Eu sou feito de luz

Esta mente é uma prisão, mas dentro dela não vejo ninguém.
Há uma penumbra que lá ondula e pronuncia o meu nome, mas não a conheço.
É assim que respiro a minha total liberdade.

No espaço vazio entre os muros da cela o meu ser voa em queda livre.
O silêncio que eu sou é chão onde nenhuma prisão poderá alguma vez ser erguida.

Em meu redor enormes paredes se levantam.
Elas são feitas de sombra.
Eu sou feito de luz.

Dré

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Published in: on 22/02/2009 at 3:46  Comments (2)  

O mundo está dentro de ti



Corres prados e campos, mundos e fundos em busca de ti próprio, mas
onde estás? Tu que te procuras, não és tu já aquilo por que anseias?


Regressa
ao espaço onde tudo é visto, dá um passo atrás e entra onde de nunca
saíste: tu próprio. O que é esse vazio onde tudo cabe? Esse silêncio
onde todos os sons nascem e voltam a perecer. O que é isso? Será quem
tu és?


Por ti todos os universos passam, mas nenhum te toca. O
vento sopra, mas o teu céu não oscila um milímetro. Sem ti nada mais
existiria.


Pára de procurar e a busca terminará aí. Olha-te como
um círculo perfeito, sem ângulos mortos ou pontas soltas. És completo,
fechado em ti mesmo. Não vale a pena buscar lá fora, porque tudo o que
existe está dentro de ti.


Constróis a tua vida com base em
pressupostos que nunca questionas. A partir dai, caminhas e procuras
sempre em frente, sem nunca olhares para trás, sem nunca analisares o
chão onde ergues a tua casa.


Não te procures nas coisas que vês,
pois não te encontras nelas. Resides entre elas, em todos os espaços
desabitados, nos cantos abandonados, em todos os silêncios esquecidos.
Vives entre elas, mas não nelas. Não te procures no mundo, porque não
estás dentro dele. O mundo, sim, está dentro de ti.


Tudo o que
poderías desejar está – agora mesmo – a olhar através dos teus olhos. O
infinito não está na palma da tua mão. Está mais perto do que isso.


Dré

Published in: on 22/02/2009 at 3:41  Deixe um Comentário  

The California Diaries IV

     Entretanto tenho estado mais afastado do meu diário, a vida por aqui
assenta um pouco, assenta sobre uma nuvem, com certeza, pois uma serie
de coisas continua no ar, continuo à procura de casa, embora vá ficando
por aqui, estou a pagar $50 por semana, depois vou para o tal espaço no
armazém, se tiver que sair daqui. Em relação ao tribunal, os anjos
ajudam-me um pouco, tinha a audição marcada para 2 de Abril, altura em
que penso andar pelo norte (Vancouver – Seattle – Portland), com um
choradinho e com o meu bilhete de regresso marcado para 15 do mesmo mês
consigo que antecipem a audição para 5 de Março.

     Noutro dia vou com o John e o Michael passear ao tal convento de St.
Joseph e a um templo budista tibetano, ambos numa zona lindíssima, no dia
seguinte vou almoçar com o John, como um hamburger de cogumelo gigante,
portabella mushroom, uma coisa um bocado esquisita, dá alguns
trambulhoes no estômago, a conversa é excelente, agora é a alma que dá
uns trambulhoes dentro do invólucro corporal, tenho pena de não ter
gravado a conversa, algo que estou a pensar fazer com o meu mp3, dois
dias depois vou jantar com ele a uma pizzaria, até foi ele que ligou a
combinar, é um querido, a pizza está divinal, a conversa volta a querer
derrubar paredes, levo o mp3 mas não gravo, sinto-me pendurado por um
fio, apenas isso me impede de cair profundamente em mim próprio, ilusão
de separação que teima em durar.

O local onde almocei o Portabella mushroom


     Numa outra altura vou tratar de umas coisas à biblioteca, penso em ficar por lá a
ler, depois penso em ir à internet, está frio na rua, não me apetece
sair, talvez seja então o destino quem me impele a ir até à praia,
sento-me olhar o mar, não sei se pareço triste, melancólico ou só, mas
a verdade é que vejo uma silhueta a deslizar canto do olho adentro, é uma
jovem que vem ter comigo e oferece-me uma flor, uma espécie de
bem-me-quer lilás, provavelmente uma flor de chorão, diz apenas It has a lot of [algo que não percebo], but I didn’t think you’d mind, eu digo apenas Thanks,
acho que ela não chega a perceber como aquele gesto simples faz abrir
uma flor no meu peito, o quentinho natural de um mimo recebido em terra
estrangeira, lugar  longínquo onde a minha alma emigrante se sente fora
da pátria do ser.

