Resumo da Doutrina Budista

Giovanni Kakugen

O texto abaixo foi desenvolvido por um discípulo leigo do mestre Zen Moriylama Roshi com o propósito de ser uma apresentação sistemática dos principais ensinamentos do Buda, para servir de base para conversas do Darma e posterior aperfeiçoamento por parte dos praticantes. Esperamos que o presente texto auxilie o leitor na compreensão e no estudo dos ensinamentos budistas.

 

As Quatro Nobres Verdades

  1. Existe o Sofrimento. Sofrimento é: nascimento, velhice, doença, morte, estar na presença do que se detesta, estar longe do que se gosta, não obter o que se deseja, perder o que se deseja. "Sofrimento" significa a natureza insatisfatória de todas as experiências que vivemos.

  2. Causas do Sofrimento
  3. . Os três venenos da mente são a causa de todo sofrimento: ignorância, desejo e aversão (alguns autores incluem também a indiferença).

  4. A Cessação do Sofrimento. Cessando os três venenos.

  5. O Caminho para Cessação do Sofrimento.
  6. É o Nobre Caminho Óctuplo.

O Nobre Caminho Óctuplo

  1. Compreensão Correcta.

    Saber distinguir os nutrientes saudáveis dos não saudáveis, o pensamento erróneo do correcto, a fala errónea da correcta, etc. Compreender as Quatro Nobres Verdades, o karma, a impermanência e o não-eu. É também uma profunda confiança no Caminho, e uma visão adequada da realidade.

  2. Pensamento Correcto. É o pensamento que está de acordo com a compreensão correcta. Reflecte a realidade das coisas, sem distorções subjectivas. É o pensamento que não provém e nem alimenta os três venenos da mente: ignorância, desejo, aversão. É cultivar uma mente de altruísmo, uma mente que busca o Caminho Iluminado.

  3. Fala Correcta.
  4. Falar de forma calma e amorosa e ouvir com atenção e compaixão. Não mentir, caluniar, distorcer os fatos ou exagerar. Não ferir nenhum ser através das nossas palavras. Não falar inutilmente. Não semear a discórdia. Não falar mal dos outros. As nossas palavras devem estar sempre de acordo com o Caminho, devem sempre ser benéficas.

  5. Acção Correcta.
  6. Não cometer actos violentos; não roubar; não ter má conduta sexual; comer, beber e consumir apropriadamente.

  7. Modo de Vida Correcto. Encontrar uma forma de viver que não o obrigue a matar, cometer fraude, mentir, vender armas, drogas, bebidas ou escravos; não tirar a sorte.

  8. Esforço Correcto.
  9. É diligência, a perseverança no Caminho. Há quatro práticas ligadas ao esforço correcto: não alimentar sementes não-sadias na nossa consciência; abandonar as sementes não-sadias já manifestas; alimentar as sementes sadias; manter as sementes sadias já manifestas. Esforço correcto é abandonar a visão errónea e adoptar a visão correcta; abandonar o pensamento, a fala e a acção errónea e adoptar o pensamento, a fala e a acção correcta. Esforço correcto, acima de tudo, é domar a nossa mente.

  10. Atenção Plena Correcta. Atenção plena significa estar em pleno contacto com o nosso corpo, sensações, emoções, pensamentos, formações mentais e estados de consciência. É a prática de observar e cuidar de tudo o que aparece em nós, seja positivo ou negativo.

  11. Concentração Correcta.
  12. É a prática da meditação, zazen. É permanecer profundamente absorto aqui-e-agora, onde toda a dualidade desaparece. A concentração correcta é o resultado natural da prática dos outros pontos do Caminho. Cada um dos aspectos do Caminho contém os outros sete.

Os itens 1 e 2 correspondem à Sabedoria; os itens 3, 4, 5 à Ética; e os itens 6, 7, 8 à Meditação.

 

Elementos Básicos do Budismo

  • Impermanência.
  • Todas as coisas são impermanentes. Tudo muda constantemente sem parar. Nada é igual nem por um momento. Nada é estável. Um minuto atrás, nós éramos diferentes tanto física quanto mentalmente. O que nos faz sofrer não é a impermanência em si, mas o nosso desejo de que as coisas sejam permanentes, quando elas não o são. Impermanência é movimento, é vida. As coisas só existem na sua forma e cor presentes.

