Perspectivas libertadoras da subjectividade

Neste momento existe experiência. Existe percepção de cores, sons, sensações, pensamentos, etc. Normalmente criamos uma identidade a partir de algumas dessas percepções e sensações, formando a ideia de um corpo e de uma mente e posteriormente de uma entidade que reside dentro desse corpo-mente. Basicamente, do campo unificado de percepção/experiência, criamos uma divisão – conceptual – entre “eu” e “outro”, ou entre “eu” e “mundo”.

Esse “eu” é supostamente “fixo”, independente e estável no tempo, mas nada na experiência corrobora essa ideia. Esse corpo fixo e constante na verdade é construído tendo por base sensações temporárias e intermitentes. A ideia de uma mente fixa e constante é igualmente baseada em pensamentos transitórios e impermanentes, em constante fluxo. A experiência directa é mais semelhante a um processo do que propriamente a uma entidade. Há sempre coisas a acontecer, em constante transformação, mas dessa dança fluída tentamos encontrar um padrão estável ao qual chamamos “eu”. É como água a ferver num tacho: entre as mil e uma bolhinhas que surgem e imediatamente desaparecem, qual delas é “eu”?

Mas independentemente das estruturas conceptuais impostas à experiência, esta permanece sempre fiel à sua natureza. A experiência, independentemente do conteúdo que possa apresentar, consiste, na sua inevitável totalidade, de consciência. Experiência e consciência são, na verdade, sinónimos. Não há experiência sem consciência – embora algumas tradições afirmem poder haver consciência sem experiência.

A cada momento o que existe é um campo aberto de percepção, de experiência, onde objectos vários – imagens, sons, sensações, pensamentos, etc. – vão surgindo e desaparecendo. Esta dança acontece sempre num palco, numa realidade que permite que ela aconteça e seja registada. Ou seja, há uma consciência que observa toda a experiência. Contudo, esse “observador” não é estático ou independente. A luminosidade natural da nossa percepção dança com e em todas as coisas, transformando-se em tudo o que se manifesta. Não há uma consciência e os respectivos objectos percepcionados. A consciência *é* os objectos percepcionados – como água que, independentemente das muitas formas ou estados (gasoso, líquido ou sólido) que possa assumir, é sempre água.

Por vezes, quando encontramos estes ensinamentos baseados na consciência, podemos ter a sensação que estamos escondidos atrás dos olhos, como um observador distante ou transcendente. Na verdade, nada existe atrás dos olhos. Todo o Real se estende em frente. A tua verdadeira natureza, a tua essência, é a claridade fundamental da experiência imediata. A questão “quem sou eu?” é relevante na prática espiritual até um determinado ponto. Mais tarde, podemos começar a perceber que a existência de um “eu” sempre foi apenas um filtro sobreposto à experiência imediata, uma crença que se desenvolveu progressivamente até se tornar um complexo processo físico, psicológico e emocional – uma teia de sensações, conceitos e emoções que giram consistentemente em torno da crença na existência individual.

Porém, uma investigação profunda da experiência directa revela que os maiores abismos criados pela mente humana são totalmente iusórios. Conceitos como individualidade, separação, interior/exterior, sujeito/objecto, materialidade e objectividade são todos baseados em modelos ideológicos não-experienciados, pouco mais do que especulações teóricas. Neste preciso momento, toda a experiência é feita de consciência. A própria ciência diz-nos isso – nós não acedemos ao mundo exterior, apenas à representação mental que o nosso cérebro cria. A questão é que nunca ninguém alguma vez experienciou um mundo exterior à sua consciência, mas ainda assim raras vezes questionamos esse conceito de mundo objectivo, independente da nossa experiência subjectiva.

Não entrando em questões ontológicas delicadas, a nossa experiência subjectiva é efectivamente tudo o que temos para trabalhar, e tanto a sabedoria como a ignorância têm a sua origem nela. Por isso é ela que devemos investigar profundamente e esclarecer qual a sua verdadeira natureza. Como referi antes, tudo é consciência. Neste momento, o chão que pisamos é consciência. As paredes, as mesas, os computadores, os carros ao longe, os prédios, tudo é simplesmente consciência – na nossa experiência directa. Qualquer experiência de solidez, de dor, de materialidade existe apenas de forma subjectiva e é, consequentemente, de natureza estritamente mental. Em termos de natureza fundamental, a nossa experiência do mundo real em nada é diferente da nossa experiência do mundo onírico – a “realidade” que experienciamos quando sonhamos, ou seja, a consciência a assumir inúmeras formas numa espécie de projecção holográfica mental.

