Dilema

cada banal noticiário

cada corriqueiro jornaleco

coloca a cada ser humano – quando digno desse nome –

uma questão fundamental

um dilema visceral

 

perante os 140 mortos numa escola no médio oriente

perante o sequestro na austrália

perante os combates sociais na europa

a chacina escolar nos estados unidos

os aviões abatidos e desaparecidos

perante todas estas extraordinárias e banalizadas situações

o dilema ergue-se

a questão coloca-se

na mente de qualquer ser humano:

que vou eu fazer?

 

se pretendo continuar a ser humano

continuar a sentir

a pensar

a agir

se não sufoco a minha sensibilidade

razoabilidade e noção do real

então tenho de fazer algo

tenho de abandonar a minha insignificante rotina

quebrar as correntes desta vida solitária

tenho de fazer algo

tenho de reagir

estrebuchar, erguer-me

lutar, gritar e despertar

 

mas há quem necessite desta minha vida insignificante

as contas que têm de ser pagas

os dependentes que procuram a minha contribuição mísera

e assim sendo

não posso livremente sentir

livremente pensar

livremente agir

tenho de matar toda e qualquer sensibilidade humana

qualquer compaixão ou razão

qualquer noção de liberdade, dignidade, humanidade

tenho de ignorar quem neste momento morre

nas mãos de um sistema corrupto, primitivo e selvagem

tenho de continuar a participar

a ser cúmplice

conivente com aqueles que matam os meus semelhantes

que destroem vidas, esmagam civilizações

torturam as almas

ameaçam o planeta

 

cada banal noticiário

cada corriqueiro jornaleco

coloca uma questão fundamental:

quem escolho ser?

um ser verdadeiramente humano,

um pedaço de carne e alma viva?

ou um soldado, um robot

uma máquina de sentidos desligados

um mecanismo desprovido de sensibilidade

uma aplicação que apenas executa

mecanicamente as ordens arbitrárias do sistema que a comanda?

 

toda a manchete é uma bofetada,

um soco no estômago da alma

um desafio à humanidade inerte em nós

em cada acção levada a cabo

escondem-se as milhares que deixámos por fazer

 

para viver a existência automatizada que me foi atribuída

quanto deixo eu por fazer por um mundo que sangra

que rasteja, que clama e implora?

a cada momento,

tantos são empurrados para o sono da morte

quantos mais, até que possamos despertar?

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Published in: on 08/05/2015 at 15:41  Deixe um Comentário  

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