  • Não-eu. Nada do que existe tem existência em si mesmo, separada e independente. Cada coisa precisa de estar ligada com todo o universo para poder existir. Cada coisa é uma junção de elementos que não são ela mesma. Não existe nada que seja separado do resto, que possa existir de forma independente e definitiva.
  • Interdependência. Vazio. Nada pode existir por si só. Tudo é criado por várias condições, e todos os fenómenos estão inter-relacionados. É a Unicidade. Quem compreende profundamente esta verdade pratica a compaixão, pois vê que é um com tudo o que existe. Tal pessoa compreende um segredo da vida: que a felicidade só pode ser encontrada na compaixão e no altruísmo, e que seguir os nossos desejos egoístas só nos traz sofrimento e perturbação. A interdependência pode ser resumida no seguinte ensinamento do Buda: "Ensinar-vos-ei o Darma: se isto existe, aquilo vem à existência; do surgir disto, surge aquilo; se isto não existe, aquilo não vem à existência; da cessação disto, aquilo cessa". Todas as ondas (fenómenos) pertencem ao mesmo oceano (unidade, totalidade, verdade) da Vida.
  • Karma. É a lei de causa e efeito. Construímos karma através das nossas acções do corpo, da fala e da mente. As acções virtuosas geram bons resultados e felicidade; as acções não-virtuosas geram más condições e sofrimento. A retribuição kármica dá-se em três etapas do tempo: nesta mesma vida, na próxima vida ou em vidas posteriores. Momento após momento nós geramos karma e criamos a nossa realidade.
  • Samsara.
  • Todos os seres estão sujeitos à roda do nascimento e da morte sucessivos. O Budismo acredita que as energias kármicas emanadas das nossas acções boas e más geram um novo corpo e uma nova mente de acordo com a natureza dos impulsos kármicos. Samsara em sânscrito significa "perambulação" (vaguear, divagar).

  • Nirvana. Nirvana é a Liberdade Incondicionada. É a libertação total do sofrimento, um estado de paz inabalável e de indescritível felicidade. É um estado para além de todos os conceitos.
  • As Três Práticas: Ética; Meditação; Sabedoria.
  • Os Cinco Desejos Básicos: comida/bebida; sono; sexo; riqueza; fama.
    Os Três Tesouros: Buda: O ser iluminado, ou o Absoluto; Darma: os ensinamentos, o Caminho; Sanga: a comunidade de praticantes.
  • Os Cinco Preceitos: 1. Não matar; 2. Não roubar; 3. Não mentir; 4. Não ter conduta sexual imprópria; 5. Não lidar com intoxicantes. Não seguir estes preceitos não é "pecado", é, simplesmente, ignorância. "Enquanto a má acção está verde, o perverso nela se satisfaz; mas, uma vez amadurecida, ela lhe traz frutos amargos." – Dhammapada, 119.
  • As Duas Verdades:
  • É a verdade absoluta e a relativa. Em termos relativos, é preciso praticar para extinguir o sofrimento; em termos absolutos, não há sofrimento, nem caminho, nem realização — a onda já é a água. Absoluto e relativo encaixam-se perfeitamente e as duas verdades complementam-se. Devemos viver em contacto tanto com o absoluto como com o relativo.

As Três Qualidades do Darma

  1. Impermanência.
  2. Todas as coisas são impermanentes. Tudo muda constantemente sem parar. Nada é igual nem por um momento. Nada é estável. Um minuto atrás, nós éramos diferentes tanto física quanto mentalmente. O que nos faz sofrer não é a impermanência em si, mas o nosso desejo de que as coisas sejam permanentes, quando elas não o são. Impermanência é movimento, é vida. As coisas só existem na sua forma e cor presentes.

  3. Não-eu, ou Vazio:
  4. Nada que existe tem existência em si mesmo, separada e independente. Cada coisa precisa estar ligada com todo o resto para poder existir. Cada coisa é uma junção de elementos que não são ela mesma. Nada possui uma essência estável e permanente, por isso as coisas só existem assim como elas são agora. As ondas (todas as existências particulares) são manifestações passageiras do mar (o Todo, o conjunto e a fonte de todas as condições).

  5. Nirvana: Nirvana é o estado de absoluta liberdade e de completo silêncio do coração, para além de todos os conceitos. Literalmente, nirvana significa "extinção": extinção das nossas ilusões, desejos, e outros estados mentais negativos. O nirvana já é a base da nossa existência, a natureza búdica sempre foi o nosso verdadeiro ser. O que precisamos é de nos esforçarmos para compreender e manifestar a nossa natureza mais profunda.

As Três Portas da Libertação

  1. Vazio (Sunyata):

    O vazio é o Caminho do Meio entre a existência e a não-existência. Vazio significa que nada possui um eu. Quando as nossas acções emanam da consciência da natureza vazia da realidade, são acções iluminadas.

