Os meus verdadeiros corpo e alma

Observo, analiso e compreendo que a experiência imediata é vazia de separação entre sujeito e objecto, que a distinção entre interior e exterior é ilusória. Tudo é interior, tudo é íntimo, tudo é Eu, a mesma Presença-Existência contínua.

Dessa forma, a ter um corpo, o único possível é a totalidade da experiência, e nunca uma mera parte da mesma. Tudo o que é visível ou experienciável é a manifestação do que sou. O meu corpo é todo o universo visível. Onde existirem características discerníveis, aí estarei Eu.

Quanto à minha alma, ela é o espaço invisível, inqualificável, indiscernível que é a origem de toda a experiência, de toda a realidade perceptível. Todas as características pertencem ao mundo do observável – ao meu Corpo. A minha Alma, estando para além de qualquer característica ou traço definidor, é inconcebível, imperceptível e indescritível.

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Desse modo, ainda que inseparável do universo observável, nem dentro nem fora dele a Luminosidade fundamental pode ser encontrada. É o misterio inultrapassável, o paradoxo indecifrável. É absolutamente invisível, ao ponto da não-existencia, pois nenhuma característica lhe pode ser atribuída; é absolutamente inegável, ao ponto da certeza gritante, dado que sem esta Claridade primordial nenhuma característica experiencial seria discernível – tudo seria uma escuridão intransponível, uma incontornável não-existencia total.

Este pequeno texto é a manifestação natural e simultaneamente a prova fundamental da presença do supremo mistério da existência – a Invisibilidade última que permite todo o visível. A alma do universo, a raiz e fruto de todo o Cosmos, origem e destino de todas as coisas, a profunda Identidade de todos nós, nada mais é que a Perceptividade imaculada que lê estas palavras, a Luminosidade observadora que diariamente testemunha o mundo, o Sujeito invisível que é o verdadeiro Eu de todos os seres.

Published in: on 21/06/2015 at 16:31  Comments (2)  
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Perspectivas libertadoras da subjectividade

Neste momento existe experiência. Existe percepção de cores, sons, sensações, pensamentos, etc. Normalmente criamos uma identidade a partir de algumas dessas percepções e sensações, formando a ideia de um corpo e de uma mente e posteriormente de uma entidade que reside dentro desse corpo-mente. Basicamente, do campo unificado de percepção/experiência, criamos uma divisão – conceptual – entre “eu” e “outro”, ou entre “eu” e “mundo”.

Esse “eu” é supostamente “fixo”, independente e estável no tempo, mas nada na experiência corrobora essa ideia. Esse corpo fixo e constante na verdade é construído tendo por base sensações temporárias e intermitentes. A ideia de uma mente fixa e constante é igualmente baseada em pensamentos transitórios e impermanentes, em constante fluxo. A experiência directa é mais semelhante a um processo do que propriamente a uma entidade. Há sempre coisas a acontecer, em constante transformação, mas dessa dança fluída tentamos encontrar um padrão estável ao qual chamamos “eu”. É como água a ferver num tacho: entre as mil e uma bolhinhas que surgem e imediatamente desaparecem, qual delas é “eu”?

Mas independentemente das estruturas conceptuais impostas à experiência, esta permanece sempre fiel à sua natureza. A experiência, independentemente do conteúdo que possa apresentar, consiste, na sua inevitável totalidade, de consciência. Experiência e consciência são, na verdade, sinónimos. Não há experiência sem consciência – embora algumas tradições afirmem poder haver consciência sem experiência.

A cada momento o que existe é um campo aberto de percepção, de experiência, onde objectos vários – imagens, sons, sensações, pensamentos, etc. – vão surgindo e desaparecendo. Esta dança acontece sempre num palco, numa realidade que permite que ela aconteça e seja registada. Ou seja, há uma consciência que observa toda a experiência. Contudo, esse “observador” não é estático ou independente. A luminosidade natural da nossa percepção dança com e em todas as coisas, transformando-se em tudo o que se manifesta. Não há uma consciência e os respectivos objectos percepcionados. A consciência *é* os objectos percepcionados – como água que, independentemente das muitas formas ou estados (gasoso, líquido ou sólido) que possa assumir, é sempre água.

Por vezes, quando encontramos estes ensinamentos baseados na consciência, podemos ter a sensação que estamos escondidos atrás dos olhos, como um observador distante ou transcendente. Na verdade, nada existe atrás dos olhos. Todo o Real se estende em frente. A tua verdadeira natureza, a tua essência, é a claridade fundamental da experiência imediata. A questão “quem sou eu?” é relevante na prática espiritual até um determinado ponto. Mais tarde, podemos começar a perceber que a existência de um “eu” sempre foi apenas um filtro sobreposto à experiência imediata, uma crença que se desenvolveu progressivamente até se tornar um complexo processo físico, psicológico e emocional – uma teia de sensações, conceitos e emoções que giram consistentemente em torno da crença na existência individual.

Porém, uma investigação profunda da experiência directa revela que os maiores abismos criados pela mente humana são totalmente iusórios. Conceitos como individualidade, separação, interior/exterior, sujeito/objecto, materialidade e objectividade são todos baseados em modelos ideológicos não-experienciados, pouco mais do que especulações teóricas. Neste preciso momento, toda a experiência é feita de consciência. A própria ciência diz-nos isso – nós não acedemos ao mundo exterior, apenas à representação mental que o nosso cérebro cria. A questão é que nunca ninguém alguma vez experienciou um mundo exterior à sua consciência, mas ainda assim raras vezes questionamos esse conceito de mundo objectivo, independente da nossa experiência subjectiva.

