço..?

Abandono-me ao infinito desconhecido

E sinto a ansiedade voltar e o medo mais forte

faz-me estremecer por dentro

Mas, de repente, depois dessa rajada angustiante

Vejo-me dono de mim mesmo

Sinto-me confiante e cheio de um amor

Que não começou em mim e não acabará nunca!

Abro os olhos dentro de mim

E vejo uma luz…

Não..!

Vejo a Luz.

Vejo a Luz que é tudo.

É uma luz tão forte que cega e ofusca

Mas não…

Eu vejo tudo! Todos os pormenores…

A luz não me afecta

Não, porque não estou no mundo dos sentidos…

Estou no mundo onde apenas sou…

e nada mais.

Então, vejo tudo o que pensei ser escuridão.

E vejo que apenas via a minha escuridão

E não a Escuridão inerente ao ser Luz

Agora vejo tudo. E tudo brilha.

Tudo é lindo e transcendental

Sinto o meu ser vibrar de prazer

Sinto-me Uno pela primeira vez…

Sinto que sou O Tudo

E O Tudo abarca O Nada

Sinto que ali está o início e o fim do mundo.

Aquilo é tudo o que eu sou e tudo o que não sou.

A soma de todos os opostos universais

Ali vejo os extremos temporais da eternidade

Que se tocam, sem medo

Vejo que a eternidade não foi nem será

Apenas É – numa simplicidade perfeita e cíclica

Tal como Eu que apenas Sou

Eu sou a Eternidade

E sinto paz e excitação.

Ao olhar aquela luz sinto…

Sinto-me!

Parece que me vejo ao espelho – Mas não daqueles do mundo!

Não os que reflectem o corpo, mas a alma.

Quero mergulhar na Luz, senti-la, ser a Luz mas…

Tenho medo de ser Tudo O Que É

Tenho medo de não conseguir

E não consigo…

O medo devolve-me a Escuridão!

Que se passa..?! Sinto-me de novo vulnerável..!

Sou eu de novo!

Não o Eu que me senti à pouco…

Mas o Eu eu! O que penso que sempre fui…

Mas que sou apenas agora.

Ao sentir-me voltar a mim…vejo de novo a Luz.

Já não me vejo nela…Só vejo aquilo que não sou…

E choro!

Então, por entre lágrimas de medos frios…

Vejo a Luz crescer para mim

Vejo que já não é tudo, mas sim algo dentro de um todo…

Então, com um impulso

Vejo a Luz mergulhar dentro do meu corpo

E, sem recorrer a palavras, sussurrar-me na alma:

“Irmão! Viste tudo aquilo que és.

Agora, volta a ti, e sê tudo aquilo que não és!

Quando te cansares da Escuridão,

Abençoa-a e torna-te numa Luz!

Então, voltaremos a estar juntos.”

 

A Luz abandonou-me e eu voltei para a escuridão…

 

Dré

 

Published in: on 21/01/2006 at 14:50  Deixe um Comentário  

Um caminho para a paz?

 

«Não existe um caminho para a paz. A paz é o caminho.» [1]

      Esta afirmação, proveniente de alguns dos maiores “embaixadores” da paz que o mundo já conheceu, começa de um modo pouco comum, até mesmo desanimador: «Não existe um caminho para a paz.» Efectivamente, vindo de tais personalidades, isso deixa-nos, de certo modo, confusos. Contudo, depressa o “equívoco” se desmorona, pois a conclusão daquele pensamento é categórica: «A paz é o caminho». Que nos leva a reflectir esta consisa, mas profunda, afirmação?

Sem dúvida, em tempos de conturbação social (conturbação essa que podemos afirmar existir desde que o Homem habita o planeta!), estamos habituados a ouvir nas rádios e televisões que o caminho para a paz é este ou é aquele; faz-se deste ou daquele modo. Ouvimos dizer que a paz será alcançada pela criação de tal organização, por determinada acção humanitária ou política, ou por uma qualquer alteração profunda na estrutura social do mundo. Mas estes caminhos para a paz não serão caminhos contra a paz? Não serão estes caminhos para a paz caminhos que podem incluir a guerra, por exemplo? Podemos ouvir um líder político dizer que, quando determinado regime for derrubado de um certo país, a paz sairá mais forte desse processo; ou que, quando uma organização terrorista for exterminada, o mundo estará mais seguro. Que caminhos são estes para a paz? Não serão caminhos que justificam a utilização de armas, de violência e de morte em nome da paz? Acreditamos mesmo que, através da guerra, a paz pode brotar?

A afirmação inicial transmuta completamente esta questão. Ela afirma não haver um caminho para paz. Como poderia haver? Se a paz fosse unicamente o nosso destino e nós procurássemos um caminho para ela, isso daria azo a que nesse caminho muitas coisas pudessem acontecer: muito sangue poderia ser derramado e muitas vidas ceifadas enquanto percorríamos esse caminho; muitas guerras poderiam surgir enquanto não chegássemos ao nosso destino: a paz.