Mooji, um maravilhoso ajudante espiritual


     Hoje, Quinta 12, vou a mais um encontro com o Sr. Wheeler, o
primeiro que gravo, ainda que de um pouco ao longe, depois caminhamos com
o Michael e o Scott até à praia para depois regressarmos ao Pacific
Cultural Center, o John dedica-me algumas palavras importantes, tenta
de alguma forma puxar por mim, não sei se é isso, talvez seja o DVD do
Mooji que vejo à noite (mooji.org), talvez seja uma busca de oito anos
ou uma vida de vinte e seis, mas mais tarde dou por mim a pensar, "Na minha
experiência directa, onde está o ‘eu’?", curiosamente a
resposta é uma natural negativa, penso "como seria viver se não
existisse aqui uma pessoa?", e, como um murro no estômago, constato,
para alem de qualquer ideia ou conceito, que não existe nenhum "eu", o
"André" é uma ficção do pensamento, o corpo é um organismo como o é uma
árvore, não existe nele (corpo) ou nela (mente) nada de pessoal ou
individual, uma onda de felicidade pura, um êxtase suave, percorre-me o
corpo, doce aroma a casa, a ternura do verdadeiro ser, há um desejo
espontâneo e inevitável de querer segurar o mundo num abraço e adormecê-lo
num
profundo amor. O "eu" volta de mansinho, a percepção regressa ao
normal, mas sei que as paredes estão a oscilar, como que erguidas sobre
as areias movediças da minha fé e determinação, o caminho chega
finalmente ao fim, é essa a minha sincera esperança, sinto o meu
coração repetidamente a querer soltar lágrimas de reconhecimento,
gratidão pela paz profunda, pelo fardo que cai dos ombros da alma,
sinto uma luz eterna que parece querer beijar-me num rasgar interior,
que Deus me acompanhe nesta busca e me livre de regressar à casa de
Portugal sem antes regressar à Casa do meu ser, seria séria tristeza e
desilusão, e é neste momento que fecho o diário, são as lágrimas que me
invadem o olhar, um cheiro a infinito que me inebria os sentidos,
anseio ardente de cura eterna, chaga que se fecha dentro do peito, quem
me dera abrir o coração e guardar lá dentro o mundo todo.

Dré

Published in: on 16/02/2009 at 3:12  Deixe um Comentário  

Oceanos que se entrechocam


O rapaz sente dentro de si um mar que parece explodir para o céu a meio, como que repuxo de dois oceanos que se entrechocam, saboreia a excitação do mundo que o espera duas horas adiante de si, prova do suor das batalhas que irá travar consigo, os projectos são irrelevantes, o que interessa é superar-se a si próprio, é transcender o que era ontem e ser o amanhã hoje, é mostrar a todos a sua imponência cognitiva, a sua majestade cerebral, a sua grandiosidade genial, já sente a adrenalina, já antevê o sangue a correr aceleradamente nas veias, o brilho enfiado nos olhos, o sorriso no canto da boca, as palavras acertadas de triunfo na resolução de mais um enigma, de mais uma dúvida, de um projecto que sem ele estaria atascado indeterminadamente nos lamacentos carreiros da mente comum, este é o oceano que corre numa direcção, contra ele esbarra um outro que lhe traz aos lábios uma água de sabor amargo, uma insegurança, um coração desocupado de afectos, uma alma desabitada de qualquer amenidade humana, terá sido uma rapariga loira que ficou ignorada numa estação, terá sido uma mãe de catorze anos que foi atirada para a irrelevância do esquecimento, sente-se a transferir uma vida para dentro de si enquanto se descarta da anterior, é cobra que muda de pele, mas a nova não surge ainda e a velha já se liberta, está ele nu, débil e frágil, como bebé de carne tenra, neste momento é como se existisse em coma, já não vive a vida que viveu, ainda não vive aquela que viverá, está numa ponte entre as margens que são a sua existência, ele olha para um lado e vê lá uma vida, olha para o outro e vê lá uma outra vida, onde estará ele que tão bem vê estas existências mas vive como se não fossem elas dele, como se não existisse ele já ou ainda, será o vácuo interior, o deserto identitário, todo ele é um ser oco, desguarnecido, destituído de miolo, comido de todo o conteúdo, é como um poste de electricidade, por si passam cabos que conduzem uma energia viva, mas ele não passa de uma estaca de madeira morta, viaja num avião climatizado, em bancos de pele, uma obra clássica baila no stereo, mas por dentro subitamente sente-se como uma criança despida, o calor solta-se da carne com o passar da noite, dentro de si ele dorme enrolado num chão frio de azulejo.

Retirado d’ O G
énio

Dré

Published in: on 07/02/2009 at 9:30  Comments (1)  