Cientificamente sabe-se que o mundo exterior não tem cor, nem som, nem cheiro, nem qualquer atributo subjectivo. Nenhuma das características dos 5 sentidos existe num mundo exterior, pois essas características são *criações* do cérebro, e não propriedades físicas dos objectos “reais”. Cientificamente, a existência de um universo físico é cada vez mais questionada. Não temos de utilizar estes avanços científicos para promolgar todo o tipo de teoria espiritual, mas deixa em aberto a possibilidade de questionarmos e investigarmos o tecido do real com mais segurança e confiança, sem pensarmos que somos loucos por desafiar as teorias irrefutáveis da ciência. De facto, não existem ainda muitas teorias irrefutáveis no que concerne à natureza última do universo e da nossa experiência subjectiva. Desse modo, é importante mergulhar a fundo na nossa experiência directa e investigar se as grandes dualidades e divisões são efectivamente reais, pois é nelas que se alicerçam o nosso sofrimento e confusão.

Por exemplo, logo no início deste texto escrevi, “Existe percepção de cores, sons, sensações, pensamentos, etc.” Na verdade, não existe percepção *de* cores, mas apenas percepção pura, não-dividida, sem separação ou objectivação, apenas a realidade não-dual da experiência imediata. A percepção não está a observar as cores. As cores são simplesmente a manifestação da percepção – como que o corpo, a forma aparente que a percepção assume. Para vermos isto, basta procurar pela distinção entre o objecto (percepcionado), o sujeito (que percepciona) e o acto de percepção.

Se olharmos para um objecto, a que distância é que está da nossa percepção dele? Onde é que o objecto termina e a nossa percepção começa? Onde está a linha que separa o observador do observado? Sujeito e objecto são inferidos e fabricados conceptualmente. Isto aplica-se a todos os sentidos, bem como ao pensamento, às emoções, etc. Toda e qualquer experiência é pura, no sentido de ser livre de divisões conceptuais. Subitamente, as margens do rio dissolvem-se e fica apenas o seu “conteúdo”, a água que flui livremente. Observador e observado desaparecem, e fica apenas a experiência contínua de percepção, sem separação ou dualidade.

Depois de libertarmos a percepção da crença num sujeito vs. objecto, é fácil vermos como toda a experiência é igualmente vazia de conceitos de interior ou exterior. A ideia de que há coisas que são interiores (pensamentos, emoções) e outras que são exteriores (a lua, as montanhas, os iPhones) também não passa nesta nossa investigação. Onde está a linha que separa interior e exterior? Onde começa o exterior? Cinco milímetros depois da pele? Depois do pelo mais alto? Se colocarmos um braço em cima de uma secretária, veremos uma cor clara, representando o nosso braço, e uma cor escura, representando a mesa, por exemplo. Temos duas cores a existir exactamente ao mesmo nível, ambas envolvidas pelo mesmo processo de percepção. Como é que uma cor é “eu” e outra “não-eu”? Porque é que uma cor representa algo interior e outra algo exterior?

Se nos lembrarmos que não existe nem observador nem objecto observado, apenas a experiência de percepção, perceberemos que a experiência de “braço-na-secretária” é totalmente não-dual, não-dividida, imaterial e subjectiva. É apenas experiência directa, pura; existência impessoal, livre de alguém que a possua ou experiencie. Quem é o dono da cor clara (braço)? Virá essa cor com o rótulo que diz que pertence a alguém? Virá com a informação que é uma cor pertencente a um corpo? Tudo isso são conjecturas mentais. A experiência directa e imediata é vazia de quaisquer dessas tendências reificadoras (tendência para imaginar pessoas e objectos como sendo permanentes e independentes).

Como já tínhamos visto também, toda a experiência acontece dentro da consciência, feita de consciência. Quando sonhamos à noite, as árvores que vemos são feitas de consciência e não de madeira. A torre Eiffel dos nossos sonhos é feita de consciência, não de aço. Como dizia Shakespeare, “somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos”. Quando estamos acordados, a experiência não é diferente – a consciência é a substância de todas as coisas. Mesmo que haja/houvesse um mundo exterior, a nossa experiência é apenas a representação mental desse mundo, pelo que é sempre feita de consciência. A experiência de um mundo material, físico e objectivo, independente ou existente fora da nossa consciência, nunca acontece. Nada pode ser experiênciado que não a consciência que experiencia – essa é a natureza de toda a experiência. A única substância presenta na experiência é consciência. Dessa forma, sujeito e objecto são eternamente unificados e dissolvidos em cada acto perceptivo.