Não entrando em questões ontológicas delicadas, a nossa experiência subjectiva é efectivamente tudo o que temos para trabalhar, e tanto a sabedoria como a ignorância têm a sua origem nela. Por isso é ela que devemos investigar profundamente e esclarecer qual a sua verdadeira natureza. Como referi antes, tudo é consciência. Neste momento, o chão que pisamos é consciência. As paredes, as mesas, os computadores, os carros ao longe, os prédios, tudo é simplesmente consciência – na nossa experiência directa. Qualquer experiência de solidez, de dor, de materialidade existe apenas de forma subjectiva e é, consequentemente, de natureza estritamente mental. Em termos de natureza fundamental, a nossa experiência do mundo real em nada é diferente da nossa experiência do mundo onírico – a “realidade” que experienciamos quando sonhamos, ou seja, a consciência a assumir inúmeras formas numa espécie de projecção holográfica mental.

Cientificamente sabe-se que o mundo exterior não tem cor, nem som, nem cheiro, nem qualquer atributo subjectivo. Nenhuma das características dos 5 sentidos existe num mundo exterior, pois essas características são *criações* do cérebro, e não propriedades físicas dos objectos “reais”. Cientificamente, a existência de um universo físico é cada vez mais questionada. Não temos de utilizar estes avanços científicos para promolgar todo o tipo de teoria espiritual, mas deixa em aberto a possibilidade de questionarmos e investigarmos o tecido do real com mais segurança e confiança, sem pensarmos que somos loucos por desafiar as teorias irrefutáveis da ciência. De facto, não existem ainda muitas teorias irrefutáveis no que concerne à natureza última do universo e da nossa experiência subjectiva. Desse modo, é importante mergulhar a fundo na nossa experiência directa e investigar se as grandes dualidades e divisões são efectivamente reais, pois é nelas que se alicerçam o nosso sofrimento e confusão.

Por exemplo, logo no início deste texto escrevi, “Existe percepção de cores, sons, sensações, pensamentos, etc.” Na verdade, não existe percepção *de* cores, mas apenas percepção pura, não-dividida, sem separação ou objectivação, apenas a realidade não-dual da experiência imediata. A percepção não está a observar as cores. As cores são simplesmente a manifestação da percepção – como que o corpo, a forma aparente que a percepção assume. Para vermos isto, basta procurar pela distinção entre o objecto (percepcionado), o sujeito (que percepciona) e o acto de percepção.

Se olharmos para um objecto, a que distância é que está da nossa percepção dele? Onde é que o objecto termina e a nossa percepção começa? Onde está a linha que separa o observador do observado? Sujeito e objecto são inferidos e fabricados conceptualmente. Isto aplica-se a todos os sentidos, bem como ao pensamento, às emoções, etc. Toda e qualquer experiência é pura, no sentido de ser livre de divisões conceptuais. Subitamente, as margens do rio dissolvem-se e fica apenas o seu “conteúdo”, a água que flui livremente. Observador e observado desaparecem, e fica apenas a experiência contínua de percepção, sem separação ou dualidade.

Depois de libertarmos a percepção da crença num sujeito vs. objecto, é fácil vermos como toda a experiência é igualmente vazia de conceitos de interior ou exterior. A ideia de que há coisas que são interiores (pensamentos, emoções) e outras que são exteriores (a lua, as montanhas, os iPhones) também não passa nesta nossa investigação. Onde está a linha que separa interior e exterior? Onde começa o exterior? Cinco milímetros depois da pele? Depois do pelo mais alto? Se colocarmos um braço em cima de uma secretária, veremos uma cor clara, representando o nosso braço, e uma cor escura, representando a mesa, por exemplo. Temos duas cores a existir exactamente ao mesmo nível, ambas envolvidas pelo mesmo processo de percepção. Como é que uma cor é “eu” e outra “não-eu”? Porque é que uma cor representa algo interior e outra algo exterior?

Se nos lembrarmos que não existe nem observador nem objecto observado, apenas a experiência de percepção, perceberemos que a experiência de “braço-na-secretária” é totalmente não-dual, não-dividida, imaterial e subjectiva. É apenas experiência directa, pura; existência impessoal, livre de alguém que a possua ou experiencie. Quem é o dono da cor clara (braço)? Virá essa cor com o rótulo que diz que pertence a alguém? Virá com a informação que é uma cor pertencente a um corpo? Tudo isso são conjecturas mentais. A experiência directa e imediata é vazia de quaisquer dessas tendências reificadoras (tendência para imaginar pessoas e objectos como sendo permanentes e independentes).

Como já tínhamos visto também, toda a experiência acontece dentro da consciência, feita de consciência. Quando sonhamos à noite, as árvores que vemos são feitas de consciência e não de madeira. A torre Eiffel dos nossos sonhos é feita de consciência, não de aço. Como dizia Shakespeare, “somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos”. Quando estamos acordados, a experiência não é diferente – a consciência é a substância de todas as coisas. Mesmo que haja/houvesse um mundo exterior, a nossa experiência é apenas a representação mental desse mundo, pelo que é sempre feita de consciência. A experiência de um mundo material, físico e objectivo, independente ou existente fora da nossa consciência, nunca acontece. Nada pode ser experiênciado que não a consciência que experiencia – essa é a natureza de toda a experiência. A única substância presenta na experiência é consciência. Dessa forma, sujeito e objecto são eternamente unificados e dissolvidos em cada acto perceptivo.

Se tudo é feito da nossa consciência, então a nossa identidade não reside em nenhum objecto específico da nossa experiência – como o corpo ou os pensamentos -, mas sim na *totalidade* da experiência. A ideia de individualidade, na nossa experiência subjectiva, é uma ilusão. Não há separação entre a nossa consciência e os objectos observados – há apenas um campo unificado de percepção. Esse campo, esse vácuo luminoso, essa claridade fundamental que tudo observa e simultaneamente tudo é, é a nossa verdadeira natureza. É a resposta a “quem sou eu?”. “Eu” é um dos nomes que este campo aberto de percepção pode ter.

Não é, contudo, apenas a resposta a “quem sou eu?”. É também a resposta relativamente à identidade de todas as coisas. Tudo é apenas uma manifestação temporária da luminosidade fundamental que engloba toda e qualquer experiência. Objectos “físicos”, experiências “mentais”, o próprio espaço e tempo, são tudo manifestações da nossa presença – não “nós” enquanto entidades individuais, mais sim “eu” enquanto espaço fundamental de percepção onde tudo se manifesta – o espelho onde aquilo a que chamamos vida, ou existência, surge reflectido.

