The California Diaries IV

     Entretanto tenho estado mais afastado do meu diário, a vida por aqui
assenta um pouco, assenta sobre uma nuvem, com certeza, pois uma serie
de coisas continua no ar, continuo à procura de casa, embora vá ficando
por aqui, estou a pagar $50 por semana, depois vou para o tal espaço no
armazém, se tiver que sair daqui. Em relação ao tribunal, os anjos
ajudam-me um pouco, tinha a audição marcada para 2 de Abril, altura em
que penso andar pelo norte (Vancouver – Seattle – Portland), com um
choradinho e com o meu bilhete de regresso marcado para 15 do mesmo mês
consigo que antecipem a audição para 5 de Março.

     Noutro dia vou com o John e o Michael passear ao tal convento de St.
Joseph e a um templo budista tibetano, ambos numa zona lindíssima, no dia
seguinte vou almoçar com o John, como um hamburger de cogumelo gigante,
portabella mushroom, uma coisa um bocado esquisita, dá alguns
trambulhoes no estômago, a conversa é excelente, agora é a alma que dá
uns trambulhoes dentro do invólucro corporal, tenho pena de não ter
gravado a conversa, algo que estou a pensar fazer com o meu mp3, dois
dias depois vou jantar com ele a uma pizzaria, até foi ele que ligou a
combinar, é um querido, a pizza está divinal, a conversa volta a querer
derrubar paredes, levo o mp3 mas não gravo, sinto-me pendurado por um
fio, apenas isso me impede de cair profundamente em mim próprio, ilusão
de separação que teima em durar.

O local onde almocei o Portabella mushroom


     Numa outra altura vou tratar de umas coisas à biblioteca, penso em ficar por lá a
ler, depois penso em ir à internet, está frio na rua, não me apetece
sair, talvez seja então o destino quem me impele a ir até à praia,
sento-me olhar o mar, não sei se pareço triste, melancólico ou só, mas
a verdade é que vejo uma silhueta a deslizar canto do olho adentro, é uma
jovem que vem ter comigo e oferece-me uma flor, uma espécie de
bem-me-quer lilás, provavelmente uma flor de chorão, diz apenas It has a lot of [algo que não percebo], but I didn’t think you’d mind, eu digo apenas Thanks,
acho que ela não chega a perceber como aquele gesto simples faz abrir
uma flor no meu peito, o quentinho natural de um mimo recebido em terra
estrangeira, lugar  longínquo onde a minha alma emigrante se sente fora
da pátria do ser.

Mooji, um maravilhoso ajudante espiritual


     Hoje, Quinta 12, vou a mais um encontro com o Sr. Wheeler, o
primeiro que gravo, ainda que de um pouco ao longe, depois caminhamos com
o Michael e o Scott até à praia para depois regressarmos ao Pacific
Cultural Center, o John dedica-me algumas palavras importantes, tenta
de alguma forma puxar por mim, não sei se é isso, talvez seja o DVD do
Mooji que vejo à noite (mooji.org), talvez seja uma busca de oito anos
ou uma vida de vinte e seis, mas mais tarde dou por mim a pensar, "Na minha
experiência directa, onde está o ‘eu’?", curiosamente a
resposta é uma natural negativa, penso "como seria viver se não
existisse aqui uma pessoa?", e, como um murro no estômago, constato,
para alem de qualquer ideia ou conceito, que não existe nenhum "eu", o
"André" é uma ficção do pensamento, o corpo é um organismo como o é uma
árvore, não existe nele (corpo) ou nela (mente) nada de pessoal ou
individual, uma onda de felicidade pura, um êxtase suave, percorre-me o
corpo, doce aroma a casa, a ternura do verdadeiro ser, há um desejo
espontâneo e inevitável de querer segurar o mundo num abraço e adormecê-lo
num
profundo amor. O "eu" volta de mansinho, a percepção regressa ao
normal, mas sei que as paredes estão a oscilar, como que erguidas sobre
as areias movediças da minha fé e determinação, o caminho chega
finalmente ao fim, é essa a minha sincera esperança, sinto o meu
coração repetidamente a querer soltar lágrimas de reconhecimento,
gratidão pela paz profunda, pelo fardo que cai dos ombros da alma,
sinto uma luz eterna que parece querer beijar-me num rasgar interior,
que Deus me acompanhe nesta busca e me livre de regressar à casa de
Portugal sem antes regressar à Casa do meu ser, seria séria tristeza e
desilusão, e é neste momento que fecho o diário, são as lágrimas que me
invadem o olhar, um cheiro a infinito que me inebria os sentidos,
anseio ardente de cura eterna, chaga que se fecha dentro do peito, quem
me dera abrir o coração e guardar lá dentro o mundo todo.

Dré

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Published in: on 16/02/2009 at 3:12  Deixe um Comentário