The California Diaries III

     Passaram já alguns dias, a situação com o senhorio vai passar para
tribunal, estou tranquilo, "o juiz decide", segunda-feira surge no
calendário e eu vou a um convento católico em Aptos, convento de St
Joseph (www.poorclaresofaptos.org), estou uns minutos sentado na
capela, depois vou dar uma volta pelas redondezas, o Tim e o Michael
ficam lá dentro, caminho por uma floresta muito bonita, é uma zona
lindíssima, vejo uns gatos selvagens e muitos pássaros, árvores altas.
A praia de Santa Cruz também é um local interessante, descobri que os
barulhos que oiço frequentemente são, como imaginava, leões marinhos,
golfinhos também os há, mas não os vi ainda, bem como bandos de
pelicanos e outras aves, cenário invulgar, fauna variada para uma praia
aparentemente igual a tantas outras. Deixo a linha do oceano e caminho
para o interior e deixo-me atracar na marina da cidade (o Yacht Harbor)
é um lugar calmo, ouvem-se aves perdidas na distancia, os carros passam
silenciosamente ao longe, perto oiço o ranger das cordas das
embarcações que balançam graciosamente na suave ondulação presas ao
cais, regresso a casa, vou até ao referido convento e volto para mais
uma conversa de três horas com o John, desta feita num restaurante
Tailandês, sinto que não estou a conseguir expressar claramente as
minhas dúvidas, ele assegura-me que já estou para além delas, que já
não preciso de me agarrar às coisas que ele diz nos livros, de quando
em vez sinto um rachar interior, uma parede que parece querer abrir-se
num sorriso de cacos desfeitos em pó deixando a luz chegar ate mim. A
clareza de discurso do John é irrepreensível e incontestável, mas a
minha resposta prática continua um tanto ao quanto coxa, é difícil às
vezes ver com os olhos aquilo que o coração já tão facilmente
reconheceu, mas o John tem sido sob todos os sentidos impecável, ele
reconhece a seriedade e honestidade da minha busca, talvez se reveja um
pouco nela, ele próprio andou pela Índia à procura de si mesmo, só na
Austrália se encontrou, I want you to go back to Portugal free and without those doubts, leave ‘em to me, I can keep ‘em, disse-me hoje sorrindo.

Drum circle @ Farmer’s Market

     Quarta-feira acordo tarde, tenho-me deitado sempre um pouco já a fugir para a madrugada, aqui nesta casa somos todos night-owls, embora esteja a tentar ser um pouco mais early-bird, como se diz por aqui, pouco depois de acordar vou ao Farmer’s Market,
uma salgalhada de tendas, bancas e barraquinhas, umas a vender comida
já preparada, outros a comercializar produtos acabados de sair do chão
da Terra, um maralhal de pessoas diferentes, algum pessoal da rua e uma
série de personagens entusiasma-se numa jam session, sessão
geleia, diria Gonçalo Pereira, essencialmente percussão, mas também uma
ou duas guitarras e um trompete ou algum primo ou irmão da mesma
família de sopros, ainda fico um bocado especado a ver se alguém me
oferece um jambé para tocar, mas ninguém se comove ou deixa
impressionar com a minha pressão psicológica. Dali sigo para o Trader Joe’s,
um supermercado com uns empregados muito simpáticos, norma da região,
parece, avanço para uma muito tranquila aula de Chi Kung e depois vou a
uma palestra da Judith Cornell sobre mandalas e outras afinidades
"new-ageianas", é isto na Gateways, uma livraria espiritual na
Soquel Avenue, ainda dou um olhinho ao livro que "casualmente" me
empurrou para dentro da Não-Dualidade, o Perfect Brilliant Stillness,
do David Carse, e dou também uma palavrinha àquele que foi o primeiro
livro de Advaita que tive nas mãos, na já longínqua Primavera de 2006
na Plum Village, mas na altura a Não-Dualidade era ainda uma perfeita
desconhecida para mim, e, sem saber, naquela camarata peculiar no sul
de França tive entre dedos a "bíblia" da Advaita, quem ma passou foi um
Israelita, não sem antes me avisar, no seu sotaque engraçado, olhos
esbugalhados, parecia o próprio autor, That’s only about the absolute, I don’t know if you’re ready,
e não estaria talvez, mesmo hoje, um fundamentalista da Não-Dualidade,
pouco mais li do que as relativamente escassas paginas que folheei em
Sogenji, no Japão, curiosamente é um livro que me tem vindo a
acompanhar na minha caminhada recente, como uma espécie de sol que
brilha por entre o nevoeiro, uma inspiração que me bafeja ao longe,
suavemente mas com uma profundidade que me surpreende cada vez que a
olho, é uma vela que se estica e alonga quando a visão se suaviza e
subjectiva, logo na capa do livro sou esmurrado pelo poder que ali se
parece esconder, uma frase que me corroi por dentro, The real does not die, the unreal never lived, o livro é amarelo com a força luminosa de um astro no negro do cosmos, o titulo diz-nos que I Am That (www.amazon.com/Am-That-Talks-Nisargadatta-Maharaj/dp/8185300534/ref=pd_bbs_sr_1?ie=UTF8&s=books&qid=1233812124&sr=8-1),
e assim é a essência de Sri Nisargadatta Maharaj.