Uma investigação interessante de se levar a cabo é precisamente em relação ao espaço. A percepção de distância é exactamente isso – uma percepção. Porém, toda a percepção é de um carácter imediato, intimista em grau absoluto – temporal e espacialmente. A lua situa-se a milhares de quilómetros de nós, diz o pensamento. Todavia, a lua é, na sua totalidade, apenas percepção. Na nossa experiência subjectiva, nada há que constitua a lua que não seja a nossa própria consciência. Assim, “consciência” e “lua” são sinónimos em questão de identidade. Desse modo, a lua existe para nós numa realidade para além do espaço, pois situa-se a distância zero – ela é quem somos. “Lua” e “Eu” formam uma unidade perceptiva e identitária perfeita.

Esta unidade identitária entre todas as coisas, a dissolução das fronteiras conceptuais que separam sujeito e objecto – e os objectos entre si – é um dos objectivos principais de qualquer abordagem espiritual. É a “religião” – o re-ligar – de todas as coisas, o dissipar da separação, o deixar cair de quaisquer rótulos identificativos e identitários, onde “eu” e “outro” se transformam apenas em movimentos despreocupados de uma dança primordial.

Algumas das investigações interessantes de levar a cabo no nosso campo subjectivo serão então:

– Procurar por um “eu” que seja o sujeito da experiência, o detentor da experiência;

– Procurar por uma linha que separa interior e exterior; o que é que significa algo ser exterior à experiência?

– Procurar pela existência de um sujeito e objecto independentes de qualquer percepção ou experiência; quando olhamos para um objecto, além do acto puro de percepção, conseguimos experienciar o objecto e o sujeito de forma independente da própria percepção?

– Procurar por algo objectivo, independente da consciência; existe alguma coisa além de experiência puramente subjectiva?

– Procurar por algo físico, que não seja apenas uma manifestação imaterial da consciência que apreende a sensação de fisicalidade;

– Recordar que não há experiência “atrás dos olhos”, que tudo o que existe é o campo aberto que se estende “diante” de nós; tudo o que existe são os “objectos” percepcionados, sem qualquer observador, e a substância/essência desses mesmos objectos é a luminosidade natural da percepção;

– Deixar a identidade dissolver-se totalmente, deixando apenas a experiência directa como realidade fundamental; ou deixar a identidade regressar à sua posição natural de luminosidade básica que permite e subjaz qualquer experiência.

– Compreender que, mesmo relativamente, nenhum objecto ou entidade tem existência inerente – não existem sozinhos nem possuem uma consistência interna estável e imutável. Todos os objectos são feitos de outros objectos, todos podem ser reduzidos a partes mais pequenas. Não existem “eus” nem “objectos” que não sejam dependentes de outros factores. Tudo é interdependente, uma dança fundamentalmente indiferenciada.

Ficam aqui algumas ideias para explorar e quiçá libertar a experiência de algumas das correntes que (aparentemente) a aprisionam a paradigmas dualistas, reificadores e materialistas.

The Kragle e a negação da Vida

A ideia de que o corpo nos pertence é particularmente tentadora. Celebramos o nosso aniversário e achamos efectivamente que a idade do nosso corpo corresponde aos anos que passaram desde o nosso nascimento. Porém, somos bem mais velhos do que isso.

A matéria que compõe o nosso corpo – átomos e partículas – existe desde os primórdios do universo. Ainda o sistema solar não tinha nascido e provavelmente já os componentes do nosso futuro corpo existiam, dispersos, flutuando pelo cosmos, escondidos no interior de estrelas, no fundo do mar ou no corpo de outros organismos. Temporalmente, somos ancestrais para além da nossa compreensão. Espacialmente, somos seres intergalácticos, puzzles de matéria e energia e forças físicas oriundas dos quatro cantos do universo.

Por outro lado, somos bem mais novos do que imaginamos. O corpo que pensamos agora ser está em constante fluxo e transformação, com células a morrer e outras a nascer constantemente. Neste momento há partes do nosso corpo que têm apenas fracções de segundo de existência. Somos como fénix renascida, a cada instante, das suas cinzas.

Assim, no nosso próximo aniversário, quando apagarmos as velas, podemos lembrar-nos de que somos, simultaneamente, o ser mais velho e novo do universo. Tal como uma nascente milenar no topo de uma montanha, mas cuja água brota sempre fresca e nova a cada segundo.

Todavia, no meio de tão profunda e permanente mudança e transformação, como poderemos achar que este corpo nos pertence? Como poderá ele ser quem somos? Que entidade, que “eu”, conseguiria residir numa realidade tão impermanente e fugaz? Apenas  um ser igualmente impermanente e transitório pode resultar de tal processo. Tal como uma onda, que percorre o oceano, aparentemente sempre a mesma, mas na verdade constantemente mudando a água que a compõe, do mesmo modo somos nós processos, e não entidades; somos dança em movimento, em vez de corpos sólidos e estagnados; somos a vida em construção, o cosmos em transformação, como um ilusionista, sempre ele próprio, mas nunca igual a si próprio.

De notar que, com os avanços da física quântica, até a nossa identidade a um nível atómico se vê questionada. De acordo com aquele ramo da física, as próprias particulas “fundamentais” do universo, quando observadas a um nível quântico, deixam de ser partículas individuais, estáveis e independentes e passam a ser meras ondas probabilísticas dependentes de um observador para transformarem-se em algo “particular”. Então de que será realmente feito o nosso próprio corpo? Em última análise, seremos nós apenas como que actualizações constantes de um campo probabilístico transcendente? Seremos apenas personagens de um universo virtual, habitantes de uma projecção holográfica sem realidade física e material, holograma esse oriundo de um vácuo quântico e cuja manifestação aparente depende das consciências que a criam? Será o universo a dança de uma consciência suprema, como alguns místicos indicam?

