A não-dualidade dos sonhos

O vento é calmo e o sol cai a pique sobre mim.

O cume já não está longe, mas esta caminhada já se sente

em cada músculo do meu corpo.

A vista é soberba, infinita, mas os meus olhos esforçam-se por alcançar.

Há outros caminhantes à minha frente, todos curvados e cansados.

Oiço as suas vozes, interrompidas pelos gritos das aves que nos sobrevoam,

e pelos meus próprios pensamentos.

Paro e olho para trás e

Subitamente o despertador acorda-me. Levanto-me e sigo com a minha rotina. Ou não? Será que prefiro permanecer deitado e reflectir sobre o que se passou? Analisemos a realidade do sonho e comparemo-la com alguns conceitos centrais da filosofia conhecida como não-dualidade e que afirma, tal como o nome indica, que não existem duas coisas no universo: tudo é feito da mesma matéria.

Voltando então ao sonho: tudo parecia tão real. Tudo era tão real! Vi pessoas, objectos, uma imensa montanha, a paisagem, o sol e o vento, eu próprio, juntamente com o meu cansaço, os meus pensamentos e tudo o resto. Mas tudo se passou na minha cabeça, nada mais do que imaginação solta ao sabor da noite.

Mas pensemos sobre as características do sonho. Não o seu conteúdo, propriamente dito, mas o material com o qual foi construído. Eu vi montanhas, pessoas, e tantas outras coisas. Mas de que eram essas coisas feitas? As árvores seriam feitas de madeira? Se tudo se passou na minha cabeça, terei eu madeira dentro do meu crânio? As pedras que vi, existem mesmo dentro de mim? A resposta, naturalmente, é não. Eu não vi árvores e pessoas. Apenas vi imagens de árvores e pessoas. Era uma espécie de universo holográfico, imagens sem conteúdo real, sem matéria concreta, embora parecessem e fossem experienciadas como reais. A dureza da rocha onde me sentei parecia extremamente concreta. A vertigem que senti naquele carreiro estreito pareceu-me muito real.

Porém, depois de acordar, vejo que eram apenas imagens na minha mente. Poderíamos ficar por aqui, mas avancemos um pouco mais. De que são feitas essas imagens? Eu vi inúmeras cores e formas, senti texturas e cheiros, ouvi sons. Donde veio o verde das árvores e o azul do céu? Terei eu uma paleta de cores na minha mente, que posso ir buscar para as pinturas dos meus sonhos?

Uma só matéria

Reflectindo sobre isto, fico com a noção de que as imagens da minha mente não eram feitas de nada a não ser a minha própria mente. Todas as experiências dentro do sonho são vividas dentro da minha mente, e nada há na minha mente sem ser ela própria. É como que se a mente se transformasse ou modelasse de forma a criar, para si própria, um espectáculo de percepções e sensações. Assim, a árvore que toquei era a minha mente, em forma de árvore. O meu cansaço era a minha mente, experienciado como cansaço.

Assim, posso concluir que apenas existe uma “matéria” no meu mundo de sonhos: a minha mente, ou consciência. Tudo o que experiencio nos meus sonhos sou eu próprio, enquanto consciência, modelado de forma a parecer um mundo inteiro. Assim sendo, quando os autores de filosofia não-dual afirmam que tudo é consciência, que todas as coisas são, literalmente, feitas de consciência, o que eles estão a fazer é transpor esta compreensão dos sonhos para a vida “real”. Pelo menos no universo onírico, “tudo é consciência” faz um perfeito sentido.

Somos todos um só

E se pegarmos na afamada frase espiritual, “somos todos um só”, também dentro do sonho as coisas adquirem um contexto mais real. Dentro do meu sonho tudo era um só: as árvores, as pedras, o céu, a paisagem infinita, eu próprio e as outras pessoas. A essência de tudo é a mesma consciência, a mesma mente que está a criar o sonho. Tudo era feito de consciência, por mais que, dentro da realidade relativa do sonho, se pensasse haver infinitas matérias-primas diferentes compondo infinitos objectos diferentes, inúmeros seres independentes, incluindo eu próprio, com vontades e desejos só seus.

