The California Diaries III

     Passaram já alguns dias, a situação com o senhorio vai passar para
tribunal, estou tranquilo, "o juiz decide", segunda-feira surge no
calendário e eu vou a um convento católico em Aptos, convento de St
Joseph (www.poorclaresofaptos.org), estou uns minutos sentado na
capela, depois vou dar uma volta pelas redondezas, o Tim e o Michael
ficam lá dentro, caminho por uma floresta muito bonita, é uma zona
lindíssima, vejo uns gatos selvagens e muitos pássaros, árvores altas.
A praia de Santa Cruz também é um local interessante, descobri que os
barulhos que oiço frequentemente são, como imaginava, leões marinhos,
golfinhos também os há, mas não os vi ainda, bem como bandos de
pelicanos e outras aves, cenário invulgar, fauna variada para uma praia
aparentemente igual a tantas outras. Deixo a linha do oceano e caminho
para o interior e deixo-me atracar na marina da cidade (o Yacht Harbor)
é um lugar calmo, ouvem-se aves perdidas na distancia, os carros passam
silenciosamente ao longe, perto oiço o ranger das cordas das
embarcações que balançam graciosamente na suave ondulação presas ao
cais, regresso a casa, vou até ao referido convento e volto para mais
uma conversa de três horas com o John, desta feita num restaurante
Tailandês, sinto que não estou a conseguir expressar claramente as
minhas dúvidas, ele assegura-me que já estou para além delas, que já
não preciso de me agarrar às coisas que ele diz nos livros, de quando
em vez sinto um rachar interior, uma parede que parece querer abrir-se
num sorriso de cacos desfeitos em pó deixando a luz chegar ate mim. A
clareza de discurso do John é irrepreensível e incontestável, mas a
minha resposta prática continua um tanto ao quanto coxa, é difícil às
vezes ver com os olhos aquilo que o coração já tão facilmente
reconheceu, mas o John tem sido sob todos os sentidos impecável, ele
reconhece a seriedade e honestidade da minha busca, talvez se reveja um
pouco nela, ele próprio andou pela Índia à procura de si mesmo, só na
Austrália se encontrou, I want you to go back to Portugal free and without those doubts, leave ‘em to me, I can keep ‘em, disse-me hoje sorrindo.

Drum circle @ Farmer’s Market

     Quarta-feira acordo tarde, tenho-me deitado sempre um pouco já a fugir para a madrugada, aqui nesta casa somos todos night-owls, embora esteja a tentar ser um pouco mais early-bird, como se diz por aqui, pouco depois de acordar vou ao Farmer’s Market,
uma salgalhada de tendas, bancas e barraquinhas, umas a vender comida
já preparada, outros a comercializar produtos acabados de sair do chão
da Terra, um maralhal de pessoas diferentes, algum pessoal da rua e uma
série de personagens entusiasma-se numa jam session, sessão
geleia, diria Gonçalo Pereira, essencialmente percussão, mas também uma
ou duas guitarras e um trompete ou algum primo ou irmão da mesma
família de sopros, ainda fico um bocado especado a ver se alguém me
oferece um jambé para tocar, mas ninguém se comove ou deixa
impressionar com a minha pressão psicológica. Dali sigo para o Trader Joe’s,
um supermercado com uns empregados muito simpáticos, norma da região,
parece, avanço para uma muito tranquila aula de Chi Kung e depois vou a
uma palestra da Judith Cornell sobre mandalas e outras afinidades
"new-ageianas", é isto na Gateways, uma livraria espiritual na
Soquel Avenue, ainda dou um olhinho ao livro que "casualmente" me
empurrou para dentro da Não-Dualidade, o Perfect Brilliant Stillness,
do David Carse, e dou também uma palavrinha àquele que foi o primeiro
livro de Advaita que tive nas mãos, na já longínqua Primavera de 2006
na Plum Village, mas na altura a Não-Dualidade era ainda uma perfeita
desconhecida para mim, e, sem saber, naquela camarata peculiar no sul
de França tive entre dedos a "bíblia" da Advaita, quem ma passou foi um
Israelita, não sem antes me avisar, no seu sotaque engraçado, olhos
esbugalhados, parecia o próprio autor, That’s only about the absolute, I don’t know if you’re ready,
e não estaria talvez, mesmo hoje, um fundamentalista da Não-Dualidade,
pouco mais li do que as relativamente escassas paginas que folheei em
Sogenji, no Japão, curiosamente é um livro que me tem vindo a
acompanhar na minha caminhada recente, como uma espécie de sol que
brilha por entre o nevoeiro, uma inspiração que me bafeja ao longe,
suavemente mas com uma profundidade que me surpreende cada vez que a
olho, é uma vela que se estica e alonga quando a visão se suaviza e
subjectiva, logo na capa do livro sou esmurrado pelo poder que ali se
parece esconder, uma frase que me corroi por dentro, The real does not die, the unreal never lived, o livro é amarelo com a força luminosa de um astro no negro do cosmos, o titulo diz-nos que I Am That (www.amazon.com/Am-That-Talks-Nisargadatta-Maharaj/dp/8185300534/ref=pd_bbs_sr_1?ie=UTF8&s=books&qid=1233812124&sr=8-1),
e assim é a essência de Sri Nisargadatta Maharaj.