Nisargadatta Maharaj (1897-1981)

     Quinta-feira
lança-se nos meus braços, ilumina-me como um sol que me chama gritante
e arranco como uma bala, o meu destino vai percorrer varias capelas,
começo pelo tribunal, de lá arranco sabendo que o que ia ali fazer
posso e vou fazer através internet, sigo de peito aberto para a quinta
onde poderei ficar como voluntário do Wwoofing (World Wide
Opportunities in Organic Farming), ninguém me responde do lado de lá da
cerca, volto para trás e arranco em direcção à University of California
Santa Cruz (UCSC), uma subida que parece rir baixinho do calor que
sinto nos músculos das pernas, do suor que me molha as costas, lá chego
à universidade, por entre dezenas de esquilos pululantes e quase
domesticados, olhinhos de vidro escuro e curioso que me miram, por
entre as suas tocas chego à UCSC Natural Reserve, encosto a bicicleta e sigo em caminhada, passo por muitos ciclistas e adeptos do jogging, atravesso o habitat do mountain lion e culmino no Wilder Ranch State Park. Volto para trás e paro na Longs Drugs,
compro uma maquina descartavel e umas bolachas que serão o meu almoço e
lanche, vou atirá-las para dentro junto ao mar, num banquinho
amistosamente sentado perto das modestas arribas, desloco-me na
bicicleta junto à costa ao longo de uma espécie de "marginal" de Santa
Cruz, tenho a sensação de ter encontrado a cidade perfeita, um
equilíbrio delicioso entre mar, floresta e tecido urbano, uma mescla de
fanáticos do new-age e da iluminação espiritual com manos de
skate, patins em linha e prancha de surf, Santa Cruz, aquela que me
disseram ser a Meca norte-americana da espiritualidade e uma das
capitais mundiais da rasta, "Santa Cruz", aquela onde Cristo morreu
como homem e voltou a nascer para se sentar à direita do Pai. Largo a
costa, pouco depois de passar a feira popular cá da zona (o boardwalk),
e vou de novo à quinta, lá consigo entrar em contacto com os
respectivos habitantes, não de forma impeculiar, contudo, ninguém
responde e eu entro propriedade adentro, trinta segundos depois
estaciona um carro à porta, é a dona que chega com os dois filhos, ela
chama por um Jason, interrompe a palavra a meio ao ver-me, os
donos do lado de fora, eu do lado de dentro, o cão que reconhece o
barulho da viatura e corre a recebê-los, mas eis que olha para trás e vê-me
cá dentro, agora ladra para mim, ligeiramente tolhido por uma qualquer
falta de convicção, afinal a dona já vem ali, mas quem
é este aqui, "este aqui" procura um buraco em si para saltar lá para dentro, o insólito do timing da situação deixa-me baralhado, acabo por sair pelo portão, a mulher que chegou descontraidamente diz Let’s start again,
e assim começamos, é uma mulher madura, atraente e muito informal, os
dois pequenotes são giros e loirinhos, são quatro com o pai das
crianças, um homem de meia-idade com ar de quem não sabe se quer ser hippie
ou meramente agricultor, acaba por ser uma linha ténue entre ambos,
está deprimido, não tem querido receber pessoas para ali trabalhar,
entretanto a conversa vai mudando para um aparente e indeciso "sim", eu
estou um tanto ao quanto distraído com a pequena cobra Piton que o mais
velho dos loirinhos me colocou nas mãos, é um bicho pachorrento,
escorregadio e de língua serena, só de vez em quando a faz dançar entre
dentes e toca-me a pele, deixou saudades o pequeno Smuggle, se
bem me recordo do nome, saio da quinta com a desilusão de ter entrado à
procura de um sim e ter encontrado um não e com a peculiar indecisão de
lá ter saído com um sim mas com vontade de dizer não, a mulher e os
dois filhos estão de abalada, o casal deve estar separado, promete
visitas a patroa, mas não sei se um cinquentão deprimido é o que quero
como companhia nesta minha busca por terras californianas. Regresso à
pressa, a velha bicicleta já não se imaginava certamente convocada a
tão prementes velocidades, ainda por cima em circuito nocturno, vou com
a urgência de um baixo ventre apertado há varias horas, sento-me na
latrina com a cabeça um pouco zonza e dorida, pouco depois arranco para
uma caminhada suave até ao Pacific Cultural Center para mais um encontro colectivo com o John.
    
Sábado, 31 de Janeiro, poucas vezes pensei apanhar banhos de sol em
pleno Inverno, a praia conta já com alguns banhistas, em Portugal diz
que chove, aqui também em breve a chuva irá regressar, assim apontam as
previsões.
     Segunda-feira fui a São Francisco ao encontro do Jon
Bernie (www.sf-satsang.org), é muito diferente do Wheeler, trabalha
mais com emoções, é uma espécie de conselheiro pessoal, gostei de ir a
‘Cisco, a auto-estrada serpenteia pelo meio da floresta e das colinas,
é uma viagem bonita, foi interessante chegar e ver ao longe os
arranha-céus, polvilhados de luzes, erguendo-se na escura cortina da
noite como fantasmas no firmamento, a Bay Bridge ilumina com as suas varias meias-luas o Este da cidade, como que chamando por Oakland
do lado de lá, gostei de ali estar, mas é muito diferente de Santa
Cruz, a primeira é uma cidade grande, a segunda é uma espécie de bairro
em zoom in, um Restelo estendido aos pés do Pacífico, onde os
esquilos e as doninhas passeiam calmamente durante as horas escuras do
dia, onde só as estrelas miram os seus movimentos curiosos. Regressei a
Santa Cruz por volta das 22H30, ainda dei um saltinho à praia, ao farol
e ao Yacht Harbor, onde há noite com um toque de susto, um
ambiente habitado por sons subliminarmente intrusivos, o ranger das
cordas, o chiar dos barcos, um cenário onírico, deserto humano
esvaziado das pessoas que ali não se encontram.