  2. Ausência de Imagens (Animitta):
  3. Imagem é qualquer sinal que está na nossa consciência (sinal provindo de um dos seis sentidos). A realidade encontra-se além dos sinais. Tudo se manifesta através de imagens, mas as imagens enganam-nos.

  4. Ausência de Objectivo (Apranihita):

    Nada existe a ser feito ou realizado. A verdade mais profunda da existência é que nós já somos o todo, já somos a natureza de Buda. Nesse sentido absoluto, nada nos falta. A ausência de objectivos é o que permite viver o momento, e ser felizes aqui e agora.

As Quatro Meditações Ilimitadas 

  1. Amor:
  2. é o desejo de que os outros seres sejam felizes, e a acção nesse sentido. É um sentimento incondicional, que nasce da compreensão da unidade fundamental de todas as coisas.

  3. Compaixão:
  4. é o desejo de que os outros não sofram e a acção para aliviar a dor alheia. Quando entramos em contacto com o sofrimento do outro, a compaixão brota no nosso coração. Para isso precisamos de atenção plena.

  5. Alegria: a alegria provém naturalmente de um coração que reconhece a preciosidade que é ter nascido como um ser humano e poder praticar o Darma.

  6. Equanimidade:
  7. é o desapego aos opostos, olhá-los de forma igual. Equanimidade significa imparcialidade, não discriminação, equilíbrio mental. É não discriminar "eu" e "outros". É permanecer imóvel ao sofrer palavras e acções injustas, e ao ouvir elogios. É não permitir que surja a irritação, a amargura, o desânimo. É experimentar todas as sensações sem deixar surgir desejo ou aversão.

Os Cinco Agregados

  1. Forma (rupa):
  2. é o nosso corpo físico.

  3. Sensação (vedana):

    elas podem ser agradáveis, desagradáveis ou neutras. Todas as sensações são impermanentes e sem substância (como todos os outros quatro Agregados)

  4. Percepções (samja):
  5. nossas percepções são sempre distorcidas pelas nossas aflições mentais já presentes: o medo, o desejo, a raiva.

  6. Formações Mentais (samskara): existem 51 tipos de formações mentais, e duas delas são as sensações e as percepções. Este Quarto Agregado é composto por todas as outras 49 formações mentais. Tudo que é feito de um outro elemento é uma "formação".

  7. Consciência (vijnana): é o alicerce sobre o qual erigimos nossas formações mentais.

Os Cinco Agregados não são sofrimento em si, mas produzem sofrimento ao nos apegarmos a eles.

 

As Seis Perfeições

  1. Dana
  2. (Generosidade): é o doar, a caridade, a abertura do coração. É dar sem apego. Podemos dar coisas materiais, ensinamentos, ou a nossa presença, estabilidade e paz. Fazer algo com a consciência do seu valor absoluto também é dar.

  3. Sila
  4. (Ética): é viver de acordo com os preceitos budistas.

  5. Kshanti

    (Paciência): é a capacidade de aceitar tudo e de perdoar, sem rancor, as injustiças que nos foram cometidas. É alargar o nosso coração para que um punhado de sal não deixe a nossa água salgada. É ser como a terra, que tudo acolhe sem reclamar ou discriminar. É absorver tudo o que nos acontece na vida. É semelhante à equanimidade.

  6. Virya
  7. (Esforço): determinação, energia, perseverança. É não desanimar ou desistir. Não vacilar. Avançar sem recuar, decididamente. O nosso esforço deve ser correcto, e não devemos apegar-nos aos resultados.

  8. Dhyana
  9. (Meditação): é a prática do zazen, a prática da atenção plena. É clarear e libertar a mente. É consumir-se por completo naquilo que se está a fazer, estando totalmente presente e consciente.

  10. Prajna (Sabedoria): é a sabedoria da não-discriminação. É a capacidade de ver as coisas como elas são. Prajna Paramita é a mãe de todas as paramitas e a base de seu desenvolvimento. Prajna é a compreensão do vazio.

As seis perfeições, ou paramitas são, em última análise, uma só.

 

Os Sete Factores do Despertar

  1. Atenção Plena
  2. A investigação dos fenómenos
  3. Esforço
  4. Serenidade
  5. Alegria
  6. Concentração
  7. Equanimidade

Buda disse que, praticando a Atenção Plena, os Sete Factores do Despertar fazem-se presentes.