Businessandkragle

A nossa mente tenta invariavelmente solidificar o real, congelar e petrificar a água que flui, como uma parede erguendo-se contra a dança existencial. Somos como o vilão do Lego Movie, com o seu Kragle, constantemente a querer colar as peças de todos os universos, negando o fluxo natural da vida.

Os nossos pensamentos habituais regularmente erguem-se contra o mistério e complexidade do real, tentando cobri-lo com uma capa de certeza, segurança e banalidade. Porém, tanto filósofos como cientistas em geral provavelmente admitirão a sua ignorância perante a natureza fundamental da existência. Quem somos nós então para deixarmos a vida cair na rotina, nós que somos, literalmente, seres interestelares?

Libertação Natural

toda a realidade se liberta espontaneamente

essa é a natureza das coisas

dentro deste fogo inevitável

nada chega a ser coisa alguma

 

as sensações apresentam-se, mas naturalmente se libertam

assim, os corpos surgem, mas dissolvem-se no perfeito vazio

 

os pensamentos nascem para logo desaparecer, naturalmente libertados

assim, mentes manifestam-se e cessam a todo o momento, como vultos fugazes

 

as percepções sempre em mudança constante, naturalmente se dissolvem

assim, mundos aparecem, transformam-se e desaparecem, como simples correntes de ar

 

nada há que não ISTO

a vastidão envolvente d’ISTO

eternamente ISTO

infinitamente ISTO

ainda que ISTO fundamentalmente seja apenas nada

 

apenas ISTO, para além de “isto” ou “aquilo”

ideias de multiplicidade e unidade libertam-se ao surgir

sentimentos de “um” ou “muitos” dançam e aposentam-se espontaneamente

 

apenas ISTO aqui, para além de conceitos de “aqui” ou “ali”

não um ponto geográfico no espaço, apenas ISTO que se manifesta

o próprio espaço se liberta à medida que as aparências se desfazem

 

apenas ISTO agora, para além de passado, futuro ou presente

o próprio tempo se liberta na fornalha da vacuidade

sem deixar cinzas que proclamem um qualquer “antes” ou “depois”

 

ideias de se ser pessoa, uma entidade, uma alma que percorre a estrada da vida

espontaneamente se libertam

sentimentos de se ser uma essência última, a fonte suprema que gera universos

também eles se libertam no vasto firmamento do Real

 

ideias de sofrimento, separação e emprisionamento

elas espontaneamente se libertam

sentimentos de paz, união e libertação

também eles se libertam no profundo oceano do Real

 

ideias de ilusão, confusão e desilusão

espontaneamente se libertam

sentimentos de verdade, iluminação e compreensão

também eles se libertam no fogo escaldante do Real

 

ideias do caminho, prática e perseverança

espontaneamente se libertam

sentimentos de destino, realização e transformação

também eles se libertam na montanha maciça do Real

 

porém

até o vasto firmamento do Real se dissipa em total libertação

como o último suspiro de um idoso

até o profundo oceano do Real se evapora no vazio

como uma chávena de chá esquecida ao sol

até o fogo ardente do Real mergulha no esquecimento

como o calor de uma vela na frescura da noite

até a imensa montanha do Real se transforma em pó

como um punhado de terra lançado no ar

 

nenhum chão para ISTO

nenhum tecto para ISTO

nem norte nem sul, nem este nem oeste

nem alto nem baixo

nem nascimento nem morte

nem eterno nem transitório

nem aqui nem ali

 

sem chuva, sem sol

sem terra, sem vento

ainda assim o perfume manifesta-se

busca a flor e todos os Céus se desmoronarão

 

quando o chão se estilhaça

o céu naturalmente explode

apenas ISTO e nada mais

Published in: on 08/05/2015 at 15:48  Deixe um Comentário  
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A vida como a conhecemos

Acho fascinante e revolucionário o simples facto de nenhum ser humano, alguma vez, em qualquer ponto da história, ter experienciado algo que não apenas a sua própria consciência.

O que julgamos ser o aço da torre Eiffel é, na verdade, apenas uma inefável e insubstancial imagem na nossa mente, uma representação neuronal de uma suposta realidade exterior – suposta, na medida em que, dado que nunca experienciaremos essa realidade, podemos naturalmente questionar a sua existência. Nada há de sólido ou físico na nossa experiência, à semelhança de uma projecção holográfica.

 Não entrando em campos ontológicos(1), realço apenas o quão extraordinária esta simples reflexão pode ser. Mesmo que a materialidade exista, a complexa multiplicidade de seres, bem como um mundo exterior e objectivo, a verdade é que essas (aparentemente) sólidas “realidades” nunca são – ou poderão sequer alguma vez ser – experienciadas objectivamente. Experiência implica inevitavelmente consciência, que é sempre subjectiva e imaterial. Toda a experiência é de uma natureza intimista, inefável e quiçá onírica.

A nossa vivência está para sempre encarcerada numa cela de subjectividade e imaterialidade, habitante num casulo de luminosidade, de não-separação e universalidade. Na experiência mental – que é a única “realidade” disponível -, tudo é sempre apenas uma mesma substância, um mesmo campo aberto de percepção, uma sopa indiferenciada e unificada de existência-consciência. Uma possibilidade muito válida para a libertação da condição humana poderá estar apenas à distancia de um olhar mais atento.

Independentemente das fragilidades ontológicas que possam ser apontadas a esta perspectiva epistemológica(2), a vida como a conhecemos é sempre e apenas consciência. Tudo o que alguma vez encontraremos estará eternamente dentro do nosso crânio. Somos os deuses da nossa existência subjectiva, a realidade suprema e transcendente do nosso intra-cosmos.

          (1) Ontologia consiste numa parte da filosofia que estuda a natureza do ser, da existência e da realidade.

         (2) Epistemologia consiste numa parte da filosofia que estuda o conhecimento humano, a sua natureza e validade.

A não-dualidade dos sonhos

O vento é calmo e o sol cai a pique sobre mim.

O cume já não está longe, mas esta caminhada já se sente

em cada músculo do meu corpo.