The Yacht Harbor, Santa Cruz

     Na terça a conversa com o Michael estende-se por várias horas, como tem sido habitual, eu represento, palavras dele, the Advaita radical approach, ele o traditional Buddhist path,
às quatro e tal da madrugada ainda vamos petiscar um pãozinho com
queijo à pequena cozinha, por volta das cinco, depois de me atestar de
mais alguns acessórios de Inverno, arranco para a praia, levo comigo o
Brett Dennen, o John Mayer e os Dave Matthews Band, uma multidão de
gente a tocar-me nos ouvidos por dentro, canto e danço na sombra junto
ao mar, chego ao já farol amigo, ao longe, bem espetado a Este, o sol
não se vê ainda mas já se faz sentir, são os laranjas e os rosas que
dali emanam que me dizem que o dia já nasce da noite, cresce de
mansinho, vem do ontem de há bocado até ao hoje de agora, algumas
pessoas fazem-me uma companhia distante pelas areias quase desertas da Seabright,
traços de avião esticam-se num céu de azul cada vez mais brilhante, foi
um parto de luz muito bonito, a claridade que invade suavemente, sem se
fazer notar, o silêncio que se inebria com os sons matutinos, traz quase o desejo que toda a vida seja um nascer do sol.

Dré

Published in: on 05/02/2009 at 7:38  Deixe um Comentário  

The California Diaries II

A praia de Santa Cruz e o Wharf a penetrar o mar


     Chego a Santa Cruz por volta das doze,
ligo ao Rusty e combinamos encontrarmo-nos em Felton Fair, desligo e
vou passear um pouco, quero ver o mar, pergunto a uma jovem onde fica o
oceano e é junto a ele que me encontro minutos depois, e vou passeando
por Santa Cruz, passam algumas horas e apanho o 35, alguns minutos
depois chego a Felton Fair, ligo ao Rusty novamente e ele manda alguém
buscar-me. Quem chega é o Bo, um rapaz mediamente alto, com óculos e
gordo, é de poucas conversas, mas diz-me que esteve em Portugal quando
tinha doze anos e fala-me do local onde vou ficar, que é mais um local
de retiros do que propriamente uma quinta e que vivem lá algumas
pessoas agora a tentar reconstruir o sitio, percorremos seis
quilómetros numa densa floresta, a neblina esconde as árvores por
detrás da sua presença subtil, o local é bonito e chegamos finalmente à
quinta. Encontro Rusty, mas ele está a fazer qualquer coisa com um
outro homem e mal me cumprimenta, you can sit over there in the porch, I’ll be with you in a minute,
dou uma vista de olhos em redor, pouso as minhas mochilas e aguardo,
ele vem la e, passado um minuto estende-me a mão, conversamos um pouco
sobre nada em particular, entramos na casa, a sala de estar é muito
bonita, tem duas gaiolas com vários pássaros, dois aquários com vários
peixes, uma cadelinha embirrenta mas facilmente conquistável, ele
senta-se num sofa, eu fico no chão sentado sobre os calcanhares, em seiza,
parece que estou no Japão novamente, falamos sobre a Advaita e o que me
traz aos EUA, o John Wheeler, ele não percebe muito bem do que falo,
embora esteja por dentro das questões espirituais, eu não me esforço
muito por ser percebido, digo-lhe, O melhor é leres o livro dele ou
ires aos encontros, é melhor do que estares aqui a falar comigo sobre
isso. Arranco para o meu quarto, uma cabaninha ao lado da casa, um
cubículo de três metros por três metros, bastante sujo, a luz é
fraquissima, depois apaga-se, depois eu dou-lhe um toque e acende-se
novamente, enfim, saio para um duche, volto à cubata, lá entretenho
algum tempo e às sete da tarde ha uma reunião com os outros habitantes
da casa, lá estou eu, somos seis à volta da mesa da cozinha, o pessoal
tem uns blocos de apontamentos na mão, o Rusty assume-se como guru,
líder e ditador da situação, manda-nos fechar os olhos, entretemos
cinco minutos numa espécie de meditação, depois é-nos pedido que
expressemos gratidão por alguma coisa, ele atribui ao longo do encontro
trabalhos de casa para a próxima semana, começo a aperceber-me que não
é aqui que quero ficar, pensava vir para uma quinta, afinal cai numa
espécie de casa de retiros alinhada com Um Curso Em Milagres (http://www.acim.org),
que eu respeito plenamente, mas parece este local de purificação e
transformação, sinto-me como num circulo dos Alcoólicos Anónimos, as
pessoas ali estao claramente numa frequência diferente da minha, ate o
Rusty, que obviamente parece estar numa frequência onde mais ninguém
ali está, só há espaço para um guru-wannabe, e esse lugar está
já ocupado por ele, o Bo, que me foi buscar a Felton, teve problemas
mentais, está sob medicação e quer pôr a sua vida nos eixos, o Will
está obviamente com dificuldades na sua vida, alguém despejou-o ali há
duas semanas e ali ficou, está visivelmente revoltado, não aceita a
situação, o Russel tem problemas mentais óbvios, algum atraso cognitivo
por ele mesmo admitido, à minha direita directa está o Nathan, parece
