The California Diaries I


Cinco mil e qualquer coisa quilómetros capitularam perante a
imposição majestosa do voo C065 da Continental Airlines, que se encosta
no Newark Liberty International Airport passa pouco das 14 horas locais, ainda passa pouco das catorze quando me dirijo aos Serviços de Imigração, à
minha esquerda o horizonte estende-se nos recortes dos arranha-céus de
Manhattan que se elevam no ar, chego aos balcões de controlo da
imigração, espero um bom bocado, começo a ficar impaciente, entretanto
chega a minha vez, passaporte para a frente, acompanhado por um papel
que tive de preencher no avião vindo de Lisboa, a conversa parece
encalhar algures, perguntam-me onde vou ficar, falo de uma quinta e de
lá trabalhar para pagar a renda, ingenuidade a minha, o agente à minha
frente diz
let’s go for a walk, sir, let’s go talk about this in another place.


Aeroporto da Portela – 20 Jan


Este outro lado tem muitas cadeiras, espero sentado numa qualquer, olho
para o relógio e fico sobressaltado, são quinze e qualquer coisa, o meu
voo de ligação é às dezasseis e dez e ainda tenho de ir buscar a
mochila que não foi directamente para São Francisco, agora começo a
ficar nervoso, lembro-me do episódio no Kansai, em Osaka, onde
ninguém na Imigração parecia querer acreditar na minha ida para um
templo Zen, mas aí não tinha outros voos para apanhar, a ideia de ficar
preso numa Newark que me recebe com 5 graus negativos e
muita neve empurrada para fora das pistas do aeroporto não me agrada,
levanto-me e dirijo-me a um agente, com precisamente um relógio
comprado no Japão estendido na mão,
Excuse me, it’s three twenty, I have a connection flight at four ten, ele responde com arrogancia, Until the Imigration Office releases you, you have no connection flight,
eu engulo em seco, olho-o com essa secura presa no estômago e volto a
sentar-me, volto a mirar as horas repetidamente, já se toca nas quinze
e trinta e eu ali especado, há uma outra senhora que não está contente
com a situação dela, eu continuo pregado a uma cadeira sem saber bem o
que fazer, o que me acontece se perder o avião, colocar-me-ão noutro ou
nem por isso,
Andre, soa o meu nome pintado com uma pronúncia yankee, levanto-me e dirijo-me ao balcão, do outro lado estão dois rapazolas a fingir de gente graúda, e isso porque têm um cacetete à cintura e um revolver na culatra, momentos antes, no primeiro controle, respondi tourism
quando questionado sobre os motivos da minha visita aos EUA, agora
atiro, com a arrogância e indiferença com que me olham os rapazolas da
farda,
spiritual matters, perguntam-me onde vou ficar, parece
que quero fazer carreira profissional nos EUA, é isso que me dizem
eles, respondo que é só trabalhar numa quinta para pagar a renda, um
dos agentes pergunta-me que questões espirituais sao aquelas, eu falo
do John Wheeler, das palestras, eles perguntam em que consistem as
spiritual matters, eu impaciente falo da Advaita, um deles pergunta-me o que é, It’s too deep to talk about it here over a counter, eles vêem o site do John (www.thenaturalstate.org), fazem umas perguntas, eu digo-lhes do meu voo de ligacao às four ten, eles respondem You’ll be alright,
parece que estou terminado por ali, vou buscar a minha mochila, passo
mais uns controles, uma laranja, duas bananas e tres macãs ficam
retidas,
You can keep the food, I have a flight to get into at four ten, digo-lhes eu, depois de abrir uma das quatro sandes que trouxe sou autorizado a prosseguir, At four ten, pergunta um agente, You won’t make it, you eed at least half an hour to check-in, faltam vinte minutos agora para o voo, They’ll put you in another flight,
termina ele. Sigo para o proximo checkpoint, largo lá a mochila e largo
de lá para a porta C94, que fica a quinze minutos de corrida do outro
lado do terminal, chego quase a suar à referida porta, o voo está
marcado para as
four ten, sao four o five, a senhora do outro lado do balcao diz-me It’s delayed,
o voo está atrasado, pelos vistos eu nem por isso. Sento-me numa
cadeira, na televisao ouvem-se gritos histericos, é o Obama que acena
num canal de noticias, à minha frente um homem tira fotografias à
televisao, ao seu lado uma mulher da-lhe um cartão com o seu endereço
de e-mail para ele lhe enviar as fotos, se não se importar, eu continuo
um bocado irritado, apetece-me dizer àquelas pessoas que pasmam em
frente ao ecrã,
What’s going on, is he God or what??


     Embarco rumo a São Francisco e acabo a conversar com o Juan
Manuel, um jovem de quinze anos da Colômbia e cinco ou seis horas
depois estou a aterrar na
city by the bay,
procurando, perguntando e tropeçando acabo por chegar ao cruzamento da
23rd com a Alabama, sento-me num canto escuro, mando uma sandes para o
estômago e espero ate que uma voz, atirada de uma silhueta que se
desenhava no escuro da rua, me diz
You must be Andre, Anya,
pergunto eu, cumprimenta-me com um aperto de mão, olhos de um azul
curioso, figura esguia, cabelo curto com muita simpatia mostra-me a
casa. Acabamos num barzinho a celebrar a
inauguration do Obama, ainda tenho tempo para brilhar num jogo de pool
onde enfio duas bolas nem sei bem como, uma tabela genial para matar o
jogo, atiro-me para cima de um sofá na sala-cozinha e ate amanha.



     Acordo pelas oito, varias habitantes da casa passam pela sala onde
durmo, creio haver um casal de lésbicas, tres visitantes estão também
por la, uma outra que nunca tinha visto antes, a ultima a surgir é a
Anya, oferece-me cafe, eu bebo um cha, partimos em direccao ao BART (
Bay Area Railway Transit, o metro da zona de Sao Francisco e Oakland), eu saio no Embarcadero,
ela segue rumo ao seu emprego, emerjo dos subterrâneos ate as ruas
salpicadas por edifícios espelhados tocando as nuvens, algumas
perguntas depois chego a
Greyhound Station, o que me faz pensar na letra do Soul meets body dos Death Cab for Cutie,


‘Cause in my head there’s a Greyhound station,
Where I send my thoughts to far-off destinations.
So they may have a chance of finding a place where,
They’re far more suited than here.


(Curiosamente, é precisamente esta estrofe que oiço no preciso momento em que escrevia as palavras Greyhound Station. Juro que não foi propositado!)



compro o bilhete para Santa Cruz, troco umas palavras com uma
menina que ia para Santa Barbara e que estava a ler um livro sobre a
Cabala, viajo ao som da voz doce e quente da Mariza, trazendo-me do
coração uma vontade de chorar de mansinho,




No deserto
oiço o fundo da alma
E quando a areia está calma
O bater do coração

É que tanto deserto
Tao de repente
Faz-me pensar
Que o deserto sou eu
Se não me vieres buscar



viajo também com as palavras profundas mas simples do John Wheeler, dando vontade de ser livre e infinito.

Dré

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Published in: on 01/02/2009 at 6:51  Comments (1)  

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  1. ANDRÉ !! viraste José Saramago?? pela forma de escrever, mais parece.. :Pessa viagem, estou a ver que foi bem atribulada.agora, umas notinhas: 1 – o Obama é, SIM, quase um Deus 😀 2 – aproveita essa Anya, pareceu-me interessada, aliás, tu nela 😛 ahah brincadeirinha.Beijinho


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