Então, o que acontecerá se a paz for o caminho? Não precisaremos, certamente, de dar muitos passos para chegar à paz – passos esses que poderiam ser dados com armas na mão. Se a paz for o próprio caminho, desde o primeiro passo que a paz é alcançada; com um único passo, chegamos ao nosso destino! Deste modo, não há possibilidade de desvio, interpretações oblíquas ou charadas políticas! Ou estamos em paz ou não estamos; não vale a pena dizer que estamos a caminhar para lá. O caminho para a paz faz-se necessariamente com o coração em guerra, senão não seria um caminho para a paz, seria a própria paz. Se caminhamos para algo é porque não o alcançámos ainda, tal como rumar a terra firme se faz pelo mar. Assim, caminhamos para a paz com as mãos cheias de sangue e os corações cheios de guerra. Deste processo, dificilmente resultará qualquer tipo de paz. Se queremos a paz, temos de ser essa paz, desde o primeiro passo; desde o início! Se ela não existe primeiramente dentro de nós, nenhum caminho nos levará até lá.

Mais uma vez, torna-se evidente que a paz no mundo só desabrochará depois de cada um de nós ter encontrado, dentro de si, a paz interior. Deste modo, descartamo-nos de todos os caminhos para a paz. Já não precisamos de caminhos, pois, logo no primeiro passo, encontrámos a verdadeira paz.

 
 
..dré
 
[1] Afirmação atribuída a Mahatma Gandhi (1869-1948) e a A. J. Muste (1885-1967).  
 
 

Published in: on 19/01/2006 at 20:36  Deixe um Comentário  

Materialismo Espiritual: Contradição de termos ou Espiritualidade contraditória?

     Todos os temas esotéricos e espirituais que chegam até nós há algumas décadas provenientes do oriente, tais como meditação, yôga, reiki, astrologia ou feng shui, estão, sem sombra de dúvida, na moda nos nossos dias. Contrapondo-se ao materialismo profundo que marca a nossa sociedade ocidental desde a explosão industrial do século XVIII, surgem os frutos de uma árvore milenar que tem as suas raízes no oriente. Embora este último se veja cada vez mais marcado pela perspectiva económica ocidental, também o ocidente vai sofrendo as influências orientais. Tanto assim é que, desde as décadas de 60 e 70, os E.U.A. e a Europa têm bebido dessa cultura variadíssimos néctares.

     Por um lado, este interesse tem tido como principais motores de arranque o desenvolvimento gradual da mente humana, a abertura a novas perspectivas culturais e filosóficas e uma expansão da consciência, tanto do ser humano como entidade individual, como da consciência colectiva da humanidade. Este aspecto é de louvar, pois demonstra um crescimento muito para além daquilo que se poderia imaginar se recuássemos meio século na nossa história.

     Ainda assim, por outro lado, creio que este desabrochar espiritual da nossa sociedade tecnológica e industrial tem um sabor muito característico, com pitadas de capitalismo e materialismo.

     Em primeiro lugar, grande parte deste entusiasmo é fruto da moda do momento, pelo que muita dessa força se desmoronará com o tempo. Como sabemos, aquilo que não passa de uma moda não tem um impacto real nas nossas vidas; não fica, literalmente, para a história. Se a luta contra a escravatura por parte das comunidades negras fosse uma moda, hoje aquela violação dos direitos humanos continuaria a passar impune.

     Segundo, mesmo aqueles que procuram com sinceridade, acabam por ficar presos e confusos numa “tromba d’água” de novas tendências e medicinas alternativas. Muitos de nós corremos o risco de esquecer que estas terapias e tradições espirituais podem funcionar como apenas mais um brinquedo para a nossa aguçada mente. Onde antes colocaríamos roupa e viagens, agora escolhemos cursos de yôga e meditação; antes lutávamos por carros e estatuto sócio-profissional, agora debatemo-nos com casas “decoradas” de acordo com a energia cósmica e com massagens terapêuticas e limpeza de chacras.

     Ainda assim, e apesar destas problemáticas, toda esta possibilidade de escolha é excelente! Repito, tudo isto é excelente, não sobrem dúvidas. Porém, se não passar de uma moda ou de mais um brinquedo do nosso ego, continuaremos ignorantes em relação à nossa verdadeira natureza, em relação ao sentido profundo da nossa existência. Se esta “orientalização” ou “mistificação” da sociedade tiver como fim o desconstruir da mente e ego humanos, creio que será em tudo benéfica. Se, pelo contrário, apenas servir para fortalecer as suas ilusões e percepções erróneas da realidade, poderá ser muito enganador acreditar numa evolução efectiva da consciência humana. Como sempre, cabe-nos a nós escolher.

     Fica a questão: será o Materialismo Espiritual uma contradição entre os termos, um conceito sem sentido, ou será fruto de uma espiritualidade que mais não é do que uma máscara diferente da velha perspectiva materialista da existência?

 

..dré

Published in: on 11/01/2006 at 19:56  Deixe um Comentário