Quem sou eu? Uma abordagem racional e directa

Quem sou eu? – abordagem racional

Ponderemos o seguinte caso:

Quando tinha 10 anos, suponhamos que fui vítima de bullying. Gozaram comigo porque era baixo e gordo. Além disso, dizem-me agora que era também irritante, convencido e imaturo. Não admira que tenha sido ostracizado!

Eu sei que fui eu quem experienciou aquela situação. O mesmo eu que está hoje atrás destes dois olhos, estava, naqueles dias, atrás daqueles dois olhos. Porém, se virmos bem, nada há em comum entre estes dois indivíduos: o meu eu de há 20 anos e o meu eu de hoje.

A ciência diz-me que, sensivelmente de 7 em7 anos, todas as células do corpo já foram substituídas por outras, que nenhuma célula dura mais do que esse período. Literalmente, o meu corpo nunca é o mesmo. Há células a morrer constantemente, sendo substituídas por outras.

Por outro lado, a psicologia e a experiência directa demonstram que, mental e emocionalmente, estou também sempre em constante mutação. As minhas crenças mudam ou são alteradas, tal como as minhas atitudes, preconceitos, estados de humor, predisposições emocionais, etc. Sou uma personalidade nova de x em x anos também.

Se pensarmos agora no tal rapazinho de 10 anos, vítima de bullying, e no homem de 30 anos, quais são as semelhanças? No corpo não há uma única célula que tenha estado presente há 20 anos atrás. Na mente, as ideias mudaram também elas imensamente, umas amadureceram, outras desapareceram por completo. Aquilo que sou hoje, nada tem em comum com o que era há 20 anos atrás.

A pergunta que se coloca é, quem sou eu afinal? Quando penso ser o meu corpo, a questão que se levanta é, qual deles? O de agora, de há 10 minutos ou de há 10 anos? Naturalmente o de agora, mas qual agora? Este agora? Ou este..?

O corpo é como um rebanho (de células), onde há sempre ovelhas a morrer e novas a nascer. O rebanho parece constante, mas na verdade não é. Afinal, não existe sequer uma entidade estável e separada chamada rebanho, apenas a aparente soma das suas partes. Um rebanho em si não existe, é apenas o nome dado a um conjunto de ovelhas. É um conceito sem contraparte real.

O mesmo se passa com o corpo e a mente. O corpo não existe, é apenas o nome dado a um conjunto de células ou partículas, temporariamente agregadas por forças físicas. E a mente é apenas um conjunto de pensamentos, conceitos, e memórias temporariamente agregados ao sabor das várias experiências de vida, até algumas se dissiparem e novas surgirem.

Quem sou eu então? O corpo muda a uma velocidade constante, a mente a uma imprevisível. No meio de tanta transformação, algo parece porém manter-se relativamente fixo. Eu sinto-me um ser estável. Tão estável que sinto que, dentro de mim, sou o mesmo de há 20 anos atrás. Aquilo que olha através dos meus olhos nem parece ter sofrido a pressão do tempo. O que é isso então? Há uma espécie de observador dentro de mim, aquela fonte silenciosa de percepção que apenas vê, apenas ouve, apenas pensa e sente. Será isso quem sou? Parece ser, porque quando sinto, é ela que sente. Quando penso, é ela que pensa. Mas os sentimentos passam; os pensamentos passam. O que é isto que simplesmente não passa?

Quem sou eu? – abordagem directa

Há uma outra forma de tentar abordar esta busca pela realidade que eu sou. É uma forma mais directa. Tão imensamente directa, que exige um esforço imenso para abandonarmos o que pensamos saber e obriga-nos a olhar a realidade sob uma nova luz. Na verdade, é aquilo que sinto ser a ciência no seu estado mais puro – questionamento total, sem dogmas, sem filhos preferidos, sem limites.

Neste momento posso dizer algumas coisas sobre esta investigação. Primeiro, posso afirmar com toda a confiança que este momento é o único que eu tenho para investigar. Passado e futuro não são reais agora. Apenas o presente se encontra sob a minha lupa. Segundo, a minha experiência directa é a prova da realidade, não o que penso ou sinto sobre ela, não o que me ensinaram a pensar ou sentir, mas sim o que experiencio directamente.

Que posso eu dizer então sobre a minha experiência? Primeiro que ela existe. Existe experiência, há “coisas a acontecer”, pensamentos e emoções, percepções, sensações, etc. Há objectos a ser vistos, ouvidos, sentidos, etc. Segundo, este experienciar depende de uma consciência que o observe. Claramente, quando estou inconsciente (seja a dormir, ou sob o efeito de anestesia ou perda de sentidos), nada é experienciado. Até a consciência “voltar”, nada é registado, nada é assimilado. Escuridão total. Silêncio total.

Assim, esta consciência parece ser a base, a tela onde tudo é projectado – o mundo, os outros, o meu corpo, os meus pensamentos e sentimentos.

Afirmei que até a consciência “voltar” nada é registado. Basicamente, não há experiência, não há vida – para mim. A pergunta que se levanta é a seguinte: até a consciência voltar a quê? Se a consciência “desapareceu” aquando da perda de sentidos – por exemplo -, o que é que ficou no lugar dela? O que é que permaneceu, registando mais tarde o regresso da consciência, dos “sentidos”?

