Manifesto anti-poemas de amor

Poemas de amor, cartas de paixão e nostalgia sem fim, tristeza
sempiterna. Adoras arrastar a tua alma pelo pó da terra. Se tens o
vento a correr-te nas veias e um mundo inteiro no lugar do coração,
porque finges ser do tamanho de um punho que bombeia fechado lágrimas
de dor?

Tens dentro do peito a fonte da luz sem fim, a nascente
de onde brotam todos os deuses. A árvore da vida de onde cai o fruto da
infinita paz faz crescer raízes no teu ser mais profundo, mas ainda sim
curvas-te perante as fragilidades da personalidade humana. Diante de
ti, o próprio Divino teria de se fazer vergar e orar em submissa
adoração. Que imaginas então dizer quando escreves essas ridículas
palavras de triste romantismo?

Cada quadra de amor é um pedido
de socorro, é um salva-me desta solidão, abraça-me para longe daqui e
faz-me sentir maior. Mas se no teu rosto está o rosto do mundo e nos
teus olhos o brilho de mil astros, a quem pensas estender a mão quando
te inclinas nos versos que escreves?

Esquece essas
infantilidades da alma, espasmos de adolescência de um espírito que
nasceu eterno. Vê quem és e despe-te das roupas que não te pertencem.
Nu serás infinitamente mais glorioso. Quando disfarçado pelas máscaras
dos sentimentos mundanos, o teu ser universal parece uma mera
fotografia tirada ao sol. Rasga-te no papel e brilha como
verdadeiramente és.

Dré

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Published in: on 20/05/2009 at 4:12  Comments (1)  

Meditação


Se a meditação
é uma viagem, é uma viagem até onde nos encontramos. A distância que
separa o ponto de partida do objectivo é zero. A liberdade dos mestres é nada mais do que ver que as amarras n
ão existem de todo. Em termos absolutos, criar na mente de alguém um conceito
solidificado de iluminação, a obter algures no futuro, é imediatamente induzir
em erro de alguma forma.

If meditation is a journey, it is a journey to where one is. The distance separating starting point and goal is zero. The mystic’s freedom is none other than noticing that the bonds don’t exist to begin with. In ultimate terms, to create in people’s minds a solidified concept of enlightenment as a future goal is already misleading them in some way.

Shinzen Young

Published in: on 20/05/2009 at 4:10  Comments (1)  

Apenas Um


Apenas um existe. Nunca existe, seja de que forma for, mais do que
isso, nem mesmo dois. Toda a percepc
ão de distincão e separacão, de dualidade, e
consequentemente daquilo a que
é chamado de realidade física, é uma
ilus
ão mental, como um sonho. Quem tu pensas ser, uma entidade
individual separada, faz parte dessa ilus
ão. Tu não és o criador de
nenhuma ac
ção ou pensamento. Os acontecimentos sucedem-se, mas não
existe quem os realize. Tudo o que existe
é Consciência. Isso é o que TU realmente és.

(…)

Embora procurado e compreendido por tão poucos, esta linha de
Conhecimento, esta sabedoria perene, sobreviveu porque oferece nada
menos do que tudo: as
respostas às perguntas sobre a vida, a verdadeira natureza de tudo o que existe, um significado e propósito últimos e o fim do sofrimento.

___

There is only one. There is not ever in any sense many, or even two. All perception of distinction and separation, of duality, and therefore of what is know as physical reality, is a mind-created illusion, of the nature of a dream. What you think you are, a separate individual entity, is part of this illusion. You are not the doer of any action or the thinker of any thought. Events happen, but there is no doer. All there is, is Consciousness. That is what YOU truly are.

(…)

Although pursued and understood by so few, this thread of Understanding, this perennial wisdom, has endured because it offers no less than everything: the answers to life’s questions, the true nature of all that is, ultimate meaning and purpose, and the end of suffering.

