Libertação Natural

toda a realidade se liberta espontaneamente

essa é a natureza das coisas

dentro deste fogo inevitável

nada chega a ser coisa alguma

 

as sensações apresentam-se, mas naturalmente se libertam

assim, os corpos surgem, mas dissolvem-se no perfeito vazio

 

os pensamentos nascem para logo desaparecer, naturalmente libertados

assim, mentes manifestam-se e cessam a todo o momento, como vultos fugazes

 

as percepções sempre em mudança constante, naturalmente se dissolvem

assim, mundos aparecem, transformam-se e desaparecem, como simples correntes de ar

 

nada há que não ISTO

a vastidão envolvente d’ISTO

eternamente ISTO

infinitamente ISTO

ainda que ISTO fundamentalmente seja apenas nada

 

apenas ISTO, para além de “isto” ou “aquilo”

ideias de multiplicidade e unidade libertam-se ao surgir

sentimentos de “um” ou “muitos” dançam e aposentam-se espontaneamente

 

apenas ISTO aqui, para além de conceitos de “aqui” ou “ali”

não um ponto geográfico no espaço, apenas ISTO que se manifesta

o próprio espaço se liberta à medida que as aparências se desfazem

 

apenas ISTO agora, para além de passado, futuro ou presente

o próprio tempo se liberta na fornalha da vacuidade

sem deixar cinzas que proclamem um qualquer “antes” ou “depois”

 

ideias de se ser pessoa, uma entidade, uma alma que percorre a estrada da vida

espontaneamente se libertam

sentimentos de se ser uma essência última, a fonte suprema que gera universos

também eles se libertam no vasto firmamento do Real

 

ideias de sofrimento, separação e emprisionamento

elas espontaneamente se libertam

sentimentos de paz, união e libertação

também eles se libertam no profundo oceano do Real

 

ideias de ilusão, confusão e desilusão

espontaneamente se libertam

sentimentos de verdade, iluminação e compreensão

também eles se libertam no fogo escaldante do Real

 

ideias do caminho, prática e perseverança

espontaneamente se libertam

sentimentos de destino, realização e transformação

também eles se libertam na montanha maciça do Real

 

porém

até o vasto firmamento do Real se dissipa em total libertação

como o último suspiro de um idoso

até o profundo oceano do Real se evapora no vazio

como uma chávena de chá esquecida ao sol

até o fogo ardente do Real mergulha no esquecimento

como o calor de uma vela na frescura da noite

até a imensa montanha do Real se transforma em pó

como um punhado de terra lançado no ar

 

nenhum chão para ISTO

nenhum tecto para ISTO

nem norte nem sul, nem este nem oeste

nem alto nem baixo

nem nascimento nem morte

nem eterno nem transitório

nem aqui nem ali

 

sem chuva, sem sol

sem terra, sem vento

ainda assim o perfume manifesta-se

busca a flor e todos os Céus se desmoronarão

 

quando o chão se estilhaça

o céu naturalmente explode

apenas ISTO e nada mais

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Published in: on 08/05/2015 at 15:48  Deixe um Comentário  
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A vida como a conhecemos

Acho fascinante e revolucionário o simples facto de nenhum ser humano, alguma vez, em qualquer ponto da história, ter experienciado algo que não apenas a sua própria consciência.

O que julgamos ser o aço da torre Eiffel é, na verdade, apenas uma inefável e insubstancial imagem na nossa mente, uma representação neuronal de uma suposta realidade exterior – suposta, na medida em que, dado que nunca experienciaremos essa realidade, podemos naturalmente questionar a sua existência. Nada há de sólido ou físico na nossa experiência, à semelhança de uma projecção holográfica.

 Não entrando em campos ontológicos(1), realço apenas o quão extraordinária esta simples reflexão pode ser. Mesmo que a materialidade exista, a complexa multiplicidade de seres, bem como um mundo exterior e objectivo, a verdade é que essas (aparentemente) sólidas “realidades” nunca são – ou poderão sequer alguma vez ser – experienciadas objectivamente. Experiência implica inevitavelmente consciência, que é sempre subjectiva e imaterial. Toda a experiência é de uma natureza intimista, inefável e quiçá onírica.

A nossa vivência está para sempre encarcerada numa cela de subjectividade e imaterialidade, habitante num casulo de luminosidade, de não-separação e universalidade. Na experiência mental – que é a única “realidade” disponível -, tudo é sempre apenas uma mesma substância, um mesmo campo aberto de percepção, uma sopa indiferenciada e unificada de existência-consciência. Uma possibilidade muito válida para a libertação da condição humana poderá estar apenas à distancia de um olhar mais atento.

Independentemente das fragilidades ontológicas que possam ser apontadas a esta perspectiva epistemológica(2), a vida como a conhecemos é sempre e apenas consciência. Tudo o que alguma vez encontraremos estará eternamente dentro do nosso crânio. Somos os deuses da nossa existência subjectiva, a realidade suprema e transcendente do nosso intra-cosmos.

          (1) Ontologia consiste numa parte da filosofia que estuda a natureza do ser, da existência e da realidade.

         (2) Epistemologia consiste numa parte da filosofia que estuda o conhecimento humano, a sua natureza e validade.