um rapaz calmo e equilibrado, não sei porque se encontra ali, nem eu
sei porque raio acabei eu num sitio destes, parece um asilo ou uma casa
de recuperação para pessoas com problemas com álcool, drogas, problemas
pessoas e emocionais, não é o meu caso, peço, no final da reunião, para
falar a sós com o Rusty, entro num dos quartos mais desarrumados que já
vi, ultrapassando mesmo o de uma ex-namorada minha, pelo caminho pouso
os olhos numa revista da Maxmen caída no chão, a mulher portuguesa em
nada fica atras, so de passagem, digo-lhe directamente, não à revista,
nao à menina nela desenhada, mas sim ao Rusty, I’m not gonna stay in this place, this is not a place for me, a conversa segue, roça tópicos interessantes como love, truth, Jesus Christ, ele faz-me a proposta de lá ficar e share my insights and knowledge on social psychology, eu digo-lhe que ele nao está interessado nos meus insights, vai tentando argumentar comigo, mas entramos numa espécie de defesa-ataque, ele acaba por dizer que eu sou as neurotic as anyone else on that meeting, arruma-se a questao comigo a dizer tonight will be first and last night here.
Volto à minha barraca, não sem antes ter falado com o Will e com o
Nathan, durmo dez horas, arrumo as minhas coisas, o Rusty dá-me boleia
para Santa Cruz, saímos do carro para tirar as minhas coisas da
bagageira, before we take my things off the car, I think you should give me back my deposit, este deposit
é a caução de seiscentos dólares que paguei ontem, ele vem com uma
conversa qualquer de ter de falar com o gestor financeiro dele para
saber se pode ou não pagar-me já, ou se pode fazê-lo em
dinheiro ou não, eu não engulo a historia, digo-lhe que gostava de
falar com o policia que se encontra do outro lado da rua, mas não estou
plenamente convicto do que digo, enfim, como é que o policia me poderia
ajudar, o Rusty não cede, diz-me para eu lhe ligar às 15H30, que a essa
hora já saberá como e quando me poderá devolver o dinheiro e é assim
que fazemos. Eu sigo tralha às costas em direcção à biblioteca,
consulto a internet, envio vinte urgent couch request, ou seja, pedidos de "asilo" para a comunidade de viajantes do couchsurfing.com, mando
mail à Anya a explicar a minha situação, dirijo-me à praia, lá me sento
e actualizo o meu diário na companhia de centenas de gaivotas. São
15H30, ligo ao Rusty, como combinado, ele inventa uma desculpa
qualquer, talvez não seja uma desculpa, talvez seja verdade que o tal
gestor financeiro dele foi à inauguration do Obama, que só voltará na terça-feita (hoje é quinta), call me tuesday in the evening, eu ainda quero perguntar be honest with me, are you trying to steal my money?,
mas ele desliga e deixa-me sozinho com um silencio qualquer do outro
lado da linha. Regresso à praia e vou ver de uns cacifos para
bicicletas junto ao casino e ao Coconut Groove, é lá que deixarei a mochila se não encontrar sitio onde dormir.
     Arranco para a biblioteca, leio um pouco do Awakening to the Natural State
(http://www.amazon.com/Awakening-Natural-State-John-Wheeler/dp/0954779231/ref=cm_cr_pr_product_top)
do John Wheeler, depois vou ver se tive alguma resposta positiva do
couchsurfing, nem por isso, uns quantos "não", um ou outro "talvez",
são seis da tarde, às sete é o encontro com o John, dirijo-me à Seabright Avenue,
não é fácil lá chegar, pelo caminho ainda pergunto a uma prostituta e a
três sul-americanos, ninguém percebe muito do assunto, acabo por chegar
mesmo às sete ao local pretendido, o John tem uma guitarra ao colo,
conversa casualmente com alguém, poucos minutos depois começa-se
oficialmente o encontro, o John toca a Shankara, é uma óptima
forma de iniciar, vai-se conversando tranquilamente, no final ele toca
mais umas musicas, incluindo um pedido que lhe faço, Can you play "In This Moment",
a musica é linda, há uma senhora à minha esquerda que chora, é uma
imagem profundamente bonita e apaziguadora, são lágrimas de quem parece
ter voltado a casa depois de mil anos perdida no deserto, as lágrimas
dela puxam as minhas, e, embora não me molhem a face, encharcam o meu
coração, lembro-me de como aquele homem tem vindo a acompanhar-me há já
algum tempo, lembro-me de ter a sua presença através de livros dele e
pensamentos meus no Andanças e na Zambujeira em Agosto, esteve comigo
também em Franca, lá li muitas das suas palavras, la traduzi inúmeras
paginas, entre macieiras e árvores de kiwi trauteei inúmeras canções
dele centenas de vezes, nelas senti a paz que é minha por direito
próprio de ser humano que sou, em Castelssarassin tentei tirar os
acordes da musica que ele tão tranquilamente toca agora, uma musica com
uma letra muito importante para mim,

The true peace you long for
is so very near
Without even seeking
It’s already here

The true peace you long for
is so very near
FULL STOP… in this moment
It’s already here.