David Carse, Perfect Brilliant Stillness

Published in: on 18/05/2009 at 12:50  Comments (1)  

| Na ver d a d e n a da s e passa |



São tudo jogos de sombras, enquanto nos encontramos,
aparentemente, de costas para a luz. Aparentemente, porque o nosso ser
não tem costas. Assim são os anjos, assim somos nós, feitos de luz.


existe uma realidade, um mesmo ser que se transpira de uns para os
outros, sempre igual, sempre diferente. Existe apenas essa realidade; a
que tu és, eu sou. Somente um mar entra por todos os rios do mundo. A
ilusão da escolha é a mentira da individualidade. Ela é o fardo da
ilusão, é a benção do reencontro.

Todos os mundos passam por
nós, mas nenhum deixa a mais pequena marca. Os universos são meros
pássaros que cruzam o céu que somos. Tudo muda, menos o que somos. Como
poderia o infinito silêncio mudar? Na verdade, nada se passa. O real
nunca foi criado, mas sempre é; a ilusão nunca morrerá, porque jamais
nasceu.

Dizem que somos todos um. Permitam-me discordar. Um apenas existe. Nunca houve plural para a realidade que é.


Dré

Imagem: Pintura número oito do texto Budista Zen "As dez imagens da captura do touro". A
"captura do touro" é uma metáfora Budista para a busca da nossa
verdadeira natureza ou essência. A pintura número oito representa a transc
êndencia da pessoa e do touro (a essência).

Published in: on 14/05/2009 at 2:38  Deixe um Comentário  

O estado natural da mente

Passaste a primeira metade da tua vida a tornares-te alguém. Agora podes empenhar-te em não ser ninguém, o que na verdade é ser
alguém. Porque quando te tornas ninguém não existe tensão ou
fingimento, não existe ninguém a tentar ser alguém ou alguma coisa. O
estado natural da mente brilha sem obstáculos – e o estado natural da
mente é puro amor.

You spent the first half of your life becoming somebody. Now you can work
on becoming nobody, which is really somebody. For when you become nobody there
is no tension, no pretense, no one trying to be anyone or anything. The natural
state of the mind shines through unobstructed—and the natural state of the mind
is pure love.

Ram Dass

Published in: on 13/05/2009 at 11:24  Comments (1)  

No quarto da alma

I
Apetece-me sentar
no alpendre
do meu rosto
e,
debaixo do beiral
do meu cabelo,
ser feliz para sempre.
Dali olho as ruas
dos meus braços,
unidas
no cruzamento das mãos.
Carros passam
e levam o meu pensar;
bicicletas deslizam
no meu sentir.

II
O dia apaga-se
com o fechar dos olhos
e dentro de casa
sento-me no sofá
do coração.
A televisão
passa filmes
de fantasias e intenções,
anseios e quimeras,
e são todos meus.

III
Ali me divirto
com os meus roteiros
para o futuro,
mas quando adormeço
no quarto da minha alma,
a paz que l
á se sonha
vale mais
do que o brilho
de todos
os
sóis.