A ideia de individualidade

Milhares de pessoas podem ser vistas num sonho, mas que realidade têm elas? Comecemos por mim mesmo – ou melhor, pela minha “personagem” dentro do sonho. Que realidade tenho eu naquele contexto? Já vi que tudo é consciência, pelo que, em última análise, o meu corpo e mente, dentro do sonho, serão apenas isso mesmo. Mas que independência tenho eu? Que individualidade? Que livre arbítrio? Que realidade?

Durante o sonho, imaginei fazer inúmeras coisas: caminhei montanha acima, pensei em algumas coisas, ouvi os pássaros, parei e contemplei a paisagem, e, já mesmo no fim, virei-me para trás. Mas quem é que escolheu fazer essas coisas? Quem tomou as decisões? Quem pensou que pensamentos ter? A minha personagem é apenas uma imagem na minha consciência que sonha. Ela não decide fazer nada, tal como a personagem de um filme não pode, se lhe apetecer, saltar fora da tela do cinema ou dizer um texto diferente. São apenas imagens a ser transmitidas na mente, criadas pela própria mente, feitas da própria mente.

Tal como a teia é feita do corpo da própria aranha, o sonho e tudo o que lá se passa é criado pela mente, sendo esta simultaneamente os objectos vistos, a matéria-prima que os criou e a consciência que observa toda a acção.

Assim, percebo que o “eu” dentro do sonho não existe. Quem toma as decisões, escolhe os pensamentos, bem como a decoração da paisagem e todo o enredo da acção é a mente que sonha. Quando penso que “eu” senti cansaço, que eu é esse? O eu individual relativo à minha personagem no sonho não sentiu nada. A minha mente, que sonhou tudo, essa sim, sentiu o cansaço e tudo o resto. Todos os sons ouvidos, todas as coisas vistas, foram percepcionadas pela consciência, não pelo corpo ou mente do meu eu onírico. Este nada mais é do que uma imagem dentro da mente. O mesmo se passa com as outras personagens. Nada do que fazem ou dizem ou sentem é da sua autoria, pois elas não têm existência independente da consciência que sonha.

Isto toca um conceito central na abordagem não-dual, que é a ausência de indivíduo. O “eu” separado e independente de tudo o resto, actor das suas escolhas, pensamentos e emoções, não existe.

A dualidade sujeito-objecto

Um conceito chave da não-dualidade é, obviamente, que não existem duas coisas. No sonho, como já se viu, tal parece ser o caso. A única realidade do sonho é a consciência que o cria, por mais formas e experiências que possam aparentar existir. Uma outra dualidade supostamente presente em qualquer experiência, e que a não-dualidade igualmente nega, é a dualidade entre sujeito e objecto.

Dentro do sonho, imaginemos que “eu” parei e olhei uma árvore. A mente normalmente divide essa experiência em sujeito – que olha – e objecto – que é olhado. Eu, sujeito, olhei a árvore, objecto. A mente ainda acrescenta um terceiro factor, que é a interacção entre ambas as partes e que permite o contacto. No exemplo dado, eu e a árvore seriamos ligados pelo acto de observação. Sem este, não se poderia dizer haver relação entre o sujeito e o objecto.

Mas se analisarmos a natureza do sonho, esta relação dissolve-se. Em primeiro lugar, se tudo são modelações da minha consciência, na verdade as três partes resumem-se a uma: tanto o observador, o observado como até o acto de observação são exclusivamente consciência. Nenhum deles existe independente da mente que os sonha. Nenhum deles tem uma vida própria antes de o sonho começar ou depois de terminar. O próprio acto de observação, que dentro do sonho parecia ser resultado da acção da minha personagem (que aparentemente olhava a árvore), é feito pela consciência (que é a única entidade capaz de observar) e é feito da própria consciência (que é a única matéria existente com a qual fabricar o que quer que seja dentro do sonho).

Resumindo numa só frase, a mente é, simultaneamente, o observador, o observado e o acto de observação. Mas como não faz sentido falar em três coisas distintas, quando apenas uma há, pode dizer-se que o sonho é somente a experiência de observação, sem observador nem observado. Percepção pura, sem sujeito nem objecto percepcionados.

