The Kragle e a negação da Vida

A ideia de que o corpo nos pertence é particularmente tentadora. Celebramos o nosso aniversário e achamos efectivamente que a idade do nosso corpo corresponde aos anos que passaram desde o nosso nascimento. Porém, somos bem mais velhos do que isso.

A matéria que compõe o nosso corpo – átomos e partículas – existe desde os primórdios do universo. Ainda o sistema solar não tinha nascido e provavelmente já os componentes do nosso futuro corpo existiam, dispersos, flutuando pelo cosmos, escondidos no interior de estrelas, no fundo do mar ou no corpo de outros organismos. Temporalmente, somos ancestrais para além da nossa compreensão. Espacialmente, somos seres intergalácticos, puzzles de matéria e energia e forças físicas oriundas dos quatro cantos do universo.

Por outro lado, somos bem mais novos do que imaginamos. O corpo que pensamos agora ser está em constante fluxo e transformação, com células a morrer e outras a nascer constantemente. Neste momento há partes do nosso corpo que têm apenas fracções de segundo de existência. Somos como fénix renascida, a cada instante, das suas cinzas.

Assim, no nosso próximo aniversário, quando apagarmos as velas, podemos lembrar-nos de que somos, simultaneamente, o ser mais velho e novo do universo. Tal como uma nascente milenar no topo de uma montanha, mas cuja água brota sempre fresca e nova a cada segundo.

Todavia, no meio de tão profunda e permanente mudança e transformação, como poderemos achar que este corpo nos pertence? Como poderá ele ser quem somos? Que entidade, que “eu”, conseguiria residir numa realidade tão impermanente e fugaz? Apenas  um ser igualmente impermanente e transitório pode resultar de tal processo. Tal como uma onda, que percorre o oceano, aparentemente sempre a mesma, mas na verdade constantemente mudando a água que a compõe, do mesmo modo somos nós processos, e não entidades; somos dança em movimento, em vez de corpos sólidos e estagnados; somos a vida em construção, o cosmos em transformação, como um ilusionista, sempre ele próprio, mas nunca igual a si próprio.

De notar que, com os avanços da física quântica, até a nossa identidade a um nível atómico se vê questionada. De acordo com aquele ramo da física, as próprias particulas “fundamentais” do universo, quando observadas a um nível quântico, deixam de ser partículas individuais, estáveis e independentes e passam a ser meras ondas probabilísticas dependentes de um observador para transformarem-se em algo “particular”. Então de que será realmente feito o nosso próprio corpo? Em última análise, seremos nós apenas como que actualizações constantes de um campo probabilístico transcendente? Seremos apenas personagens de um universo virtual, habitantes de uma projecção holográfica sem realidade física e material, holograma esse oriundo de um vácuo quântico e cuja manifestação aparente depende das consciências que a criam? Será o universo a dança de uma consciência suprema, como alguns místicos indicam?

Businessandkragle

A nossa mente tenta invariavelmente solidificar o real, congelar e petrificar a água que flui, como uma parede erguendo-se contra a dança existencial. Somos como o vilão do Lego Movie, com o seu Kragle, constantemente a querer colar as peças de todos os universos, negando o fluxo natural da vida.

Os nossos pensamentos habituais regularmente erguem-se contra o mistério e complexidade do real, tentando cobri-lo com uma capa de certeza, segurança e banalidade. Porém, tanto filósofos como cientistas em geral provavelmente admitirão a sua ignorância perante a natureza fundamental da existência. Quem somos nós então para deixarmos a vida cair na rotina, nós que somos, literalmente, seres interestelares?

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