Dré

Published in: on 13/05/2009 at 6:09  Deixe um Comentário  

Velhices



O tempo cavalga por cima de todos os prados, todos campos e montanhas, por cima de todos os homens e mulheres, génios, medianos ou brutos, normais, anormais e outros, o bebé faz-se criança, as crianças pulam para ser jovens, estes fermentam e transformam-se em homens, os homens arrastam-se pela vida, agarrando-se às esquinas, árvores e postes que encontram no caminho, procuram um porto onde fugir das vagas que sempre os empurram, tentam abrandar o ritmo da existência que os leva lenta, mas irrevogavelmente, até à velhice, velhice esta que nada mais é que a morte em vida, se a Morte tivesse um rosto seria o da velhice, nem um simples brilho no olhar se encontra num velho, são cadáveres animados por forças que já não são deste mundo, é vida que se esqueceu de se apagar, é morte que ainda não se lembrou de se anunciar, nem se pode dizer que vivem os velhos num limbo, no balcão entre a existência e a não-existência, na fronteira entre o ser e o cessar, não, passaram já completamente para lá, para o vazio silencioso, para a vastidão incolor da não-vida. Mas atente o leitor desprevenido que quando se referem bebés ou crianças, jovens ou homens ou velhos, não se fala aqui de corpos, não falamos nós de vísceras e reumatismos, nem de artroses, Alzheimers ou Parkinsons, e quando se fala das crianças, não se intenta aqui apontar para os corpinhos saudáveis, os braços tenrinhos e macios, nem para a pele de cu de bebé, como se diz, ou para os dentinhos de leite em negociação com os chamados definitivos, vem a força dos anos e logo vemos a falsidade de mais este rótulo, quando se fala aqui de bebés, crianças, jovens, homens e velhos, não se fala dos seus corpos, fala-se das suas mentes, e Deus perdoe o enorme lugar comum que é dizer que a idade não está no corpo, e nem é isso que se pretende aqui, pretende-se apenas referir que existe a idade do corpo, sem dúvida, não olvidemos os encarquilhamentos das peles, a lassitude do físico, a languidez dos músculos, ah, a idade é física também, mas existe uma outra idade, a do espírito, a da mente, a da alma, a do coração, não o que bate no peito, entenda-se, e é a essa que nos referimos, a idade do espírito, muitos mancebos já com espírito de velhos e são estes velhos que dizíamos estar já mortos, mesmo que sejam ainda garotos novos, muitas moças com mente de mulher cansada, viúvas na carne e caducas no coração, e muitos velhos levando alma de criança, gozo de bebé, brincam como não brincam os novos, riem como o não sabem fazer muitos homens e mulheres ainda com força nos músculos, incluindo os da cara, dizem que é lá que se encontra deles com fartura, não admira que muitos velhos não saibam já sorrir, cansaram-se-lhes os músculos do rosto, mas fica por explicar por que andam tantos rapazes novos com trombas feias como a morte, parece que deixaram a vida na gaveta da mesa-de-cabeceira, talvez a vistam quando se deitarem, talvez os sonhos que têm durante a noite sejam a vida que não levaram durante o dia, os sonhos lá atingirão os altaneiros picos que apenas eles conseguem, mas esquecendo-se eles, homens e mulheres, da vida novamente na gaveta, no dia seguinte lá ficarão os sonhos mais uma vez a aguardar, talvez no último sono em que adormecerão os retomem, talvez seja no caixão que os sonhos verão então a luz do dia, e será realizado, do lado de lá, aquilo que, no lado de cá, viveu dentro de uma gaveta.


Retirado d’ O Génio

Dré

Published in: on 06/05/2009 at 7:05  Deixe um Comentário  

Fortaleza de Luz



Entre o ar que se desloca suave
pedras se erguem.

Apenas Um vive
nesta fortaleza de Silêncio.
Todas as muralhas são feitas de luz,
em todos os quartos repousa enfim o mesmo ser,
e em todas as divisões se dorme neste mesmo sonho.

Aquele é um sonho que habita entre paredes luminosas,
e ele próprio bebe dos seus contornos luminescentes.
Neste sono de clara transparência,
não existem fronteiras,

interior ou exterior,

não existe meio ou fim.
Entre este sonho e realidade
não existe mais do que uma extensão desta mesma luz;
uma mesma melodia invisivelmente sentida.

A mesma fragrância sente-se em todas estas salas;
Apenas Um habita e reside neste espaço.
É factual e imaginativo,
fantasia e realidade,
é paredes e ar.

Eu sou o sonho
que vive em quem verdadeiramente sou.

(Nota: Poema metricamente simétrico.)

Dré

Published in: on 03/05/2009 at 9:38  Comments (2)  

The centre of your world

You are the center of your world.
What do you know of this center?
If you do not know this center,
What do you know?

Published in: on 01/05/2009 at 9:47  Comments (1)