Isto é extrapolado para a vida real pela não-dualidade, que afirma que na experiência directa de cada um apenas há percepção pura, não havendo percepção de um observador ou observado independentes do próprio acto de observação. Esta percepção pura é outro nome para consciência.

O vazio e o todo

“O amor diz-me: Eu sou tudo. A sabedoria diz-me: Eu sou nada. Entre os dois, minha vida flui.”

Nisargadatta Maharaj, conhecido mestre da tradição não-dual deixou-nos, entre tantas outras, a frase acima referida. À primeira vista, mesmo para alguém com uma moldura ideológica dita espiritual, parece uma frase peculiar: niilista na primeira metade, ambiciosa na segunda! Para o comum mortal, este senhor aparentava profundos sintomas de negação da realidade.

Mas, por mais que pareça uma frase digna exclusivamente de um guru exótico, qualquer um de nós a poderia sinceramente dizer se, dentro de um sonho, nos perguntassem “quem és tu?”. Aparentemente, dentro do sonho eu sou aquele corpo e aquela mente, animadas por uma espécie de espírito ou consciência. Mas como já se viu, corpo e mente são apenas imagens a ser transmitidas por consciência “superior” à da personagem sonho. Assim sendo, tendo este conhecimento, qualquer um poderia dizer, “Eu sou consciência pura, vazia, sem forma ou limite. Sou o vazio”.

Porém, dado que todas as coisas presentes no sonho são feitas desse mesmo vazio (por contra-intuitivo que tal possa soar), se a única matéria presente no sonho é a consciência que eu sou, então poderia igualmente dizer que “Eu sou tudo. Não eu, a personagem que vês, este corpo e mente, mas sim Eu, a consciência onde todo o universo surge e da qual é feito”.

Dentro de um sonho, se tivéssemos tal conhecimento, todos poderíamos ser gurus. Sem demagogias ou truques de magia, manuseando apenas a certeza de que, dentro daquele mundo onírico, tudo é consciência, e isso é quem eu sou.

Espaço e tempo

Conceitos prezados pelo nosso mundo, tais como os de espaço e tempo, são também objecto de algumas interrogações. Dentro do sonho, parei e olhei a paisagem. Vi imensos objectos, espalhados pelo meu campo de visão, perdendo-se de vista, a tocar o horizonte. O sol parecia estar, como é seu apanágio, a milhões de quilómetros de distância, o cume da montanha a poucas centenas de metros. Porém, a pergunta óbvia, com resposta também óbvia nesta altura, é, de que são feitas essas distâncias? A minha cabeça não abarca naturalmente semelhantes envergaduras. A minha mente, sendo imaterial, não tem sequer sítio onde as colocar. A resposta óbvia naturalmente é que aquelas distâncias são apenas imagens dentro da consciência, feitas de consciência. Dentro de um sonho, não existe distância, apenas percepção de distância. Na realidade, aquele sol, que é consciência, está a zero milímetros de distância de mim próprio, que sou consciência. Mas não só de mim. Relativamente a outros objectos também, e todos eles se encontram também a distância nenhuma uns dos outros. O espaço, dentro de um sonho, simplesmente não existe.

Relativamente ao tempo, é mais complicado pura e simplesmente chutá-lo para um canto. A nossa mente associa tempo à deslocação ou transformação de um objecto no espaço, e, consequentemente, qualquer experiência é sempre associada à passagem do tempo, mesmo que o conceito de espaço seja visto como vazio. Contudo, se formos francos e directos, se abandonarmos qualquer dogma ou hábito, o que é isso a que chamamos tempo? Já alguma vez alguém experienciou o tempo? Já alguém viu, ouviu, cheirou, tocou ou degustou o tempo? Já alguém pensou o tempo ou sentiu o tempo? Experienciamos o suposto efeito do tempo, mas nunca o tempo em si, enquanto causa. E o efeito do tempo é apenas a percepção de mudança de um objecto.