 

As Cinco Lembranças

  1. Eu tenho a natureza daquilo que envelhece. Não há como escapar à velhice.
  2. Eu tenho a natureza daquilo que adoece. Não há como escapar à doença.
  3. Eu tenho a natureza daquilo que morre. Não há como escapar à morte.
  4. Tudo o que me é caro e todas as pessoas que amo tem a natureza daquilo que muda. Não há como não me separar deles.
  5. As minhas acções do corpo, fala e mente são os meus únicos pertences verdadeiros. Não há como escapar da consequência das minhas acções. Elas são o chão que eu piso.

Outros

  • Os Três Mundos: passado, presente, futuro.

  • Os Três Reinos:
  • o reino dos desejos, o reino da forma, o reino da não-forma.

  • Os Três Tipos de Orgulho:
  • achar-se superior aos outros; achar-se inferior aos outros; achar-se tão bom quanto qualquer um.

  • Os Quatro Tipos de Apego:

    apego aos prazeres dos sentidos, apego às opiniões, apego às regras e ritos, apego à noção de um "eu".

  • Os Cinco Poderes: fé, esforço, atenção, concentração, sabedoria.

  • Os Seis Sentidos:
  • visão, audição, olfacto, paladar, tacto e mente.

  • Os Seis Grandes Elementos: terra, água, ar, fogo, espaço (akasha) e consciência.

  • As Oito Consciências:
  • As cinco primeiras consciências (os cinco sentidos); manovijnana (consciência mental); manas (intelecto, consciência discriminativa); alayavijnana (consciência armazenadora, mente inconsciente).

  • Os Oito Aspectos da Iluminação:
  • livre da ganância, capacidade de satisfazer-se; quietude; esforço diligente; memória correcta; concentração; sabedoria; evitar discussões inúteis.

  • Os Doze Elos da Origem Interdependente: ignorância (avidya); acção intencional (samskara); consciência (vijnana); nome e forma (nama rupa); os seis sentidos; contacto; sensação; desejo; apego, vir-a-ser; nascimento; velhice e morte.

 

Referências Bibliográficas:

"A Essência dos Ensinamentos de Buda" (Thich Nhât Hanh);

"Textos budistas e Zen-budistas" (Ricardo Mário Gonçalves).

 

Retirado (com pequenas adaptações) do site: http://www.dharmanet.com.br/zen/resumo.htm

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Published in: on 23/06/2005 at 8:26  Comentários (16)  

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16 ComentáriosDeixe o seu comentário

  1. SHOW DE BOLA

  2. Não gostei eu não achei nada de interesante e nada do que eu estava pesquisando.

  3. Muito esclarecedor, mas não tanto pra uma mente ainda ignorante como a minha. Mesmo assim, em grande parte, esclarecedor.

  4. em 26/10/2011 Renato S. Ferreira

    Encontrei neste texto, muitos bons ensinamentos sobre a doutrina budista; ensinamentos, estes, que alimentam a alma, a consciência e o corpo!
    Sou cristão, e percebo nas linhas da doutrina de buda uma grande junção de conhecimentos que facilitam o nosso viver de forma espiritual, dentro de uma realização que nos convergem em seres sadios!
    Que o entendimento e a boa aliança façam parte de nosso viver!

  5. Um bom resumo da doutrina.

  6. Muito produtivo e enriquecedor, esses pouco minutos em que li esse texto me enriqueceu e me trouxe uma especie de luz.

  7. muito bom o resumo, fácil para todos entenderem, porém difícil de compreender para aqueles de mente fechada.

  8. Encrivel ,Tão encrivel que usei em um trabanho da escola

  9. adoreii td menos td

  10. Adoreeii meu professor me indicou o site e eu ganhei nota máxima!!!

  11. Gostei bastante,porém como sou leiga me deixou algumas duvidas.Mas o site está de parabéns!!!

  12. Sou Umbandista, e a filosofia Budista me ajuda muito a entender sobre
    o Karma o Darma e a roda das reencarnações, para que da experiência da dor, que enfrentamos,amadurecemos e crescemos espiritualmente, e aponta onde estamos errando no caminho, para podermos se acertar com a divina sabedoria.

  13. não achei oque estava procurando ! mas tem coisas interessantes nesse site :;) kk

  14. Doutrina maravilhosa. Difícil e por em prática.
    Hélio Carneiro
    Espiríta

  15. O que eu queria saber era a diferença entre nirvana e parinirvana.

    • Tanto quanto sei, Nirvana é a compreensão profunda da inexistência do “eu” ou ego. É a realização da Mente Primordial, a essência desperta e una. O Parinirvana acontece aquando do momento da morte, quando o ser iluminado deixa de vez o ciclo de nascimento e morte.

      Ou seja, Parinirvana é a morte física de alguém que atingiu o Nirvana.


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