Nisargadatta Maharaj (1897-1981)

     Quinta-feira
lança-se nos meus braços, ilumina-me como um sol que me chama gritante
e arranco como uma bala, o meu destino vai percorrer varias capelas,
começo pelo tribunal, de lá arranco sabendo que o que ia ali fazer
posso e vou fazer através internet, sigo de peito aberto para a quinta
onde poderei ficar como voluntário do Wwoofing (World Wide
Opportunities in Organic Farming), ninguém me responde do lado de lá da
cerca, volto para trás e arranco em direcção à University of California
Santa Cruz (UCSC), uma subida que parece rir baixinho do calor que
sinto nos músculos das pernas, do suor que me molha as costas, lá chego
à universidade, por entre dezenas de esquilos pululantes e quase
domesticados, olhinhos de vidro escuro e curioso que me miram, por
entre as suas tocas chego à UCSC Natural Reserve, encosto a bicicleta e sigo em caminhada, passo por muitos ciclistas e adeptos do jogging, atravesso o habitat do mountain lion e culmino no Wilder Ranch State Park. Volto para trás e paro na Longs Drugs,
compro uma maquina descartavel e umas bolachas que serão o meu almoço e
lanche, vou atirá-las para dentro junto ao mar, num banquinho
amistosamente sentado perto das modestas arribas, desloco-me na
bicicleta junto à costa ao longo de uma espécie de "marginal" de Santa
Cruz, tenho a sensação de ter encontrado a cidade perfeita, um
equilíbrio delicioso entre mar, floresta e tecido urbano, uma mescla de
fanáticos do new-age e da iluminação espiritual com manos de
skate, patins em linha e prancha de surf, Santa Cruz, aquela que me
disseram ser a Meca norte-americana da espiritualidade e uma das
capitais mundiais da rasta, "Santa Cruz", aquela onde Cristo morreu
como homem e voltou a nascer para se sentar à direita do Pai. Largo a
costa, pouco depois de passar a feira popular cá da zona (o boardwalk),
e vou de novo à quinta, lá consigo entrar em contacto com os
respectivos habitantes, não de forma impeculiar, contudo, ninguém
responde e eu entro propriedade adentro, trinta segundos depois
estaciona um carro à porta, é a dona que chega com os dois filhos, ela
chama por um Jason, interrompe a palavra a meio ao ver-me, os
donos do lado de fora, eu do lado de dentro, o cão que reconhece o
barulho da viatura e corre a recebê-los, mas eis que olha para trás e vê-me
cá dentro, agora ladra para mim, ligeiramente tolhido por uma qualquer
falta de convicção, afinal a dona já vem ali, mas quem
é este aqui, "este aqui" procura um buraco em si para saltar lá para dentro, o insólito do timing da situação deixa-me baralhado, acabo por sair pelo portão, a mulher que chegou descontraidamente diz Let’s start again,
e assim começamos, é uma mulher madura, atraente e muito informal, os
dois pequenotes são giros e loirinhos, são quatro com o pai das
crianças, um homem de meia-idade com ar de quem não sabe se quer ser hippie
ou meramente agricultor, acaba por ser uma linha ténue entre ambos,
está deprimido, não tem querido receber pessoas para ali trabalhar,
entretanto a conversa vai mudando para um aparente e indeciso "sim", eu
estou um tanto ao quanto distraído com a pequena cobra Piton que o mais
velho dos loirinhos me colocou nas mãos, é um bicho pachorrento,
escorregadio e de língua serena, só de vez em quando a faz dançar entre
dentes e toca-me a pele, deixou saudades o pequeno Smuggle, se
bem me recordo do nome, saio da quinta com a desilusão de ter entrado à
procura de um sim e ter encontrado um não e com a peculiar indecisão de
lá ter saído com um sim mas com vontade de dizer não, a mulher e os
dois filhos estão de abalada, o casal deve estar separado, promete
visitas a patroa, mas não sei se um cinquentão deprimido é o que quero
como companhia nesta minha busca por terras californianas. Regresso à
pressa, a velha bicicleta já não se imaginava certamente convocada a
tão prementes velocidades, ainda por cima em circuito nocturno, vou com
a urgência de um baixo ventre apertado há varias horas, sento-me na
latrina com a cabeça um pouco zonza e dorida, pouco depois arranco para
uma caminhada suave até ao Pacific Cultural Center para mais um encontro colectivo com o John.
    