Tudo o que experienciamos são objectos, que aparentemente sofrem mutações constantes, mas nessas transformações não está implícita a passagem do tempo. Eu posso, dentro de um sonho, experienciar a passagem das quatro estações, mas obviamente o meu sonho nunca durou mais do que algumas horas, muito menos um ano inteiro. Ou posso lembrar-me de acontecimentos da minha infância que se passaram há muitos anos, quando na verdade, eu, personagem no sonho, nasci à meia dúzia de minutos! Mais uma vez, parece haver uma percepção de tempo, mas não efectivamente tempo. A única prova do passado são as memórias do mesmo, que não passam de pensamentos acoplados a emoções que lhe dão um carácter mais realista. Relativamente ao futuro, há ainda menos aonde nos agarrarmos. Sem ser a expectativa criada na mente humana, o futuro é absolutamente inexperienciável, pois a sua experiência implicaria a sua presença no momento presente.

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Foram aqui tocados alguns conceitos queridos à não-dualidade, aplicados à realidade do sonho. Fica a questão de quanto desta matéria se poderá aplicar à vida real, que, se observarmos atentamente, aparenta seguir a mesma lógica que o sonho: experiências registadas dentro de uma consciência. Afinal, quantos  conseguem, dentro de um sonho, saber que estão a sonhar? E quantos, depois de acordar, sabem que continuam a dormir?

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Published in: on 23/12/2012 at 21:19  Deixe um Comentário  
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Quem sou eu? Uma abordagem racional e directa

Quem sou eu? – abordagem racional

Ponderemos o seguinte caso:

Quando tinha 10 anos, suponhamos que fui vítima de bullying. Gozaram comigo porque era baixo e gordo. Além disso, dizem-me agora que era também irritante, convencido e imaturo. Não admira que tenha sido ostracizado!

Eu sei que fui eu quem experienciou aquela situação. O mesmo eu que está hoje atrás destes dois olhos, estava, naqueles dias, atrás daqueles dois olhos. Porém, se virmos bem, nada há em comum entre estes dois indivíduos: o meu eu de há 20 anos e o meu eu de hoje.

A ciência diz-me que, sensivelmente de 7 em7 anos, todas as células do corpo já foram substituídas por outras, que nenhuma célula dura mais do que esse período. Literalmente, o meu corpo nunca é o mesmo. Há células a morrer constantemente, sendo substituídas por outras.

Por outro lado, a psicologia e a experiência directa demonstram que, mental e emocionalmente, estou também sempre em constante mutação. As minhas crenças mudam ou são alteradas, tal como as minhas atitudes, preconceitos, estados de humor, predisposições emocionais, etc. Sou uma personalidade nova de x em x anos também.

Se pensarmos agora no tal rapazinho de 10 anos, vítima de bullying, e no homem de 30 anos, quais são as semelhanças? No corpo não há uma única célula que tenha estado presente há 20 anos atrás. Na mente, as ideias mudaram também elas imensamente, umas amadureceram, outras desapareceram por completo. Aquilo que sou hoje, nada tem em comum com o que era há 20 anos atrás.

A pergunta que se coloca é, quem sou eu afinal? Quando penso ser o meu corpo, a questão que se levanta é, qual deles? O de agora, de há 10 minutos ou de há 10 anos? Naturalmente o de agora, mas qual agora? Este agora? Ou este..?

O corpo é como um rebanho (de células), onde há sempre ovelhas a morrer e novas a nascer. O rebanho parece constante, mas na verdade não é. Afinal, não existe sequer uma entidade estável e separada chamada rebanho, apenas a aparente soma das suas partes. Um rebanho em si não existe, é apenas o nome dado a um conjunto de ovelhas. É um conceito sem contraparte real.

O mesmo se passa com o corpo e a mente. O corpo não existe, é apenas o nome dado a um conjunto de células ou partículas, temporariamente agregadas por forças físicas. E a mente é apenas um conjunto de pensamentos, conceitos, e memórias temporariamente agregados ao sabor das várias experiências de vida, até algumas se dissiparem e novas surgirem.