A vista é soberba, infinita, mas os meus olhos esforçam-se por alcançar.

Há outros caminhantes à minha frente, todos curvados e cansados.

Oiço as suas vozes, interrompidas pelos gritos das aves que nos sobrevoam,

e pelos meus próprios pensamentos.

Paro e olho para trás e

Subitamente o despertador acorda-me. Levanto-me e sigo com a minha rotina. Ou não? Será que prefiro permanecer deitado e reflectir sobre o que se passou? Analisemos a realidade do sonho e comparemo-la com alguns conceitos centrais da filosofia conhecida como não-dualidade e que afirma, tal como o nome indica, que não existem duas coisas no universo: tudo é feito da mesma matéria.

Voltando então ao sonho: tudo parecia tão real. Tudo era tão real! Vi pessoas, objectos, uma imensa montanha, a paisagem, o sol e o vento, eu próprio, juntamente com o meu cansaço, os meus pensamentos e tudo o resto. Mas tudo se passou na minha cabeça, nada mais do que imaginação solta ao sabor da noite.

Mas pensemos sobre as características do sonho. Não o seu conteúdo, propriamente dito, mas o material com o qual foi construído. Eu vi montanhas, pessoas, e tantas outras coisas. Mas de que eram essas coisas feitas? As árvores seriam feitas de madeira? Se tudo se passou na minha cabeça, terei eu madeira dentro do meu crânio? As pedras que vi, existem mesmo dentro de mim? A resposta, naturalmente, é não. Eu não vi árvores e pessoas. Apenas vi imagens de árvores e pessoas. Era uma espécie de universo holográfico, imagens sem conteúdo real, sem matéria concreta, embora parecessem e fossem experienciadas como reais. A dureza da rocha onde me sentei parecia extremamente concreta. A vertigem que senti naquele carreiro estreito pareceu-me muito real.

Porém, depois de acordar, vejo que eram apenas imagens na minha mente. Poderíamos ficar por aqui, mas avancemos um pouco mais. De que são feitas essas imagens? Eu vi inúmeras cores e formas, senti texturas e cheiros, ouvi sons. Donde veio o verde das árvores e o azul do céu? Terei eu uma paleta de cores na minha mente, que posso ir buscar para as pinturas dos meus sonhos?

Uma só matéria

Reflectindo sobre isto, fico com a noção de que as imagens da minha mente não eram feitas de nada a não ser a minha própria mente. Todas as experiências dentro do sonho são vividas dentro da minha mente, e nada há na minha mente sem ser ela própria. É como que se a mente se transformasse ou modelasse de forma a criar, para si própria, um espectáculo de percepções e sensações. Assim, a árvore que toquei era a minha mente, em forma de árvore. O meu cansaço era a minha mente, experienciado como cansaço.

Assim, posso concluir que apenas existe uma “matéria” no meu mundo de sonhos: a minha mente, ou consciência. Tudo o que experiencio nos meus sonhos sou eu próprio, enquanto consciência, modelado de forma a parecer um mundo inteiro. Assim sendo, quando os autores de filosofia não-dual afirmam que tudo é consciência, que todas as coisas são, literalmente, feitas de consciência, o que eles estão a fazer é transpor esta compreensão dos sonhos para a vida “real”. Pelo menos no universo onírico, “tudo é consciência” faz um perfeito sentido.

Somos todos um só

E se pegarmos na afamada frase espiritual, “somos todos um só”, também dentro do sonho as coisas adquirem um contexto mais real. Dentro do meu sonho tudo era um só: as árvores, as pedras, o céu, a paisagem infinita, eu próprio e as outras pessoas. A essência de tudo é a mesma consciência, a mesma mente que está a criar o sonho. Tudo era feito de consciência, por mais que, dentro da realidade relativa do sonho, se pensasse haver infinitas matérias-primas diferentes compondo infinitos objectos diferentes, inúmeros seres independentes, incluindo eu próprio, com vontades e desejos só seus.

A ideia de individualidade

Milhares de pessoas podem ser vistas num sonho, mas que realidade têm elas? Comecemos por mim mesmo – ou melhor, pela minha “personagem” dentro do sonho. Que realidade tenho eu naquele contexto? Já vi que tudo é consciência, pelo que, em última análise, o meu corpo e mente, dentro do sonho, serão apenas isso mesmo. Mas que independência tenho eu? Que individualidade? Que livre arbítrio? Que realidade?

Durante o sonho, imaginei fazer inúmeras coisas: caminhei montanha acima, pensei em algumas coisas, ouvi os pássaros, parei e contemplei a paisagem, e, já mesmo no fim, virei-me para trás. Mas quem é que escolheu fazer essas coisas? Quem tomou as decisões? Quem pensou que pensamentos ter? A minha personagem é apenas uma imagem na minha consciência que sonha. Ela não decide fazer nada, tal como a personagem de um filme não pode, se lhe apetecer, saltar fora da tela do cinema ou dizer um texto diferente. São apenas imagens a ser transmitidas na mente, criadas pela própria mente, feitas da própria mente.

Tal como a teia é feita do corpo da própria aranha, o sonho e tudo o que lá se passa é criado pela mente, sendo esta simultaneamente os objectos vistos, a matéria-prima que os criou e a consciência que observa toda a acção.

Assim, percebo que o “eu” dentro do sonho não existe. Quem toma as decisões, escolhe os pensamentos, bem como a decoração da paisagem e todo o enredo da acção é a mente que sonha. Quando penso que “eu” senti cansaço, que eu é esse? O eu individual relativo à minha personagem no sonho não sentiu nada. A minha mente, que sonhou tudo, essa sim, sentiu o cansaço e tudo o resto. Todos os sons ouvidos, todas as coisas vistas, foram percepcionadas pela consciência, não pelo corpo ou mente do meu eu onírico. Este nada mais é do que uma imagem dentro da mente. O mesmo se passa com as outras personagens. Nada do que fazem ou dizem ou sentem é da sua autoria, pois elas não têm existência independente da consciência que sonha.