Ao que parece, este contínuum a que chamamos experiência não é assim tão contínuo. Parece ter dois momentos claramente demarcados: quando estamos acordados ou a sonhar – ou seja, quando a experiência é registada; e quando estamos num sono profundo sem sonhos – isto é, quando nada parece ser registado. Porém, mesmo esta descontinuidade é registada por algo. As idas e vindas da própria consciência são percebidas, observadas por algo. Sei que há interrupções, sei que estive inconsciente. O que significa que, quando nada está a ser registado, algo está presente, a registar esse nada – ou seja, a registar-se a si próprio, que é nada… A este algo pode dar-se o nome de consciência pura (“pura” para a distinguir da consciência diária).

Isto revela que a experiência é temporária, mas a consciência pura não. Ao fim e ao cabo, se a experiência é vista como tendo interrupções, a consciência que as observa não pode sofrer das mesmas interrupções. E nada mais parece haver que pudesse registar quaisquer quebras na consciência pura. Esta é aparentemente a fonte de percepção, não podendo ela própria ser percepcionada.

Quem sou eu? Claramente, a minha experiência diz-me que eu sou quem observa a chegada da consciência (quando acordo) e a sua partida (quando adormeço). Sou o observador de todas as percepções – sons, imagens, cheiros, sensações, pensamentos e emoções. Eu sou então a tal consciência pura que permanece, independentemente da presença de qualquer experiência. Sou aquele princípio perceptivo, aquela simples capacidade que absorve todas as experiências, que não sofre o efeito do tempo, que é a mesma, agora, que era há 20 anos atrás. Aquele olhar que se esconde atrás dos olhos, aquele sentir por detrás de cada bater de coração. O eu, que eu sou, é o princípio que permanece intocado aquando do aparecimento e desaparecimento do universo, que é a simples experiência deste momento. Todas as manhãs, quando desperto, assisto ao milagre da ressurreição. Não a minha, que sou eterno; a do mundo, que sempre renasce diante o meu olhar.

Mas esta perspectiva levanta algumas questões. Que acontece então à minha ideia de que sou um ser separado, a interagir com outros seres e objectos, num mundo vasto e ancestral? Se quem eu sou é o princípio perceptivo que tudo observa, quem sou eu “dentro” daquilo que é observado?

Como vimos, tudo aquilo que é experienciado, é experienciado através da consciência. Inconsciente, ninguém experiencia nada. Poder-se-ia dizer que tudo é experienciado através da consciência. Contudo, “através” dá a ideia de que a experiência vem de outro lugar. Que há uma realidade externa, que entra em contacto com a consciência e é registada e assimilada por esta. Todavia, esta realidade externa, independente da minha consciência, não é experienciável, ou passível de ser provada por mim próprio, pois para eu poder experienciar algo tenho de o fazer através da consciência que eu sou.

Nunca vi qualquer objecto, ou ouvi qualquer som, sem ser na minha consciência. Num toquei algo sem a presença da minha consciência. Quando a minha consciência entra em repouso (sono profundo), nada é registado. Não existe qualquer experiência – mundo, outros, eu. Tudo desaparece. Assim sendo, o conceito de realidade externa não é fundamentado.

Tudo o que é percepcionado, não só é percepcionado através da minha consciência, como é percepcionado na minha consciência e, acima de tudo, percepcionado como sendo a minha consciência. Toda a experiência, é a experiência da própria consciência, a consciência a experienciar-se a si mesma.

Quando penso ver um objecto, imagino ver a representação de um objecto exterior na minha consciência. Porém, esse objecto exterior não é verificável, pois para o verificar teria de o ver sem estar consciente – o que é impossível. A existência de uma realidade externa é um conceito, por mais universalmente aceite que seja, inconcretizável.

Num sonho, sonho com um mundo exterior, com montanhas, e nuvens, e pessoas e eu próprio. Quando acordo, não só vejo que aquele mundo exterior na verdade existia exclusivamente dentro da minha mente, como, mais importante do que isso, tudo o que foi visto dentro do sonho eram apenas imagens na minha consciência, feitas da minha própria consciência. Tudo o que sonhei foi, na verdade, com a minha própria mente.

Quando “acordo”, a experiência repete-se. Vejo objectos inúmeros, pessoas e um mundo inteiro. Porém, todos eles são também imagens na minha consciência. Imagens da minha consciência. A minha consciência.

E se no sonho eu pensava comandar o meu corpo e os meus pensamentos e acções, mas ao acordar vejo que o único actor era a consciência que sonhava – a minha personagem dentro do sonho não tinha qualquer autonomia -, ao acordar o mesmo sucede. Este actor, este “eu” localizado no corpo e na mente, que escolhe e decide o que fazer na sua vida, é visto como inexistente, como sendo apenas uma ideia a ser experienciada, como tantos outros objectos experienciados, e que, na verdade, o único actor, o gestor autónomo de toda e qualquer experiência é a consciência que sonha este sonho “acordado”. O princípio observador é o único ponto de referência passível de acção independente. Porém, tendo em conta que este princípio observador é, nada mais, nada menos do que Nada, consciência pura sem forma ou limite, pouco lhe poderá ser imputado ou responsabilizado. Toda a experiência segue um rumo desconhecido, cuja origem não pode ser encontrada. Toda a acção é gerida por ninguém, em lado algum.

Tudo é apenas o desabrochar explosivo de absolutamente Nada.

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Published in: on 20/12/2012 at 1:18  Comments (1)  
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