Quem sou eu então? O corpo muda a uma velocidade constante, a mente a uma imprevisível. No meio de tanta transformação, algo parece porém manter-se relativamente fixo. Eu sinto-me um ser estável. Tão estável que sinto que, dentro de mim, sou o mesmo de há 20 anos atrás. Aquilo que olha através dos meus olhos nem parece ter sofrido a pressão do tempo. O que é isso então? Há uma espécie de observador dentro de mim, aquela fonte silenciosa de percepção que apenas vê, apenas ouve, apenas pensa e sente. Será isso quem sou? Parece ser, porque quando sinto, é ela que sente. Quando penso, é ela que pensa. Mas os sentimentos passam; os pensamentos passam. O que é isto que simplesmente não passa?

Quem sou eu? – abordagem directa

Há uma outra forma de tentar abordar esta busca pela realidade que eu sou. É uma forma mais directa. Tão imensamente directa, que exige um esforço imenso para abandonarmos o que pensamos saber e obriga-nos a olhar a realidade sob uma nova luz. Na verdade, é aquilo que sinto ser a ciência no seu estado mais puro – questionamento total, sem dogmas, sem filhos preferidos, sem limites.

Neste momento posso dizer algumas coisas sobre esta investigação. Primeiro, posso afirmar com toda a confiança que este momento é o único que eu tenho para investigar. Passado e futuro não são reais agora. Apenas o presente se encontra sob a minha lupa. Segundo, a minha experiência directa é a prova da realidade, não o que penso ou sinto sobre ela, não o que me ensinaram a pensar ou sentir, mas sim o que experiencio directamente.

Que posso eu dizer então sobre a minha experiência? Primeiro que ela existe. Existe experiência, há “coisas a acontecer”, pensamentos e emoções, percepções, sensações, etc. Há objectos a ser vistos, ouvidos, sentidos, etc. Segundo, este experienciar depende de uma consciência que o observe. Claramente, quando estou inconsciente (seja a dormir, ou sob o efeito de anestesia ou perda de sentidos), nada é experienciado. Até a consciência “voltar”, nada é registado, nada é assimilado. Escuridão total. Silêncio total.

Assim, esta consciência parece ser a base, a tela onde tudo é projectado – o mundo, os outros, o meu corpo, os meus pensamentos e sentimentos.

Afirmei que até a consciência “voltar” nada é registado. Basicamente, não há experiência, não há vida – para mim. A pergunta que se levanta é a seguinte: até a consciência voltar a quê? Se a consciência “desapareceu” aquando da perda de sentidos – por exemplo -, o que é que ficou no lugar dela? O que é que permaneceu, registando mais tarde o regresso da consciência, dos “sentidos”?

Ao que parece, este contínuum a que chamamos experiência não é assim tão contínuo. Parece ter dois momentos claramente demarcados: quando estamos acordados ou a sonhar – ou seja, quando a experiência é registada; e quando estamos num sono profundo sem sonhos – isto é, quando nada parece ser registado. Porém, mesmo esta descontinuidade é registada por algo. As idas e vindas da própria consciência são percebidas, observadas por algo. Sei que há interrupções, sei que estive inconsciente. O que significa que, quando nada está a ser registado, algo está presente, a registar esse nada – ou seja, a registar-se a si próprio, que é nada… A este algo pode dar-se o nome de consciência pura (“pura” para a distinguir da consciência diária).

Isto revela que a experiência é temporária, mas a consciência pura não. Ao fim e ao cabo, se a experiência é vista como tendo interrupções, a consciência que as observa não pode sofrer das mesmas interrupções. E nada mais parece haver que pudesse registar quaisquer quebras na consciência pura. Esta é aparentemente a fonte de percepção, não podendo ela própria ser percepcionada.