Isto toca um conceito central na abordagem não-dual, que é a ausência de indivíduo. O “eu” separado e independente de tudo o resto, actor das suas escolhas, pensamentos e emoções, não existe.

A dualidade sujeito-objecto

Um conceito chave da não-dualidade é, obviamente, que não existem duas coisas. No sonho, como já se viu, tal parece ser o caso. A única realidade do sonho é a consciência que o cria, por mais formas e experiências que possam aparentar existir. Uma outra dualidade supostamente presente em qualquer experiência, e que a não-dualidade igualmente nega, é a dualidade entre sujeito e objecto.

Dentro do sonho, imaginemos que “eu” parei e olhei uma árvore. A mente normalmente divide essa experiência em sujeito – que olha – e objecto – que é olhado. Eu, sujeito, olhei a árvore, objecto. A mente ainda acrescenta um terceiro factor, que é a interacção entre ambas as partes e que permite o contacto. No exemplo dado, eu e a árvore seriamos ligados pelo acto de observação. Sem este, não se poderia dizer haver relação entre o sujeito e o objecto.

Mas se analisarmos a natureza do sonho, esta relação dissolve-se. Em primeiro lugar, se tudo são modelações da minha consciência, na verdade as três partes resumem-se a uma: tanto o observador, o observado como até o acto de observação são exclusivamente consciência. Nenhum deles existe independente da mente que os sonha. Nenhum deles tem uma vida própria antes de o sonho começar ou depois de terminar. O próprio acto de observação, que dentro do sonho parecia ser resultado da acção da minha personagem (que aparentemente olhava a árvore), é feito pela consciência (que é a única entidade capaz de observar) e é feito da própria consciência (que é a única matéria existente com a qual fabricar o que quer que seja dentro do sonho).

Resumindo numa só frase, a mente é, simultaneamente, o observador, o observado e o acto de observação. Mas como não faz sentido falar em três coisas distintas, quando apenas uma há, pode dizer-se que o sonho é somente a experiência de observação, sem observador nem observado. Percepção pura, sem sujeito nem objecto percepcionados.

Isto é extrapolado para a vida real pela não-dualidade, que afirma que na experiência directa de cada um apenas há percepção pura, não havendo percepção de um observador ou observado independentes do próprio acto de observação. Esta percepção pura é outro nome para consciência.

O vazio e o todo

“O amor diz-me: Eu sou tudo. A sabedoria diz-me: Eu sou nada. Entre os dois, minha vida flui.”

Nisargadatta Maharaj, conhecido mestre da tradição não-dual deixou-nos, entre tantas outras, a frase acima referida. À primeira vista, mesmo para alguém com uma moldura ideológica dita espiritual, parece uma frase peculiar: niilista na primeira metade, ambiciosa na segunda! Para o comum mortal, este senhor aparentava profundos sintomas de negação da realidade.

Mas, por mais que pareça uma frase digna exclusivamente de um guru exótico, qualquer um de nós a poderia sinceramente dizer se, dentro de um sonho, nos perguntassem “quem és tu?”. Aparentemente, dentro do sonho eu sou aquele corpo e aquela mente, animadas por uma espécie de espírito ou consciência. Mas como já se viu, corpo e mente são apenas imagens a ser transmitidas por consciência “superior” à da personagem sonho. Assim sendo, tendo este conhecimento, qualquer um poderia dizer, “Eu sou consciência pura, vazia, sem forma ou limite. Sou o vazio”.

Porém, dado que todas as coisas presentes no sonho são feitas desse mesmo vazio (por contra-intuitivo que tal possa soar), se a única matéria presente no sonho é a consciência que eu sou, então poderia igualmente dizer que “Eu sou tudo. Não eu, a personagem que vês, este corpo e mente, mas sim Eu, a consciência onde todo o universo surge e da qual é feito”.

Dentro de um sonho, se tivéssemos tal conhecimento, todos poderíamos ser gurus. Sem demagogias ou truques de magia, manuseando apenas a certeza de que, dentro daquele mundo onírico, tudo é consciência, e isso é quem eu sou.

Espaço e tempo

Conceitos prezados pelo nosso mundo, tais como os de espaço e tempo, são também objecto de algumas interrogações. Dentro do sonho, parei e olhei a paisagem. Vi imensos objectos, espalhados pelo meu campo de visão, perdendo-se de vista, a tocar o horizonte. O sol parecia estar, como é seu apanágio, a milhões de quilómetros de distância, o cume da montanha a poucas centenas de metros. Porém, a pergunta óbvia, com resposta também óbvia nesta altura, é, de que são feitas essas distâncias? A minha cabeça não abarca naturalmente semelhantes envergaduras. A minha mente, sendo imaterial, não tem sequer sítio onde as colocar. A resposta óbvia naturalmente é que aquelas distâncias são apenas imagens dentro da consciência, feitas de consciência. Dentro de um sonho, não existe distância, apenas percepção de distância. Na realidade, aquele sol, que é consciência, está a zero milímetros de distância de mim próprio, que sou consciência. Mas não só de mim. Relativamente a outros objectos também, e todos eles se encontram também a distância nenhuma uns dos outros. O espaço, dentro de um sonho, simplesmente não existe.

Relativamente ao tempo, é mais complicado pura e simplesmente chutá-lo para um canto. A nossa mente associa tempo à deslocação ou transformação de um objecto no espaço, e, consequentemente, qualquer experiência é sempre associada à passagem do tempo, mesmo que o conceito de espaço seja visto como vazio. Contudo, se formos francos e directos, se abandonarmos qualquer dogma ou hábito, o que é isso a que chamamos tempo? Já alguma vez alguém experienciou o tempo? Já alguém viu, ouviu, cheirou, tocou ou degustou o tempo? Já alguém pensou o tempo ou sentiu o tempo? Experienciamos o suposto efeito do tempo, mas nunca o tempo em si, enquanto causa. E o efeito do tempo é apenas a percepção de mudança de um objecto.