Se tudo é feito da nossa consciência, então a nossa identidade não reside em nenhum objecto específico da nossa experiência – como o corpo ou os pensamentos -, mas sim na *totalidade* da experiência. A ideia de individualidade, na nossa experiência subjectiva, é uma ilusão. Não há separação entre a nossa consciência e os objectos observados – há apenas um campo unificado de percepção. Esse campo, esse vácuo luminoso, essa claridade fundamental que tudo observa e simultaneamente tudo é, é a nossa verdadeira natureza. É a resposta a “quem sou eu?”. “Eu” é um dos nomes que este campo aberto de percepção pode ter.

Não é, contudo, apenas a resposta a “quem sou eu?”. É também a resposta relativamente à identidade de todas as coisas. Tudo é apenas uma manifestação temporária da luminosidade fundamental que engloba toda e qualquer experiência. Objectos “físicos”, experiências “mentais”, o próprio espaço e tempo, são tudo manifestações da nossa presença – não “nós” enquanto entidades individuais, mais sim “eu” enquanto espaço fundamental de percepção onde tudo se manifesta – o espelho onde aquilo a que chamamos vida, ou existência, surge reflectido.

Uma investigação interessante de se levar a cabo é precisamente em relação ao espaço. A percepção de distância é exactamente isso – uma percepção. Porém, toda a percepção é de um carácter imediato, intimista em grau absoluto – temporal e espacialmente. A lua situa-se a milhares de quilómetros de nós, diz o pensamento. Todavia, a lua é, na sua totalidade, apenas percepção. Na nossa experiência subjectiva, nada há que constitua a lua que não seja a nossa própria consciência. Assim, “consciência” e “lua” são sinónimos em questão de identidade. Desse modo, a lua existe para nós numa realidade para além do espaço, pois situa-se a distância zero – ela é quem somos. “Lua” e “Eu” formam uma unidade perceptiva e identitária perfeita.

Esta unidade identitária entre todas as coisas, a dissolução das fronteiras conceptuais que separam sujeito e objecto – e os objectos entre si – é um dos objectivos principais de qualquer abordagem espiritual. É a “religião” – o re-ligar – de todas as coisas, o dissipar da separação, o deixar cair de quaisquer rótulos identificativos e identitários, onde “eu” e “outro” se transformam apenas em movimentos despreocupados de uma dança primordial.

Algumas das investigações interessantes de levar a cabo no nosso campo subjectivo serão então:

– Procurar por um “eu” que seja o sujeito da experiência, o detentor da experiência;

– Procurar por uma linha que separa interior e exterior; o que é que significa algo ser exterior à experiência?

– Procurar pela existência de um sujeito e objecto independentes de qualquer percepção ou experiência; quando olhamos para um objecto, além do acto puro de percepção, conseguimos experienciar o objecto e o sujeito de forma independente da própria percepção?

– Procurar por algo objectivo, independente da consciência; existe alguma coisa além de experiência puramente subjectiva?

– Procurar por algo físico, que não seja apenas uma manifestação imaterial da consciência que apreende a sensação de fisicalidade;

– Recordar que não há experiência “atrás dos olhos”, que tudo o que existe é o campo aberto que se estende “diante” de nós; tudo o que existe são os “objectos” percepcionados, sem qualquer observador, e a substância/essência desses mesmos objectos é a luminosidade natural da percepção;

– Deixar a identidade dissolver-se totalmente, deixando apenas a experiência directa como realidade fundamental; ou deixar a identidade regressar à sua posição natural de luminosidade básica que permite e subjaz qualquer experiência.

– Compreender que, mesmo relativamente, nenhum objecto ou entidade tem existência inerente – não existem sozinhos nem possuem uma consistência interna estável e imutável. Todos os objectos são feitos de outros objectos, todos podem ser reduzidos a partes mais pequenas. Não existem “eus” nem “objectos” que não sejam dependentes de outros factores. Tudo é interdependente, uma dança fundamentalmente indiferenciada.

Ficam aqui algumas ideias para explorar e quiçá libertar a experiência de algumas das correntes que (aparentemente) a aprisionam a paradigmas dualistas, reificadores e materialistas.

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  1. “The observer is the observed.” – J. Krishnamurti


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