Quem sou eu? Claramente, a minha experiência diz-me que eu sou quem observa a chegada da consciência (quando acordo) e a sua partida (quando adormeço). Sou o observador de todas as percepções – sons, imagens, cheiros, sensações, pensamentos e emoções. Eu sou então a tal consciência pura que permanece, independentemente da presença de qualquer experiência. Sou aquele princípio perceptivo, aquela simples capacidade que absorve todas as experiências, que não sofre o efeito do tempo, que é a mesma, agora, que era há 20 anos atrás. Aquele olhar que se esconde atrás dos olhos, aquele sentir por detrás de cada bater de coração. O eu, que eu sou, é o princípio que permanece intocado aquando do aparecimento e desaparecimento do universo, que é a simples experiência deste momento. Todas as manhãs, quando desperto, assisto ao milagre da ressurreição. Não a minha, que sou eterno; a do mundo, que sempre renasce diante o meu olhar.

Mas esta perspectiva levanta algumas questões. Que acontece então à minha ideia de que sou um ser separado, a interagir com outros seres e objectos, num mundo vasto e ancestral? Se quem eu sou é o princípio perceptivo que tudo observa, quem sou eu “dentro” daquilo que é observado?

Como vimos, tudo aquilo que é experienciado, é experienciado através da consciência. Inconsciente, ninguém experiencia nada. Poder-se-ia dizer que tudo é experienciado através da consciência. Contudo, “através” dá a ideia de que a experiência vem de outro lugar. Que há uma realidade externa, que entra em contacto com a consciência e é registada e assimilada por esta. Todavia, esta realidade externa, independente da minha consciência, não é experienciável, ou passível de ser provada por mim próprio, pois para eu poder experienciar algo tenho de o fazer através da consciência que eu sou.

Nunca vi qualquer objecto, ou ouvi qualquer som, sem ser na minha consciência. Num toquei algo sem a presença da minha consciência. Quando a minha consciência entra em repouso (sono profundo), nada é registado. Não existe qualquer experiência – mundo, outros, eu. Tudo desaparece. Assim sendo, o conceito de realidade externa não é fundamentado.

Tudo o que é percepcionado, não só é percepcionado através da minha consciência, como é percepcionado na minha consciência e, acima de tudo, percepcionado como sendo a minha consciência. Toda a experiência, é a experiência da própria consciência, a consciência a experienciar-se a si mesma.

Quando penso ver um objecto, imagino ver a representação de um objecto exterior na minha consciência. Porém, esse objecto exterior não é verificável, pois para o verificar teria de o ver sem estar consciente – o que é impossível. A existência de uma realidade externa é um conceito, por mais universalmente aceite que seja, inconcretizável.

Num sonho, sonho com um mundo exterior, com montanhas, e nuvens, e pessoas e eu próprio. Quando acordo, não só vejo que aquele mundo exterior na verdade existia exclusivamente dentro da minha mente, como, mais importante do que isso, tudo o que foi visto dentro do sonho eram apenas imagens na minha consciência, feitas da minha própria consciência. Tudo o que sonhei foi, na verdade, com a minha própria mente.

Quando “acordo”, a experiência repete-se. Vejo objectos inúmeros, pessoas e um mundo inteiro. Porém, todos eles são também imagens na minha consciência. Imagens da minha consciência. A minha consciência.

E se no sonho eu pensava comandar o meu corpo e os meus pensamentos e acções, mas ao acordar vejo que o único actor era a consciência que sonhava – a minha personagem dentro do sonho não tinha qualquer autonomia -, ao acordar o mesmo sucede. Este actor, este “eu” localizado no corpo e na mente, que escolhe e decide o que fazer na sua vida, é visto como inexistente, como sendo apenas uma ideia a ser experienciada, como tantos outros objectos experienciados, e que, na verdade, o único actor, o gestor autónomo de toda e qualquer experiência é a consciência que sonha este sonho “acordado”. O princípio observador é o único ponto de referência passível de acção independente. Porém, tendo em conta que este princípio observador é, nada mais, nada menos do que Nada, consciência pura sem forma ou limite, pouco lhe poderá ser imputado ou responsabilizado. Toda a experiência segue um rumo desconhecido, cuja origem não pode ser encontrada. Toda a acção é gerida por ninguém, em lado algum.

Tudo é apenas o desabrochar explosivo de absolutamente Nada.

Published in: on 20/12/2012 at 1:18  Comments (1)  
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