Sábado, 31 de Janeiro, poucas vezes pensei apanhar banhos de sol em
pleno Inverno, a praia conta já com alguns banhistas, em Portugal diz
que chove, aqui também em breve a chuva irá regressar, assim apontam as
previsões.
     Segunda-feira fui a São Francisco ao encontro do Jon
Bernie (www.sf-satsang.org), é muito diferente do Wheeler, trabalha
mais com emoções, é uma espécie de conselheiro pessoal, gostei de ir a
‘Cisco, a auto-estrada serpenteia pelo meio da floresta e das colinas,
é uma viagem bonita, foi interessante chegar e ver ao longe os
arranha-céus, polvilhados de luzes, erguendo-se na escura cortina da
noite como fantasmas no firmamento, a Bay Bridge ilumina com as suas varias meias-luas o Este da cidade, como que chamando por Oakland
do lado de lá, gostei de ali estar, mas é muito diferente de Santa
Cruz, a primeira é uma cidade grande, a segunda é uma espécie de bairro
em zoom in, um Restelo estendido aos pés do Pacífico, onde os
esquilos e as doninhas passeiam calmamente durante as horas escuras do
dia, onde só as estrelas miram os seus movimentos curiosos. Regressei a
Santa Cruz por volta das 22H30, ainda dei um saltinho à praia, ao farol
e ao Yacht Harbor, onde há noite com um toque de susto, um
ambiente habitado por sons subliminarmente intrusivos, o ranger das
cordas, o chiar dos barcos, um cenário onírico, deserto humano
esvaziado das pessoas que ali não se encontram.

The Yacht Harbor, Santa Cruz

     Na terça a conversa com o Michael estende-se por várias horas, como tem sido habitual, eu represento, palavras dele, the Advaita radical approach, ele o traditional Buddhist path,
às quatro e tal da madrugada ainda vamos petiscar um pãozinho com
queijo à pequena cozinha, por volta das cinco, depois de me atestar de
mais alguns acessórios de Inverno, arranco para a praia, levo comigo o
Brett Dennen, o John Mayer e os Dave Matthews Band, uma multidão de
gente a tocar-me nos ouvidos por dentro, canto e danço na sombra junto
ao mar, chego ao já farol amigo, ao longe, bem espetado a Este, o sol
não se vê ainda mas já se faz sentir, são os laranjas e os rosas que
dali emanam que me dizem que o dia já nasce da noite, cresce de
mansinho, vem do ontem de há bocado até ao hoje de agora, algumas
pessoas fazem-me uma companhia distante pelas areias quase desertas da Seabright,
traços de avião esticam-se num céu de azul cada vez mais brilhante, foi
um parto de luz muito bonito, a claridade que invade suavemente, sem se
fazer notar, o silêncio que se inebria com os sons matutinos, traz quase o desejo que toda a vida seja um nascer do sol.

Dré

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Published in: on 05/02/2009 at 7:38  Deixe um Comentário  

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