Tudo o que experienciamos são objectos, que aparentemente sofrem mutações constantes, mas nessas transformações não está implícita a passagem do tempo. Eu posso, dentro de um sonho, experienciar a passagem das quatro estações, mas obviamente o meu sonho nunca durou mais do que algumas horas, muito menos um ano inteiro. Ou posso lembrar-me de acontecimentos da minha infância que se passaram há muitos anos, quando na verdade, eu, personagem no sonho, nasci à meia dúzia de minutos! Mais uma vez, parece haver uma percepção de tempo, mas não efectivamente tempo. A única prova do passado são as memórias do mesmo, que não passam de pensamentos acoplados a emoções que lhe dão um carácter mais realista. Relativamente ao futuro, há ainda menos aonde nos agarrarmos. Sem ser a expectativa criada na mente humana, o futuro é absolutamente inexperienciável, pois a sua experiência implicaria a sua presença no momento presente.

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Foram aqui tocados alguns conceitos queridos à não-dualidade, aplicados à realidade do sonho. Fica a questão de quanto desta matéria se poderá aplicar à vida real, que, se observarmos atentamente, aparenta seguir a mesma lógica que o sonho: experiências registadas dentro de uma consciência. Afinal, quantos  conseguem, dentro de um sonho, saber que estão a sonhar? E quantos, depois de acordar, sabem que continuam a dormir?

Published in: on 23/12/2012 at 21:19  Deixe um Comentário  
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Quem sou eu? Uma abordagem racional e directa

Quem sou eu? – abordagem racional

Ponderemos o seguinte caso:

Quando tinha 10 anos, suponhamos que fui vítima de bullying. Gozaram comigo porque era baixo e gordo. Além disso, dizem-me agora que era também irritante, convencido e imaturo. Não admira que tenha sido ostracizado!

Eu sei que fui eu quem experienciou aquela situação. O mesmo eu que está hoje atrás destes dois olhos, estava, naqueles dias, atrás daqueles dois olhos. Porém, se virmos bem, nada há em comum entre estes dois indivíduos: o meu eu de há 20 anos e o meu eu de hoje.

A ciência diz-me que, sensivelmente de 7 em7 anos, todas as células do corpo já foram substituídas por outras, que nenhuma célula dura mais do que esse período. Literalmente, o meu corpo nunca é o mesmo. Há células a morrer constantemente, sendo substituídas por outras.

Por outro lado, a psicologia e a experiência directa demonstram que, mental e emocionalmente, estou também sempre em constante mutação. As minhas crenças mudam ou são alteradas, tal como as minhas atitudes, preconceitos, estados de humor, predisposições emocionais, etc. Sou uma personalidade nova de x em x anos também.

Se pensarmos agora no tal rapazinho de 10 anos, vítima de bullying, e no homem de 30 anos, quais são as semelhanças? No corpo não há uma única célula que tenha estado presente há 20 anos atrás. Na mente, as ideias mudaram também elas imensamente, umas amadureceram, outras desapareceram por completo. Aquilo que sou hoje, nada tem em comum com o que era há 20 anos atrás.

A pergunta que se coloca é, quem sou eu afinal? Quando penso ser o meu corpo, a questão que se levanta é, qual deles? O de agora, de há 10 minutos ou de há 10 anos? Naturalmente o de agora, mas qual agora? Este agora? Ou este..?

O corpo é como um rebanho (de células), onde há sempre ovelhas a morrer e novas a nascer. O rebanho parece constante, mas na verdade não é. Afinal, não existe sequer uma entidade estável e separada chamada rebanho, apenas a aparente soma das suas partes. Um rebanho em si não existe, é apenas o nome dado a um conjunto de ovelhas. É um conceito sem contraparte real.

O mesmo se passa com o corpo e a mente. O corpo não existe, é apenas o nome dado a um conjunto de células ou partículas, temporariamente agregadas por forças físicas. E a mente é apenas um conjunto de pensamentos, conceitos, e memórias temporariamente agregados ao sabor das várias experiências de vida, até algumas se dissiparem e novas surgirem.

Quem sou eu então? O corpo muda a uma velocidade constante, a mente a uma imprevisível. No meio de tanta transformação, algo parece porém manter-se relativamente fixo. Eu sinto-me um ser estável. Tão estável que sinto que, dentro de mim, sou o mesmo de há 20 anos atrás. Aquilo que olha através dos meus olhos nem parece ter sofrido a pressão do tempo. O que é isso então? Há uma espécie de observador dentro de mim, aquela fonte silenciosa de percepção que apenas vê, apenas ouve, apenas pensa e sente. Será isso quem sou? Parece ser, porque quando sinto, é ela que sente. Quando penso, é ela que pensa. Mas os sentimentos passam; os pensamentos passam. O que é isto que simplesmente não passa?

Quem sou eu? – abordagem directa

Há uma outra forma de tentar abordar esta busca pela realidade que eu sou. É uma forma mais directa. Tão imensamente directa, que exige um esforço imenso para abandonarmos o que pensamos saber e obriga-nos a olhar a realidade sob uma nova luz. Na verdade, é aquilo que sinto ser a ciência no seu estado mais puro – questionamento total, sem dogmas, sem filhos preferidos, sem limites.

Neste momento posso dizer algumas coisas sobre esta investigação. Primeiro, posso afirmar com toda a confiança que este momento é o único que eu tenho para investigar. Passado e futuro não são reais agora. Apenas o presente se encontra sob a minha lupa. Segundo, a minha experiência directa é a prova da realidade, não o que penso ou sinto sobre ela, não o que me ensinaram a pensar ou sentir, mas sim o que experiencio directamente.

Que posso eu dizer então sobre a minha experiência? Primeiro que ela existe. Existe experiência, há “coisas a acontecer”, pensamentos e emoções, percepções, sensações, etc. Há objectos a ser vistos, ouvidos, sentidos, etc. Segundo, este experienciar depende de uma consciência que o observe. Claramente, quando estou inconsciente (seja a dormir, ou sob o efeito de anestesia ou perda de sentidos), nada é experienciado. Até a consciência “voltar”, nada é registado, nada é assimilado. Escuridão total. Silêncio total.