O encontro chega ao fim, passado algum tempo consigo falar com ele, ele
não se recorda muito bem do meu caso, mas gradualmente os nossos
e-mails vão emergindo do seu esquecimento, algumas pessoas ficam
admiradas com os nove mil quilómetros percorridos por mim apenas para
estar ali com o John, entretanto marcamos um jantar para o dia seguinte
às 17H30, uma senhora oferece-se para me dar abrigo em sua casa esta
noite, é lá que fico, um apartamento de quatro andares, uma vivenda
construída em altura, muito confortável.


     No dia seguinte vou buscar a bicicleta que o Michael me vai
emprestar durante uns tempos, depois vou ter com um amigo dele, o Rich,
que está a construir um quarto no seu armazém, é uma das possibilidades
que tenho para ficar a viver, depois regresso a casa da Elizabeth e vou
para o encontro com o John. São três horas e meia de conversa amena,
num restaurante de fast food oriental, o Charlie Hong Kong, numa caminhada ate ao Toyota do John e depois junto à praia, à entrada da minha rua, a Alhambra Avenue (que os americanos chamam de Al Hambra).

At Charlie Hong Kong’s


     São vinte e uma horas quando regresso a casa, o John é muito coeso, solido, impenetrável na sua certeza, other
people can tell you "no, what you’re saying doesn’t make sense", but
you just tell ‘em "bulshit", because it’s your direct personal
experience
, e é isso que ele tem, uma experiencia directa da sua
verdadeira natureza, o John Wheeler é o ser humano mais comum e o
"mestre" espiritual mais extraordinário, acessível como qualquer um,
profundo como ninguém.
    


A Seabright Beach com o farol ao fundo

     Entretanto tenho estado a reunir alguns aliados que vão telefonar
ao Rusty, o senhorio que ficou com o meu pilim, para o pressionar a
devolvê-lo. Neste momento actualizo o meu diário junto ao farol de Santa Cruz, uma gaivota faz-me companhia em cima de um tetrápode,
alguns pescadores e curiosos também, algumas pessoas estão em t-shirt,
eu tenho dois pares de calcas (incluindo já as minhas famosas
ceroulas), duas camisolas de la, um cachecol e um capuz enfiado na
cabeça, estou aqui porque reflectir no que o John me disse ontem, ele
foi claro, a única resposta verdadeira
é o meu ser, e este não
vem em livros, tenho que investigar clara e inequivocamente e por mim
próprio, as respostas sobre quem eu sou não podem vir emprestadas, ou
são as minhas respostas ou serão apenas mais perguntas vindas de
outros, mas tenho medo de procurar em mim a verdade pela qual anseio
diariamente, tenho medo de não ser capaz de a encontrar, de não ter a
força, a perspicacia e a inteligencia suficientes para saber quem sou.

Dré

Published in: on 02/02/2009 at 7:50  Comments (1)  

The California Diaries I


Cinco mil e qualquer coisa quilómetros capitularam perante a
imposição majestosa do voo C065 da Continental Airlines, que se encosta
no Newark Liberty International Airport passa pouco das 14 horas locais, ainda passa pouco das catorze quando me dirijo aos Serviços de Imigração, à
minha esquerda o horizonte estende-se nos recortes dos arranha-céus de
Manhattan que se elevam no ar, chego aos balcões de controlo da
imigração, espero um bom bocado, começo a ficar impaciente, entretanto
chega a minha vez, passaporte para a frente, acompanhado por um papel
que tive de preencher no avião vindo de Lisboa, a conversa parece
encalhar algures, perguntam-me onde vou ficar, falo de uma quinta e de
lá trabalhar para pagar a renda, ingenuidade a minha, o agente à minha
frente diz
let’s go for a walk, sir, let’s go talk about this in another place.


