Os meus verdadeiros corpo e alma

Observo, analiso e compreendo que a experiência imediata é vazia de separação entre sujeito e objecto, que a distinção entre interior e exterior é ilusória. Tudo é interior, tudo é íntimo, tudo é Eu, a mesma Presença-Existência contínua.

Dessa forma, a ter um corpo, o único possível é a totalidade da experiência, e nunca uma mera parte da mesma. Tudo o que é visível ou experienciável é a manifestação do que sou. O meu corpo é todo o universo visível. Onde existirem características discerníveis, aí estarei Eu.

Quanto à minha alma, ela é o espaço invisível, inqualificável, indiscernível que é a origem de toda a experiência, de toda a realidade perceptível. Todas as características pertencem ao mundo do observável – ao meu Corpo. A minha Alma, estando para além de qualquer característica ou traço definidor, é inconcebível, imperceptível e indescritível.

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Desse modo, ainda que inseparável do universo observável, nem dentro nem fora dele a Luminosidade fundamental pode ser encontrada. É o misterio inultrapassável, o paradoxo indecifrável. É absolutamente invisível, ao ponto da não-existencia, pois nenhuma característica lhe pode ser atribuída; é absolutamente inegável, ao ponto da certeza gritante, dado que sem esta Claridade primordial nenhuma característica experiencial seria discernível – tudo seria uma escuridão intransponível, uma incontornável não-existencia total.

Este pequeno texto é a manifestação natural e simultaneamente a prova fundamental da presença do supremo mistério da existência – a Invisibilidade última que permite todo o visível. A alma do universo, a raiz e fruto de todo o Cosmos, origem e destino de todas as coisas, a profunda Identidade de todos nós, nada mais é que a Perceptividade imaculada que lê estas palavras, a Luminosidade observadora que diariamente testemunha o mundo, o Sujeito invisível que é o verdadeiro Eu de todos os seres.

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Published in: on 21/06/2015 at 16:31  Comments (2)  
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The Kragle e a negação da Vida

A ideia de que o corpo nos pertence é particularmente tentadora. Celebramos o nosso aniversário e achamos efectivamente que a idade do nosso corpo corresponde aos anos que passaram desde o nosso nascimento. Porém, somos bem mais velhos do que isso.

A matéria que compõe o nosso corpo – átomos e partículas – existe desde os primórdios do universo. Ainda o sistema solar não tinha nascido e provavelmente já os componentes do nosso futuro corpo existiam, dispersos, flutuando pelo cosmos, escondidos no interior de estrelas, no fundo do mar ou no corpo de outros organismos. Temporalmente, somos ancestrais para além da nossa compreensão. Espacialmente, somos seres intergalácticos, puzzles de matéria e energia e forças físicas oriundas dos quatro cantos do universo.

Por outro lado, somos bem mais novos do que imaginamos. O corpo que pensamos agora ser está em constante fluxo e transformação, com células a morrer e outras a nascer constantemente. Neste momento há partes do nosso corpo que têm apenas fracções de segundo de existência. Somos como fénix renascida, a cada instante, das suas cinzas.

Assim, no nosso próximo aniversário, quando apagarmos as velas, podemos lembrar-nos de que somos, simultaneamente, o ser mais velho e novo do universo. Tal como uma nascente milenar no topo de uma montanha, mas cuja água brota sempre fresca e nova a cada segundo.

Todavia, no meio de tão profunda e permanente mudança e transformação, como poderemos achar que este corpo nos pertence? Como poderá ele ser quem somos? Que entidade, que “eu”, conseguiria residir numa realidade tão impermanente e fugaz? Apenas  um ser igualmente impermanente e transitório pode resultar de tal processo. Tal como uma onda, que percorre o oceano, aparentemente sempre a mesma, mas na verdade constantemente mudando a água que a compõe, do mesmo modo somos nós processos, e não entidades; somos dança em movimento, em vez de corpos sólidos e estagnados; somos a vida em construção, o cosmos em transformação, como um ilusionista, sempre ele próprio, mas nunca igual a si próprio.

De notar que, com os avanços da física quântica, até a nossa identidade a um nível atómico se vê questionada. De acordo com aquele ramo da física, as próprias particulas “fundamentais” do universo, quando observadas a um nível quântico, deixam de ser partículas individuais, estáveis e independentes e passam a ser meras ondas probabilísticas dependentes de um observador para transformarem-se em algo “particular”. Então de que será realmente feito o nosso próprio corpo? Em última análise, seremos nós apenas como que actualizações constantes de um campo probabilístico transcendente? Seremos apenas personagens de um universo virtual, habitantes de uma projecção holográfica sem realidade física e material, holograma esse oriundo de um vácuo quântico e cuja manifestação aparente depende das consciências que a criam? Será o universo a dança de uma consciência suprema, como alguns místicos indicam?

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A nossa mente tenta invariavelmente solidificar o real, congelar e petrificar a água que flui, como uma parede erguendo-se contra a dança existencial. Somos como o vilão do Lego Movie, com o seu Kragle, constantemente a querer colar as peças de todos os universos, negando o fluxo natural da vida.

Os nossos pensamentos habituais regularmente erguem-se contra o mistério e complexidade do real, tentando cobri-lo com uma capa de certeza, segurança e banalidade. Porém, tanto filósofos como cientistas em geral provavelmente admitirão a sua ignorância perante a natureza fundamental da existência. Quem somos nós então para deixarmos a vida cair na rotina, nós que somos, literalmente, seres interestelares?

A vida como a conhecemos

Acho fascinante e revolucionário o simples facto de nenhum ser humano, alguma vez, em qualquer ponto da história, ter experienciado algo que não apenas a sua própria consciência.

O que julgamos ser o aço da torre Eiffel é, na verdade, apenas uma inefável e insubstancial imagem na nossa mente, uma representação neuronal de uma suposta realidade exterior – suposta, na medida em que, dado que nunca experienciaremos essa realidade, podemos naturalmente questionar a sua existência. Nada há de sólido ou físico na nossa experiência, à semelhança de uma projecção holográfica.

 Não entrando em campos ontológicos(1), realço apenas o quão extraordinária esta simples reflexão pode ser. Mesmo que a materialidade exista, a complexa multiplicidade de seres, bem como um mundo exterior e objectivo, a verdade é que essas (aparentemente) sólidas “realidades” nunca são – ou poderão sequer alguma vez ser – experienciadas objectivamente. Experiência implica inevitavelmente consciência, que é sempre subjectiva e imaterial. Toda a experiência é de uma natureza intimista, inefável e quiçá onírica.

A nossa vivência está para sempre encarcerada numa cela de subjectividade e imaterialidade, habitante num casulo de luminosidade, de não-separação e universalidade. Na experiência mental – que é a única “realidade” disponível -, tudo é sempre apenas uma mesma substância, um mesmo campo aberto de percepção, uma sopa indiferenciada e unificada de existência-consciência. Uma possibilidade muito válida para a libertação da condição humana poderá estar apenas à distancia de um olhar mais atento.

Independentemente das fragilidades ontológicas que possam ser apontadas a esta perspectiva epistemológica(2), a vida como a conhecemos é sempre e apenas consciência. Tudo o que alguma vez encontraremos estará eternamente dentro do nosso crânio. Somos os deuses da nossa existência subjectiva, a realidade suprema e transcendente do nosso intra-cosmos.

          (1) Ontologia consiste numa parte da filosofia que estuda a natureza do ser, da existência e da realidade.

         (2) Epistemologia consiste numa parte da filosofia que estuda o conhecimento humano, a sua natureza e validade.