Assim, esta consciência parece ser a base, a tela onde tudo é projectado – o mundo, os outros, o meu corpo, os meus pensamentos e sentimentos.

Afirmei que até a consciência “voltar” nada é registado. Basicamente, não há experiência, não há vida – para mim. A pergunta que se levanta é a seguinte: até a consciência voltar a quê? Se a consciência “desapareceu” aquando da perda de sentidos – por exemplo -, o que é que ficou no lugar dela? O que é que permaneceu, registando mais tarde o regresso da consciência, dos “sentidos”?

Ao que parece, este contínuum a que chamamos experiência não é assim tão contínuo. Parece ter dois momentos claramente demarcados: quando estamos acordados ou a sonhar – ou seja, quando a experiência é registada; e quando estamos num sono profundo sem sonhos – isto é, quando nada parece ser registado. Porém, mesmo esta descontinuidade é registada por algo. As idas e vindas da própria consciência são percebidas, observadas por algo. Sei que há interrupções, sei que estive inconsciente. O que significa que, quando nada está a ser registado, algo está presente, a registar esse nada – ou seja, a registar-se a si próprio, que é nada… A este algo pode dar-se o nome de consciência pura (“pura” para a distinguir da consciência diária).

Isto revela que a experiência é temporária, mas a consciência pura não. Ao fim e ao cabo, se a experiência é vista como tendo interrupções, a consciência que as observa não pode sofrer das mesmas interrupções. E nada mais parece haver que pudesse registar quaisquer quebras na consciência pura. Esta é aparentemente a fonte de percepção, não podendo ela própria ser percepcionada.

Quem sou eu? Claramente, a minha experiência diz-me que eu sou quem observa a chegada da consciência (quando acordo) e a sua partida (quando adormeço). Sou o observador de todas as percepções – sons, imagens, cheiros, sensações, pensamentos e emoções. Eu sou então a tal consciência pura que permanece, independentemente da presença de qualquer experiência. Sou aquele princípio perceptivo, aquela simples capacidade que absorve todas as experiências, que não sofre o efeito do tempo, que é a mesma, agora, que era há 20 anos atrás. Aquele olhar que se esconde atrás dos olhos, aquele sentir por detrás de cada bater de coração. O eu, que eu sou, é o princípio que permanece intocado aquando do aparecimento e desaparecimento do universo, que é a simples experiência deste momento. Todas as manhãs, quando desperto, assisto ao milagre da ressurreição. Não a minha, que sou eterno; a do mundo, que sempre renasce diante o meu olhar.

Mas esta perspectiva levanta algumas questões. Que acontece então à minha ideia de que sou um ser separado, a interagir com outros seres e objectos, num mundo vasto e ancestral? Se quem eu sou é o princípio perceptivo que tudo observa, quem sou eu “dentro” daquilo que é observado?

Como vimos, tudo aquilo que é experienciado, é experienciado através da consciência. Inconsciente, ninguém experiencia nada. Poder-se-ia dizer que tudo é experienciado através da consciência. Contudo, “através” dá a ideia de que a experiência vem de outro lugar. Que há uma realidade externa, que entra em contacto com a consciência e é registada e assimilada por esta. Todavia, esta realidade externa, independente da minha consciência, não é experienciável, ou passível de ser provada por mim próprio, pois para eu poder experienciar algo tenho de o fazer através da consciência que eu sou.

Nunca vi qualquer objecto, ou ouvi qualquer som, sem ser na minha consciência. Num toquei algo sem a presença da minha consciência. Quando a minha consciência entra em repouso (sono profundo), nada é registado. Não existe qualquer experiência – mundo, outros, eu. Tudo desaparece. Assim sendo, o conceito de realidade externa não é fundamentado.

Tudo o que é percepcionado, não só é percepcionado através da minha consciência, como é percepcionado na minha consciência e, acima de tudo, percepcionado como sendo a minha consciência. Toda a experiência, é a experiência da própria consciência, a consciência a experienciar-se a si mesma.

Quando penso ver um objecto, imagino ver a representação de um objecto exterior na minha consciência. Porém, esse objecto exterior não é verificável, pois para o verificar teria de o ver sem estar consciente – o que é impossível. A existência de uma realidade externa é um conceito, por mais universalmente aceite que seja, inconcretizável.

Num sonho, sonho com um mundo exterior, com montanhas, e nuvens, e pessoas e eu próprio. Quando acordo, não só vejo que aquele mundo exterior na verdade existia exclusivamente dentro da minha mente, como, mais importante do que isso, tudo o que foi visto dentro do sonho eram apenas imagens na minha consciência, feitas da minha própria consciência. Tudo o que sonhei foi, na verdade, com a minha própria mente.

Quando “acordo”, a experiência repete-se. Vejo objectos inúmeros, pessoas e um mundo inteiro. Porém, todos eles são também imagens na minha consciência. Imagens da minha consciência. A minha consciência.

E se no sonho eu pensava comandar o meu corpo e os meus pensamentos e acções, mas ao acordar vejo que o único actor era a consciência que sonhava – a minha personagem dentro do sonho não tinha qualquer autonomia -, ao acordar o mesmo sucede. Este actor, este “eu” localizado no corpo e na mente, que escolhe e decide o que fazer na sua vida, é visto como inexistente, como sendo apenas uma ideia a ser experienciada, como tantos outros objectos experienciados, e que, na verdade, o único actor, o gestor autónomo de toda e qualquer experiência é a consciência que sonha este sonho “acordado”. O princípio observador é o único ponto de referência passível de acção independente. Porém, tendo em conta que este princípio observador é, nada mais, nada menos do que Nada, consciência pura sem forma ou limite, pouco lhe poderá ser imputado ou responsabilizado. Toda a experiência segue um rumo desconhecido, cuja origem não pode ser encontrada. Toda a acção é gerida por ninguém, em lado algum.

Tudo é apenas o desabrochar explosivo de absolutamente Nada.

Published in: on 20/12/2012 at 1:18  Comments (1)  
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