Aeroporto da Portela – 20 Jan


Este outro lado tem muitas cadeiras, espero sentado numa qualquer, olho
para o relógio e fico sobressaltado, são quinze e qualquer coisa, o meu
voo de ligação é às dezasseis e dez e ainda tenho de ir buscar a
mochila que não foi directamente para São Francisco, agora começo a
ficar nervoso, lembro-me do episódio no Kansai, em Osaka, onde
ninguém na Imigração parecia querer acreditar na minha ida para um
templo Zen, mas aí não tinha outros voos para apanhar, a ideia de ficar
preso numa Newark que me recebe com 5 graus negativos e
muita neve empurrada para fora das pistas do aeroporto não me agrada,
levanto-me e dirijo-me a um agente, com precisamente um relógio
comprado no Japão estendido na mão,
Excuse me, it’s three twenty, I have a connection flight at four ten, ele responde com arrogancia, Until the Imigration Office releases you, you have no connection flight,
eu engulo em seco, olho-o com essa secura presa no estômago e volto a
sentar-me, volto a mirar as horas repetidamente, já se toca nas quinze
e trinta e eu ali especado, há uma outra senhora que não está contente
com a situação dela, eu continuo pregado a uma cadeira sem saber bem o
que fazer, o que me acontece se perder o avião, colocar-me-ão noutro ou
nem por isso,
Andre, soa o meu nome pintado com uma pronúncia yankee, levanto-me e dirijo-me ao balcão, do outro lado estão dois rapazolas a fingir de gente graúda, e isso porque têm um cacetete à cintura e um revolver na culatra, momentos antes, no primeiro controle, respondi tourism
quando questionado sobre os motivos da minha visita aos EUA, agora
atiro, com a arrogância e indiferença com que me olham os rapazolas da
farda,
spiritual matters, perguntam-me onde vou ficar, parece
que quero fazer carreira profissional nos EUA, é isso que me dizem
eles, respondo que é só trabalhar numa quinta para pagar a renda, um
dos agentes pergunta-me que questões espirituais sao aquelas, eu falo
do John Wheeler, das palestras, eles perguntam em que consistem as
spiritual matters, eu impaciente falo da Advaita, um deles pergunta-me o que é, It’s too deep to talk about it here over a counter, eles vêem o site do John (www.thenaturalstate.org), fazem umas perguntas, eu digo-lhes do meu voo de ligacao às four ten, eles respondem You’ll be alright,
parece que estou terminado por ali, vou buscar a minha mochila, passo
mais uns controles, uma laranja, duas bananas e tres macãs ficam
retidas,
You can keep the food, I have a flight to get into at four ten, digo-lhes eu, depois de abrir uma das quatro sandes que trouxe sou autorizado a prosseguir, At four ten, pergunta um agente, You won’t make it, you eed at least half an hour to check-in, faltam vinte minutos agora para o voo, They’ll put you in another flight,
termina ele. Sigo para o proximo checkpoint, largo lá a mochila e largo
de lá para a porta C94, que fica a quinze minutos de corrida do outro
lado do terminal, chego quase a suar à referida porta, o voo está
marcado para as
four ten, sao four o five, a senhora do outro lado do balcao diz-me It’s delayed,
o voo está atrasado, pelos vistos eu nem por isso. Sento-me numa
cadeira, na televisao ouvem-se gritos histericos, é o Obama que acena
num canal de noticias, à minha frente um homem tira fotografias à
televisao, ao seu lado uma mulher da-lhe um cartão com o seu endereço
de e-mail para ele lhe enviar as fotos, se não se importar, eu continuo
um bocado irritado, apetece-me dizer àquelas pessoas que pasmam em
frente ao ecrã,
What’s going on, is he God or what??


     Embarco rumo a São Francisco e acabo a conversar com o Juan
Manuel, um jovem de quinze anos da Colômbia e cinco ou seis horas
depois estou a aterrar na
city by the bay,
procurando, perguntando e tropeçando acabo por chegar ao cruzamento da
23rd com a Alabama, sento-me num canto escuro, mando uma sandes para o
estômago e espero ate que uma voz, atirada de uma silhueta que se
desenhava no escuro da rua, me diz
You must be Andre, Anya,
pergunto eu, cumprimenta-me com um aperto de mão, olhos de um azul
curioso, figura esguia, cabelo curto com muita simpatia mostra-me a
casa. Acabamos num barzinho a celebrar a
inauguration do Obama, ainda tenho tempo para brilhar num jogo de pool
onde enfio duas bolas nem sei bem como, uma tabela genial para matar o
jogo, atiro-me para cima de um sofá na sala-cozinha e ate amanha.



     Acordo pelas oito, varias habitantes da casa passam pela sala onde
durmo, creio haver um casal de lésbicas, tres visitantes estão também
por la, uma outra que nunca tinha visto antes, a ultima a surgir é a
Anya, oferece-me cafe, eu bebo um cha, partimos em direccao ao BART (
Bay Area Railway Transit, o metro da zona de Sao Francisco e Oakland), eu saio no Embarcadero,
ela segue rumo ao seu emprego, emerjo dos subterrâneos ate as ruas
salpicadas por edifícios espelhados tocando as nuvens, algumas
perguntas depois chego a
Greyhound Station, o que me faz pensar na letra do Soul meets body dos Death Cab for Cutie,


‘Cause in my head there’s a Greyhound station,
Where I send my thoughts to far-off destinations.
So they may have a chance of finding a place where,
They’re far more suited than here.


(Curiosamente, é precisamente esta estrofe que oiço no preciso momento em que escrevia as palavras Greyhound Station. Juro que não foi propositado!)



compro o bilhete para Santa Cruz, troco umas palavras com uma
menina que ia para Santa Barbara e que estava a ler um livro sobre a
Cabala, viajo ao som da voz doce e quente da Mariza, trazendo-me do
coração uma vontade de chorar de mansinho,




No deserto
oiço o fundo da alma
E quando a areia está calma
O bater do coração

É que tanto deserto
Tao de repente
Faz-me pensar
Que o deserto sou eu
Se não me vieres buscar



viajo também com as palavras profundas mas simples do John Wheeler, dando vontade de ser livre e infinito.

Dré

Published in: on 01/02/2009 at 6:51  Comments (1)